Despertar Precoce
Eu despertei minha loba mais cedo do que a maioria das crianças da alcateia Winterborne. Mas só minha mãe e eu sabemos disso. Ela disse que eu não podia contar para ninguém, porque viriam atrás de mim por ser "diferente". É ridículo ela se preocupar com isso. Eu já sou diferente mesmo. Sou a única criança da alcateia com cabelo azul-elétrico, que vai clareando até um azul-gelo nas pontas. Mas ser filha do Alfa tem suas vantagens: ninguém nunca ousou comentar sobre meu cabelo estranho. Amo minha loba, Vesper. Ela é uma loba azul rara, com patas azul-gelo e uma marca de lua crescente no ombro esquerdo. É enorme para uma loba comum, mas ainda menor que um Lycan Real. Vesper é atrevida, forte e tem pavio mais curto que o meu — coisa que eu nem achava possível. Ela é a outra metade da minha alma, então eu já devia saber que seria uma respondona igual a mim. Às vezes, me pergunto se consigo ficar de boca fechada e manter Vesper com o focinho calado.
Minha mãe, Selene, e sua loba, Aurora, nos ajudaram na primeira transformação, aos 14 anos. Correram conosco, caçaram conosco e nunca nos deixaram sozinhas até o dia seguinte. Lembro que, depois de voltarmos à forma humana, meu pai uivava tentando nos chamar de volta. Minha mãe se virou para mim e me deu um aviso estranho: "Nyra, você nunca pode deixar que saibam quem você é. Eles vão destruir a luz dentro de você se descobrirem. Lembre-se sempre de que é minha filha e que Vesper estará com você, mesmo quando eu não estiver. Eu te amo, minha estrelinha." Ela me abraçou, cheirou meu cabelo como se quisesse guardar o cheiro na memória e colocou um colar com um pingente de estrela no meu pescoço antes de me beijar na testa. Então, voltamos para a casa da alcateia. Era uma mansão enorme — tinha que ser, para abrigar todos os lobos solteiros. Minha mãe sempre dizia que as fêmeas deveriam ter uma casa só delas, para se esconderem dos machos solteiros durante o cio. Meu pai dizia que não era necessário, que os machos precisavam de um "desafogo" para seus instintos. Minha mãe escondia as fêmeas solteiras nesses períodos, para que não se machucassem ou fossem forçadas a algo que não queriam.
Na época, eu não entendia o que ela queria dizer com aquele aviso. Mas agora entendo. Dois dias depois da minha primeira transformação, minha mãe morreu. Meu pai disse que ela estava doente havia um tempo, mas tinha jurado segredo para não me preocupar. Vesper disse que era mentira, porque não sentíamos nenhum cheiro de doença nela. Eu acredito em Vesper. Alguém a matou. Ainda não tenho provas, mas quando tiver… Hellion vai ficar de queixo caído com a minha vingança.
Parei de falar há doze anos. Os médicos da alcateia disseram a todos que era por causa do trauma de perder minha mãe tão nova. Eles não viram as cicatrizes nem os hematomas. Meu pai e sua companheira sempre souberam os melhores lugares para escondê-los. Mesmo com minha loba e nossas habilidades de cura, o estrago foi grande. As cicatrizes cobrem toda a minha costas. Chicotes com dentes de prata e acônito queimam como o diabo, mas eu nunca mais dei o gostinho de me ouvir chorar. Depois da primeira vez, quando implorei para meu pai me poupar, chorei dizendo que era filha dele e que não tinha feito nada de errado, decidi que não daria a eles a satisfação de me ouvir gritar. Depois disso, me trancaram no porão até as feridas cicatrizarem. E algo dentro de mim morreu naquele dia. No dia em que minha mãe foi tirada de mim, meu pai levou sua nova companheira para a casa da alcateia e a apresentou como sua nova Luna. Maddison era uma mulher alta e robusta, de cabelo preto e olhos escuros que sempre achei meio tortos. Paguei caro por dizer isso. Eu me levantei e me recusei a aceitá-la como minha Luna. Foi aí que começaram a me bater e a me tratar como se eu fosse menos que a sujeira sob as patas deles. Eu revidava, arranhava, desafiava-os a cada oportunidade, até que trouxeram para casa um filhote órfão chamado Charlie. Era um menino magricela, de cabelo loiro sujo, olhos verdes como a floresta e pele pálida. Dois anos mais velho que eu, mas parecia que tinham arrancado a alma dele. Tentaram bater nele também, mas eu sempre tomava o lugar dele. Jurei protegê-lo como se fosse meu irmão e nunca deixar que nada de ruim acontecesse com ele. Charlie se recusava a falar com qualquer um, menos comigo. Só depois descobri, pelo mindlink, que ele era surdo. Sua loba provavelmente também seria, mas a Deusa da Lua o abençoou com a habilidade de se comunicar pela mente. Fiquei grata por Charlie e pela esperança que ele trouxe à minha vida.
Um ano depois que Charlie chegou, a companheira do meu pai teve uma filha, Serphina. Era um bebezinho frágil, e eu fiquei com tanto medo de que fizessem mal a ela que tentei tirá-la da alcateia para algum lugar seguro. Mas fui pega e chicoteada 39 vezes. Trinta e nove porque levaram 39 minutos para me encontrar com ela. Maddison gritava como uma louca: "Ela está tentando matar minha filha! Quero ela morta!". Só não me mataram porque o conselho interveio, mas eles não sabiam das chicotadas nem dos abusos que vieram depois. Disseram que eu era jovem e estava agindo por impulso. Depois disso, Maddison declarou que Serphina era a princesa legítima da alcateia e a única herdeira do meu pai. A alcateia não quis ir contra a Luna, então todos concordaram.
Conforme crescíamos, Charlie e eu nos tornamos inseparáveis. Onde um ia, o outro seguia. Éramos a sombra um do outro. Aos 18 anos, quando Charlie despertou sua loba, Onyx, ele jurou um juramento de sangue de que eu era sua Alfa. Embora Charlie fosse dois anos mais velho, tinha sangue de Beta e nunca quis ser Alfa de ninguém, mesmo sabendo que poderia ser, se tentasse. Ninguém além de nós sabia, e meu pai era arrogante demais para perceber que tinha perdido a conexão comigo e com Charlie. Ele nunca tentou se comunicar pelo mindlink, então nunca descobriria que não tínhamos vínculo. Charlie, é claro, era meu Beta e a única pessoa que sabia do meu segredo sobre Vesper. Corríamos juntos e sempre ficávamos perto da fronteira da alcateia, planejando o dia em que fugiríamos. Treinávamos sozinhos, já que nenhum outro membro da alcateia queria treinar conosco. E quando completei 18 anos, me recusei a deixar que vissem Vesper… e isso causou uma confusão das boas.











