Personalizar legibilidade
Aa

A culpa tem meu nome

Todos os Direitos Reservados ©

Resumo

Nos contos, a música anuncia o vilão. Na vida real, quem faz esse papel? Entre palavras, silêncios e histórias contadas pela metade, este poema questiona como escolhemos nossos culpados — e o cuidado com que preservamos nossa própria inocência. Quando cada pessoa pode contar sua versão, quem fica com o nome da culpa?

Gênero
Poetry
Autor
Skyler
Status
Completo
Capítulos
1
Classificação
n/a
Classificação Etária
13+

A culpa tem meu nome

Quando criança,

eu reconhecia o vilão

antes que ele dissesse qualquer coisa.

A música avisava.

A sombra crescia.

Até a roupa colaborava.

Era um mundo muito organizado:

o mal tinha endereço,

o bem tinha plateia,

e ninguém perguntava

quem havia escrito o roteiro.

Depois, a música parou.

O homem da sombra comprava pão.

O herói perdia a paciência na fila.

E a cidade continuava funcionando

sem ninguém distribuir os papéis.

Como reconhecer o vilão agora?

Pela voz?

Há palavras doces

que deixam um gosto amargo.

Pelas mãos?

As mesmas que oferecem abrigo

podem fechar a porta.

Talvez ele more numa frase.

Uma frase pequena,

dessas que atravessam uma mesa

e chegam à outra ponta

com alguém a menos dentro.

Talvez esteja num silêncio.

Para quem se afasta, descanso.

Para quem espera, castigo.

A porta permanece a mesma.

Cada lado lhe dá um nome.

Há quem vire monstro

por dizer não.

Há quem receba aplausos

por ensinar uma multidão

a não escutar.

E há o velho truque:

contar uma história

começando exatamente

onde o outro perdeu a calma.

O público gosta.

Economiza perguntas.

Quem tomou o pão

explica a própria fome.

Quem voltou sem ele

precisa explicar aos filhos.

A necessidade tem uma história.

O prejuízo também.

O pão, infelizmente,

não reaparece

quando termina a explicação.

Nem toda culpa é inventada.

Há atos que deixam consequências

mesmo quando o responsável

escolhe palavras bonitas.

Mas como somos cuidadosos

com o nome dos nossos atos.

Minha crueldade foi um momento difícil.

A sua revela quem você é.

Meu silêncio merece compreensão.

O seu exige julgamento.

Curiosa justiça:

a defesa trabalha em casa,

a sentença vai para os vizinhos.

Talvez o vilão seja, às vezes,

uma pessoa.

Outras vezes, o nome

que damos ao trabalho

de compreender uma pessoa.

Talvez esteja no que foi feito.

Talvez no que juraram que foi feito.

Talvez no detalhe retirado

para a história terminar melhor.

E eu, que escrevo,

também escolho onde começo.

Também posso esconder uma frase

e chamar o espaço de inocência.

É confortável este lado da página.

Daqui, todos parecem personagens.

Basta descrever minha dor com cuidado,

os erros dos outros com precisão,

e deixar os meus

para uma edição que nunca sai.

Pronto.

Um herói.

Mas a pessoa do outro lado

também aprendeu a escrever.

Abro sua história.

Reconheço a rua,

o dia,

a discussão.

Procuro o monstro.

A culpa tem meu nome.

Na minha,

tinha o dela.

Deixe Skyler saber o que você pensou sobre este capítulo!
Amo isso

0

Amo isso

Engraçado

0

Engraçado

Picante

0

Picante

De Suspense

0

De Suspense

Emocional

0

Emocional

Profundo

0

Profundo

Tocante

0

Tocante

Chocante

0

Chocante

Boa Escrita

0

Boa Escrita

Enredo Envolvente

0

Enredo Envolvente

Personagem Ótimo

0

Personagem Ótimo

Diálogo Forte

0

Diálogo Forte

Outras Recomendações

O Jardineiro de Mentes

Lady Vellichor: Gostei muito da maneira como aborda a dor, a depressão e o luto por meio de uma jornada de cuidado e autoconhecimento, sem transformar a recuperação em algo simples ou imediato. 🤍

Leia Agora
A culpa tem meu nome