Capítulo 1 - Fiona
Os sussurros seguiam Fiona Moonstone aonde quer que ela fosse.
Eles deslizavam pelos corredores da casa da alcateia como fumaça, contornavam as esquinas nos campos de treinamento e pesavam como pedras no refeitório comunitário. Sem-lobo.
Essa palavra tinha se tornado sua sombra, seu segundo nome, a marca que a rotulava como quebrada em um mundo onde se transformar significava tudo.
Fiona mantinha o queixo erguido enquanto caminhava pelo coração do território da Moon River Pack, com sua bolsa de lona pendurada em um ombro, os dedos manchados de tinta agarrados à alça.
O sol da tarde iluminava o tom avermelhado profundo de seu cabelo — uma cor como folhas de outono ou brasas moribundas, herdada da linhagem de sua mãe. Antigamente, aquele cabelo fora uma marca de beleza, de distinção. Agora, parecia um farol anunciando seu fracasso. Olhem para a filha do Alfa, os olhares pareciam dizer. Todo aquele fogo no cabelo, mas nenhum lobo na alma.
Ela aprendera meses atrás que baixar a cabeça só atraía mais pena, mais olhares acusadores. Era melhor encarar os olhos deles — as mães que puxavam os filhos para mais perto, os guerreiros que olhavam através dela como se ela já fosse um fantasma, as garotas de sua idade que tinham se transformado aos dezoito anos e agora corriam com a alcateia sob a lua cheia enquanto Fiona ficava para trás, sozinha.
Mas eu não sou sem-lobo, ela pensou com ferocidade, como fazia cem vezes por dia. Eu não sou.
O lobo estava lá. Ela a sentia em sua mente como um segundo batimento cardíaco, uma presença que caminhava de um lado para o outro na jaula de sua consciência. Às vezes, no intervalo entre o sono e o despertar, ela quase conseguia vê-la — pelos prateados brilhando como o luar na água, olhos que queimavam com um conhecimento ancestral.
Mas quando ela tentava alcançá-la, quando tentava invocá-la, havia apenas silêncio. Apenas o terrível e profundo abismo entre o que ela era e o que deveria ser.
O sol de setembro pairava baixo sobre as terras da alcateia, pintando tudo em tons de âmbar e ouro. As botas de Fiona estalavam no caminho de cascalho que se afastava do assentamento principal, em direção à floresta e ao rio logo adiante. Ela caminhou mais rápido, seu cabelo ruivo esvoaçando atrás dela como uma bandeira, desesperada para colocar distância entre si mesma e o peso sufocante do julgamento deles.
— Fiona! Espera! —
Ela fechou os olhos brevemente e virou-se. Ennis corria em sua direção, com seu sorriso fácil estampado no rosto. Seu irmão sempre teve um temperamento radiante, mesmo que não na coloração — o mesmo ruivo marcante de seu cabelo pegava a luz enquanto ele corria, mas, onde o cabelo dela parecia anunciar seu fracasso, o dele apenas realçava seu sucesso.
Aos vinte e dois anos, ele já era um dos melhores guerreiros da alcateia, destinado a uma posição de honra ao lado de seu pai. Seu lobo era forte e seguro, uma fera marrom-avermelhada que emergira em seu décimo oitavo aniversário sem hesitação, sem questionamentos.
— Para onde você vai? — ele perguntou, começando a caminhar ao lado dela. — Para o rio. — Ela não deu mais explicações. Nunca precisou, não com Ennis. O sorriso dele diminuiu um pouco. — Papai está procurando você. Tem reunião da alcateia hoje à noite. — A mandíbula de Fiona travou ao ouvir o nome de Kieran.
O pai deles — o Alfa Kieran Moonstone, líder de uma das alcateias mais fortes da região — estava distante desde o seu décimo oitavo aniversário. Não cruel, nunca cruel, mas havia algo nos olhos dele agora quando ele olhava para ela. Algo que poderia ser decepção. Ou medo. Ou culpa. Ela não sabia dizer o que era pior.
— Eu sei — ela disse. — Voltarei antes de escurecer.
Outra reunião em que ela ficaria no fundo, nem totalmente parte da alcateia, nem separada dela. Outra noite de expressões cuidadosamente neutras enquanto eles discutiam patrulhas, território e todas as coisas que exigiam que um lobo participasse.
Ennis segurou o braço dela gentilmente. Quando ela encontrou os olhos dele — o mesmo verde que os dela, o mesmo que os de sua mãe — ela viu a preocupação ali, a frustração que ele tentava esconder. — Fee, você não pode continuar fugindo toda vez que... — — Eu não estou fugindo. — As palavras saíram mais ásperas do que ela pretendia. — Eu vou pintar. Existe uma diferença.
— Será? — Ele estudou o rosto dela, e ela se perguntou o que ele via. A irmã com quem crescera, que costumava correr com ele pela floresta e sempre, sempre perdia? Ou a estranha em que ela se tornara após seu décimo oitavo aniversário, quando a transformação que deveria ter vindo nunca aconteceu?
Fiona soltou o braço, mas suavizou o tom de voz. — Eu só preciso de um pouco de espaço, Ennis. Por favor. — Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo ruivo — um gesto tão parecido com o de seu pai. — Tudo bem. Mas tome cuidado, está bem? Houve relatos de lobos rebeldes perto da fronteira leste.
— O rio não fica nem perto da fronteira leste.
— Apenas... tome cuidado. — Ele apertou o ombro dela uma vez e depois voltou em direção à casa da alcateia, com um passo confiante e firme.
Fiona o viu partir e, então, virou-se e mergulhou na floresta.
As árvores a receberam como velhas amigas. Ali, sob a copa de carvalhos e pinheiros, os sussurros não podiam segui-la. Ali, ela podia respirar. Seus pés encontraram o caminho familiar sem que ela precisasse pensar, serpenteando entre raízes cobertas de musgo e troncos caídos, mais profundamente nas sombras verdes onde a luz do sol filtrava-se em feixes dourados.
O lobo em sua mente agitou-se, pressionando a barreira invisível que a mantinha enjaulada. Fiona sentiu o desejo da loba como se fosse seu — a vontade de correr em quatro patas em vez de duas, de sentir a terra sob as patas em vez de botas, de ser completa de uma maneira que ela não era desde a noite de seu décimo oitavo aniversário.


