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NÃO RECLAMADA

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Resumo

A policial Liana Valentina achava que entendia os perigos escondidos em sua cidade — até entrar no Ophelia e conhecer Connor. Ancestral, poderoso e perigosamente atraente, Connor pertence a um mundo que Liana jamais imaginou existir. Um mundo de vampiros, sangue e regras que ela não compreende. Mas há algo diferente em Liana também. Algo em seu sangue atrai vampiros. E quanto mais perto ela fica de Connor, mais perigoso se torna descobrir exatamente o que ela é.

Gênero
Fantasy
Autor
ElenaNagpur
Status
Completo
Capítulos
94
Classificação
5.0 (1 avaliação)
Classificação Etária
18+

Capítulo 1

As luzes da rua começaram a piscar quando estacionei minha viatura no estacionamento lotado da Main Street. Uma garoa fina começou a sujar meu para-brisa, e eu resmunguei baixinho ao checar a hora.

Pouco depois da meia-noite.

Faltavam apenas seis horas.

Normalmente, eu amava meu trabalho. Mas uma coisa que eu não suportava era ficar com as meias molhadas. Se uma poça d'água se formasse lá fora, minha noite estava arruinada. A culpa era do Exército. Já tinha passado tempo demais usando roupas molhadas e desconfortáveis para uma vida inteira.

O computador montado ao meu lado apitou, trazendo minha atenção de volta para a mensagem que recebi do meu sargento há alguns minutos.

A prefeitura está solicitando patrulhas a pé mais frequentes no centro. Por favor, faça uma assim que possível.

Claro, Steve. Adoraria.

Revirei os olhos, fechei o computador e saí da viatura. Verifiquei três vezes se tinha trancado tudo antes de correr para a calçada, esperando chegar debaixo de um dos toldos das lojas antes que a garoa virasse chuva de verdade.

Os turistas aparentemente tiveram a mesma ideia.

Grupos de mulheres com saias curtas e blusas que mal cobriam o corpo corriam em direção aos bares da Main Street. Grupos de rapazes usando shorts desconfortavelmente curtos e Hey Dudes vinham logo atrás.

O verão tinha chegado oficialmente.

Cuidando para desviar das poças que começavam a se formar na calçada, segui pela fileira de bares e estúdios de tatuagem. Parecia ser tudo o que tínhamos no centro. Bares, estúdios de tatuagem e alguma cafeteria hippie superfaturada, ou seja lá como chamavam aquilo.

O pedido por mais patrulhas a pé não me surpreendeu. Recebíamos o mesmo aviso todo ano no começo do verão. Aparentemente, a prefeitura achava que ver policiais andando pelo centro distrairia os turistas da nossa crescente taxa de criminalidade.

Não que fosse uma cidade perigosa, mas toda cidade de praia na Flórida tinha crime. Turistas ficavam bêbados, brigavam entre si e deixavam seus carros destrancados.

Receita para o desastre.

Ótima segurança no emprego para mim.

Vozes altas chamaram minha atenção mais à frente na calçada. Não dava para entender as palavras, mas reconheci o tom muito bem. Alguém estava a uns trinta segundos de fazer uma grande estupidez.

Tirei minha lanterna do suporte de couro no cinto e a acendi ao me aproximar, jogando o feixe de luz direto no rosto dos quatro homens reunidos na frente de um dos bares. As luzes da rua estavam fortes o suficiente, eu nem precisava dela. A lanterna era só para chamar atenção.

Funcionou.

A discussão parou.

Quatro cabeças viraram na minha direção.

Claro que eles estavam na frente do Ophelia.

Era um dos bares mais legais do centro, se a fila que vivia dando a volta no quarteirão servisse de indicação. Quase nunca recebíamos chamados lá, embora já tivesse ouvido rumores suficientes para saber que, de vez em quando, o clima esquentava lá dentro.

Analisei primeiro os dois homens que estavam mais perto da rua.

Shorts curtos. Hey Dudes.

Turistas.

Que surpresa.

Ambos tinham cabelos curtos, cacheados e escuros, e usavam camisas desabotoadas a ponto de eu nem saber por que se deram ao trabalho de vestir aquilo. Eu praticamente sentia o cheiro de Crown Apple de onde estava.

Nojento.

Os outros dois eram bem mais impressionantes.

O primeiro tinha cabelos pretos bem penteados e usava uma camisa branca simples de botão com calça preta. Seus olhos eram de um tom de azul gelado que combinaria mais com um husky siberiano. Ele parecia ter sido quem mais gritava antes de eu interromper.

O segundo homem estava encostado em silêncio contra a grande vitrine de vidro ao lado da entrada do Ophelia.

Seu cabelo loiro-escuro caía em uma bagunça desgrenhada quase cobrindo os olhos, cortado mais curto nas laterais e mais longo no topo e atrás. Sua pele era clara, com apenas um leve toque de bronzeado.

Seus olhos eram azul-escuros.

Não o azul brilhante do homem ao lado dele. Era mais profundo.

Eles me lembraram, estranhamente, do sofá do meu antigo apartamento. Comprei aquele troço porque era confortável pra caramba, mas acabei me apaixonando pelo tecido azul-escuro porque me lembrava das partes mais profundas do oceano.

Fiquei encarando ele por mais um segundo antes de perceber o que estava fazendo.

Jesus Cristo.

Eu tinha acabado de comparar os olhos de um estranho ao meu sofá.

“Algum problema aqui?”, perguntei.

O dos olhos de husky respondeu na hora.

“Não, senhora. Estávamos apenas pedindo educadamente para esses dois cavalheiros se retirarem do nosso estabelecimento.”

Ele cruzou os braços sobre o peito. *O* estabelecimento deles? Adorável. A única coisa que eu gostava menos de lidar do que turista era dono de negócio. Virei para os garotos de cabelo cacheado e levantei uma sobrancelha, esperando a desculpa.

“Eles podem nos expulsar. Não estamos nem aí”, disse o de cabelo cacheado número um. “Mas queremos as bebidas pelas quais pagamos.”

“É”, acrescentou o amigo. “Dá nossas bebidas e a gente vai embora.”

Olhei de volta para o dos olhos de husky.

Ele quase bufou. “Eles receberam as bebidas pelas quais pagaram. Depois, começaram a passar a mão na nossa barman. Eles derrubaram tudo enquanto ajudávamos a sair.”

Ajudando.

Certo.

Virei-me novamente para os turistas.

“Parece que está na hora de vocês procurarem outro bar. Ou um Uber.”

“Isso não é...”

Levantei uma mão.

“Eu não estou pedindo.”

O homem parou. Eles me encararam por alguns segundos, com os rostos ficando cada vez mais vermelhos. Eu aprendi rápido que alguns homens não gostam de receber ordens de uma policial. Eles gostam ainda menos quando a policial é mulher.

Eventualmente, eles se cotovelaram como crianças e saíram cambaleando pela calçada, resmungando alto que eu era uma vadia e que nem gostavam daquele bar mesmo.

Esperei até que chegassem na metade do quarteirão antes de me virar. O homem silencioso tinha se desencostado da vitrine.

“Obrigado, policial...?” Ele estendeu a mão na minha direção.

Sua voz era suave e profunda, e ele deixou a palavra no ar como uma pergunta. Minha placa de identificação estava bem visível no meu colete: VALENTINA.

Olhei para a mão dele antes de apertá-la.

“Liana.”

A palavra escapou antes que eu pudesse impedir. Meu primeiro nome. Por que raios eu tinha dado meu primeiro nome para ele? Sempre era Policial Valentina. Nunca Liana. Algo frio percorreu minha espinha. Soltei a mão dele, olhando para a chuva que começava a cair mais forte ao nosso redor.

“Connor”, ele disse.

Ele gesticulou para o outro homem.

“E este é o Caleb.”

Caleb assentiu.

A expressão assassina que ele tinha quando me aproximei sumiu. Agora ele parecia surpreendentemente curioso. Mas, estranhamente, ele não estava olhando para mim. Ele estava olhando para o Connor.

Olhei de um para o outro.

Tanto faz.

“Bom, foi um prazer conhecê-los. Se tiverem mais problemas hoje à noite, liguem. Estarei por perto.” Dei a eles o meu melhor sorriso de "puxa-saco de dono de empresa" e fui embora.

“Na verdade.” A voz de Connor me fez parar. Olhei para trás. “Se tiver um momento, eu queria saber se poderia nos ajudar com uma coisa. Tivemos um arrombamento duas noites atrás”, continuou ele. “Algo valioso foi roubado. Você se importaria de olhar nossas imagens de segurança? Ver se reconhece quem levou?”

Olhei em direção ao Ophelia e depois para a chuva de novo. Tecnicamente, investigar um roubo parecia muito melhor do que ficar vagando lá fora até minhas meias ficarem encharcadas. E era um crime, então eu não podia dizer não, mesmo se quisesse.

“Claro.”

Connor virou-se para a entrada. Eu o segui, acionando meu rádio portátil enquanto caminhávamos.

“Unidade 164.”

“Pode falar.”

“Estou fora no Ophelia por causa de um arrombamento — já ocorrido.”

“Câmbio.”

Caleb segurou a porta para mim. A música me atingiu com força no segundo em que entrei. Pelo visto, a Ophelia só parecia calma por fora. O lugar estava lotado. Havia corpos amontoados na pista de dança sob uma luz baixa, e a música vibrava com tanta intensidade no chão que eu conseguia sentir o grave no meu peito. Os bartenders se moviam rapidamente atrás de um balcão preto comprido, enquanto as pessoas gritavam pedidos de bebidas que não tinham a menor chance de serem ouvidos.

Connor passou na minha frente pela multidão.

As pessoas saíam do caminho dele.

Não notei isso de imediato. Havia gente demais aglomerada e todos estavam sempre se mexendo, mas, após alguns segundos, percebi que o Connor nunca tocava em ninguém. Ele não precisava.

Um homem deu um passo para trás, saindo de seu caminho sem nem olhar para ele. Uma mulher se esquivou no meio da dança, criando o espaço exato para o Connor passar.

Estranho.

Caleb vinha logo atrás de mim.

“Lá em cima”, disse Connor.

Havia uma escada perto do fundo, vigiada por um homem grande vestido todo de preto. Ele se afastou imediatamente quando viu o Connor. Ele me observou com uma atenção maior do que o necessário, me fazendo começar a questionar se, por acaso, havia algum mandado de prisão contra mim.

O segundo andar era mais silencioso e significativamente menos lotado. Paredes grossas abafavam a música lá embaixo, transformando-a em uma pulsação constante. Sofás e poltronas aconchegantes cercavam mesas baixas, criando várias áreas reservadas com vista para a boate através de um vidro escuro.

“VIP?”, perguntei.

“Algo assim”, respondeu Caleb.

Connor me guiou até um dos sofás.

“Quer alguma coisa? Redbull? Água?”

“Não, obrigada.”

Eu me sentei.

Caleb se jogou na almofada à minha direita, enquanto o Connor se sentou à minha esquerda e tirou um notebook debaixo da mesa. Ambos estavam um pouco próximos demais do meu espaço pessoal, e eu levantei a trava do meu coldre por hábito.

Connor abriu o computador em uma tela chamada “Câmera da porta dos fundos”. A filmagem mostrava um beco estreito atrás da boate. Uma mulher apareceu poucos segundos depois.

Calças escuras. Moletom escuro. Capuz cobrindo a cabeça. Ela se aproximou da porta dos fundos, olhou em volta uma vez e tirou algo do bolso.

Inclinei-me para mais perto: “Pausa aí”. Connor pausou. “Alguém tocou nessa porta depois disso?”

Caleb franziu a testa. “Provavelmente.”

“Que pena.”

“Por quê?”

Olhei para ele: “Porque ela acabou de passar trinta segundos fodendo com a fechadura. Se tivermos sorte, ela deixou digitais.”

“Ah.”

Olhei de volta para a tela: “Dá o play”. A mulher encaixou algo no batente da porta. Poucos segundos depois, a porta se abriu. “Vocês têm câmeras lá dentro?”

“Sim”, disse Connor.

A imagem mudou. Observei a mulher se mover por um corredor escuro.

Pisquei os olhos. Tinha ficado estranhamente difícil focar na tela. Esfreguei os olhos, percebendo vagamente que algo estava errado. Talvez eu estivesse mais cansada do que pensava.

Connor estava dizendo algo.

Eu não conseguia entendê-lo. Não porque não pudesse ouvi-lo, mas porque as palavras pareciam escorregar pela minha mente sem se fixar.

Olhei para baixo.

Havia um copo de plástico na minha mão.

Água.

Fiquei encarando o copo. Quando foi que peguei água? Eu tinha dito não. Não tinha?

“Policial?”

“O quê?” Encontrei seu olhar. O rosto dele estava muito mais perto do que eu me lembrava.

“Você não estava prestando atenção.”

“Desculpe.”

Caleb riu baixinho ao meu lado. A mão do Connor estava descansando na minha coxa. Olhei para ela. Depois para ele. Por que a mão dele estava na minha coxa?

O grave lá embaixo, de repente, parecia insuportavelmente alto. Cada batida vibrava através do sofá e entrava no meu corpo, tornando impossível segurar um pensamento por mais de alguns segundos.

Olhei para o copo novamente. Será que tinham colocado algo na água? Mas eu não queria água. Será que eu tinha bebido? O copo estava pela metade.

Ah.

Porra.

“Liana.”

Certo. Connor. Relatório de roubo.

Virei-me para ele.

Os olhos dele encontraram os meus. Azul-escuros. Águas profundas. Meu sofá. Isso era engraçado. Por que isso era engraçado?

“Você se sente confortável aqui comigo”, ele murmurou.

A voz dele soava diferente agora. Linda. Como música, como algo em que eu pudesse mergulhar.

“Eu...”

Eu não conseguia me lembrar do que ia dizer.

Connor se inclinou para mais perto, e eu fui junto. Por que eu fiz isso? O nariz dele roçou na base da minha orelha. Meus olhos se fecharam lentamente.

“Você teve uma longa noite.”

“É.”

“Você está cansada.”

“É.”

Os lábios dele roçaram meu pescoço. Um arrepio percorreu meu corpo, e uma sensação estranha de formigamento começou no fundo do meu peito.

“Tira isso.”

Os dedos dele encontraram a borda do meu colete.

Meus olhos se abriram num estalo.

“O quê?”

“Seu colete.”

Olhei para mim mesma.

Certo. Meu colete. Pesado. Desconfortável. Minha mão alcançou uma das alças.

Então parou.

“Eu estou trabalhando.” Caleb e Connor me olharam incrédulos. Franzi a testa: “O quê?”

“Nada”, murmurou Connor.

A boca dele voltou ao meu pescoço, e sua voz doce murmurou: “Tira.”

Minha mão se moveu novamente.

De repente, estática explodiu no rádio no meu ombro.

“Unidade 164?”

Meus olhos se abriram. O quarto voltou a ganhar foco. Empurrei o Connor e peguei o rádio.

“Prossiga.”

“10-4?”

Olhei em volta da sala, com o coração disparado.

“É.” É? Que porra eu estava pensando? Limpei a garganta e tentei de novo: “10-4.”

Uma pausa.

“Entendido.”

Levantei-me rápido demais e o quarto girou abaixo de mim. O sorriso de Caleb desapareceu. Connor me encarava.

“Eu preciso ir.” Nenhum dos dois se moveu. “Eu preciso sair daqui.”

Dei um passo, depois outro. Minhas pernas pareciam que tinham passado a última hora bebendo tequila em vez de ficar sentadas num sofá.

“Liana.”

Ignorei-o.

Connor segurou meu pulso.

Virei-me.

“Não”, ele disse baixinho. “Fique.” Os dedos dele apertaram levemente o meu pulso.

A palavra penetrou fundo em mim.

Fique.

Claro.

Eu podia ficar. A gente não estava ocupado mesmo.

Eu...

Pisquei.

Então arranquei meu pulso da mão dele.

“Não.”

Connor congelou.

Caleb também.

Não esperei para ver o que diriam. Quando cheguei ao estacionamento, a chuva caía forte. Mal consegui chegar à grama antes de vomitar. Fiquei lá depois, curvada com as mãos apoiadas nos joelhos, com a chuva encharcando meu uniforme enquanto tentava entender que porra tinha acabado de acontecer.

Drogada.

Eu só posso ter sido drogada.

Consegui chegar à viatura e entrei, trancando as portas imediatamente. Então fiquei sentada ali, respirando. Um minuto se passou, depois dois. O nevoeiro sumiu por completo.

Encarei o para-brisa coberto pela chuva.

Não me sentia mais bêbada.

Não me sentia doente.

Eu me sentia bem.

“Que porra é essa?”

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