Efeito Colateral por Guiaris em Inkitt
Personalizar legibilidade
Aa

EFEITO COLATERAL

Todos os Direitos Reservados ©

Resumo

Três pessoas acordam numa cama, e nenhuma delas lembra da noite anterior. O problema não é o que aconteceu. É quem eles são: filhos das famílias mais perigosas da máfia, que não podiam nem se olhar — quanto mais isso. Agora existe um segredo grande demais para caber em três bocas. E na máfia, segredo que vaza custa sangue. Dois para o mundo. Três na verdade. E ninguém pode saber.

Gênero
Romance
Autor
Guiaris
Status
Em Andamento
Capítulos
15
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

Capitulo 1

A primeira coisa foi o cheiro. Perfume adocicado, quente, misturado a álcool e a alguma coisa química que ele não soube nomear. A segunda foi o peso.

Aleks abriu os olhos.

Havia cabelo na boca dele. Fios escuros, longos, colados na saliva, entrando toda vez que respirava. Ele tentou virar o rosto e não conseguiu — havia uma cabeça apoiada no peito dele, uma bochecha contra sua clavícula, e o resto do corpo estendido por cima do seu como se tivesse desabado ali no meio de um passo. Uma mulher. Nua. A perna dela pesava sobre as dele.

*Ok. Certo. Isso é... uma perna.*

Ele ficou muito quieto.

O teto era estranho. Alto, com uma moldura de gesso que não era a dele. A luz vinha fraca de algum lugar à esquerda, cinza de manhã cedo, e desenhava o ombro da mulher, a curva das costas, o quadril. Ela dormia com a boca entreaberta, um fio de respiração roçando a pele dele a cada tempo. Aleks olhou para o rosto dela e demorou um segundo a encaixar o nome.

*Isabel.*

Ele continuou olhando, com a distância morna de quem reconhece um figurante numa foto de festa. *Ah. É você.* Não veio nada junto do nome. Nenhum arrepio, nenhum peso. Só a etiqueta caindo no lugar e o resto seguindo em branco.

Foi então que percebeu o braço.

Não era dela. Vinha de trás dela — grande, pesado, de dorso largo, atravessando a cintura da mulher e caindo aberto sobre o abdômen de Aleks. A mão descansava a centímetros do seu quadril, os dedos relaxados no sono. Havia um homem ali. Do outro lado dela. Os três no mesmo colchão, o braço dele os prendendo aos dois como se tivesse adormecido no gesto de puxá-los para perto.

*Tem uma pessoa. Atrás da pessoa. E o braço é da segunda pessoa. Então são...*

Ele contou. Contou de novo, para ter certeza.

*Três. Somos três.*

O coração dele estava batendo rápido. Ele registrou isso de longe, como quem escuta o vizinho batendo em algo do outro lado da parede — informação, sem dono ainda. O corpo já sabia de algo que ele ainda não tinha alcançado. Sempre foi assim. O aviso chegava primeiro; o sentido, muito depois, quando já não servia para nada.

Devagar, com um cuidado que aprendeu não sabia onde, ele tirou o próprio braço de baixo do ombro da mulher. Ela resmungou. Ele parou. Esperou a respiração dela voltar a ficar lenta. Depois deslizou uns centímetros para o lado, para longe daquele braço masculino, e a mão do homem escorregou do seu quadril e caiu no lençol com um baque mole.

O homem não acordou. A mulher não acordou.

Sentado na beira da cama agora, os pés no chão frio, Aleks olhou para as próprias mãos. Grandes. As dele. Um ano e ainda havia manhãs em que precisava confirmar. Olhou para o quarto — caro, impessoal, tipo hotel bom, taças caídas no tapete, uma delas ainda com um dedo de algo dentro. Roupas jogadas. Três conjuntos de roupas. Um vestido. Duas camisas.

Ele não lembrava de nada.

Nada. Nem o quarto, nem como tinha chegado à cama, nem em que ordem as roupas tinham ido parar no chão. Passou a mão pelo rosto e o rosto estava bem, o corpo estava bem, não doía nada além de uma sede seca e enorme, e mesmo assim havia um buraco preto no lugar onde deviam estar as últimas — quantas? — horas.

*Pensa. Última coisa. Qual foi a última coisa.*

O evento. Ele lembrava do evento. Salão, luzes douradas, gente que ele devia cumprimentar e cumprimentou. Lembrava de estar quase saindo — quase, já com o casaco, já com a mão no bolso procurando o telefone. Depois disso: preto.

Atrás dele, o colchão afundou. A mulher tinha se virado no sono, buscando o calor que ele havia deixado, e agora abraçava o travesseiro dele com o rosto enfiado nele. À luz cinza, com o cabelo espalhado, ela era muito bonita. Aleks a olhou por um tempo longo, sem tocar.

O homem na cama respirou fundo e mudou de posição, e o lençol escorregou revelando o ombro dele, as costas largas, uma cicatriz antiga cruzando a omoplata. Aleks reconheceu esse também. Levou o mesmo segundo morno.

*Damian.*

*Os dois. Claro. Vocês sempre acabaram nessa história de qualquer jeito.* O pensamento passou e foi embora sem deixar recado, como legenda de novela já lida e esquecida. Ele os conhecia de longe — os nomes, as caras, o fato de terem sobrado num lugar parecido com esse em outra versão das coisas. *Sei de vocês como sei o final de um livro que larguei no meio por tédio.* Aleks olhou os dois adormecidos mais um instante e nada acendeu. Não rendiam mais que aquele segundo.

*O que não fecha é o que EU estou fazendo no meio.*

Isso, sim, ele encarou de frente — quer dizer, ela, lá dentro, na parte que o resto do mundo nunca leria. *Porque naquela outra versão só tinha dois nesse lugar. Nunca três. Nunca eu.*

Do lado de fora, a cidade começava a acordar. Um carro. Outro. Uma buzina longe. A luz no quarto subiu meio tom, de cinza para pérola, e a manhã veio entrando pelo vão da cortina sem pedir licença, indiferente aos três corpos e a tudo que a noite tinha feito e ninguém ali ainda sabia direito o quê.

Aleks pegou uma das camisas do chão. Cheirou. Não era a dele.

Vestiu mesmo assim.

Deixe Guiaris saber o que você pensou sobre este capítulo!
Amo isso

1

Amo isso

Engraçado

0

Engraçado

Picante

0

Picante

De Suspense

0

De Suspense

Emocional

0

Emocional

Profundo

0

Profundo

Tocante

0

Tocante

Chocante

0

Chocante

Boa Escrita

1

Boa Escrita

Enredo Envolvente

0

Enredo Envolvente

Personagem Ótimo

0

Personagem Ótimo

Diálogo Forte

0

Diálogo Forte

Outras Recomendações

Quando o Tempo Voltou

Ramon Detoni: Apesar de ser o criador essa história conta momentos que gostaria de ter mudado, mas o tempo é curto e escolhas decide o futuro e destinos.

Leia Agora
EFEITO COLATERAL