Capítulo 1
Jett
O som dos meus pés batendo forte no asfalto era a única coisa na minha cabeça. Isso, e a respiração. Longas e profundas, inspirando e expirando, inspirando e expirando. Correr não era minha atividade favorita, mas ainda assim fazia questão de incluir na rotina. Todo dia, chuva ou sol, eu saía para uma corrida firme em algum momento.
Se estivesse com vontade de suar de verdade, até ia para a academia, mas isso acontecia bem menos do que a corrida em si. Nem sempre tinha tempo de ir até lá e mexer com todos os aparelhos – sem contar que não curtia a atenção exagerada que sempre recebia quando aparecia.
Não tinha problema nenhum em chamar atenção feminina. Na verdade, muitas vezes tinha mais do que sabia o que fazer. Pertencer a um clube de motoqueiros parecia fazer isso acontecer. Não precisava me esforçar muito para conseguir o que queria de qualquer uma delas.
E o que eu queria era simples. Uma noite na cama, sem compromisso nem expectativa de que fosse levar a algo mais, estava ótimo para mim. Era até o ideal.
A última coisa de que precisava era de alguém grudenta. Já tinha coisa demais na minha vida. Não queria ter que me preocupar em deixar uma mulher feliz em cima de tudo. O clube era minha vida. Sempre tinha sido, e sempre seria.
Sou Jett Corbin, filho de Jimbo Corbin, o fundador dos Steel Wings.
Meu pai colocou o coração e a alma no MC, e, crescendo, muitas vezes me senti como um presente para eles. O clube era meu destino; os homens, minha família. E, depois da infância escrota e merda que tive, sentia que precisava daqueles caras mais do que de qualquer outra coisa na vida.
Não importava o que acontecesse comigo – o que rolasse –, eles estavam lá. Estavam sempre, e eu era grato por isso. Com eles, não havia amarras nem condições. Fazíamos nossas próprias regras, vivíamos nossas próprias vidas e estávamos juntos na alegria e na tristeza.
Nada podia nos atrapalhar, e ninguém podia se meter entre nós. Era uma irmandade unida pela lealdade e um amor genuíno pelos outros membros.
Não mudaria nada.
Então, quando terminei mais uma corrida, o peito subindo e descendo enquanto conferia o tempo, sabia que precisava tomar um banho e ir para o bar. Era lá que passávamos a maior parte do tempo, e já estava ansioso para encontrar os caras.
Era uma ótima maneira de ficar por dentro do que rolava na rua e descobrir o que estava acontecendo na cidade – e nas redondezas também, aliás. Gostava de estar por dentro do que os outros MCs andavam aprontando, principalmente aqueles que não eram nada amigáveis.
Eles eram até mais chatos que os policiais, na real. Não só ameaçavam nossas fronteiras e nosso pessoal, mas também nosso negócio. Não que eu fosse totalmente a favor da grana que circulava ou das mercadorias que a gente vendia, mas precisávamos sobreviver de algum jeito. Não fui eu que fiz as regras, só as cumpria.
Acelerei o passo de novo para terminar a corrida com tudo, dobrando a esquina de volta para casa com a energia que me restava. Me sentia bem quando corria. Me sentia vivo. O som do sangue correndo na cabeça e a respiração subindo e descendo sob o sol da tarde eram eletrizantes – quase como quando estava em cima da minha Harley favorita.
Mas, com os minutos passando, sabia que tinha que me apressar para trocar de roupa e descer para o bar. Queria chegar antes que o lugar enchesse de gente que não era do clube e garantir um bom lugar com alguns dos meus caras. Claro, podia mandar todo mundo sair se quisesse, mas isso sempre dava uma dor de cabeça, ainda mais se já estivessem meio bêbados.
Preferia me acomodar e deixar claro onde estaria naquela noite antes que alguém tivesse a chance de atrapalhar ou sentar perto demais e ficar ouvindo a conversa. Não era um lugar privado para ficar, mas servia ao nosso propósito, e era só isso que importava.
Sem contar que já fazia um tempo que não levava uma mulher bonita para a cama. Estava sentindo a falta e queria transar. Porra, precisava transar, e logo. Não gostava daquela tensão crescendo no corpo, e só havia uma maneira de tirá-la do sistema.
Eu era um caçador, e agora estava procurando uma presa.
E aquela noite teria alguém na minha cama.
O bar estava ficando cheio quando entrei, mas não demorei para localizar os outros membros do clube.
Todos usávamos nossos emblemas com orgulho – alguns nas costas das jaquetas de couro, outros nos coletes. Claro, a maioria também tinha o símbolo tatuado de um jeito ou de outro, embora não fosse raro se perder no meio de todas as outras tatuagens que ostentávamos.
Tínhamos nossa cota de tinta no corpo, e todos curtíamos cortes de cabelo ousados – uns com o cabelo quase raspado, outros com estilos mais radicais.
Pessoalmente, gostava de deixar o cabelo raspado nas laterais e mais comprido em cima. Não era longo em lugar nenhum, mas era um visual marcante, e chamava atenção. Claro, com minha atitude e meu estilo, já chamava atenção de qualquer jeito – uns porque sabiam que era melhor manter distância, outros porque só esperavam que eu lhes desse uma chance.
Um grupo de quatro dos caras estava em volta de uma mesa, então fui direto para eles. É claro que abriram espaço para mim, me recebendo com tapas nas costas e piadas de sempre.
— Já estava na hora de você aparecer — um deles provocou. — A gente já tava achando que ia ficar na mão hoje.
— Desde quando eu faço isso? — perguntei. — Alguém tem que ficar de olho em vocês.
Eles estavam jogando cartas, e havia cervejas em volta da mesa, mas eu queria algo mais forte. Não queria só um barato, queria sentir o álcool. Claro, não me importava de ir até o balcão pegar uma bebida. Na verdade, mesmo que já tivesse um drinque me esperando na mesa, talvez recusasse só pelo simples fato de querer ir até lá – e por um motivo muito bom.
Tinha alguém no balcão que havia chamado minha atenção, e eu queria mais do que tudo saber mais sobre ela. Era nova por ali, e só isso já era suficiente para chamar a atenção de qualquer um que frequentasse o Echo Mori.
Estávamos acostumados com os de sempre – as pessoas que estavam ali há mais tempo e as que pertenciam ao lugar. Vários dos bartenders trabalhando eram velhos o suficiente para serem meu pai. Lembrava de ter crescido perto deles. Lembrava deles estarem presentes em muita coisa que aconteceu na minha vida.
Claro, outros vinham e iam com o passar dos anos, mas, no geral, era sempre o mesmo grupinho.
Então, essa garota nova apareceu. Não sabia de onde tinha vindo, nem por que tinha escolhido o Echo Mori entre todos os bares, mas tinha escolhido, e eu não ia reclamar.
Não sabia o nome dela. Mas sabia que era gostosa pra caralho, e era só isso que importava. Era curvilínea nos lugares certos, com um corpo esguio, coxas grossas, uma bunda que faria qualquer um com olhos virar a cabeça e peitos de dar inveja.
Estava de olho nela fazia algumas semanas, mas não tinha tido chance de conversar direito. Ela sempre estava servindo nos horários de pico, quando não dava tempo de eu a levar para a cama como queria.
Então, tinha esperado a hora certa. E, com o bar daquele jeito agora, sabia que aquela noite era a noite. Era só questão de encontrar o momento certo para chegar nela, me apresentar e usar meu charme até conseguir o que queria.
Mas, antes que eu anunciasse que ia pegar uma bebida, minha atenção voltou para a mesa quando os caras me contaram que um dos nossos tinha saído da prisão naquela manhã e estava vindo para o bar naquela noite.
— Ele vai querer te ver, você sabe disso, né? — Greg me deu um tapa nas costas. — Você vai ter que fazer a recepção oficial.
— Claro que vou — falei, jogando o cabelo para trás. Não me importava de fazer esse tipo de coisa. Na verdade, não era nada incomum, considerando minha posição no clube. E seria bom ter mais um dos nossos irmãos do lado de fora de novo.
Não era raro nenhum de nós acabar atrás das grades em algum momento, mas sempre era um alívio quando saíamos. E, sabendo que teríamos uma noite de comemoração pela frente, sabia que agora era a hora de dar em cima da garota do balcão. Se quisesse ter a chance de ter a atenção dela só para mim, sem todo mundo tentando me puxar de volta para a mesa, precisava falar com ela antes que nosso irmão chegasse.
Assim que ele aparecesse, seria tudo sobre ele. E, como presidente do MC, eu ia garantir que todos lhe dessem o respeito que merecia. Afinal, ele tinha passado por poucas e boas, e era hora de trazê-lo de volta para casa. Tomara que fosse a última vez.
Mas, com a vida que todos nós levávamos, era difícil dizer quando algum de nós acabaria atrás das grades de novo.
De qualquer forma, me aproximei do balcão com um sorriso sedutor no rosto. Tinha os olhos fixos no alvo. Ia atacar e fazer aquela mulher minha.
Só por uma noite, enfim a teria. Sentiria o corpo dela, daria o meu, e aproveitaria cada segundo.
Isso ia ser glorioso.





