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Gays do Estado do Maranhão, ou um Golpe Cruel nos Culhões

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Resumo

São Teodoro, Maranhão. Lázaro Solórzano tem vinte e oito anos, trabalha numa fábrica, fuma demais, lê Balzac no intervalo do almoço e passa as noites inventando besteiras com os amigos. Ele ama sua cidade — mesmo quando ela alaga, elege políticos duvidosos e parece fazer de tudo para testar sua paciência. Entre relacionamentos, amizades, pequenos desastres, sátira política e decisões cada vez mais questionáveis, Lázaro tenta entender por que todo mundo ao redor parece tão absurdo. Uma comédia satírica sobre amor, amizade, responsabilidade e a estranha arte de continuar vivendo num mundo cheio de idiotas — inclusive nós mesmos.

Status
Em Andamento
Capítulos
9
Classificação
n/a
Classificação Etária
18+

Parte 1: A Revolta do Ânus de Atlas Capitulo 1

( Ilustrações por Camila Cortez Gomes aka "Camila con el Corazon" )

Prefácio

Diante do perigo que vai pairar sobre a minha cabeça depois que esta obra for publicada, estou juntando minhas tralhas e saindo às pressas de San-Teodoro. Prometo que, se o meu livro fizer sucesso, passarei cinco anos sem dar as caras no estado do Maranhão.

Imagino que, depois de cinco anos, a poeira já tenha baixado. Por enquanto, estou chamando um Uber e indo para o aeroporto. Espero que ninguém me encontre no Uruguai.

Parte 1: A Revolta do Ânus de Atlas

Capítulo 1

Agosto de 2025

Gosto de sair de manhã pro quintal, fumar e apreciar uma paisagem bonita. Do meu quintal dá pra ver a margem do rio Mearim, e eu gosto de fumar olhando pra ela. O tabaco e a paisagem da minha terra me relaxam. É o começo perfeito pra qualquer dia. Quanto melhor a manhã, melhor o dia. E quanto mais bonita a paisagem, mais gostoso o cigarro.

Mas enfim, preciso me arrumar e ir trabalhar.

Não.

Hoje o mundo inteiro pode esperar.

Acendo mais um cigarro e fico admirando a paisagem.

São Teodoro fica no lugar mais bonito e abençoado de todo o rio Mearim. Quanto mais velho fico, mais vontade tenho de passar tempo olhando pra este lugar. A vida é feita justamente desses momentos em que você pode sair de manhã pro quintal, fumar um cigarro e apreciar as paisagens da sua terra, e não de...

Bom, ainda vou ter muita coisa pra te contar, caro leitor. Por enquanto, proponho que você fume mais um cigarro comigo e admire a paisagem.

Eu fumo Lucky Strike vermelho, igual ao Slash e ao Kurt Cobain.

Aproveite o momento.

No Uruguai, por exemplo, não vai ter nada disso.

Vou trabalhar.

Trabalho na fábrica Greengorn Electronics. A gente fabrica umas tranqueiras elétricas: disjuntores, depois mais disjuntores e mais disjuntores.

Às vezes, transformadores.

A empresa não é grande, mas tem bastante serviço e até que pagam bem. Antigamente tinha mais emprego na cidade. Hoje as coisas estão um pouco diferentes.

Não vou ficar contando os detalhes do meu trabalho. Quem tiver interesse em saber como se fazem disjuntores elétricos — e transformadores também, quase esqueci. Senhor Lima, não me demita, sou um bom funcionário!! — seja bem-vindo à nossa fábrica.

Inclusive, estamos contratando.

Temos até máquina de café de graça pros funcionários.

O expediente começa às oito da manhã e termina às quatro e meia da tarde. Saio de casa às sete e atravesso a cidade a pé. Na verdade, no meu ritmo normal, dá pra chegar à fábrica em uns vinte e cinco minutos. Mas eu gosto de ir trabalhar por um caminho bonito, então faço uma volta enorme.

Depois do trabalho, costumo passar na garagem do meu amigo Zé Polar, ou José Fonseca, como consta no registro. A gente fica sentado conversando, fumando e esperando os outros, porque o expediente deles vai até as seis. Já o Zé Polar trabalha de casa e também encerra às quatro e meia.

Aliás, esqueci de me apresentar.

Meu nome é Lázaro Pablo Solórzano.

Lázaro Solórzano.

Sim, dá pra quebrar a língua tentando falar.

Na minha família existe uma tradição de dar aos netos o nome de Lázaro. Meu avô se chama Lázaro Álvaro, meu pai, por outro lado, é Casimiro, e eu sou Lázaro — estou repetindo pra vocês não esquecerem.

Meu filho vai ter outro nome.

Como ele vai resolver chamar o próprio neto, não faço ideia.

Quando não tem encontro marcado na garagem do Zé Polar, eu vou pra casa ou pra casa da minha namorada, Tomasa. Ela também trabalha de casa, só que o horário dela não é tão rígido. Por isso, muitas vezes, quando meu expediente acaba, ela ainda está trabalhando ou, como hoje, saiu com as amigas enquanto eu fico com os meus.

Às vezes ela sente ciúme dos meus amigos, mas acho até bonitinho.

Não fico ofendido.

Agora vamos voltar pra esta manhã.

Sete horas.

Saio de casa e sigo pela Rua Caruaru até a Praça Dom Pedro II. Minha rua é comprida. Moro bem no final dela, quase no extremo norte da cidade.

A parte norte é a mais bonita de São Teodoro, embora não tenha prédios grandes. No meu bairro ainda existem muitas casas de arquitetura colonial, e as ruas são de paralelepípedos assentados pelos portugueses ainda no século XVIII. Mais tarde, conforme a cidade crescia — e ela começou pelo norte —, mantiveram o “código de vestimenta” colonial das construções.

Resultado: passear por esta parte da cidade é uma maravilha.

No centro existem mais edifícios modernistas e alguns brutalistas. O prédio da prefeitura foi construído a partir de um projeto do próprio Le Corbusier!

Na zona sul tem mais high-tech e também a área industrial, onde fica minha fábrica.

São Teodoro é verde demais pra uma cidade desse tamanho. É comum chamarem a cidade de “Cidade no Parque”, embora existam alguns bairros praticamente sem área verde. São minoria, e os imóveis por lá custam bem menos.

Ninguém quer morar dentro de um forno de tijolos assado pelo sol enquanto o resto da cidade vive debaixo das copas das árvores.

Nossa orla merece uma menção especial.

Na verdade, a cidade praticamente nasceu dela, porque temos as margens mais bonitas de todo o rio Mearim. Quando vou trabalhar passando pela orla, sempre fumo um cigarro.

Você já sabe por quê, leitor.

Aliás, o prédio onde funciona minha empresa também é curioso. Antigamente era um depósito de bondes. Depois de Manaus, fomos os primeiros a ter uma linha de bonde!

Infelizmente, os bondes foram retirados ainda nos anos 2000, embora os trilhos continuem por lá. Já o prédio foi comprado pelo nosso diretor-geral que, felizmente, preservou a aparência original.

Antes de entrar no terreno da fábrica, fumo mais um cigarro.

No trabalho eu não fumo.

Depois dá preguiça de trabalhar.

Agora, quando não precisa trabalhar, aí pode fumar.

— Lázaro, larga esse cigarro e vai trabalhar! O chefe ainda anda de Toyota Camry 2019, os vizinhos já estão rindo da cara dele, e tu parado aí fumando igual uma chaminé, seu desgraçado!

Meu parceiro de trabalho, Félix, apareceu na esquina com um cigarro entre os dentes.

Olhei o relógio.

07:53.

A gente apertou as mãos.

— Eita, tô vendo que hoje tu veio com tudo, Félix. Fuma mais uns dois cigarros aí pra relaxar, senão, por tua causa, ainda vamos ter que trabalhar pra comprar um iPhone X pra vizinha do chefe.

— Tu tem razão.

Félix terminou rapidamente o primeiro cigarro e acendeu o segundo na mesma hora.

Olhei pro relógio.

07:57.

Ainda tinha que trocar de roupa.

— Beleza, tô indo. A gente se vê perto das cinco!

O trabalho foi tranquilo, sem nenhum incidente.

No almoço, fiquei lendo Esplendores e Misérias das Cortesãs, de Honoré de Balzac. Eu leio no horário do almoço. Em casa nem sempre dá vontade, mas no almoço do trabalho parece que dá uma coceira pra abrir um livro.

Durante o dia, Tomasa me mandou mensagem.

“Tu vai de novo pra casa do José?”

“Vou. Hoje vou ficar um pouco lá.”

“Entendi.”

E ficou em silêncio.

Mandei uns memes pra ela algumas vezes, mas ela só visualizou.

Tá com ciúme dos meus amigos de novo.

Bom, paciência.

Parceiro não se troca por mulher.

Vou pra casa do José.

Zé Polar, com seus dois metros de altura e cento e dez quilos, estava sentado na entrada da garagem esculpindo um cachimbo de madeira. No chão, ao lado dele, havia uma garrafa de Olmeca e um copo pela metade.

Zé continuava esculpindo o cachimbo.

Era o terceiro.

O primeiro não ficou muito bom.

O segundo puxava mal.

Mas o terceiro tinha tudo pra ficar do caralho.

Zé prometeu me dar esse.

Comecei a cantar um trecho de uma música no meio da rua. Como sempre, não tinha ninguém por perto.

— E aí, como tá o cachimbo?

A gente apertou as mãos.

— Mais um pouquinho e vai ficar do caralho. Levei em consideração todos os erros anteriores e agora estou tomando um copo de Olmeca a cada quinze minutos, e não a cada meia hora como antes.

— Rapaz, agora tu resolveu levar o negócio a sério mesmo.

Zé Polar trabalhava — sendo o único funcionário — na gráfica do pai. Ultimamente não tinha muito serviço.

Bom, na verdade, já fazia uns três anos que não tinha muito serviço.

Por isso, Zé passava a maior parte do tempo na garagem fazendo umas coisas legais de madeira e vendendo pelo Instagram. Às vezes conseguia faturar impressionantes quinhentos reais por mês com o artesanato.

Eu e ele fazemos muito esse tipo de coisa juntos. A diferença é que eu faço só pelo prazer de inventar alguma coisa, enquanto ele resolveu ganhar dinheiro com isso.

Tudo começou quando decidimos construir um iate pra navegar pelo rio.

Enquanto construíamos o iate, acabamos fazendo um monte de outras coisas e, entre elas, transformamos a garagem dele numa oficina onde dava pra fabricar todo tipo de porcaria.

Aliás, depois conseguimos afundar o iate sem querer, não muito longe da cidade.

A carcaça continua saindo da água até hoje.

Enquanto construíamos o barco, também fizemos uma motocicleta a partir de uma bicicleta BMX, construímos uma asa-delta — mas não tivemos coragem de testar e agora ela junta poeira no porão —, cavamos o próprio porão e montamos lá um lugar pra ficar de bobeira.

E também começamos a imprimir nosso próprio jornal:

O Fofoqueiro Nojento de Chapéu de Papel-Alumínio.

Sim, aqui as pessoas ainda leem jornal.

“Na internet todo mundo mente!”

É o que dizem os moradores da cidade de meio milhão de habitantes chamada São Teodoro, e nós não temos como concordar nem como discordar.

Temos cerca de quatrocentos leitores fixos, embora não dê pra competir com o jornal do nosso prefeito, que tem quase trinta mil assinantes — e a assinatura não é barata.

A nossa custa só vinte e cinco reais por mês.

Assinem nosso jornal!

Pelo menos a gente imprime com amor, em vez de simplesmente ficar escrevendo sobre como nosso prefeito é maravilhoso.

Aliás, ele cobriu novamente a cidade inteira com aquela cara convencida.

“Juntos rumo à prosperidade!”

É o que dizem os outdoors.

Perto da prefeitura, quando eu voltava do trabalho, apareceu um painel contando as realizações dele e cheio de fotografias em que aparece apertando a mão de gente famosa, fazendo carinho numa capivara e outras coisas de “marketing político”.

Nojento.

Eu e Zé Polar estamos sentados na garagem fumando.

É bom.

É bom quando, depois de um dia inteiro de trabalho, você pode sentar numa garagem com seus amigos, fumar e conversar sobre qualquer coisa.

Hoje estamos discutindo novamente os motivos pelos quais pararam de construir encouraçados e edifícios neogóticos.

— Ia ser do caralho se construíssem uns dois prédios neogóticos aqui. Pelo menos uma igreja.

— Concordo. Aquela piroca no meio da cidade no lugar de uma igreja estraga tudo. O que o povo não inventa só pra não construir as coisas direito.

— Dá até vergonha de fazer o sinal da cruz olhando praquilo.

— Depois viajam pro exterior e ficam falando que lá todo mundo é trabalhador e tem senso de beleza, não igual ao povo daqui.

— E aí voltam e constroem aquela merda.

— E não limpam os bueiros.

— Imbecis.

— Imbecis.

— Mas tudo bem. O importante é que nós somos normais.

— Vou beber por isso — disse José.

Eu não bebo.

Já bebi antigamente, com o José, quando eu tinha doze anos e ele treze. Nessa idade eu tinha uma atração meio estranha por álcool.

Ainda bem que passou.

Tomasa me mandou uma mensagem:

“Ei, bonitão!”

Depois veio um vídeo dela com a amiga — a mesma com quem divide apartamento — passeando pela orla, justamente no meu lugar preferido.

“Escolheram um lugar bom pra passear.”

Ela respondeu:

“Sim, tu entendeu a referência.” 😉

Tomasa é muito fofa.

“Depois vamos assistir de novo a Assassinos da Lua das Flores. Um bonitão me recomendou rever e prestar atenção em alguns detalhes...” 😉

“Quem será esse cara? E no que exatamente tu pretende prestar atenção?”, escrevi.

“Ai, já vou te mostrar.”

E me mandou uma foto nossa da viagem que fizemos a Recife.

“Esse bonitão 😍 Ele diz que tem uma cena do casamento da indígena com o Leo DiCaprio e que os indígenas estão usando uniformes franceses porque eles lutaram contra os franceses ao lado dos ingleses, e esses uniformes são troféus daquela época. Ele é tão inteligente.” 😉

“Por que tu ainda não virou modelo?” 😉

Uma hora e meia depois chegaram Luís e Felipe.

Luís trabalha como enfermeiro no Hospital São Januário, e Felipe é administrador do restaurante de sushi Yokosuka, que fica perto da orla.

— Seus filhos da puta, vocês não esperaram a gente e já acabaram com a garrafa, seus negacionistas de covid!

— Acabamos.

— Não esperaram a gente.

— Não esperamos.

— E encheram isso aqui de fumaça.

— Enchemos.

— Agora vou aplicar a dose de reforço em vocês!

Luís tirou uma garrafa de cachaça, e Felipe trouxe duas pizzas havaianas.

Ficamos até as dez da noite discutindo a próxima edição de O Fofoqueiro Nojento de Chapéu de Papel-Alumínio.

— Olha só uma coisa que li nas notícias esses dias. — Ele pegou o celular. — “O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, declarou que a Espanha está pronta para usar sua Marinha e armas nucleares contra Israel por causa da agressão contra a Palestina.”

— Mas eles não têm armas nucleares.

— Então vamos escrever assim: “O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, declarou que a Espanha está pronta para usar sua Marinha e armas nucleares contra Israel por causa da agressão contra a Palestina, apesar de a Espanha não possuir armas nucleares.”

— O título vai ser “O Renascimento da Inquisição Espanhola”. Aí começa: “O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, declarou que a Espanha está pronta para usar sua Marinha e armas nucleares contra Israel por causa da agressão contra a Palestina, apesar de a Espanha não possuir armas nucleares. Em seguida, Pedro Sánchez declarou que deixou de ser primeiro-ministro da Espanha e passou a ser o Grande Inquisidor. As fogueiras dos autos-da-fé ardem por toda a Espanha. Ursula von der Leyen e Kaja Kallas exigem a criação de um imposto sobre o brilho das fogueiras, sendo que parte da arrecadação será destinada ao controle da população de vacas que peidam e, por causa disso, alteram o clima. Contudo, aproxima-se o renascimento do Império Espanhol. Argélia e Marrocos concentram tropas na costa do Mediterrâneo, enquanto cidadãos portugueses formam filas gigantescas em busca de autorização de residência diante da embaixada brasileira.”

— “Vão se foder, seus filhos da puta!”, declarou o embaixador brasileiro em Portugal à multidão reunida.

— “A Nvidia quadruplicou seu valor de mercado diante do aumento da procura por placas de vídeo destinadas à mineração de criptomoedas e depois de vender, pela quinta vez, todos os ativos da Nvidia para a própria Nvidia. Esperamos que a diretoria da Nvidia esteja pagando direitinho o dízimo sobre essas transações, porque Pedro Sánchez pode bater à porta de qualquer um desses canalhas.”

— “O encontro entre Donald Trump e Xi Jinping terminou com promessas mútuas de prometer alguma outra coisa no próximo encontro. Donald Trump, autor do livro A Arte da Negociação, pretendia passar a perna em Xi Jinping e empurrar pra ele produtos da atividade fisiológica dos cidadãos americanos no valor de setecentos bilhões de papelzinhos verdes dos Estados Unidos, assim como já havia feito com Ursula von der Leyen, que pulava alegremente ao redor do Donnie e preparou cinco quilos de chucrute para o querido convidado. Contudo, o sanguinário ditador comunista Xi, que ainda na infância, morando num buraco cavado na terra, leu O Capital de ponta a ponta onze vezes, mandou Donald Trump tomar no cu. Em represália, a Marinha americana, representada por um grupo de ataque de porta-aviões, aproximou-se da costa da Venezuela e começou a infernizar os pescadores locais em seus barcos, com remos feitos de cabos de pá e tampas de latas de tinta. ‘Make America Great Again’, declarou J. D. Vance.”

Fui andando pra casa.

Abri o Telegram.

Tomasa tinha me mandado uma selfie da noite dela.

Escrevi:

“Linda ❤️”

Em casa, bebi um pouco de suco de laranja na cozinha e fiquei lendo.

Quando estava indo dormir, Tomasa finalmente respondeu.

A resposta ao meu elogio foi:

“Não.”

Mandei um emoji de beijo e fui pra cama.

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