Capítulo 1: O gato tinha coisas melhores a fazer
O gato laranja estava sentado no galho mais alto do bordo, limpando a pata com preguiça, como se não tivesse causado o maior caos nos últimos vinte minutos.
"Senhor", disse Mia Harper, com as mãos na cintura, encarando a ameaça peluda. "Estou tentando salvar você. O mínimo que pode fazer é parecer um pouco grato."
O gato piscou.
Uma pequena multidão tinha se reunido na calçada.
A Sra. Henderson, a senhora idosa que morava ao lado, torcia suas luvas de jardinagem nas mãos. "Oh, Pumpkin nunca tinha subido tão alto antes."
Pumpkin bocejou.
Mia olhou do gato para a escada de alumínio bamba encostada no tronco. Ela não era exatamente fã de altura, mas também não suportava ver a Sra. Henderson à beira das lágrimas.
"Vai dar tudo certo", Mia a tranquilizou, soando muito mais confiante do que realmente se sentia. "Já assisti a vídeos de resgate suficientes na internet."
Um adolescente que passeava com seu cachorro diminuiu o passo.
"Esses vídeos geralmente terminam com o corpo de bombeiros", ele observou.
Mia deu um sorriso para ele. "O pessimismo não combina com você."
"E também não quebra ossos."
Ela o ignorou.
Com um último suspiro profundo, ela subiu na escada.
Um degrau.
Dois.
Três.
A escada velha rangeu.
"Eu não gosto desse barulho", ela murmurou.
A Sra. Henderson olhou para cima, nervosa. "Quer que eu chame alguém?"
"Está tudo bem!", Mia gritou lá de cima. "Eu sou praticamente uma profissional."
Outro rangido.
"...Uma profissional muito nervosa."
A pequena multidão trocou olhares de dúvida.
Quando Mia chegou ao topo, Pumpkin estava a apenas um braço de distância.
"Aí está você." Ela estendeu as duas mãos com cuidado. "Venha aqui, docinho encrenqueiro."
Pumpkin a encarou.
Então, com toda a confiança do mundo...
...ele se levantou.
Virou-se.
E subiu ainda mais.
Mia ficou de queixo caído.
"Ah, você só pode estar brincando."
Alguém lá embaixo soltou uma risada abafada.
"Você não podia ter feito isso cinco minutos atrás?", ela gritou para o gato.
Pumpkin desapareceu em outro galho.
"Então...", o adolescente gritou. "Qual é o plano B?"
Mia olhou para baixo.
Grande erro.
O chão parecia muito mais distante do que ela se lembrava.
Seu estômago revirou.
"Ok", ela sussurrou para si mesma. "Não entre em pânico."
A escada balançou.
"Ah."
Ela balançou de novo.
"Ah, não."
O cachorro na calçada latiu.
A Sra. Henderson arfou.
Tudo aconteceu ao mesmo tempo.
Um pé escorregou.
Seu equilíbrio sumiu.
Mia fez uma tentativa espetacular de abraçar a árvore.
A árvore rejeitou o abraço.
Ela soltou um grito pouco digno enquanto tombava para o lado...
...e caiu com um mergulho estrondoso.
A água explodiu no ar.
O silêncio veio em seguida.
Mia emergiu no meio da piscina inflável infantil da Sra. Henderson, encharcada da cabeça aos pés. Um pato de borracha amarelo brilhante flutuou passando pelo seu ombro, como se verificasse se ela ainda estava viva.
O adolescente ficou boquiaberto.
"...Dez de dez."
"Eu estava mirando na piscina", Mia respondeu fracamente.
"Não, não estava."
"Não", ela admitiu. "Com certeza não estava."
A Sra. Henderson correu até lá.
"Meu Deus! Você se machucou?"
Mia tentou se levantar.
No momento em que colocou peso sobre o pulso direito, uma dor aguda subiu pelo braço.
Ela congelou.
"...Ok."
Isso não era bom.
Ela tentou sorrir mesmo assim.
"Acho que a minha dignidade levou a pior."
A multidão riu.
Até a Sra. Henderson conseguiu soltar uma risadinha de alívio.
Uma menininha apontou para a árvore.
"O gatinho desceu."
Todos olharam para cima.
Pumpkin desceu casualmente pelo tronco por conta própria, aterrissou com graça na grama e se esfregou na perna da Sra. Henderson, como se estivesse esperando a agitação acabar.
Mia encarou o gato.
"Você...", ela disse, apontando para o gato com a mão boa. "Você está proibido das minhas missões de resgate."
Pumpkin ronronou.
Vinte minutos depois, Mia estava sentada no banco do passageiro do pequeno hatch de sua melhor amiga, Ava, segurando uma bolsa de gelo contra o pulso.
Ava olhou de relance antes de sair da garagem.
"Deixa eu adivinhar."
Mia suspirou.
"Você viu o grupo de mensagens do bairro."
"Já tem três vídeos."
Mia cobriu o rosto.
"Eu estava tentando ajudar."
"Eu sei."
"Eu nem salvei o gato."
"Tecnicamente, você salvou a si mesma."
"Por pouco."
Ava conteve um sorriso que durou apenas dois segundos antes de cair na risada.
"Desculpe", ela disse ofegante. "Mas alguém colocou uma música dramática de filme por cima do vídeo."
"Ah, isso é cruel."
"E também é muito engraçado."
Mia gemeu e encostou a cabeça na janela.
"Eu nunca mais vou sair do meu apartamento."
"Você diz isso todo mês."
"Desta vez é sério."
Ava entrou no estacionamento do hospital e desligou o motor.
"Eu vou acreditar nisso logo depois da sua próxima aventura."
Mia franziu a testa.
"Não haverá uma próxima aventura."
Ao longe, a sirene de uma ambulância ecoou em direção à entrada de emergência.
Nenhuma das duas percebeu.
Nem Mia fazia ideia de que, antes do dia acabar, ela conheceria o homem que transformaria silenciosamente seu mundo de cabeça para baixo em algo ainda mais imprevisível do que um gato laranja em uma árvore.
E ao contrário de Pumpkin...
O Dr. Blake Donovan não seria nem de longe tão fácil de escapar.




