Alex
A maioria das pessoas odeia o barulho alto e irritante da buzina de gol no hóquei, mas eu não sou uma delas. Porque isso significa que meu time marcou e está um passo mais perto de outra vitória.
Mas, hoje de manhã, o som doce que eu associo a vitórias me acorda de um sono de bêbado, e, pela terceira vez este ano, sei que a pessoa do outro lado da linha está ligando com más notícias. Levanto a cabeça do travesseiro, um olho aberto, enquanto pego o celular na mesinha de cabeceira.
Só que não estou no meu quarto. Este não é o meu apartamento.
Onde diabos estou?
Vejo um roupão felpudo rosa pendurado na porta do armário, daqueles que uma criança usaria. Um pôster de Harry Potter está na parede, acima de uma escrivaninha pequena com um computador, uma mochila escolar jogada no encosto da cadeira. O quarto é do tamanho de um quarto de república.
Não, isso não pode estar acontecendo.
Quando me viro de costas e me sento, encosto na cabeceira, minhas pernas compridas demais para a cama de solteiro, e vejo uma loira nua dormindo ao meu lado. O braço cobre o rosto dela, então não consigo saber se escolhi bem antes de sairmos do bar ontem à noite. A noite toda é um borrão.
Por favor, que não seja um quarto de república.
Ela se mexe, um som escapando dos lábios.
Silencio o toque do celular e suspiro ao ver que é meu agente ligando. Isso não é nada bom. Atender a ligação dele só vai confirmar que meu futuro no Washington Capitals acabou.
Eu comi a garota errada — e não é a que está do meu lado.
Como é que eu ia saber que aquela puck bunny gostosa era neta do velho coroa que assina meu contracheque?
Tenho que encarar a realidade, então retorno a ligação do meu agente, rezando para que o dono do time tenha me dado uma chance depois de mais uma temporada fenomenal. Acho que mereço isso. Estamos em primeiro na nossa divisão, e temos o melhor recorde de defesa em pênaltis da liga, graças a mim.
— Oi, Mick — digo, a mão tremendo enquanto seguro o celular perto do ouvido. — Deixa eu—
Antes que eu termine, Mickey Donoghue — também conhecido no mundo dos agentes esportivos como Mick, o Babaca — grita: — Faz as malas, seu idiota; você vai para a Filadélfia. Não estraga tudo, entendeu? Essa é sua última chance!
Sento ereto, o coração batendo tão forte que parece que vai sair do peito, sem conseguir processar as palavras dele. O Philadelphia Flyers não é o pior time da liga, mas também não é o melhor. Me esforcei pra caramba para deixar meu time à altura dos playoffs. Quase ganhamos a Stanley Cup no ano passado. Começar do zero com um time jovem não é o ideal. Na verdade, é uma merda.
Depois de oito anos na liga, eu deveria poder escolher meu time. Mas, depois da última cagada, perdi alguns patrocinadores e tive sorte de o Mick ser babaca o suficiente para me manter em Washington, DC. O time se recusou a me assinar com uma cláusula de não-transferência por causa das minhas indiscrições passadas, o que significava que eu não tinha escolha sobre para onde eles queriam me mandar.
— Posso pelo menos falar com o dono? Deixa eu explicar pra ele que foi tudo um mal-entendido. — Eu tinha uma boa relação com o dono do time antes do escândalo, antes de comer a neta dele no elevador do Ritz-Carlton. — Mick, eu achei que—
— Não, você não pensa, garoto. Esse é o seu problema. Você deixa a cabeça errada pensar por você, e o resultado é sempre o mesmo. Olha, você tem muito talento. Sei que seu pai não ia querer isso pra você.
Ele tem razão. Meu pai sairia do túmulo só para me dar um chute no traseiro se soubesse no que eu me transformei desde a morte dele. Muita coisa pode acontecer em seis meses. Eu me ferrei mais do que o normal, e agora tenho que engolir o orgulho e ir para a Filadélfia jogar por um dos últimos times que eu escolheria.
— Alex — Mickey respira fundo no telefone —, você é meu afilhado, e está comigo desde o começo da sua carreira. Seu pai era um cara legal, um jogador talentoso e um treinador ainda melhor. Ele era meu melhor amigo, e, como somos quase família, tento cuidar de você e dos seus interesses como se fosse meu próprio filho.
— Eu sei. Agradeço por tudo que você fez, mas você—
Quase consigo ver o Mickey do outro lado da linha, levantando a mão para me calar, me interrompendo. — Pensa nisso como uma chance de recomeçar com um time menos experiente que pode aproveitar seu talento. Você pode ensinar esses garotos. Com paciência e tempo, pode construir esse time e ajudá-los a chegar aos playoffs.
Eu não quero ser mentor de ninguém. Quero ganhar a Stanley Cup.
Um breve silêncio passa entre nós antes de Mickey pigarrear, me tirando do torpor. Minha cabeça lateja como se tivesse vida própria, e o gosto ruim na boca me dá vontade de vomitar. Quero me afogar na bebida só de pensar em deixar meu time. Mas não tenho escolha.
— Quando tenho que ir para a Filadélfia?
— Você tem que se apresentar para o treino no Flyers Skate Zone em Voorhees, Nova Jersey, no fim da semana. Aluguei um apartamento pra você, a uns trinta minutos de distância, na Filadélfia, de um agente que tem uns imóveis na beira do rio. Vou te mandar o endereço por mensagem. Depois que desligarmos, meu escritório vai te ligar para acertar os detalhes, e vou garantir que alguém esteja no apartamento para te entregar as chaves. Como você já vive como um nômade, duvido que tenha muita coisa para arrumar, mas contratei uma empresa de mudança para te ajudar na transição. Os caras vão estar no seu apartamento às nove da manhã de amanhã. Certifica que você esteja acordado. Chega de merda, Alex. Você tem vinte e sete anos. É hora de crescer e agir como adulto.
A garota ao meu lado tira a mão do rosto, e eu saio da cama, me segurando na mesinha ao lado para me equilibrar.
— Valeu, Mick — digo, meio em pânico. — Tenho que ir. Te ligo mais tarde.
— Oi — a garota diz, num tom brincalhão.
Ela parece ter a idade que a voz sugere, o que não é muito reconfortante, mas dá para entender por que a levei para a cama. Tem pernas que não acabam e peitos durinhos.
— Qual a pressa, Alex? — Ela joga os fios loiros para trás da orelha e morde o lábio inferior.
Estou pelado na frente dessa garota, pensando se quero usar aqueles lábios carnudos, até ela dizer: — Temos tempo. Minha colega de quarto só chega mais tarde.
É quando olho para o outro lado do quarto e vejo outra cama de solteiro, com uma escrivaninha e uma cômoda, confirmando que estou mesmo em um quarto de república.
Puta que pariu!
Começo a procurar minhas roupas enquanto pergunto: — Quantos anos você tem? — Prendo a respiração, torcendo para que ela não seja menor de idade. A última coisa que preciso é outro escândalo.
— Vou fazer dezenove daqui a algumas semanas, lembra? Você me disse ontem à noite que viria para a minha festa de aniversário e traria uns colegas de time. —
Preciso parar de beber.
Balanço a cabeça, aliviado por ela ser maior de idade. — Desculpa, mas isso não vai rolar. Não vou estar aqui daqui a algumas semanas. Foi um erro. Esquece que eu estive aqui.
Acho minha camisa cinza justa no chão, na frente da escrivaninha, junto com minha cueca samba-canção, a calça jeans e os tênis. Depois de me vestir mais rápido do que achei possível, ajeito meu cabelo castanho bagunçado, olhando no espelho ao lado do armário, e me dirijo para a porta, pronto para escapar dessa enrascada, quando algo macio acerta a parte de trás da minha cabeça. Um travesseiro cai no chão, perto do meu sapato. Quando olho por cima do ombro, a garota nua está mostrando os dois dedos do meio.
— Vai pro inferno, Alex! Sai do meu quarto, porra!
— Nem precisa falar duas vezes — resmungo enquanto abro a porta e aceno para ela antes de fechá-la atrás de mim.
Sinto um alívio momentâneo até cair a ficha de que estou em um campus universitário, parado em um corredor lotado de garotas jovens. Pelas expressões surpresas, algumas delas sabem quem eu sou. Isso é o fundo do poço.
Envergonhado comigo mesmo, mantenho os olhos no chão até sair, evitando os olhares ao redor. Atravesso a multidão, desviando das garotas que me desejam e dos garotos que sussurram meu nome. Alguns deles apontam os celulares na minha direção.
Só podia ser.
— Aquele é o Alex Parker? — um garoto diz, apontando para mim enquanto passo.
— Não pode ser — diz outro.
— Ouvi dizer que ele comeu a namorada do Jason.
— Ouvi dizer que ele comeu uma mina da minha aula de Biologia.
Notícia ruim se espalha rápido.
Aos vinte e sete anos, nunca achei que estaria fazendo a caminhada da vergonha saindo de um alojamento universitário. Também nunca pensei que ia destruir minha carreira com uma transa de uma noite em um elevador.
Assim que consigo passar pela multidão, olho para o prédio de seis andares, a mão na testa para proteger os olhos do sol.
Onde estou?
A quantidade de alunos entrando e saindo, alguns me encarando com curiosidade, me dá vontade de sair correndo desse campus. Mas minha cabeça e meu corpo latejam juntos, e qualquer energia que eu tivesse hoje provavelmente foi gasta com a garota que acabei de dispensar.
Sento em um degrau à minha direita, bloqueando o sol do rosto, enquanto pego o celular no bolso. Usando o GPS, dou um zoom para ver melhor as ruas e percebo que estou na Universidade Georgetown. Pelo menos sei onde estou. O *quem* e o *porquê* da noite passada é que estão faltando.
Não acredito que isso está acontecendo.
Abro o aplicativo do Uber, coloco minha localização e espero, torcendo para que cheguem na hora.
Um grupo grande — seis garotos e sete garotas, de alturas, tons de pele e corpos variados — para quando um deles, de cabelo loiro espetado, para a uns seis metros de mim e aponta na minha direção.
Ele dá um tapa no braço do garoto moreno e forte ao lado. — Puta merda, cara, olha. — A voz dele é tão alta que ecoa pelo ar.
O amigo arregala os olhos, um sorriso largo se formando. Eles se aproximam de mim, claramente os líderes do grupo, pelo jeito como os outros os seguem.
Eu poderia ir embora, mas que diferença faria? Não é como se eu não tivesse fãs me pedindo autógrafos o tempo todo. E não sou um daqueles jogadores babacas que se recusam a dar. Mas não posso deixar que saibam por que estou aqui.
Como diabos vou explicar isso? *Ah, eu só estava comendo uma mina que mora aqui. Nem peguei o nome dela.* Os jornais iam amar.
Ladeado pelos amigos e parecendo um completo idiota, o loiro ajeita a camisa social pastel e levanta o queixo para mim, numa tentativa patética de parecer descolado. — Você é o Alex Parker?
— Sou, sim. —
— Achei que fosse — ele diz, satisfeito. — Você está em todos os noticiários hoje. Todo mundo no campus está falando de você.
— É, fui trocado para o Philly. —
O interrogatório dele me irrita. Pede logo um autógrafo e some.
Levanto quando vejo o carro encostando no meio-fio atrás deles. O loiro abre a boca como se fosse pegar mosca. Ele é uns quinze centímetros mais baixo que eu e deve pesar uns trinta quilos a menos, só que eu sou músculo puro, e ele não passa de um saco de ossos. Algumas garotas dão risadinhas e sorriem, os lábios se abrindo quando pisco para elas.
Ele ri e empurra o celular na minha frente, depois aperta o play. — Não, não é disso que todo mundo está falando. —
Olho para a tela, chocado com o vídeo de mim carregando duas garotas seminuas nos ombros e entrando no alojamento. — Merda — murmuro.
No vídeo, está escuro, mas tem luz suficiente do lado de fora do prédio para ver nossos rostos perfeitamente. Nenhuma delas é a mesma garota com quem acordei. Uma tem cabelo ruivo longo e curvas de matar, e a outra é uma gata de cabelo curto e escuro com peitos enormes.
Que porra é essa?
Deve ter sido isso que o dono do time precisava para decidir a troca. Ele já estava decidido a se livrar de mim depois que a neta dele, que mentiu sobre a idade, abriu o bico, e esse vídeo provavelmente foi a gota d’água.
— Você é meu ídolo, cara — diz o garoto forte. — Quantas minas você pegou ontem à noite? Sério, me ensina como se faz. Aprendo rápido. —
Não lembro das garotas nem de como vim parar aqui. *Será que me drogaram?*
É pouco provável, mas não impossível. Algumas minas fazem qualquer coisa para engravidar de um atleta famoso. Devo ter apagado. Isso acontece muito — mais vezes do que gostaria de admitir.
Dou um sorrisinho e ignoro a pergunta. — Meu carro chegou. Tenho que ir. —
Desvio deles, abrindo caminho pela multidão e entrando no carro, aliviado por ter chegado na hora. Mais alguns minutos com aqueles caras, e eu teria que enfrentar um interrogatório sobre a noite passada. Dou meu endereço para o motorista, e ele parte em direção ao apartamento que divido com meus ex-colegas de time — *ex* sendo a palavra-chave depois de vinte minutos atrás.
Meu celular toca, o som de uma buzina de gol de hóquei enchendo o silêncio do carro. O motorista se assusta e leva a mão ao peito. É um toque abrupto, mas cumpre o papel quando estou bêbado demais ou em coma alcoólico e preciso ser acordado. Eu já sabia que essa ligação estava chegando, e quando vejo que é minha assessora, Rebecca Stone, tenho que atender.
— Oi, linda. A que devo a honra?
— Honra? — ela grita. — Não, isso não é honra nenhuma, Alex! O que há de errado com você? — Uma pausa, e ela continua: — Já viu o YouTube? Melhor ainda, já viu as notícias? Estão chamando isso de *Puck of Shame*. Você cavou sua própria cova dessa vez. Chega. Não posso mais te ajudar. Você—
Interrompo, tentando manter a calma enquanto ela me destrói: — Como assim, chega? Você só para quando eu disser que para. Você trabalha pra mim. —
Rebecca ri, uma risada estridente que me lembra a Bruxa Má do Oeste. — Eu trabalho pra você porque você me paga, seu moleque. Precisa arrumar outra assessora. Não me pagam o suficiente pra essa merda. — Ela geme e bate alguma coisa que faz um barulho de quebrar. — Estou aqui, tendo urticária de estresse por sua causa e por essa palhaçada que você aprontou naquele campus. De todas as faculdades, tinha que ser uma tão chique quanto Georgetown? Você tem sorte de o reitor querer que isso suma tanto quanto o resto de nós. Depois disso, não tem mais nada que eu possa fazer por você. —
— Tem, sim. Você pode fazer seu trabalho, Becs. —
— Quero o triplo do meu pagamento normal. Ninguém vai te tocar nem com uma vara de três metros. Você é um pesadelo de RP! —
Não adianta negar a verdade. Tenho deixado ela louca no último ano. Uma vez, até tentei seduzir a Rebecca para mantê-la no meu time, achando que uma mulher mais velha como ela não recusaria um astro jovem do hóquei. O plano deu errado e foi mais constrangedor pra mim do que pra ela.
— Tá bom — concordo. — O que você quiser. —
— Você precisa de ajuda, Alex. Estou te dizendo isso como amiga, não como sua assessora. Sei que você não lidou bem com a morte do seu pai, e não te culpo, mas precisa se controlar. Mesmo com meus contatos, só posso fazer tanto por você. Em algum momento, você vai ter que se ajudar. —
— Valeu, Becs. — Faço uma pausa e afasto o celular do ouvido para ver quem está ligando: DMG — Donoghue Media Group, a empresa que o Mickey fundou depois da faculdade. *E agora?* — Olha, tenho que ir. O Mickey está na outra linha. Te devo uma. —
— Você me deve mais do que uma — ela diz antes de desligar.
Se tem uma coisa que ela está certa é que preciso me recompor. Uma troca no meio da temporada para a Filadélfia deveria ser um alerta. Em vez disso, só me dá vontade de beber.