Cap. 1 Voltando para Casa
O SUV preto deslizava silenciosamente pelas estradas sinuosas da montanha, com seus pneus zumbindo contra o asfalto enquanto pinheiros gigantescos se estendiam infinitamente em direção ao céu.
Nuvens cinzentas flutuavam preguiçosamente acima, lançando sombras suaves pela floresta.
Era um dia lindo.
Nenhum dos dois notou.
Dentro do veículo...
Silêncio.
Não o tipo pacífico.
O tipo que se instala entre duas pessoas carregando feridas profundas demais para serem descritas com palavras.
Ronan estava sentado ao lado da janela, com um braço apoiado na porta enquanto olhava fixamente para as árvores que passavam.
A marca de união recente no lado de seu pescoço ainda ardia levemente sob a gola de sua camisa.
Cada pulsação o lembrava dos votos feitos apenas ontem.
Cada batida de seu coração o lembrava do preço pago.
À sua frente, Tina estava sentada em silêncio, com as mãos entrelaçadas protetoramente sobre a leve saliência de sua barriga.
Ainda não era visível para ninguém.
Mas, para ela...
Parecia que o mundo inteiro conseguia ver.
Ela baixou os olhos.
A marca correspondente em seu pescoço ardia cada vez que ela se movia.
Sem pensar, ela levou a mão ao local, roçando as pontas dos dedos trêmulos antes de afastá-la rapidamente.
Sua garganta apertou.
Nenhum dos dois havia falado desde que deixaram a Assembleia.
O silêncio não era mais constrangedor.
Era simplesmente...
Pesado.
Ronan finalmente desviou o olhar para ela.
Ela parecia exausta.
Olheiras profundas descansavam sob seus olhos, e ela não parava de olhar pela janela há quase uma hora.
Ele a entendia.
Provavelmente ele parecia igual.
Depois de um longo momento, ele quebrou o silêncio calmamente.
Ronan: "Como você está se sentindo?"
Tina não respondeu imediatamente.
Ela continuou observando a floresta interminável passar.
Finalmente...
Ela falou tão baixo que ele quase não ouviu.
"Eu estou... bem."
Ronan esboçou um sorriso discreto.
Ronan: "Você mente muito mal."
Uma risada fraca escapou dela antes de desaparecer rapidamente.
"Eu sei."
O silêncio se instalou entre eles mais uma vez.
O motorista mantinha respeitosamente os olhos na estrada, fingindo não ouvir.
Nem Ronan nem Tina notaram.
Ambos estavam perdidos em pensamentos dos quais desejavam escapar.
Depois de vários minutos longos...
Tina finalmente falou de novo.
Sua voz mal subiu acima de um sussurro.
"Eu continuo vendo o rosto dela."
Ronan já sabia a quem ela se referia.
Lura.
Ele fechou os olhos por um breve momento.
"Eu também."
Tina engoliu em seco.
"Eu nunca quis..."
Suas palavras ficaram presas na garganta.
"Eu tentei impedir."
Lágrimas arderam em seus olhos.
"Eu disse à minha mãe que não podia fazer aquilo."
"Eu disse a ela que era errado."
Sua respiração ficou irregular.
"Mas ela continuava dizendo..."
"'Se você desistir agora, perderá tudo.'"
Ronan ouvia em silêncio.
Ele não interrompeu.
Ele não julgou.
Ele simplesmente ouviu.
Tina enxugou os olhos antes que as lágrimas caíssem.
"Eu pensei..."
"Eu pensei que estava protegendo meu futuro."
Uma risada dolorosa escapou dela.
"Mas tudo o que eu fiz..."
"...foi destruir o de todos os outros."
O veículo ficou em silêncio novamente.
Ronan olhou para as próprias mãos.
Pela primeira vez...
Ele respondeu honestamente.
Ronan: "Eu me pergunto a cada hora..."
"...o que eu poderia ter feito de diferente."
Ele respirou fundo lentamente.
"Eu não pude salvar Kael."
Sua voz falhou.
"Eu não pude salvar Lura."
Seus punhos se fecharam lentamente.
"E agora..."
"...eu não sei como nos salvar."
Essas palavras ficaram pesadas entre eles.
Tina lentamente se virou para ele, pela primeira vez desde que deixaram a ilha.
Ela não viu o herdeiro Alpha confiante que todos admiravam.
Ela viu um jovem mal conseguindo se manter inteiro.
Assim como ela estava.
Sem pensar...
Ela estendeu a mão silenciosamente pelo assento.
Sua mão descansou gentilmente sobre o punho cerrado dele.
Não por romance.
Não porque tudo estivesse bem de repente.
Mas porque, naquele momento...
Nenhum dos dois queria carregar o peso sozinho.
Ronan olhou para a mão dela.
Então relaxou lentamente o seu punho.
Lá fora...
As montanhas cresceram mais altas.
O cheiro familiar de pinho flutuou pela janela entreaberta.
O motorista sorriu suavemente quando as enormes muralhas de pedra do Cravenwood Pack finalmente apareceram à distância.
Driver: "Estamos quase em casa, Alpha Ronan."
Ronan olhou pelo para-brisa.
Casa.
A palavra não trazia mais conforto.
Ao lado dele, o estômago de Tina se contraiu de medo.
Ela nunca tinha estado no Cravenwood Pack.
Ela nunca tinha conhecido os pais de Ronan.
Ela não sabia se eles a receberiam bem...
Ou se desejariam que ela nunca tivesse vindo.
Instintivamente, sua mão voltou para sua barriga.
Quase audível...
Ela sussurrou para a pequena vida crescendo dentro dela.
"Chegamos, pequenino."
"Espero que..."
"...eles amem você."
Os altos portões de ferro do Cravenwood Pack surgiram lentamente à vista.
Nenhum dos dois notou as bandeiras de prata tremulando além dos muros...
Ou a celebração esperando do outro lado.
Os enormes portões de ferro se abriram lentamente.
Além deles...
O Cravenwood Pack ganhou vida.
O SUV percorreu uma larga estrada de pedra cercada por pinheiros altos, cujos galhos balançavam suavemente sob a brisa da tarde.
Tina encostou a testa levemente contra a janela.
Ela perdeu o fôlego.
"É lindo..."
As palavras escaparam antes que ela percebesse que as tinha dito.
Cravenwood não era apenas uma alcateia.
Era o lar.
Crianças riam enquanto perseguiam umas às outras pela praça da vila.
Mercadores sorriam de suas bancas abertas no mercado.
O cheiro de pão fresco vinha de uma padaria próxima enquanto o aroma rico de carne assada preenchia o ar.
Os membros da alcatéia caminhavam pelas ruas, cumprimentando-se como uma família.
Sem medo.
Sem gritos.
Apenas calor humano.
Tina nunca tinha visto nada parecido.
Seus olhos foram mais além.
Fitas prateadas pendiam de todas as lanternas.
Lírios brancos e frescos decoravam as ruas.
Flores-da-lua envolviam as cercas ao redor da Casa do Alpha.
Belas bandeiras brancas bordadas com luas crescentes de prata tremulavam orgulhosamente na brisa.
Cada casa parecia enfeitada.
Cada rosto parecia empolgado.
O sorriso dela desapareceu lentamente.
"Isso..."
Ela engoliu em seco.
"Isso não é normal, é?"
Ronan olhava em silêncio pela própria janela.
"Não."
Sua voz mal passava de um sussurro.
"Minha mãe..."
"...ela planejou tudo isso."
Tina olhou para ele lentamente.
"Para... nós?"
Ele fechou os olhos.
"Não."
A palavra única atingiu-a com mais força do que ela esperava.
Ele respirou fundo antes de continuar.
"Ela acreditava..."
"...que eu estava trazendo Lura para casa."
O silêncio tomou conta do veículo.
Tina voltou a olhar pela janela.
As decorações de repente pareciam diferentes.
Cada flor.
Cada fita.
Cada rosto sorridente.
Nada daquilo tinha sido para ela.
Uma das bandeiras estendidas na rua dizia...
Bem-vinda, Futura Luna.
O coração de Tina afundou.
Ela olhou para as mãos.
Seus dedos tremiam.
"Então..."
Ela sussurrou.
"Eles nem sabem."
Ronan balançou a cabeça devagar.
"Não."
"Eles pensam..."
Ele não conseguiu terminar a frase.
Ele não precisava.
Tina já tinha entendido.
Ela descansou uma das mãos, protetora, sobre a barriga.
Seu bebê mexeu-se levemente.
Um pequeno chute.
Quase como se sentisse o seu medo.
Ela sorriu com tristeza.
"Eu não pertenço a este lugar."
Ronan virou-se para ela imediatamente.
Sua expressão era firme.
Ronan: "Não diga isso."
Ela deu uma risada seca.
"Como não posso dizer?"
Ela apontou para as decorações que passavam.
"Eles não estavam esperando por mim."
"Eles estavam esperando por ela."
Lá fora...
Membros da alcatéia começaram a acenar empolgados enquanto o SUV atravessava o vilarejo.
Várias crianças corriam ao lado da estrada, rindo.
Uma menina segurava um buquê de lírios-da-lua frescos quase do tamanho dela.
Ela sorria radiante para o veículo.
"O Alpha Ronan chegou!"
Mais lobos apareceram das casas próximas.
Eles acenavam felizes.
Alguns até aplaudiam.
Tina não conseguia mais olhar.
Ela baixou os olhos para o próprio colo.
"Eles vão me odiar."
Ronan ficou quieto por alguns momentos.
Finalmente...
Ele respondeu honestamente.
Ronan: "Alguns provavelmente vão."
Tina concordou com a cabeça.
"Eu mereço isso."
Ronan olhou para ela.
"Não."
"Você merece a chance de provar quem você se tornou."
Sua voz permanecia calma.
"O que aconteceu no Encontro..."
"...sempre será parte da nossa história."
"Mas não precisa ser o fim dela."
Tina olhou para ele por um longo momento.
Ela queria acreditar nele.
Ela realmente queria.
O SUV contornou a última curva.
A Casa do Alpha erguia-se orgulhosa no topo de uma colina suave.
Suas paredes de pedra brilhavam sob o sol da tarde.
A escadaria da entrada tinha sido coberta com flores frescas.
Fitas prateadas envolviam cada pilar.
Até a varanda com vista para o pátio tinha sido decorada.
Membros da alcatéia ocupavam o terreno abaixo.
Sorrindo.
Rindo.
Esperando.
No topo da escadaria estava o Alpha River.
Alto.
Orgulhoso.
Forte.
Ao lado dele...
A Luna Zoey ajustou um último buquê de lírios-da-lua antes de dar um passo atrás com um sorriso satisfeito.
Seus olhos prateados buscavam o veículo que se aproximava.
A esperança enchia seu coração.
Ela entrelaçou as mãos silenciosamente.
Luna Zoey: "Ele chegou em casa..."
Ela sorriu calorosamente para River.
"Mal posso esperar para finalmente conhecer Lura."
River passou um braço pelos ombros de sua companheira.
Alpha River: "Se Ronan fala metade tão bem dela quanto tem falado nestas últimas semanas..."
"...ela deve ser extraordinária."
Zoey riu baixinho.
"Eu já a amo."
Nenhum deles notou...
As lágrimas escorrendo silenciosamente pelas bochechas de Tina dentro do SUV.
O veículo diminuiu a velocidade.
Então...
Parou.
O motor silenciou.
Por um longo momento...
Ninguém se moveu.
Lá fora, o pátio fervilhava de empolgação.
Membros da alcatéia sorriam enquanto se reuniam diante da Casa do Alpha, ansiosos para dar as boas-vindas ao seu futuro Alpha.
Lírios-da-lua brancos decoravam os degraus de pedra.
Fitas prateadas dançavam na suave brisa das montanhas.
Crianças estavam na ponta dos pés, tentando olhar através das janelas do SUV.
A Luna Zoey sorria radiante enquanto alisava a frente do vestido pela centésima vez, ao que parecia.
Ela olhou para o Alpha River com uma empolgação nervosa.
Luna Zoey: "Estou bem assim?"
River deu uma risada carinhosa.
Alpha River: "Você está linda."
"Você só me perguntou seis vezes."
Zoey riu baixinho.
Luna Zoey: "Eu sei."
"Eu só quero que Lura se sinta bem-vinda."
River passou um braço pelos seus ombros.
Alpha River: "Se ela for metade da jovem que Ronan descreveu..."
"...ela já saberá que é bem-vinda."
Zoey sorriu.
"Mal posso esperar para abraçá-la."
Nesse momento...
Passos minúsculos ecoaram pela varanda da frente.
Uma garotinha com cabelos prateados surgiu correndo pelas portas da frente.
Ela parecia exatamente com Ronan.
Os mesmos olhos prateados.
O mesmo sorriso travesso.
Apenas muito menor.
Lily: "RONAN!"
Antes que alguém pudesse detê-la...
Ela voou pelos degraus.
Luna Zoey: "Lily!"
"Devagar!"
Lily ignorou a mãe completamente.
Ela se lançou sobre Ronan no momento em que ele saiu do SUV.
Ronan a segurou com uma facilidade que demonstrava hábito.
Pela primeira vez desde que saiu do Gathering...
Ele sorriu.
Um sorriso de verdade.
Ele a abraçou com força.
Ronan: "Ei, Pequena Loba."
Lily deu uma risadinha.
"Eu senti sua falta!"
"Eu pratiquei a mudança enquanto você estava fora!"
"E o papai diz que meu uivo está ficando mais alto!"
Ronan riu baixinho.
"Eu acredito."
Ela envolveu o pescoço dele com seus bracinhos mais uma vez antes de se afastar.
Seus olhos prateados brilhavam de entusiasmo.
Lily: "Onde está a Srta. Lura?"
Tudo parou.
O sorriso desapareceu do rosto de Ronan.
Lily piscou.
Ela olhou em volta dele.
Depois atrás do SUV.
Ainda sorrindo.
Ainda procurando.
Lily: "Ela se escondeu?"
Ronan a colocou no chão lentamente.
Ele se ajoelhou até ficarem na mesma altura.
Sua voz era gentil.
Ronan: "Não, pequena macaquinha."
Lily franziu a testa.
Seus olhinhos vagaram pelo pátio.
Então...
Ela notou Tina parada silenciosamente ao lado do veículo.
Uma mão repousava de forma protetora sobre sua barriga.
Marcas frescas de acasalamento ainda marcavam o pescoço dela e o de Ronan.
Lily olhou de volta para o irmão.
Seu rostinho se encheu de confusão.
Lily: "Aquela não é a Srta. Lura."
Ronan fechou os olhos por um breve segundo.
"Não..."
"Não é."
Lily inclinou a cabeça.
"A Srta. Lura foi para casa?"
A pergunta perfurou todos os corações no pátio.
Zoey cobriu a boca silenciosamente.
Os ombros de River pesaram.
Os membros da matilha pararam de sorrir lentamente ao notarem as marcas iguais entre Ronan e Tina.
Os sussurros começaram.
Muito baixinho.
Tina ouviu cada um deles.
Ela baixou os olhos.
Seus dedos se curvaram instintivamente sobre sua barriga.
Ela desejou que o chão a engolisse inteira.
Lily olhou para Ronan novamente.
Lily: "O que aconteceu?"
Ronan afastou gentilmente uma mecha de cabelo prateado do rosto dela.
Sua voz quase falhou.
Ronan: "Algo muito triste aconteceu."
"Eu te conto quando você for mais velha."
Lily olhou para ele por um longo momento.
Então assentiu.
Ela confiava no irmão mais velho.
Se ele não estava pronto para falar...
Ela não perguntaria de novo.
Em vez disso...
Ela caminhou silenciosamente até Tina.
Tina parecia completamente paralisada.
Ela havia se preparado para lobos raivosos.
Olhares frios.
Rejeição.
Ela não estava preparada...
Para uma garotinha.
Lily olhou para ela com grandes olhos prateados.
Então sua atenção se voltou para a barriga de Tina.
Seus olhos se arregalaram.
Lily: "Tem um bebê aí dentro?"
Tina hesitou antes de responder.
"...Sim."
Lily sorriu.
Um sorriso genuíno e inocente.
"Eu nunca conheci um bebê antes."
Ela olhou para Tina.
Lily: "Posso dar um oi?"
Os olhos de Tina se encheram de lágrimas.
Ela olhou para Ronan.
Ele simplesmente lhe deu um aceno mínimo.
Lentamente...
Ela retribuiu o aceno.
"Pode."
Lily colocou cuidadosamente uma mãozinha contra a barriga de Tina, como se tocasse algo precioso.
Ela sorriu abertamente.
Lily: "Oi, bebê."
"Meu nome é Lily."
"Eu sou sua titia."
"Vou te ensinar a subir em árvores."
Algumas risadinhas contidas escaparam de membros da matilha próximos, apesar da atmosfera pesada.
Lily olhou para Ronan novamente.
Lily: "O bebê consegue me ouvir?"
Ronan sorriu suavemente.
"Talvez."
Lily brilhou de alegria.
"Então..."
Ela se inclinou mais perto da barriga de Tina.
Lily: "Não se preocupe."
"Você já tem uma família."
Tina não conseguiu conter as lágrimas que rolaram por suas bochechas.
Aquelas palavras simples...
Ditas por uma garotinha de sete anos...
Foram a primeira vez que ela sentiu até o menor lampejo de esperança desde o Gathering.
Zoey observou a cena se desenrolar.
Seu coração se partiu.
Não apenas por Lura...
Não apenas por seu filho...
Mas agora...
Pela jovem assustada parada diante dela, carregando uma criança que não tinha feito nada de errado.
Ela caminhou lentamente em direção a Tina.
Tina se enrijeceu.
Esperando rejeição.
Em vez disso...
Zoey gentilmente envolveu-a com seus braços.
Tina congelou.
Luna Zoey: "Oh, querida..."
Suas próprias lágrimas caíram.
"Meu coração se parte por você..."
Ela olhou para Ronan.
"...por meu filho..."
Então seu olhar vagou para a estrada vazia que levava de volta ao Gathering.
Sua voz quebrou.
Luna Zoey: "...e por Lura."
Ela repousou gentilmente uma mão sobre a de Tina, onde ela cobria o filhote ainda não nascido.
Luna Zoey: "Nenhum de vocês merecia isso."
O silêncio tomou conta da matilha Cravenwood.
Não porque não houvesse mais nada a dizer...
Mas porque todos entendiam.
A celebração para a qual haviam se preparado terminou antes mesmo de começar.
E, em seu lugar...
Uma jornada diferente havia chegado.
Uma cheia de dor...
Cura...
E o peso que todos aprenderiam a carregar juntos.





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