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Academia Mindnight.

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Resumo

A Academia Midnight só recruta seres místicos. Seraphine não faz ideia do que viram nela. Depois de crescer em lares adotivos marcados pela violência, ela aprendeu a desconfiar de promessas. Por isso, quando recebe a oportunidade de estudar em uma universidade que jamais soube existir, a possibilidade de finalmente pertencer a algum lugar parece boa demais para ser verdade. Entre torres antigas e corredores onde a magia respira, Seraphine encontra a primeira resposta sobre suas origens: ela é uma bruxa. A última. Todas as outras foram extintas, e ninguém parece capaz de explicar por que ela sobreviveu. Enquanto tenta compreender seus poderes e reconstruir um passado que desconhece, Seraphine se envolve em amores improváveis. Aproximações que despertam desejo, desafiam suas defesas e lhe dão motivos para permanecer onde, pela primeira vez, deseja ser encontrada. Mas há segredos por trás de sua chegada à academia. E algumas respostas podem colocar em risco as pessoas em quem começa a confiar. Alguém soube onde encontrá-la. Talvez também saiba por que ela é a única que restou.

Gênero
Romance
Autor
JA
Status
há 15 horas
Capítulos
36
Classificação
n/a
Classificação Etária
18+

Capítulo 1 - Nascida do caos.

LUX — DEZESSETE ANOS ANTES

A chuva atravessava as folhas e atingia minhas costas enquanto eu corria.

Não sentia mais os pés. Cada passo fazia a dor se espalhar pelo ventre, arrancando um pouco do ar que eu precisava guardar para continuar. Apertava minha filha contra o peito, protegendo sua cabeça sob a capa branca de bordas azul-claras.

Ela tinha acabado de nascer.

Eu ainda sangrava.

A camisola comprida grudava nas minhas pernas, pesada de água e sangue. Segurei o tecido para atravessar as raízes, tropeçando quando uma pontada me obrigou a dobrar o corpo.

Uma explosão iluminou a floresta atrás de mim.

Continuei.

Encontrei a entrada da caverna entre duas formações de pedra. Atravessei a passagem estreita e avancei até a escuridão me esconder. Só então minhas pernas cederam.

Sentei numa rocha, apoiando as costas na parede úmida.

Seraphine começou a chorar.

Afastei o tecido do seu rostinho. Sua boca minúscula se abria numa reclamação desesperada, os olhos apertados, as mãozinhas procurando alguma coisa contra a minha pele.

— Shhh… Minha menina especial. — Beijei sua testa, tentando controlar o tremor da voz. — Calma. Seu pai já vem. Ele vai chegar, meu amor.

Passei o polegar pela sua bochecha.

Eu queria alimentá-la. Queria uma cama limpa, uma manta seca, tempo para aprender o peso dela nos meus braços.

O sangue continuava escorrendo entre minhas pernas.

Acomodei Seraphine mais perto, escondendo o rosto nos poucos fios escuros de sua cabeça.

— Só mais um pouquinho — sussurrei, sem saber se falava com ela ou comigo.

Uma sombra ocupou a entrada.

Ergui a cabeça, pronta para defender minha filha com o que ainda restasse de mim.

Então reconheci Nolan.

Alto, os ombros largos quase preenchendo a passagem, ele trazia os cabelos negros molhados sobre a testa. A luz distante recortava seu rosto de traços perfeitos: a mandíbula firme, o nariz reto, a boca que se abriu quando nos encontrou.

O grande bruxo das trevas atravessou a caverna correndo.

— Lux.

Ajoelhou diante de mim. Suas mãos tocaram meu rosto, desceram até a camisola ensanguentada e voltaram depressa para os meus ombros.

Comecei a chorar.

— Amor, eu não quero fazer isso. — Agarrei sua roupa. — Por favor, Nolan. Eu mal consegui olhar para ela. Não tive tempo de segurá-la sem precisar correr. Eu não consigo…

Ele nos envolveu nos braços.

Beijou minha cabeça e permaneceu assim por alguns segundos, a respiração pesada contra os meus cabelos.

— Eu sei. Eu sei, meu amor. — Sua voz falhou. — Deixa eu vê-la. Por favor.

Afastei a capa.

Nolan olhou para a filha e perdeu qualquer tentativa de se manter firme.

Uma lágrima escorreu pelo seu rosto.

Seraphine tinha a pele clarinha, um pequeno tufo de cabelos negros, lisos como os dele, e o nariz delicado. Parou de chorar por um instante, a boca fazendo movimentos miúdos enquanto o pai aproximava um dedo de sua mão.

Ela o segurou.

Nolan abaixou a cabeça.

— Ela parece com você, amor.

Sorri chorando.

Outra explosão sacudiu a entrada. Pequenas pedras caíram perto de nós.

Nolan fechou os olhos.

— Precisamos fazer agora.

Apertei Seraphine contra mim uma última vez. Beijei sua testa, suas bochechas, os dedos que mal conseguiam envolver os meus.

— Você é amada — murmurei. — Escuta a mamãe, minha menina. Você é tão amada…

Nolan começou a entoar os cânticos.

Reconheci as palavras e o acompanhei, embora precisasse interromper algumas sílabas para respirar. Uma luz branca se espalhou pelas minhas mãos. A escuridão surgiu dos dedos dele, envolvendo a claridade sem apagá-la.

As duas forças se encontraram sobre nossa filha.

Seraphine abriu os olhos.

Tentei guardar aquele instante.

Então o peso desapareceu dos meus braços.

Meu grito preencheu a caverna.

Nolan me segurou antes que eu caísse da pedra. Agarrei sua roupa, procurando minha filha entre os tecidos vazios, enquanto ele me erguia.

Um portal se abriu diante de nós.

Atravessei chorando, com os braços ainda dobrados na posição em que a segurara.

---

SERAPHINE — ATUALMENTE

Salem tinha uma habilidade extraordinária para parecer encantadora nas fotografias e uma merda completa quando você precisava viver nela.

Aumentei o volume dos fones e atravessei a rua.

Usava uma calça jeans clara de pernas largas, tênis Adidas comprados num brechó e uma regata branca sob um sobretudo preto, fino demais para aquele vento. A mochila surrada pesava num ombro só. A outra alça estava sobrevivendo graças a uma costura que eu preferia não testar.

Prendi melhor o coque bagunçado e parei diante da escola.

Dezessete anos. Último semestre.

Eu precisava sobreviver a mais alguns meses.

Meu reflexo apareceu no vidro da entrada: magra, pele clara, cabelos negros escapando do coque, lisos perto da raiz e ondulados nas pontas. Os olhos verdes, salpicados de castanho, pareciam mais cansados naquela manhã.

Eu tinha um rosto bonito. Sabia disso.

Também sabia que beleza não pagava mensalidade nem impedia gente rica de ser filha da puta.

Ali dentro, minha bolsa de estudos parecia ofender pessoalmente algumas pessoas.

Hard me esperava perto dos armários.

Baixinha, gordinha, inteligente para caralho e tímida a ponto de pedir desculpas quando alguém esbarrava nela. Abraçava dois livros contra o peito e me ofereceu um sorriso pequeno quando tirei os fones.

— Você conseguiu dormir?

— Consegui deitar. Estou comemorando uma conquista por vez.

Ela riu, baixando os olhos.

Hard era minha melhor amiga. Na maioria dos dias, também era a única pessoa naquela escola cuja companhia eu suportava.

Seguimos pelo corredor.

Uma garota olhou minha mochila e cochichou alguma coisa. As amigas riram. Reconheci meu nome no meio da conversa, seguido de um comentário sobre caridade.

Continuei andando.

Responder significava arriscar uma advertência. Eles podiam me humilhar; eu precisava preservar a reputação da instituição.

Uma lógica linda. Dava vontade de emoldurar e enfiar na garganta de alguém.

— Não olha agora — Hard murmurou.

Olhei.

Trevor vinha na nossa direção.

Quarterback. Rico. Bonito de um jeito irritante. Filho da puta por vocação.

Durante um tempo, eu namorei aquele imbecil escondida.

Na frente dos amigos, ele me tratava como um inconveniente. Quando estávamos sozinhos, segurava minha mão, me beijava, me fodia e prometia que as coisas mudariam. Dizia que me amava, que precisava de tempo, que eu tinha de entender.

Entendi.

No meio daquele ano letivo, terminei.

Minha vida, que já estava longe de ser uma maravilha, piorou consideravelmente depois disso.

Trevor não aceitava que eu tivesse encerrado uma relação que, publicamente, ele fingia nunca ter existido.

Parou diante de mim, bloqueando a passagem.

— Está me evitando?

Recoloquei um lado do fone.

Ele tocou meu braço.

Tirei o aparelho devagar e olhei para sua mão até ele me soltar.

— O que você quer, Trevor?

Sua expressão endureceu. Antes que respondesse, Jhoem se aproximou e passou o braço pela cintura dele.

A namorada oficial.

Trevor a puxou para um beijo, mas manteve os olhos em mim antes de encostar a boca na dela.

Ah, pelo amor de Deus.

— Hard, a gente tem prova hoje?

Minha amiga piscou, surpresa.

— De química.

— Ótimo. Uma tragédia de cada vez.

Contornei os dois.

Trevor me chamou novamente, num tom que fez algumas pessoas olharem.

Não voltei.

Eu tinha problemas maiores do que um babaca tentando provocar ciúmes com uma garota que também merecia conhecer o tamanho da roubada em que estava.

Um desses problemas era o lugar registrado como meu lar.

Eu vinha ficando na casa de Hard porque voltar para a família adotiva exigia uma disposição que já não possuía. Lá, qualquer coisa podia virar motivo para gritos. Comida, água quente, uma porta fechada. Até o silêncio incomodava, dependendo do humor de quem estivesse em casa.

Na casa de Hard, havia uma cama emprestada e espaço para respirar.

Eu tentava ocupar pouco. Ela sempre puxava minhas coisas para mais perto, como se percebesse.

E, ultimamente, eu precisava daquele cuidado.

Algumas coisas muito estranhas estavam acontecendo comigo.

Na semana anterior, depois de uma discussão em casa, um pano pegara fogo sobre a bancada.

Longe do fogão.

Eu estava olhando para ele quando aconteceu.

Apaguei as chamas com água e fiquei tremendo diante da pia, repetindo para mim mesma que devia existir uma explicação.

Havia também o tempo.

Nos dias em que eu ficava triste, nuvens pareciam se acumular sobre a cidade. Às vezes começava a chover sem qualquer aviso. Quando me sentia feliz, o sol surgia entre elas com uma rapidez que me deixava desconfortável.

Sozinho, aquilo já seria esquisito.

Então os objetos começaram a se mover.

Descobri numa manhã em que estava com preguiça de levantar. Meu celular vibrava sobre a escrivaninha, longe da cama. Fiquei encarando o aparelho, desejando que estivesse perto.

Ele deslizou.

Vi o celular atravessar a madeira e cair no colchão.

Passei uns bons minutos sentada, olhando para ele.

Depois procurei um fio.

Não havia fio nenhum.

Desde então, evitava encarar as coisas por muito tempo. Uma medida científica impecável, obviamente.

Eu não contei a Hard.

Nem sabia como começar.

“Amiga, obrigada pela hospedagem. Talvez eu incendeie sua cozinha sem querer.”

Ela já estava fazendo demais por mim.

Concentrei o que restava da minha sanidade nas inscrições para universidades. Preenchi formulários, escrevi redações, solicitei bolsas. Enviei candidaturas para as melhores instituições que consegui encontrar.

Queria estudar.

Queria sair daquela cidade.

Queria uma vida em que abrir a porta de casa não exigisse calcular o humor das pessoas do outro lado.

Na manhã seguinte, estava na cozinha de Hard, tentando decidir se café podia substituir uma noite de sono, quando ela apareceu segurando um envelope.

— Chegou para você.

Estendi a mão.

O papel era grosso, escuro, com meu nome escrito numa caligrafia prateada. Um selo fechado refletia a luz da janela.

Por alguns segundos, apenas passei o polegar pela borda.

— Seraphine?

Ergui os olhos.

Hard sorria, ansiosa por mim.

Rompi o selo.

Desdobrei a folha e procurei depressa aquelas palavras educadas que geralmente antecediam uma rejeição.

Não as encontrei.

Li a primeira linha novamente.

**Sua admissão na Academia Midnight foi aprovada.**

Franzi o cenho.

— Que porra é Academia Midnight?

O sorriso de Hard diminuiu.

— Você não se inscreveu lá?

— Hard, eu nunca ouvi falar dessa instituição.

Ela puxou uma cadeira e se sentou ao meu lado. Enquanto eu procurava no restante da carta alguma explicação, minha amiga pegou o celular e digitou o nome da academia.

Ficou em silêncio.

Depois aproximou a tela do rosto.

— Espera.

Aquilo raramente era um bom sinal.

Inclinei-me para olhar.

O site mostrava um campus imenso, com prédios de pedra escura, jardins impecáveis e bibliotecas que pareciam grandes o suficiente para abrigar a população inteira da minha rua. Havia laboratórios, residências estudantis e salões onde até os lustres aparentavam ter uma conta bancária melhor que a minha.

Hard abriu a apresentação institucional e começou a ler, acompanhando as linhas com o dedo.

— A Midnight integra uma rede de formação avançada, com programas de extensão vinculados a Harvard, Princeton e Cornell.

Olhei para a carta. Depois para ela.

— Você está falando sério?

Hard apenas virou a tela na minha direção.

Li os nomes das três universidades. Voltei ao começo do parágrafo, convencida de que tinha entendido alguma coisa errada.

Não tinha.

Minha amiga abriu a seção de ex-alunos. Surgiram fotografias de empresários, diplomatas e herdeiros de famílias cujos sobrenomes apareciam em jornais, prédios e fundações. Algumas pessoas eu reconhecia. Outras tinham biografias que explicavam, em poucas linhas, o tamanho do poder que carregavam.

— Só tem gente importante nessa porra — murmurei.

Hard continuou descendo a página, cada vez mais espantada.

Eu conhecia alunos ricos. Estudava cercada por eles.

Mas aquilo era outra escala. Os pais dos idiotas da minha escola provavelmente pagariam uma fortuna para colocar os filhos num lugar daqueles.

Baixei os olhos para minha mochila, largada perto da cadeira, com a alça costurada e o zíper que precisava de duas tentativas para fechar.

— Como eles me aceitaram? Eu nem mandei uma inscrição.

Hard olhou novamente para o envelope.

— Não sei.

A resposta me deixou com o estômago apertado.

Voltei a ler meu nome. Estava certo. A carta tinha sido enviada para mim, para o endereço onde eu estava ficando. Alguém sabia quem eu era.

Alguém naquela instituição absurda tinha decidido me oferecer uma vaga.

— E então? — Hard perguntou baixinho.

Olhei para ela.

Depois para a carta.

Pela primeira vez em muito tempo, consegui imaginar minhas coisas dentro de uma mala e um destino que não fosse mais uma casa onde eu precisava pedir desculpas por existir.

Apertei o papel.

— Eu vou embora.

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