Capítulo 1 - Um novo Despertar

O frio da noite castigava silenciosamente a cidade.
As luzes dos postes se refletiam no asfalto enquanto as pessoas caminhavam apressadas pelas ruas, protegendo-se do vento gelado.
Mas Ryuuji continuava andando devagar.
Sem pressa.
Sem destino.
Como alguém que já tinha perdido tudo antes mesmo daquela noite começar.
Os passos ecoavam baixos pela calçada quase vazia.
O vento frio atravessava seu casaco escuro enquanto ele mantinha o olhar perdido à frente.
Cansado.
Mais do que fisicamente.
Havia um peso estranho dentro dele.
Um vazio difícil de explicar.
Pingos de chuva começaram a cair e batiam contra seus ombros enquanto carros passavam deixando rastros d’água pela avenida.
A chuva aumentou
Então ele parou.
Um outdoor iluminado do outro lado da rua chamou sua atenção.
Uma propaganda comum.
Nada especial.
Mas não para ele.
Porque já tinha visto aquilo antes.
Exatamente daquela forma.
Naquela mesma noite.
O peito apertou imediatamente.
— Não...
A voz saiu baixa.
Quase falhando.
O sinal da avenida fechou.
Um homem de terno começou a correr para atravessar.
Logo atrás dele, uma mulher deixou uma pasta cair no chão.
Folhas voaram pela rua molhada, manchando com a água da chuva.
Ryuuji fechou os olhos por um instante.
Porque ele sabia.
Sabia exatamente o que aconteceria nos próximos segundos.
O homem pisaria em uma poça d’água.
A mulher tropeçaria tentando pegar os papéis molhados.
O sinal abriria antes dela terminar.
E então...
aconteceu.
Exatamente como lembrava.
O homem escorregou levemente.
A mulher tentou alcançar as folhas desesperada.
O sinal abriu.
Um carro buzinou ao longe.
Os carros começaram a andar.
Ryuuji permaneceu imóvel.
O coração acelerando lentamente.
A sensação era horrível.
Como assistir uma memória acontecendo diante dos próprios olhos.
Ele desviou o olhar.
Tentando ignorar aquilo.
Tentando convencer a si mesmo de que era apenas coincidência.
Mas no fundo...
sabia que não era.
Ao chegar no pequeno apartamento onde morava sozinho.
Deitou na cama com o braço cobrindo os olhos.
A chuva agora caía ainda mais forte contra as janelas.
O céu piscava constantemente em tons azulados enquanto trovões ecoavam pela cidade.
A chuva o fez lembrar da noite do acidente.
Apartamento escuro apenas iluminado pela luzes dos raios da tempestade.
Apenas o som da tempestade preenchia o ambiente.
Ryuuji na mesa do computador com a luz da tela iluminando parcialmente o rosto cansado.
Planilhas abertas.
Relatórios.
Números.
Mais uma noite de trabalho.
Um relâmpago iluminou o apartamento inteiro.
Logo depois, o som pesado do trovão fez as luzes oscilarem por um instante.
Ryuuji olhou rapidamente pela janela.
— Se continuar assim... isso vai acabar queimando o computador...
Mas não podia desligar.
Ainda precisava terminar.
Ele suspirou cansado.
Se levantou da cadeira e caminhou até a pequena cozinha.
Pegou uma xícara de café já morno.
Ao voltar para a mesa, sentou novamente diante da tela.
Por alguns segundos...
apenas ficou olhando para os relatórios.
Sem realmente enxergar nada.
Então minimizou as planilhas.
Abriu uma pasta antiga.
Fotos.
Arquivos esquecidos.
O passado.
O cursor foi descendo lentamente pela tela...
até parar.
Uma foto antiga da empresa.
Ele.
Com dezenove anos.
Muito mais magro.
Mais leve.
E ao lado dele...
Junna.
Ryuuji ficou imóvel.
Os olhos presos naquela imagem.
Naquela época.
Naquele tempo.
Ele colocou lentamente a xícara sobre a mesa.
Depois recostou a cabeça na cadeira e fechou os olhos por alguns segundos.
As memórias vieram fortes.
Os corredores da empresa.
As conversas simples.
Os momentos pequenos que nunca conseguiu esquecer.
E então...
um pensamento atravessou sua mente.
Pequeno.
Sincero.
Doloroso.
“Eu queria ver ela mais uma vez...”
O som da chuva aumentou do lado de fora.
Ryuuji abriu os olhos lentamente.
Respirou fundo.
Tentando afastar os pensamentos.
Se ajeitou na cadeira novamente.
Ainda com a foto dela aberta na tela.
Pegou a xícara de café.
E naquele instante...
o líquido começou a subir.
Flutuando.
Ryuuji arregalou os olhos.
— O quê...?
Uma luz branca explodiu pela sala.
O som agudo da eletricidade rasgou o ambiente.
E então—
BOOOOM.
O raio atingiu o apartamento.
A energia atravessou o computador.
A mesa.
O corpo de Ryuuji.
Por um instante...
tudo ficou lento.
A luz.
O som.
O tempo.
Seu corpo perdeu força.
A visão começou a apagar.
E o último pensamento que cruzou sua mente foi:
“Então... esse é o fim sem vê-la novamente... Junna”
Escuridão
Som de relógio quebrando
Ainda com um zumbido constante e sufocante dentro da cabeça...
ele abriu os olhos com dificuldade.
A visão estava turva.
Piscando entre sombras e luz branca.
O cheiro de queimado era leve.
Mas inconfundível.
O chão frio tocava seu rosto.
“O que aconteceu...?”
Seu corpo ainda tremia levemente, como se pequenas correntes elétricas percorressem seus músculos.
Lentamente, virou o rosto.
Uma máquina de xerox estava ao lado dele.
A tampa aberta.
Um fino fio de fumaça subia lentamente.
Então veio uma voz:
— Ei... você está bem?
Uma voz feminina.
Jovem.
Preocupada.
Ryuuji ergueu os olhos.
E naquele instante...
o mundo parou.
Junna Daisuke.
Ali.
Exatamente como ele lembrava.
No primeiro dia.
Cabelo soltos de forma simples.
Uniforme impecável.
Expressão insegura de quem ainda estava começando.
Sem perceber, ele falou:
— Junna...
O nome escapou como um reflexo.
Ela franziu levemente a testa.
— Como você sabe meu nome se acabei de entrar na empresa?
O coração de Ryuuji disparou.
Droga.
Ele desviou rapidamente o olhar.
Tentando se recompor.
— Eu ouvi alguém te chamando mais cedo... deve ser isso.
Ela hesitou por alguns segundos.
Mas a preocupação falou mais alto.
— Você levou um choque... desmaiou do nada.
Então ela estendeu a mão.
Ryuuji ficou olhando para aquela mão.
Foram poucas vezes que ele segurou aquela mão...
mas ele lembrava de todas.
Momentos bons.
E ruins.
Ele segurou.
Se levantou lentamente.
E naquele instante...
uma única certeza tomou conta da mente dele:
“Eu voltei.”