Capítulo 2: As Cinzas da Muralha
O freixo congelado lascou na junção do ombro do boneco de treino com um estalo oco. O som reverberou pelo pátio de pedra, engolido logo em seguida pelo uivo constante do vento norte.
Connor girou o calcanhar na brita. O cascalho moeu sob a sola fina de couro, um ruído áspero de pedras esmagando poças de gelo. Ele alinhou os quadris e desferiu o segundo golpe. O impacto viajou pelos ossos de seus braços de doze anos, vibrando nos cotovelos como uma agulha quente enfiada na cartilagem. Ele não soltou o cabo da espada de treino. A madeira estava úmida pelo suor frio.
Ao lado do canteiro de armas, encolhido sobre um fardo de palha coberto de geada, um filhote de lobo colossal da neve ergueu as orelhas pontiagudas. Fenrir, com sua pelagem branca salpicada de cinza e olhos azul-gelo penetrantes, soltou um ganido baixo, farejando o ar antes de apoiar o focinho grande entre as patas dianteiras.
— A base está frouxa! — O grito de Mestre Duncan cortou o pátio como lâmina pesada em osso verde.
O capitão da guarda deu um passo manco para a frente. O som de sua bota pesada afundando na neve misturou-se com o baque metálico da ponteira de sua bainha de aço. Duncan usou o peso do próprio corpo para cravar o metal na dobra do joelho direito de Connor.
O garoto desabou. A neve acumulada na borda do canteiro infiltrou-se pelo cós de sua calça de lã crua, ardendo na pele. Connor tentou apoiar as mãos nuas no gelo para se reerguer, as juntas duras pelo vento da cordilheira.
— O trovão não viaja se a sola do pé não tiver raiz — rosnou Duncan, cuspindo uma saliva escura sobre o calcário cinzento. — Se os joelhos dobrarem antes de o braço descer, a eletricidade só serve para queimar os seus próprios nervos, garoto. Suba a guarda. O Império não manda batedores que esperam você limpar a neve das calças. O aço da Inquisição corta a cabeça e a desculpa no mesmo golpe.
Fenrir levantou-se com um salto ágil e colocou-se entre o capitão e o garoto, mostrando os dentes de leite em um rosnado protetor.
— Quieto, lobo — resmungou Duncan, os olhos cinzentos suavizando-se por uma fração de segundo. — Ele precisa aprender a suportar o ferro antes que o ferro o quebre.
Antes que Connor pudesse firmar os pés na brita, um apito metálico e estridente rasgou a garganta do desfiladeiro.
O som reverberou contra as muralhas de basalto de KarMorn, fazendo as janelas do salão de armas vibrarem em suas molduras de chumbo. Além da linha de pinheiros mortos que demarcavam a fronteira do domínio Wolff, uma coluna colossal de fumaça negra subia em direção ao céu cinzento. O cheiro químico de óleo mineral queimado e vapor pressurizado invadiu o pátio.
As locomotivas blindadas da infantaria imperial haviam rompido o cerco baixo.
Duncan puxou a gola de pele de urso sobre o pescoço, o rosto endurecido por rugas profundas.
— Recolha o lobo e entre, Connor — ordenou o capitão, a voz ríspida e sem espaço para hesitação. — O lorde convocou o exército de KarMorn.
O soar cavernoso dos tambores de guerra, feitos com couro esticado de bisão da montanha, começou a pulsar das ameias mais altas. O som vibrava no peito como batimentos cardíacos forçados.
Quando Connor e Fenrir cruzaram o arco das cavalariças, o pátio central de KarMorn já estava tomado por uma massa compacta de aço e peles. Três centenas de guerreiros veteranos da Casa Wolff formavam fileiras silenciosas sobre o cascalho congelado. Homens e mulheres de feições marcadas pelo vento polar seguravam machados de duas mãos, escudos de carvalho reforçados com ferro e lanças longas de ponta farpada. Ninguém falava; apenas o vapor quente das respirações subia no ar gélido, criando uma bruma fina que pairava sobre os elmos.
No topo da escadaria de basalto que dava acesso à torre de menagem, erguia-se Lord Cedric Wolff.
A armadura negra de placas grossas absorvia a pouca luz do dia. Ao seu lado, Lady Rowena trajava sua cota de malha polida sob um manto escarlate forrado com pele de arminho, enquanto Mestre Duncan posicionava-se dois degraus abaixo, a mão calejada apoiada no pomo de sua espada larga.
Lord Cedric ergueu o punho direito enluvado em ferro. O eco dos tambores cessou de imediato.
— O Império cruzou a fenda com fogo de cerco e máquinas a vapor — a voz de Cedric não precisou de esforço para alcançar o último soldado na retaguarda; era um trovão seco e firme que rebatia nas muralhas milenares. — Alistair Lorrain fechou os portões de Minópolis e nos vendeu por ouro e carvão. Eles acreditam que o Norte é apenas pedra, neve e homens famintos que dobrarão os joelhos diante de seus canhões.
O lorde desceu três degraus com passos pesados que fizeram o ferro ranger. Seus olhos cinzentos varreram a tropa.
— Eles esquecem que este solo foi forjado no sangue daqueles que nunca aceitaram correntes. A Grande Muralha está sob ataque, e nós somos a última linha entre a escravidão das cinzas e a nossa gente. Não prometo um retorno fácil. Não prometo que todos verão o sol da próxima estação. Mas prometo que cada inquisidor que pisar na nossa terra pagará com o próprio pescoço o preço de ter desafiado a Casa Wolff!
Um rugido uníssono de três centenas de vozes explodiu pelo pátio, acompanhado pelo baque sincronizado de lanças batendo contra os escudos de carvalho.
Foi então que os portões das galerias subterrâneas de KarMorn se abriram.
Das sombras do calcário surgiram os últimos lobos colossais da montanha. Eram sete feras majestosas de pelagem prateada e cinza-escura, com quase dois metros de cernelha e ombros tão largos quanto os de um cavalo de batalha. Os lobos de guerra da linhagem ancestral caminharam com passos lentos e solenes pela brita até se alinharem diante das fileiras de guerreiros.
O maior deles, uma fêmea de olhos vermelhos e cicatrizes profundas no focinho que marchava ao lado de Cedric, ergueu o pescoço e soltou um uivo longo e gutural em direção às nuvens carregadas. Os outros seis acompanharam em coro: uma harmonia ancestral e selvagem que fez a poeira de neve dançar nas ameias. Um a um, os grandes lobos encostaram seus focinhos nas manoplas de ferro dos comandantes e guerreiros da vanguarda, selando o juramento primitivo de marchar e morrer lado a lado com os homens de KarMorn.
No alto da escadaria, Fenrir observava a alcateia de guerra. O pequeno filhote tinha apenas uma fração do tamanho de seus irmãos adultos, jovem demais para suportar a carnificina da Muralha.
Fenrir virou o tronco, deu dois passos em direção a Connor e sentou-se sobre as patas traseiras. O filhote ergueu o focinho e apoiou a cabeça com firmeza contra a palma da mão esquerda de Connor. Seus olhos azul-gelo fixaram-se nos do garoto em um silêncio absoluto. Não era apenas um animal de estimação; era o juramento de um lobo guardião da linhagem sagrada reconhecendo o seu mestre e irmão de sangue, prometendo lealdade perpétua exclusivamente ao jovem herdeiro.
Connor fechou os dedos pequenos sobre a pelagem espessa e macia da nuca de Fenrir, sentindo a vibração suave do peito do animal.
Ao verem o laço se firmar, Cedric e Rowena deram um passo à frente no tablado de basalto. Não havia feitiçaria ou palavras arcanas; era o antigo rito de sangue dos senhores de KarMorn, o pacto primitivo dos primeiros homens da montanha com as feras do inverno.
Cedric puxou uma lâmina curta de ferro da cintura e deslizou o fio com um corte limpo pela palma de sua mão direita. Gotas de sangue escuro brotaram de imediato, estalando com fagulhas de eletricidade carmesim. Em seguida, entregou a lâmina à esposa. Rowena cortou a palma esquerda com firmeza, seu sangue aquecido brilhando em tons de brasa viva.
Lado a lado, o lorde e a senhora de KarMorn ajoelharam-se na brita diante de Fenrir.
Cedric e Rowena espalmaram as mãos ensanguentadas contra o peito e a lateral do pescoço do jovem lobo, deslizando os dedos quentes pela pelagem alva em dois arcos descendentes e entrelaçados. O sangue dos dois senhores penetrou fundo na fibra dos pelos, desenhando uma mancha escarlate indelével no formato de duas presas colossais.
O calor e o trovão do sangue ancestral fundiram-se à essência do animal. A marca avermelhada fixou-se na pele e no pelo como uma cicatriz viva que jamais se apagaria sob o granizo ou o tempo.
— Que o nosso sangue seja a sua couraça quando nós formos cinzas — disse Cedric em voz grave, a mão ainda apoiada no peito de Fenrir. — Seja a visão do nosso filho no escuro, as presas que defenderão o seu caminho e o calor que o manterá vivo sob a nevasca. Você agora carrega a nossa vigília.
Fenrir soltou um sopro quente pelo focinho, sem recuar um milímetro diante do ferro do sangue.
Cedric ergueu o olhar para Connor. A armadura negra rangeu quando o lorde levantou-se e apoiou a manopla de ferro no ombro do filho de doze anos.
— O castelo fica sob sua vigília, Connor — disse Cedric, a voz baixa e sem espaço para lágrimas. — As pontes devem permanecer erguidas. Os portões de carvalho devem ser trancados com as barras de ferro fundido. Não abra para ninguém que venha das estradas baixas. O ouro imperial compra a lealdade dos desesperados em menos de três dias no gelo. Proteja seu sangue e confie neste lobo. Ele agora é a nossa lembrança viva guardando a sua vida.
Connor engoliu o nó que queimava em sua garganta, endireitou a coluna e cerrou os punhos.
— Ninguém passa pelos portões, pai. Eu juro.
Cedric acenou rigidamente com a cabeça e ergueu-se.
Rowena aproximou-se. O calor acolhedor de sua presença dissipou o ar gélido entre eles por um instante. Ela segurou o rosto de Connor com as duas mãos quentes e tocou a testa do garoto com os lábios em um beijo demorado, deixando uma marca de calor que queimou em sua pele.
— Prometa que vai viver, meu filho — sussurrou ela, os olhos vermelhos brilhando intensamente. — Não importa o que aconteça nestas montanhas, sobreviva.
Duncan embainhou sua espada longa nas costas e tocou o ombro do garoto uma última vez com a luva calejada.
— Mantenha o lobo por perto, garoto. E nunca solte o freixo.
Connor assistiu em silêncio os comandantes montarem em seus cavalos de guerra.
Ao sinal de Cedric, a vanguarda marchou. As três centenas de lanceiros, a cavalaria pesada e os sete lobos colossais atravessaram o fosso sob os estandartes cinzentos da Casa Wolff, sumindo sob o arco da ponte levadiça enquanto a nevasca começava a fechar os desfiladeiros. As gigantescas correntes de bronze rangeram em um protesto metálico, erguendo as pontes de madeira e selando KarMorn contra o restante do mundo.
O cerco não foi um golpe rápido; arrastou-se por quase quatro semanas de agonia silenciosa e fome cinzenta.
O tempo em KarMorn perdeu as marcações do calendário, tornando-se uma pasta fria e contínua. As rotas de comércio que subiam de Minópolis haviam sido bloqueadas pelo Império, e o isolamento cortou qualquer linha de suprimentos. Nos porões profundos da fortaleza, a umidade congelou as paredes de pedra, apodrecendo os últimos sacos de cevada e transformando as raízes de inverno em blocos duros e intragáveis como granito. Os poucos animais restantes nas baias pereceram de frio nas primeiras duas semanas, suas carcaças congelando antes que pudessem ser salgadas por completo.
Connor racionava cada migalha. Alimentava-se de pedaços de pão duro e bolorento raspados com a adaga, tiras de toucinho rançoso e água de neve derretida em uma panela de ferro sobre brasas fracas. Suas gengivas sangravam pelo escorbuto e pelo ar ressequido da montanha, as juntas dos dedos rachavam com o contato constante do calcário, mas ele não abandonava o pátio. Todas as manhãs, empunhava o freixo de treino contra o boneco de palha até as palmas das mãos esfolarem na madeira.
Na terceira semana de isolamento, quando o pânico da fome venceu a lealdade, os últimos criados da fortaleza decidiram desertar.
Connor foi despertado no meio da noite pelo ranger metálico das trancas do portão secundário das cocheiras. Empunhando a espada de ferro curto na mão dormente, ele desceu as escadarias em caracol com passos silenciosos, acompanhado por Fenrir.
No pátio inferior, à luz amarelada de uma lanterna de sebo, quatro servos remanescentes amarravam sacas de farinha e cobertores de lã. Entre eles, o rapaz mais velho dos estábulos — um jovem de dezesseis anos de ombros largos — puxava as rédeas do último cavalo de carga de KarMorn, trazendo uma espada de aço de guarnição presa à cintura.
— Parem! — gritou Connor, a voz de doze anos cortando o vento gélido do pátio. Ele desceu os últimos degraus e colocou-se diante da passagem. — O lorde deu uma ordem antes de marchar. Os portões devem permanecer trancados por trás. Ninguém abandona KarMorn!
Os criados paralisaram, assustados. Mas o rapaz do estábulo virou-se lentamente, cuspindo no cascalho congelado. Ele desembainhou a espada de aço com um chiado áspero de metal e deu dois passos à frente, apontando a ponta fria da lâmina diretamente contra o peito de Connor.
— Seu pai está morto sob os escombros da Muralha, garoto — disse o rapaz, os olhos cheios de desespero e desprezo. — E a sua mãe virou cinza junto com a guarda. Eu não vou apodrecer nesta tumba de pedra para morrer de fome como um cachorro igual aos nobres patéticos do Norte. Nenhum príncipe fraco e magrelo vai me impedir de cruzar a fronteira e ter uma nova vida no Sul!
Fenrir projetou-se para a frente, o pelo branco eriçado e os olhos azul-gelo faiscando sob a luz da lanterna. O lobo soltou um rosnado gutural e mostrou as presas compridas, a mancha de sangue eterno no peito pulsando em escarlate vivo.
O rapaz do estábulo recuou meio passo, assustado com a ferocidade do animal, mas manteve a lâmina erguida.
Connor não tremeu. Ele encarou a ponta da espada e os olhos do desertor com uma frieza gélida que não pertencia a uma criança. Seus dedos apertaram o cabo do ferro curto, a estática carmesim zumbindo fraca sob a pele.
— Se você passar por esse portão — disse Connor, a voz baixa e cortante como gelo fino —, nunca mais volte. O Norte não tem perdão para covardes.
O rapaz bufou, montou no cavalo com pressa e empurrou as portas de madeira com o pé. Os outros servos dispararam atrás dele pela abertura, engolidos pela tempestade de neve e pela escuridão da estrada baixa.
Connor ficou em pé no meio do pátio deserto, ouvindo apenas o vento uivar pelas seteiras vazias.
Ele caminhou até o portão, recolocou a pesada barra de ferro fundido no trinco com as próprias mãos dormentes e trancou a fortaleza por dentro.
Nas entranhas silenciosas do castelo, restava apenas uma única alma.
Ao lado dos fornos apagados das cozinhas de pedra, deitada sobre uma enxerga de palha e peles puídas, estava a velha Hulda. A idosa serva, responsável pelas despensas e pelas refeições de KarMorn desde o nascimento de Connor, recusara-se a fugir com os desertores. O corpo frágil ardia em febre alta, as bochechas encovadas pela fome e a respiração saindo em estertores fracos.
Connor ajoelhou-se ao lado da esteira, segurando a mão enrugada e fria da velha criada. Fenrir aproximou-se em passos lentos e deitou o focinho grande ao lado da cama, soltando um ganido suave.
— Hulda... — chamou o garoto, a voz embargada. — Beba um pouco d'água. Eu derreti a neve na brasa.
A velha abriu os olhos turvos pela doença. Seus dedos ossudos apertaram a mão de Connor com uma força desesperada que parecia drenar o resto de sua vida.
— Ouça com atenção, meu pequeno lorde... — a voz de Hulda era um sussurro rouco, entrecortado pela tosse. — Quando as paredes caírem... você precisa ir para Pedra do Corvo.
Connor franziu o cenho, confuso.
— Minha irmã vive naquele vilarejo — continuou a idosa, as lágrimas abrindo caminhos na poeira de seu rosto enrugado. — E ela esconde a sua tia... Lady Birna. Ela é a única Wolff reconhecida que restou fora destes muros. Ela sabe como proteger você. Se alguém do exército sobreviveu à carnificina da Muralha... se Duncan ou os batedores escaparam... o primeiro lugar onde irão buscar refúgio é na casa de Birna em Pedra do Corvo.
Connor balançou a cabeça com veemência, os maxilares trancados.
— Eu não vou para vilarejo nenhum, Hulda. Eu fiz uma promessa solene ao meu pai de que nunca abandonaria KarMorn. Este é o meu posto.
Um sorriso fraco, doce e doloroso curvou os lábios ressequidos da velha serva.
— Você é um garoto tolo, Connor... — murmurou ela, acariciando os nós dos dedos calejados do menino com o polegar fraco. — Teimoso, nobre e honrado até o osso... exatamente como o lorde Cedric e a senhora Rowena. Mas eu sinto um orgulho imenso de ter servido a sua linhagem até o meu último suspiro.
Hulda fechou os olhos devagar. O peito murcho soltou um último sopro longo e não voltou a subir.
Connor permaneceu imóvel na penumbra por longos minutos, segurando a mão imóvel da mulher enquanto as lágrimas caíam em silêncio. Ele puxou a manta de linho sobre o rosto da criada, cobrindo o corpo com respeito, e levantou-se.
Agora, na imensidão gélida de KarMorn, restavam apenas ele e Fenrir.
Ao seu lado, Fenrir transformava-se com uma rapidez assombrosa.
Os lobos colossais da linhagem ancestral de KarMorn não seguiam o ciclo biológico das feras comuns; seu metabolismo mágico acelerava sob a pressão do gelo e da sobrevivência. Ao longo daquelas semanas de cerco e tempestades contínuas, o jovem lobo perdeu a fragilidade dos primeiros meses: as patas dianteiras engrossaram, o peito alargou-se em músculos densos e sua cernelha ergueu-se até a altura do peito de Connor. A pelagem branca, espessa e salpicada de cinza, tornou-se uma couraça impenetrável ao vento polar, e seus olhos azul-gelo adquiriram o foco afiado de um caçador adulto.
Nas noites em que a temperatura despencava tanto que a madeira das vigas estalava como tiros de mosquete, Connor dormia no chão de pedra do quarto com os braços enterrados na pelagem densa de Fenrir. O calor do lobo era a única fornalha viva que mantinha o sangue do garoto circulando nas artérias.
No vigésimo sexto dia de isolamento, a calmaria gélida ruiu.
Na calada da madrugada, o céu sobre KarMorn iluminou-se em vermelho-sangue quando obuses incendiários e canhões a vapor da Terceira Legião começaram a bombardear os parapeitos superiores. O impacto das bombas mecânicas estilhaçou as torres de vigia em cascatas de pedra e fogo.
Gritos de sentinelas e o tinir frenético de sinos ecoaram pelas galerias.
Connor acordou com o teto de seu quarto estalando em rachaduras profundas. Fenrir rosnou alto, o corpo já musculoso e imponente posicionado diante da porta, as presas expostas em alerta de combate. O garoto calçou as botas de caça, afivelou a adaga de ferro no cinto e desceu correndo pelas galerias em colapso.
O pátio interno ardia em chamas negras. Sentinelas mecânicas de chumbo e soldados imperiais com casacos cinzentos, empunhando mosquetes pesados com longas baionetas caladas, já haviam arrombado o portão secundário da muralha, disparando salvas estrondosas de chumbo pelas galerias.
— Por aqui, Fenrir! — gritou Connor.
Ele empurrou a pesada grade de ferro da passagem de drenagem sob as cocheiras, rastejando pelo duto de pedra úmida com o lobo jovem forçando a passagem ao seu lado. Quando emergiram na encosta externa do penhasco, KarMorn era uma fornalha de fumaça, pólvora e escombros que desmoronava sob o bombardeio imperial.
Connor não chorou. Ele olhou para a trilha ao norte, onde as colunas de fumaça e o eco distante de canhões indicavam o front da Grande Muralha.
— Eles estão lá — murmurou o garoto, a voz rouca pelo ar impregnado de fuligem e enxofre. — Vamos.
A marcha durou horas através da nevasca furiosa. Connor e Fenrir avançaram pelas cristas rochosas, seguindo a linha de estandartes despedaçados, carcaças de carruagens blindadas destruídas, cápsulas de munição vazias e sangue congelado na neve.
Ao alcançarem o topo do desfiladeiro principal, a visão da Grande Muralha fez o peito de Connor se fechar.
A lendária muralha milenar que protegia o Norte havia sido partida ao meio por uma explosão descomunal. Um rombo de trinta metros de largura abria-se na rocha antiga. Diante da brecha, estendia-se uma gigantesca cratera de impacto com mais de cinquenta metros de diâmetro, coberta por centenas de corpos congelados, cavalos abatidos, mosquetes partidos e lanças fincadas na terra queimada.
O silêncio do campo de morte era quebrado apenas pelo sopro do vento gelado.
Connor começou a descer a encosta íngreme da cratera, escorregando na neve misturada com cinzas e terra batida. Fenrir farejava o ar com as orelhas baixas, soltando ganidos aflitos e guiando o garoto entre os montes de corpos imóveis.
No epicentro da cratera, cercado por um círculo de soldados imperiais mortos com armaduras retalhadas e mosquetes arrebentados, jaziam dois corpos sobre o leito de basalto.
Lady Rowena estava deitada de costas, a capa escarlate rasgada sobre a neve, as mãos ainda estendidas como se canalizassem as últimas chamas de sua vida para erguer uma barreira térmica. Seus olhos fechados repousavam em uma serenidade pálida.
Sobre o corpo dela, caído em arco protetor, estava Lord Cedric Wolff.
O lorde do Norte tombara lutando até o último suspiro. Seu peito blindado fora crivado por estilhaços de chumbo e múltiplas lanças, mas seus braços rígidos e congelados ainda envolviam o aço que ele jurara guardar até o fim.
Sob o peito ensanguentado de Cedric, repousava a Loba Sangrenta.
A colossal espada de aço negro da Casa Wolff reluzia com um brilho fosco sob a camada de geada. A lâmina larga de dois gumes, com runas antigas gravadas ao longo do sulco central, não continha uma única mancha de ferrugem.
Connor caiu de joelhos na neve. A espada de treino de freixo escorregou de seus dedos dormentes e rolou pelo cascalho.
— Mãe... — O sussurro escapou fino, trêmulo.
Ele estendeu as mãos nuas e pressionou as palmas contra as bochechas de Rowena. Soprou o próprio hálito quente sobre os olhos fechados da mulher, esfregando a pele pálida na tentativa desesperada de fazer o calor retornar, mas a carne permaneceu dura e fria como ardósia. Ele virou-se para Cedric, agarrou as ombreiras pesadas da armadura negra com as duas mãos e sacudiu o corpo do pai com toda a força de seus doze anos.
— Pai... levanta... — Connor arfou, os dentes batendo enquanto sacudia o metal. — Levanta... por favor...
O corpo não cedeu um centímetro. Os braços de Cedric permaneciam travados em rigor mortis ao redor da empunhadura da Loba Sangrenta.
Connor enfiou os dedos machucados sob as manoplas de ferro do pai e puxou a espada com um arranco violento.
A crosta de gelo e sangue partiu-se com um estalido seco.
A lâmina colossal soltou-se, caindo pesadamente sobre as coxas do garoto. Connor ergueu as mãos diante do rosto: a pele arroxeada dos nós dos dedos, as unhas rachadas e as palmas estavam empastadas por uma crosta espessa e pegajosa de sangue escuro e fuligem.
O peito do menino travou em um espasmo seco.
Ele puxou o ar, mas a garganta fechou-se em um nó espesso. Connor dobrou o tronco sobre as próprias pernas, encostou a testa no gelo tingido de escarlate ao lado do pescoço de Cedric e foi sacudido por soluços violentos e roucos. As lágrimas quentes escorriam descontroladas por seu nariz e bochechas, congelando em pontas afiadas sobre os cílios antes de tocarem a neve. Suas unhas arranharam a brita congelada até os dedos sangrarem.
Connor virou o rosto de lado sobre o chão gelado, os olhos vermelhos e inchados fitando as patas de Fenrir a poucos centímetros de seu nariz.
— Acabou, Fenrir?... — O garoto balbuciou em arfadas curtas, a saliva misturando-se à fuligem na ponta do queixo. — Não sobrou ninguém?... Acabou tudo?
Ele ergueu o queixo devagar, o olhar varrendo o vazio ao redor.
Centenas de cotas de malha rompidas, membros decepados e cavalos retalhados jaziam imóveis sob a poeira de cinzas. Trinta metros acima, o rombo aberto no basalto da Grande Muralha exalava uma névoa viscosa de tom púrpura-escuro. O cheiro de carne queimada misturado a um odor fétido de cobre podre descia das fendas da pedra.
O ar impregnado por aquele veneno pesado fez a garganta de Connor arder. Seus ombros cederam. O queixo pendeu contra o peito, as pálpebras pesando enquanto o frio entorpecente drenava a força de seus músculos, puxando-o para o chão.
Fenrir avançou um passo rápido pela brita.
O lobo enfiou o focinho largo sob o queixo de Connor, erguendo a cabeça do garoto com firmeza, e colou o próprio peito quente contra o esterno do menino.
Os olhos azul-gelo de Fenrir reluziram na penumbra da cratera. A mancha de sangue eterno em formato de presas entrelaçadas em seu peito começou a queimar em um brilho escarlate pulsante. O animal soltou um bufo sonoro pelas narinas, e uma onda física de calor primitivo disparou de sua pelagem diretamente para o peito de Connor.
O choque térmico fez o menino arfar alto, expelindo o ar contaminado em uma nuvem densa de vapor.
Ao mesmo tempo, o metal da Loba Sangrenta encostado às suas pernas vibrou com um zumbido grave. Fios de eletricidade carmesim saltaram da lâmina de aço negro para os punhos de Connor, fazendo os músculos de seus antebraços contraírem com estalos secos de estática viva. A dormência foi varrida de suas juntas; o coração voltou a bater com força contra as costelas.
Connor puxou o ar com os pulmões cheios. Ele limpou o nariz e os olhos com a manga áspera do casaco e envolveu o pescoço de Fenrir com os dois braços, afundando os dedos na pelagem espessa e quente até as mãos pararem de tremer.
— Eles estão com a gente — disse Connor, a voz rouca, mas os dentes firmemente trancados. — Enquanto a gente andar, KarMorn não caiu.
Ele pegou a ponta de ferro da lâmina curta que caíra na neve e apontou para o paredão protegido da cratera.
— Me ajude, Fenrir. Não podemos deixar os dois aqui.
O jovem lobo avançou até o abrigo da encosta interna da cratera e começou a escavar o solo congelado com as patas dianteiras e o focinho resistente. Connor usou a ponta de ferro da lâmina curta para quebrar as placas de gelo, abrindo uma vala comprida e protegida dos ventos cortantes.
Com esforço concentrado em cada músculo de seus doze anos, Connor arrastou os corpos de Cedric e Rowena para o interior da cova, ajeitando o pai e a mãe lado a lado e cobrindo-os com o manto escarlate de veludo de Lady Rowena.
Ele empilhou terra firme, neve compactada e blocos pesados de calcário sobre a sepultura improvisada, selando o túmulo contra as feras da montanha.
Ajoelhado diante do monte de pedras, com o vento norte agitando seus cabelos cinzentos, Connor pousou as palmas manchadas de sangue sobre o túmulo e fez sua promessa solene:
— Eu voltarei no verão... quando a neve derreter e o Norte estiver livre. Eu darei a vocês o funeral que reis merecem.
Connor ergueu-se. Ele pegou a Loba Sangrenta, envolveu a colossal lâmina negra em tiras resistentes de lona e couro e amarrou a espada firmemente em suas costas com cordas cruzadas sobre o peito.
Ao lado de Fenrir, que caminhava vigilante com a marca escarlate das presas reluzindo no peito alvo, Connor subiu a borda da cratera e fixou o olhar na direção nordeste, onde as montanhas guardavam o vilarejo de Pedra do Corvo.
Com os dentes trancados e os punhos cerrados, o jovem herdeiro de KarMorn iniciou a sua marcha pela tempestade.
