Capítulo 1: O Som do Apito
Helena
Sempre odiei futebol.
Essa seria a mentira perfeita para contar.
Muito mais simples do que admitir que cresci dentro de estádios, ouvindo o eco das torcidas antes mesmo de aprender a dormir sem luz acesa. Muito mais fácil do que confessar que o cheiro de grama molhada e uniforme recém-lavado fazia parte da minha infância como o perfume da minha mãe fazia antes de ela morrer.
O futebol sempre esteve em tudo.
Nas conversas do café da manhã.
Nas viagens canceladas por causa de campeonatos.
Nos gritos do meu pai assistindo replays de partidas às duas da manhã.
E principalmente no vazio que existia entre nós.
Augusto Vasconcellos nunca foi um homem cruel. Apenas distante. Como se cada pedaço de atenção dele já pertencesse ao clube antes mesmo de eu nascer.
Ainda assim, eu tentava.
Tentava assistir aos jogos.
Tentava entender esquemas táticos.
Tentava decorar nomes de jogadores só para manter uma conversa de cinco minutos com ele.
Na maior parte do tempo, não funcionava.
Até Gabriel aparecer.
Eu lembro exatamente do dia.
Chovia fraco naquela tarde, e o centro de treinamento parecia cinza e silencioso. Meu pai tinha me obrigado a acompanhá-lo porque a empregada estava de folga e ele “não demoraria”.
Demorou quatro horas.
Passei quase todo o tempo sentada no corredor próximo ao campo interno, mexendo no celular e contando mentalmente quantas vezes pisaria em uma poça d’água na volta para casa.
Então ouvi a movimentação.
Jornalistas.
Fotógrafos.
Dirigentes.
Quando levantei os olhos, ele estava entrando.
Gabriel Monteiro.
Na época, eu já conhecia seu nome. Todo mundo conhecia. O craque que tinha acabado de voltar da Europa depois de uma lesão complicada no joelho. O jogador prodígio que ainda era assunto em programas esportivos mesmo afastado dos gramados.
Mas nada me preparou para vê-lo pessoalmente.
Ele parecia… cansado.
Não fisicamente.
Era algo nos olhos.
Como alguém que carregava mais peso do que deveria.
Usava um moletom preto simples, completamente diferente da imagem impecável das revistas. O cabelo castanho estava levemente úmido da chuva, e a barba por fazer deixava seu rosto ainda mais bonito de um jeito perigosamente real.
Meu pai caminhou até ele imediatamente.
— Espero comprometimento total — ouvi Augusto dizer com a voz firme. — A imprensa vai cair em cima. Precisa manter foco.
Gabriel apenas assentiu.
— Estou aqui para jogar.
A voz dele me atingiu antes mesmo de eu entender o motivo.
Rouca.
Calma.
Baixa demais para alguém acostumado a ser o centro das atenções.
Foi naquele instante que ele me notou.
Só por um segundo.
Os olhos castanhos passaram por mim rapidamente antes de voltar para meu pai.
Nada além disso.
Mas meu coração bateu estranho.
Ridículo.
Eu tinha dezessete anos.
Ele era um jogador famoso de vinte e seis.
E eu era apenas a filha do treinador.
Invisível.
Ou pelo menos deveria ser.
— Helena.
A voz do meu pai me puxou de volta.
— O quê?
— Vai ficar no celular ou vai cumprimentar?
Revirei os olhos internamente. Meu pai tinha essa mania irritante de exigir educação impecável nos momentos mais constrangedores possíveis.
Levantei devagar.
Gabriel me observava agora.
De perto, ele parecia ainda maior. Não apenas alto, mas intenso. Como se ocupasse espaço demais sem precisar fazer esforço.
— Essa é minha filha — disse Augusto.
— Helena — corrigi automaticamente, estendendo a mão.
Os dedos dele tocaram os meus.
Quentes.
Firmes.
E por algum motivo absurdo, minha respiração falhou.
— Gabriel — ele respondeu.
Como se eu não soubesse.
O canto da boca dele quase sorriu.
Quase.
Então meu pai começou a falar sobre horários de treino, patrocinadores e fisioterapia, enquanto eu permaneci ali, quieta, tentando entender por que ainda sentia a mão queimando onde ele tinha tocado.
Aquilo deveria ter acabado naquele dia.
Mas não acabou.
Porque comecei a encontrá-lo em todos os lugares.
No corredor do estádio.
Na academia do centro de treinamento.
Na cafeteria onde eu estudava às tardes.
Sempre silencioso.
Sempre educado.
Sempre mantendo distância.
E talvez tenha sido exatamente isso que me destruiu.
Gabriel nunca tentou me impressionar.
Nunca flertou.
Nunca ultrapassou limites.
Às vezes eu o pegava me observando por alguns segundos longos demais, mas então ele desviava o olhar como se tivesse cometido um erro.
Aquilo me enlouquecia lentamente.
Quanto mais ele evitava, mais impossível ficava ignorá-lo.
E agora, meses depois, eu estava outra vez no estádio observando-o entrar em campo enquanto sessenta mil pessoas gritavam seu nome.
Ridículo.
Sessenta mil pessoas o amavam.
Mas eu sabia coisas que elas nunca perceberiam.
Sabia que ele apertava discretamente o joelho esquerdo quando sentia dor.
Sabia que odiava entrevistas pós-jogo.
Sabia que ficava em silêncio absoluto antes de partidas importantes.
Sabia que existia tristeza escondida atrás dos sorrisos rápidos que dava para as câmeras.
Meu pai gritava instruções perto do banco técnico enquanto eu fingia prestar atenção no jogo.
Fingia.
Porque a verdade era muito pior.
Eu procurava Gabriel o tempo inteiro.
E ele sabia.
No meio da partida, Gabriel roubou a bola no meio-campo e arrancou em velocidade. O estádio inteiro levantou ao mesmo tempo.
Meu coração também.
Ele driblou um marcador.
Depois outro.
Então chutou.
Gol.
A explosão da torcida foi tão alta que senti o chão vibrar sob meus pés.
Os jogadores correram para abraçá-lo, mas Gabriel levantou o rosto antes.
Me encontrou no meio da multidão.
De novo.
Aquele olhar durou pouco.
Curto demais.
Longo demais.
Algo apertou meu estômago.
Porque havia uma diferença enorme entre imaginar sentimentos… e vê-los nos olhos de alguém.
E naquele instante eu tive certeza.
Gabriel Monteiro sentia alguma coisa por mim.
Uma coisa errada.
Proibida.
Perigosa.
Exatamente igual ao que eu sentia por ele.