Sala de espera
A gente vive como se a vida
fosse uma sala de espera.
Sentado, olhando para o relógio,
esperando alguma coisa acontecer
para finalmente começar.
Esperamos terminar a escola.
Arrumar um emprego.
Ter dinheiro.
Encontrar alguém.
Ficar melhor.
Ficar mais bonito.
Ser mais velho.
Ser mais livre.
“Quando isso acontecer,
eu vou viver.”
E o presente?
O presente fica ali,
quieto,
sendo usado como passagem
para chegar em algum lugar
que talvez nem exista.
A gente aprende cedo
a olhar para frente,
mas quase nunca aprende
a olhar para onde está.
E enquanto esperamos,
o tempo vai acontecendo.
Pessoas conversam com a gente
pela última vez
sem saber que é a última.
Abraços terminam
sem ninguém perceber.
Alguém ri numa mesa
sem imaginar que aquela risada
um dia vai virar saudade.
E nós continuamos dizendo:
“Depois eu vejo isso.”
Como se o depois
fosse uma coisa garantida.
Talvez seja por isso
que a gente seja tão cruel às vezes.
Porque é fácil julgar
aquilo que não entendemos.
Vemos alguém desistir
e chamamos de fraco.
Vemos alguém se afastar
e chamamos de frio.
Vemos alguém errar
e esquecemos que também erramos.
Quando alguém cai,
perguntamos primeiro
por que não teve mais cuidado,
em vez de perguntar
quantas vezes aquela pessoa
tentou ficar de pé.
Até a dor dos outros
precisa fazer sentido para nós
antes que mereça nossa compaixão.
Somos estranhos.
Choramos quando alguém morre,
mas enquanto essa pessoa estava viva
talvez não tivéssemos tempo
para ouvir o que ela dizia.
Dizemos que a vida é preciosa
depois que ela acaba.
Damos flores
quando já não podem sentir o cheiro.
Pedimos desculpas
quando já não podem ser ouvidas.
Sentimos falta
quando finalmente entendemos
o valor da presença.
E talvez isso revele
uma parte feia de nós:
às vezes,
não sentimos falta da pessoa.
Sentimos falta
do que ela fazia a gente sentir.
Somos egoístas.
Não necessariamente porque somos maus,
mas porque quase sempre
olhamos o mundo
a partir do lugar onde estamos.
A dor do outro precisa caber
na nossa compreensão.
A escolha do outro precisa parecer certa
aos nossos olhos.
A vida do outro precisa seguir
as regras que nós mesmos inventamos.
E quando alguém faz algo
que não entendemos,
em vez de pensar
“o que aconteceu para essa pessoa chegar aqui?”,
pensamos:
“Eu nunca faria isso.”
Como se tivéssemos vivido
a vida dela.
Como se tivéssemos acordado
com os mesmos medos.
Carregado as mesmas perdas.
Sentido os mesmos vazios.
Talvez a humanidade
não precise de mais pessoas dizendo
como os outros deveriam viver.
Talvez precise de mais gente
disposta a admitir:
“Eu não sei o que você passou.”
Porque não sabemos.
E talvez nunca saibamos.
A gente só sabe
a pequena parte da história
que conseguiu enxergar.
Enquanto isso,
continuamos sentados
naquela sala de espera,
esperando a vida começar,
esperando o mundo melhorar,
esperando alguém mudar,
esperando o momento certo.
Sem perceber
que o momento certo
estava acontecendo enquanto esperávamos.
O futuro que tanto planejamos
um dia vai se tornar presente.
E depois,
sem pedir licença,
vai virar passado.
Talvez a maior ironia da vida
seja essa:
passamos tanto tempo
nos preparando para viver,
que esquecemos de viver.
E quando finalmente olhamos para trás,
percebemos que aquilo que chamávamos de espera
era a própria vida.


