Capítulo 1: A Dívida
A fechadura trava de novo. Tenho que jogar o ombro e colocar todo o meu peso contra a madeira empenada da porta até que o metal faça um clique. No momento em que ela cede, o cheiro me atinge. É um coquetel espesso e azedo de cerveja choca, café queimado e aquele inconfundível cheiro de mofo que nunca sai das paredes.
Entro, desviando com cuidado da pista de obstáculos que é o hall de entrada. Latas amassadas, caixas de comida que parecem fossilizadas na própria gordura e uma montanha de correspondência. Jogo minhas chaves na tigela de cerâmica perto da porta. Ela lasca na borda. Faço uma careta, esperando que meu pai grite, mas o apartamento está em silêncio absoluto.
A mesa da cozinha está soterrada. Envelopes com selos vermelhos formam um horizonte irregular. *Aviso Final. Atrasado. Agência de Cobrança. Ação Imediata Necessária.* Não preciso abri-los para saber o que dizem. Apenas passo o polegar pela borda de uma conta de luz vencida, sentindo o papel barato e áspero.
Tiro minha carteira do bolso de trás. O couro está rachado e descascando. Eu a abro. Duas notas de vinte amassadas, uma nota de cinco desbotada e um punhado de moedas. Trinta e dois dólares e uns trocados. Fico encarando as notas, fazendo aquele cálculo inútil de sempre. Trinta e dois dólares não pagam a conta de luz. Não pagam o aluguel. Não compram nem uma passagem de ônibus para sair da cidade se as coisas ficarem realmente ruins. Coloco o dinheiro de volta na carteira e fecho com um estalo.
“Pai?”
Minha voz soa alta demais naquele espaço apertado.
Ele está sentado no escuro da sala. A única luz vem do brilho da tela do seu notebook, projetando um tom azul doentio em seu rosto. Ele não se vira. Seus ombros estão encolhidos, tremendo levemente por baixo da camiseta manchada.
“Isabella”, diz ele. Sua voz está rouca, como se ele estivesse engolindo vidro. “Você chegou.”
“Onde está?”, pergunto, mantendo o tom seco. “O dinheiro do aluguel. Você disse que tinha pego o pagamento na loja de ferragens.”
Ele finalmente se vira. Ele parece um lixo. A pele ao redor dos olhos está roxa de exaustão, seus lábios estão rachados e sangrando levemente no canto. Ele coça o pescoço, um tique nervoso que ele tem desde que eu era criança, mas agora está frenético. Ele está rasgando a pele, deixando marcas de meia-lua vermelhas.
“A loja... eles atrasaram a folha de pagamento”, ele gagueja, com os olhos correndo para a janela, depois para o chão e, em seguida, para as mãos. “E então, você sabe, a pista estava com um bom páreo hoje. Os galgos. Eu só precisava cobrir o buraco, Bella. Só pelo fim de semana.”
Meu estômago se fecha. Uma pedra fria e pesada cai no meu ventre. “Você apostou o dinheiro do aluguel.”
“Era uma barbada!” Ele joga as mãos para cima, um brilho repentino e desesperado de raiva que não chega aos olhos. “As probabilidades estavam ali. Eu só precisava de um pouco de alavancagem para dobrar o valor. Mas o favorito foi retirado na quarta corrida. Azar, Isabella. Apenas... um azar desgraçado.”
“Azar”, repito. As palavras têm gosto de cinzas. Costumavam ser apostas pequenas. Cinquenta dólares em um jogo de futebol. Cem em uma noite de pôquer. Mas a escalada foi lenta, uma maré crescente que acabou engolindo a casa, os carros e as joias da minha mãe. Agora, era apenas um poço sem fundo. “Pai, temos três dias para pagar o proprietário ou vamos parar na rua. Me dê o dinheiro que sobrou. Precisamos pelo menos dar a ele um pagamento parcial.”
Ele balança a cabeça, pressionando as palmas das mãos contra os olhos. “Eu não tenho. Eu perdi. Eu perdi tudo.”
Dou um passo à frente. A tela do notebook está minimizada, mas uma pasta parda grossa está aberta na mesa de centro. O papel lá dentro não é o branco padrão de extratos bancários. É um papel de alta gramatura, cor de creme, espesso e caro.
Estendo a mão para pegá-la.
“Não!”, ele dispara, avançando na minha direção.
Eu puxo para trás, fora do seu alcance, e a abro.
A primeira página é um registro. Números escritos à mão com tinta preta. Datas, valores, taxas de juros. Meus olhos percorrem as colunas. Os números começam nos milhares e depois pulam para as dezenas de milhares. Os juros compostos semanais são brutais, um massacre matemático.
“O que é isso?”, pergunto. Minha voz é quase um sussurro.
“Só alguns empréstimos pessoais”, ele murmura, afundando de volta no sofá. Ele parece menor agora. Derrotado. “De uns caras que comandam as salas de apostas altas.”
“Pai, olhe para o saldo final.” Bato o dedo no papel. Meu dedo está tremendo. “Que número é esse?”
Ele engole em seco. Seu pomo de adão se move. “É... é uma falta temporária. Estou trabalhando em um sistema. Um novo algoritmo para as mesas de roleta—”
“Quanto você deve?”, interrompo, com a voz subindo.
“Bella, por favor—”
“Quanto!”
Ele se encolhe. Ele puxa os joelhos até o peito, envolvendo as pernas com os braços como uma criança. “Dez milhões.”
O ar me escapa dos pulmões.
Fico encarando o papel. Dez milhões. O cérebro se recusa a aceitar. Não é um número que uma pessoa possa dever. É o PIB de uma pequena ilha. É um conceito, como o infinito ou a eternidade.
“Dez milhões”, digo, as palavras parecendo desajeitadas na minha boca. “Pai, você não tem dez milhões de dólares. Você não tem nem dez mil dólares.”
“Eu sei”, ele solta um ganido.
“Quem te deu dez milhões de dólares? O banco? Algum cartel?”
“Os russos”, ele sussurra.
O quarto fica totalmente em silêncio. O zumbido da geladeira parece desaparecer ao fundo.
“Quais russos?”, pergunto, embora um pavor gelado já esteja se acumulando na base do meu crânio.
“Os Volkov.”
Meus joelhos enfraquecem. Tenho que me segurar nas costas da poltrona para não cair.
A Bratva Volkov. Eles não apenas comandam o submundo desta cidade; eles são donos do concreto sobre o qual ela foi construída. Nikolai Volkov é uma história de fantasma que os pais contam aos filhos. Ele é o homem que teria enterrado um don rival na fundação de um arranha-céu. Eles não quebram suas pernas por dez milhões. Eles quebram seus ossos, colhem seus órgãos, pegam sua família e a vendem para quem pagar mais do outro lado do oceano.
Água gelada inunda minhas veias. Um zumbido agudo começa em meus ouvidos, abafando o som da minha própria respiração ofegante. Suor frio brota ao longo da minha linha do cabelo, umedecendo as raízes.
“Os Volkov”, digo novamente. O zumbido aumenta. “Pai, eles vão te matar. Eles vão nos matar.”
“Eles não vão”, ele balbucia, balançando-se para frente e para trás nas almofadas. “Eu disse a eles que tenho garantia. Eu disse que poderia conseguir os fundos até hoje. Eu só preciso de mais tempo. Eu só preciso ganhar uma mão grande—”
“Quando?”, eu o interrompo. O zumbido nos meus ouvidos está ensurdecedor agora. “Qual é o prazo, pai?”
Ele para de balançar. Ele olha para mim, com os olhos injetados e arregalados com um terror que nunca vi antes.
“Hoje”, ele sussurra.
“Que horas?”
Ele não responde. Ele apenas encara minha boca.
“Que horas, pai?”, exijo, com a voz falhando.
“Meio-dia.”
Tiro meu celular do bolso. A tela se ilumina, ofuscantemente brilhante no quarto escuro.
14:14.
“São duas da tarde”, digo, as palavras saindo dormentes. “Você disse meio-dia. O prazo era meio-dia.”
“Eu não tinha, Bella”, ele chora, com as lágrimas finalmente caindo sobre seus cílios, abrindo sulcos na sujeira de suas bochechas. “Eu não tinha nada. Achei que poderia dobrar nos barcos-cassino. Achei que poderia consertar isso antes que eles viessem.”
“Você não consertou.”
“Não me resta nada”, ele soluça, enterrando o rosto nas mãos. “Sinto muito. Sinto muito mesmo. Tenho zero. Não tenho nada.”
Fico ali parada, olhando para o homem que me deu a vida, percebendo que ele acabou de assinar minha sentença de morte. Os dez milhões não são apenas uma dívida. É um preço. E eu sou o único bem que ele tem sobrando para liquidar.
O silêncio no apartamento se estende, pesado e sufocante.
Então, a fechadura estala.
Três batidas secas e sincronizadas ecoam pela sala pequena.
Pesadas. Deliberadas.
Eles chegaram.










