Capítulo 1 - Wynter
O universo oficialmente me odeia. Tenho cem por cento de certeza desse fato. Viajar pelo país em um carro que só se mantém inteiro graças à fita adesiva e a G, com uma criança de quatro anos e dois collies enormes, não é exatamente a minha ideia de o universo se unir para me envolver em um abraço carinhoso. O saldo da minha conta bancária se aproximava de zero a uma velocidade alarmante e faltava apenas um problema mecânico para ser completamente dizimado, e meu estômago não parava de roncar desde que saímos de Phoenix.
Quando minha assessora, Estelle, me ligou, eu deveria ter apenas desligado o telefone, aceitado o prejuízo e procurado outra assessora. Mas não o fiz, e agora eu estava indo para lugares desconhecidos para trabalhar com outra autora que não parecia nem um pouco satisfeita por eu estar sendo empurrada para ela – com uma criança de quatro anos e dois cachorros a tiracolo. Eu editei os três últimos livros de Asha Gold, e Estelle – que deveria ser a editora – afirma que, como conheço o trabalho dela, sou a escolha perfeita.
Asha Gold – vulgo Sasha Silver, ou melhor, Luna Sasha Warrior – ficou um pouco incomodada por Estelle estar me enviando. Ela parecia ser legal o suficiente ao telefone, mas ficava perguntando se poderíamos trabalhar na colaboração por meio de reuniões online e teleconferências. Meu Deus, quem dera pudéssemos!
Eu temia me mudar para a Blood Warrior Pack por qualquer período de tempo. Meu pai, Alfa Dylan Cross da Cross Claw Pack, odiava o Alfa Vince Warrior e seu filho, o Alfa Sebastian Warrior. Eu nunca conheci nenhum desses alfas. Sendo a filha bastarda do Alfa Dylan, eu fui mantida escondida. Aquele segredinho sujo que todos na alcateia sabiam que existia, mas do qual nunca falavam, a menos que fosse para me atormentar.
Quando fui expulsa da Cross Claw Pack aos quinze anos, com uma mochila pequena e sem sapatos nos pés, jurei que nunca olharia para trás e nunca entraria em outra alcateia. Viver na Cross Claw Pack desde que minha mãe me abandonou, aos três anos, até os meus quinze, já foi mais do que suficiente. Meu pai me desprezava, minha mãe me abandonou e a companheira do meu pai me torturou. Sem mencionar o inferno que meus meio-irmãos me faziam passar.
Eu talvez tivesse conseguido superar os traumas com a mamãe e o papai se não tivesse sido entregue ao beta do meu pai, o Beta Jones, quando eu tinha quinze anos. Beta Jones era um lobo sádico com um lado sombrio. Meu pai, literalmente, me deu para aquele bastardo doente como presente de aniversário. No começo, não entendi o que estava acontecendo, mas quando minhas roupas foram arrancadas do meu corpo e o Beta me espancou antes de tirar minha virgindade, percebi que a alcateia inteira tinha virado as costas para mim. Eu era um nada.
Fiquei trancada no porão da casa do Beta Jones por quatro meses. Quatro meses de tortura, quatro meses dele usando meu corpo, quatro meses da companheira dele cuspindo em mim, me chicoteando e me chamando de prostituta. Depois que os quatro meses acabaram, fui jogada na porta da casa do meu pai, nua e quebrada. A companheira do meu pai me chutou e me arrastou para o saguão pelos cabelos.
Meu pai descobriu que eu estava grávida pouco tempo depois de ser jogada de volta em sua porta. Ele invadiu meu quarto e me deu um tapa na cara, chamando-me de prostituta. Deram-me cinco minutos para pegar minhas coisas e ir embora. Ele me renegou e mandou seus guerreiros me arrastarem para fora dos portões, sem sapatos nos pés. As únicas coisas que consegui pegar foram minhas economias – que nem de longe eram suficientes para sobreviver por muito tempo – e uma muda de roupa.
Por conta própria, percebi rapidamente que uma grávida de quinze anos era tratada como lixo. Peguei uma carona até a cidade humana mais próxima, comprei um par de sapatos baratos em um brechó e procurei desesperadamente por um emprego. Felizmente, uma senhora doce chamada Beth Martin arriscou em mim, e comecei a trabalhar na padaria dela. Ela deixava que eu dormisse no depósito à noite.
O lance com lobisomens, híbridos e nossas gestações é que elas são mais curtas que as dos humanos. Então, tive exatamente quatro meses desde que fui chutada da minha alcateia – estando com dois meses de gravidez – antes que meu pequeno pacote de alegria desse as caras no mundo. Eu não tinha dinheiro para assistência médica, então dei à luz minha filhote sozinha, apavorada de que pudesse fazer algo errado e que ela sofresse por isso.
Minha filha, nascida do ódio e da luxúria, tornou-se meu único foco – meu tudo, o que soa clichê, eu sei –, mas ela virou a minha razão para levantar às quatro da manhã para trabalhar na padaria e trabalhar até os dedos sangrarem, tecendo contos sombrios que fariam até o guerreiro mais forte tremer durante as minhas horas vagas.
Quando Estelle entrou em contato comigo sobre meus textos, não esperei muito. Mas ela me surpreendeu, e Wynter Cross – a rejeitada da Cross Claw – tornou-se uma autora publicada. É verdade, os adiantamentos dos livros não eram grandes, mas colocavam comida na mesa e mantinham os credores longe. Consegui nos mudar para um apartamento minúsculo de um cômodo só. Meu quinto livro tinha acabado de ser lançado com ótimas críticas. The Beta’s Secret foi um sucesso da noite para o dia, e Estelle estava radiante.
Embora Estelle seja humana, ela sabe sobre o meu povo e sempre fica fascinada pelas nossas histórias. Acho que ela tem um pouco de medo de mim, no entanto, por causa das coisas sombrias que escrevo. Não sou fã de romances melosos e finais felizes; isso não existe, e eu não conseguiria mentir para as pessoas. Ter que editar os livros da Sasha Warrior era um puro inferno. Mesmo o último livro dela, lançado uma semana depois do meu, era uma história de amor melosa. Tudo bem, havia partes mais sombrias, mas, no final, a heroína encontrou seu "felizes para sempre". Fiquei tão decepcionada.
Pelo visto, a Luna Sasha estava escrevendo um livro que era basicamente sua autobiografia, e Estelle achou que eu precisava servir de base para a Luna perfeita. Quando disse a Estelle que não queria fazer isso, ela me ameaçou! Disse que rescindiria meu contrato com sua editora e me colocaria na lista negra como uma autora difícil de lidar.
Então, sendo chantageada e intimidada para ajudar em um projeto pelo qual eu não tinha o menor interesse, eu estava dirigindo pelo país para passar um tempo ajudando uma loba que deixou claro que eu não era necessária nem bem-vinda em sua casa ou em sua alcateia. Se ela soubesse que o sentimento era mútuo.
Um grito ensurdecedor me trouxe de volta ao presente e ao longo trecho de estrada à minha frente. Suspirando profundamente, olhei pelo espelho retrovisor e vi minha filhote jogando Cheerios no assoalho com uma cara emburrada. Ethan e Aiden, meus dois collies enormes, mergulharam alegremente para pegar as guloseimas.
“Willow, por que você está gritando?” Tentei não parecer tão cansada, mas as lágrimas picavam o canto dos meus olhos e meu coração estava mais pesado do que nunca.
O aniversário da Willow foi ontem. Ela completou quatro anos e eu só consegui comprar um McLanche Feliz e um cupcake amanhecido. A parte mais triste foi que ela não reclamou e lambeu alegremente a cobertura do cupcake.
“Estou com fome!” Ela berrou a plenos pulmões.
Encolhendo-me, tentei acalmá-la: “Se você está com fome, por que está jogando sua comida no chão?”
“Eu quero um hambúrguer!” Willow gritou e chutou o banco à sua frente.
Não havia lugar nenhum para comprar um hambúrguer, e eu não tinha certeza se tinha moedas suficientes no cinzeiro para pagar por um. O dinheiro na minha carteira precisava pagar a gasolina. Suspirando pesado novamente, olhei pelo para-brisa e me perguntei o que eu fiz para o universo me odiar tanto.