Prólogo - A Manhã Depois
Ninguém dorme direito em Rosemont na noite em que tudo desmorona. Isso só vai ficar claro depois, quando as pessoas certas juntarem as peças certas.
Por enquanto, existe apenas o som de passos apressados pelos corredores de mármore antes do amanhecer, o brilho intermitente de uma luz de emergência refletido no piso polido, e um silêncio que não é bem silêncio - é o tipo de quietude tensa que só existe logo depois que alguma coisa se quebra e ninguém ainda sabe o tamanho exato do estrago.
"Eu não vi nada."
"Eu vi tudo. E não vou falar."
"Foi um acidente. Tem que ter sido um acidente."
"Você conhece essas pessoas. Nada que acontece com elas é acidente."
Nos dias seguintes, a versão oficial vai circular pelos corredores da escola como um vírus bem-comportado - repetida, ajustada, polida a cada nova boca que a conta, até que já não se pareça em quase nada com o que realmente aconteceu naquela noite.Vai haver uma nota da assessoria de imprensa. Vai haver um comunicado da direção da escola, cuidadosamente redigido para não comprometer ninguém importante demais. Vai haver, é claro, um silêncio ensaiado ao redor de um nome específico - porque em Rosemont, como em quase todo lugar onde dinheiro e sobrenome decidem o que é verdade, o silêncio sempre tem dono.
Mas isso ainda vai demorar. Semanas, para ser exato- semanas de festas, de mentiras pequenas se acumulando em cima de mentiras maiores, de segredos que ainda não pareciam segredos porque ninguém tinha percebido o quanto pesavam.
Tudo começa bem antes disso. Começa com um portão de ferro, um estudante que não devia estar ali segundo as regras não-escritas daquele mundo, e um colégio construído, tijolo dourado por tijolo dourado, para parecer perfeito demais para esconder qualquer coisa.
Começa, na verdade, num dia comum. Um primeiro dia de aula, como qualquer outro.
É sempre assim que essas histórias começam. Nunca parecem o início de nada.


