CAPÍTULO 1
"Eu diria que meu tema sempre foi o paraíso perdido, sempre a causa perdida, o líder perdido, a utopia perdida.” – Marguerite Young.
Celia estava sentada no auditório, numa cadeira perto da enorme janela que lhe permitia observar o céu da tarde. O objeto de sua fascinação estava pintado numa mistura de cores pastel, e um arco-íris havia surgido depois da chuva incessante.
Quase riu daquela imagem falsa. Na vida real, a chuva, que representava os problemas que perseguem as pessoas, não se dissolvia em beleza, mas em dor.
Celia, infelizmente, sabia disso muito bem.
Sentia falta da chuva, mesmo morando na Inglaterra, onde, como se sabe, não falta garoa. Talvez fosse justo dizer que sentia falta da chuva quase tanto quanto sentia falta de casa.
Muito, mas nem tanto.
Celia percebeu que não estava prestando atenção nas palavras do professor de filosofia, que saíam de sua boca sem parar. Só tinha captado fragmentos da aula e, em vez de se preocupar com a diferença entre Aristóteles e Platão e como suas abordagens distintas sobre certos temas criaram uma nova era de pensamentos filosóficos, ela pensava em casa. Na casa que havia deixado cinco anos antes para se estabelecer numa cidadezinha nos arredores de Londres.
Tinha acabado de completar dezoito anos quando foi obrigada a começar uma vida nova, bem longe de todas as memórias tóxicas que a antiga tinha para oferecer. Viajou pela Europa por cerca de um ano, deixando-se descobrir onde se sentiria mais à vontade para recomeçar. Aprendeu muito sobre as culturas mediterrâneas – sendo metade italiana, sempre sentiu uma saudade profunda no peito sempre que olhava para as águas azul-escuras do Mediterrâneo –, mas não escolheu um ambiente familiar.
Acabou se encantando com os céus cinzentos da Inglaterra, com os becos cheios de grafite, com a arquitetura. Tudo aquilo parecia familiar à sua alma, e, na primeira oportunidade que surgiu, se matriculou numa universidade para estudar filosofia, como sempre planejara.
A primeira coisa que lhe perguntaram foi qual era sua ambição. Tentou ser o mais honesta possível e respondeu que não tinha nenhuma, que só queria viver, que nunca sonhara grande, do jeito que a pressionavam para fazer desde pequena, porque sonhos são frágeis e se despedaçam tão fácil quanto as pessoas que sonham.
O professor ergueu os olhos dos seus apontamentos e voltou a falar. "Todos os grandes filósofos eram perturbados – de alguma forma. Todo gênio é, no mínimo, um pouco louco. Todos carregamos bagagem, alguns de vocês já sabem disso por experiência própria, e é daí que tiramos arte. Dor, miséria, insanidade, violência. Já ouviram falar de arte que vem de corações e flores, paz ou amor? Não, porque não existe, a grande arte toma uma parte de você e você nunca mais a recupera. O que quero dizer, caso estejam se perguntando, é que a filosofia é uma arte." O sr. Russ disse.
Celia, em geral, nunca se dava ao trabalho de aprender os nomes dos professores. Achava que, como eles não a conheciam, não era obrigada a saber mais sobre eles. Só se importava com o que podia aprender com eles. Era só um número num arquivo, com informações básicas: histórico escolar, certidão de nascimento e outros dados sem importância. Não era uma pessoa com pensamentos e paixões. Mas não conseguia evitar saber esse detalhe sobre o único professor que realmente entendia do que estava falando. Os outros não eram como ele.
Não estava culpando ninguém por isso, sinceramente, era assim que o sistema educacional funcionava.
Talvez estivesse só amargurada, nunca suportou quando sentia que seus desejos estavam sendo reprimidos.
Adorava filosofia, mas detestava as pessoas que frequentavam as mesmas aulas que ela, aqueles babacas pretensiosos que achavam que sabiam tudo. No fim das contas, detestava a si mesma, porque quem poderia ser mais pretensiosa do que uma jovem com convicções tão fortes?
Celia percebeu que tinha se distraído de novo e voltou a prestar atenção no professor. "As próximas cinco aulas serão sobre situações difíceis em que as pessoas se metem, e teremos cinco palestrantes diferentes aqui para falar sobre cada uma delas. Preparem-se. Aula encerrada."
Levantou-se devagar, ainda meio aérea, vestiu sua jaqueta de couro preta e jogou os livros na mochila de qualquer jeito antes de sair.
Começou a andar pelas ruas movimentadas, sem destino certo, deixando seus olhos castanhos analisarem as vitrines das lojas por alguns segundos antes de seguir em frente.
Não devia ter caminhado mais do que cinco minutos quando se viu em frente ao seu estúdio de tatuagem favorito, o Olympus. Empurrou a porta e entrou. Um silêncio ensurdecedor encheu seus ouvidos. Não pode ser, pensou, franzindo a testa, confusa. Apollo sempre coloca música quando está trabalhando.
Aproximou-se da recepcionista, Rachel, e disse que queria terminar sua meia-manga.
Rachel olhou para ela, surpresa. "Desculpa, querida, o chefão não está hoje. Você não ficou sabendo?" Celia balançou a cabeça. "Ah, bom, o irmão dele está voltando para casa hoje, e ele tirou o dia de folga."
"Irmão?" Apollo teria lhe contado se tivesse outro irmão além de Eros, não é? Afinal, eram amigos.
Os olhos de Rachel brilharam com um lampejo que só podia ser descrito como malicioso, e ela sorriu. "Ah, sim, o todo-poderoso Ax, um rapaz lindo. Estranho você nunca ter ouvido falar dele, ele é bem famoso por aqui." Rachel respondeu. "Ou melhor, infame", acrescentou, pensativa.
Celia não sabia o que dizer à recepcionista ruiva, que parecia estar num estado de sonho, provavelmente pensando naquele Ax.
Celia teve que se segurar para não revirar os olhos. Achava um absurdo quando as mulheres babavam por homens. Ele não pode ser tão foda assim.
Pigarreou, tentando chamar a atenção de Rachel. A recepcionista deu um gritinho assustado, como se só então tivesse notado a presença de Celia. "Tenho certeza de que ele é ótimo, Rachel. Pode dizer ao Apollo que quero marcar para terminar isto?" Apontou para o braço esquerdo coberto. Rachel assentiu. "Claro, querida, eu aviso quando ele voltar."
Celia sorriu, satisfeita. "Obrigada, até mais." Acenou para Rachel antes de se dirigir à saída. Nem olhou para o interior da loja, conhecia cada detalhe de cor. Sabia que havia quadros decorando o corredor, cortesia de um colega de faculdade de arte de Apollo, o pintor mundialmente famoso Miguel Velasco. Sabia que Apollo adorava os velhos discos de vinil que espalhava pela sala onde passava a maior parte do tempo. Também sabia que cada tatuagem que ele já fizera era recriada numa tela e guardada no sótão.
"Quando quiser, querida." Rachel gritou, na esperança de que sua voz alcançasse a jovem antes que ela saísse. Sabia que era pouco provável que Celia tivesse ouvido, a moça devia ter colocado os fones de ouvido. Tinha paixão por música, a ponto de não sair de casa sem pegar seu velho mp3 player, que para ela era mais essencial do que qualquer outra coisa que as pessoas valorizavam.
E, claro, Celia não ouviu nada. Continuou caminhando, abrindo caminho entre as pessoas que a faziam se sentir minúscula. Acabou chegando ao seu bairro, mas, antes que pudesse atravessar a rua, uma moto surgiu do nada e quase a atropelou. A rua estava praticamente deserta, mas o motorista agia como se estivesse fugindo de alguém – ou correndo atrás de alguma coisa.
Talvez estivesse correndo atrás da liberdade.
O motorista parou depois de quase atingir a jovem. Tirou o capacete e o deixou cair no cascalho antes de correr na direção da morena de cabelos pretos, que olhava para o chão com uma expressão incrédula. "Você está bem?" Perguntou ao chegar ao lado dela. Devia estar puto por ela ter atravessado sem olhar, mas, quando a moça ergueu os olhos para ele, tudo o que conseguiu fazer foi encarar aqueles lindos olhos castanhos, de corça.
Ah, vai se foder, Ax, controla essa merda. Pensou, franzindo a testa por um instante. A mulher o encarava com raiva estampada no rosto. "Eu estou bem? Você quase me matou, seu maluco."
"Bom, se você olhasse por onde anda, talvez não tivesse se metido em perigo." Seu sotaque ficou mais carregado quando estava irritado.
Celia não conseguiu evitar encarar o homem. Não queria achar bonito um cara tão arrogante, mas não conseguiu se conter. Seus olhos eram de um azul vivo, quase elétrico, e sua cabeça estava coberta por mechas pretas como tinta, que paravam na gola da jaqueta de couro. O nariz era um pouco torto, mas isso só aumentava seu charme e o ar sedutor que ele carregava com tanta naturalidade. Não tinha nada a invejar do Davi de Michelangelo ou de qualquer outra representação de perfeição masculina.
Forçou-se a fechar os olhos para sair do transe em que tinha acabado de cair.
"Ah, vai se foder." Disse, assim que as palavras dele fizeram sentido em sua cabeça. Ele estava botando a culpa nela, e ali estava ela, comparando-o a uma obra de arte.
Celia virou as costas para o homem sem nome e começou a andar na direção que queria. Ax soltou uma risada enquanto a curvilínea coisinha miúda se afastava dele. "Cuidado, garotinha." Gritou para ela, enquanto desaparecia de sua vista.
Fazia muito tempo que Ax não metia entre as pernas de uma mulher, cinco anos desde que chegara perto de uma. Ficou olhando para o espaço vazio que a morena de cabelos pretos ocupara segundos antes e suspirou, arrependido. Ela teria sido a candidata perfeita para o cargo. Qualquer cargo, corrigiu seus pensamentos com um sorriso de lobo, ela seria perfeita em qualquer posição.
Só de pensar em como aquele cabelo ficaria enrolado em seu punho enquanto ele metia nela, já sentia o corpo reagir.
Decidiu não ficar remoendo aqueles pensamentos por muito tempo. Logo teria seu gostinho de liberdade, mas primeiro as coisas vinham em primeiro lugar. Era hora de se reunir com a família.
Ax encontrou seus pais do lado de fora da prisão. Sua mãe se jogou em seus braços, e ele a segurou enquanto ela chorava e o apertava contra si, como se quisesse ter certeza de que ele estava mesmo ali. Seu pai foi um pouco mais contido, recebeu-o com um abraço e um olhar de advertência, típico dele, que era o mesmo que dizer ‘eu te amo’.
Levaram-no para casa, um lugar onde não punha os pés havia muito tempo, mas que, de alguma forma, continuava limpo. Ax tinha certeza de que aquilo era obra de sua mãe. Ficou ali um tempo, se reacostumando com sua cama.
Depois, sabia que precisava ver seus irmãos. Sua primeira parada seria Apollo, o mais novo dos três, o pintor que largou a faculdade de arte e abriu seu próprio negócio fazendo o que realmente amava: criar arte na pele frágil dos humanos, rejeitando as telas que o obrigavam a usar repetidamente.
Sua mãe tinha lhe contado rapidamente que a loja dele continuara aberta durante todo o tempo em que estivera preso. Ax – que ainda era mecânico e herdara a oficina do pai, que trabalhava na mesma área – não se surpreendeu ao saber que seu pai assumira seu lugar na sua ausência. O que o incomodou foi saber que Apollo ajudava sempre que podia, e só Deus sabia o que o garoto tinha estragado.
Apollo quebrava tudo em que punha as mãos. Era um talento especial que tinha desde criança. Onde quer que estivesse, trazia encrenca, e nisso eram parecidos.
Ax dirigiu até a loja do irmão. Lembrava-se de cada detalhe de sua cidade natal, mesmo não tendo posto os olhos em nenhum prédio por cinco anos. Sentiu um aperto no peito ao perceber que finalmente estava em casa. Era a mesma sensação que teve ao entrar na loja, que parecia intacta. Viu seu irmão mais novo trabalhando num Fiat bege e deu uma risada profunda ao vê-lo lutando para descobrir qual cabo conectar em qual lugar.
"Conecta um dos cabos vermelhos no terminal positivo, seu idiota. Eu te ensinei isso quando você tinha dezesseis anos, como ainda não aprendeu?" Apollo deu um pulo ao ouvir a voz do irmão. O tatuador não conseguiu evitar encarar, incrédulo, ao se virar para ele. "Você está aqui."
"Claro que estou, Sherlock. Depois você vai me dizer que a Terra é redonda." Ax comentou num tom mais leve. "Você esperava que eu não saísse?" Perguntou, lembrando-se de que tinha ligado para a família um dia antes de ser solto. "Eu avisei."
Apollo assentiu. "Eu sei, só que… porra, não sei, seu babaca, foi de repente."
Ax olhou ao redor, verificando se algo estava desmoronando diante de seus olhos. Nada disso. "Espero que você não tenha destruído minha oficina, seu imbecil."
Apollo acompanhou o olhar do irmão e riu antes de encará-lo com raiva. "Fui eu que mantive essa merda aberta, o pai não ajudou muito, você sabe."
"Duvido muito." Ax respondeu. "Bom, fico feliz que tenha curtido tanto a experiência, mas sai da porra dos carros." Disse, seco. Apollo se afastou, erguendo os braços em rendição, debochando do irmão. "Você não tem que trabalhar?"
Apollo olhou ao redor, tentando não começar a gritar com o irmão por tentar afastá-lo. Era cedo demais para Ax voltar a ser o mesmo de sempre. Sem pensar duas vezes, Apollo se aproximou e jogou os braços grandes ao redor dele, puxando-o para um abraço. "Senti sua falta mesmo, seu filho da puta."
"É, eu também." Ax admitiu, a voz pouco mais alta que um sussurro. Talvez tivesse medo de que emoções mundanas o fizessem parecer fraco, mas não dava para saber o que se passava na cabeça daquele homem.
"Ah, e antes que eu me esqueça, quero meu cachorro de volta." Ax disse.
Apollo assentiu. "Claro, passa lá em casa quando quiser." Disse. "De qualquer forma, acho que ela gosta mais de você do que de mim."
"Quem poderia culpá-la?" Ax perguntou, provocador.
Depois que se separaram, Ax lembrou da peça que faltava naquela reunião feliz. Eros. "Onde está o outro babaca?"
"Você conhece o Eros, deve estar trancado em casa se afogando em autopiedade, como um verdadeiro artista. Mas sinto pena do Theo, o pobre coitado não merece essa merda."
Ax assentiu, sério. Da última vez que vira o sobrinho, ele ainda não falava, e agora já estava na idade de começar a escola. Caramba, tinha perdido muita coisa.
Ax voltou sua atenção para Apollo e viu lágrimas brilhando nos cantos dos olhos dele. "Nunca mais faça isso, está me ouvindo?"
"Tô ouvindo." Ax respondeu, mesmo sabendo que não cumpriria nenhuma promessa que fizesse. "A gente quase perdeu a cabeça de vez. A mãe ficou tão preocupada que algo pudesse acontecer com você lá dentro, sabia?" Ele balançou a cabeça enquanto resmungava "Filho da puta" sem parar.
"Para de bancar o frouxo, idiota. Nada ia acontecer comigo, nada aconteceu." Ax afirmou com um sorriso tranquilizador.
"Eu não tive pesadelos gritando pra mãe me salvar quando tinha onze anos, então, com certeza, não sou o frouxo da família." Em um segundo, a expressão brincalhona sumiu dos olhos de Apollo. "Já acabou com o clube? Tô falando sério, Ax, nem tenta mentir. Eu vou saber e dessa vez eu mesmo te tranco."
"Eu respeito isso, irmão, de verdade, mas tem uma última coisa que preciso fazer e depois saio de vez."
O rosto de Apollo se fechou ao ouvir a resposta do irmão. "O que você vai fazer?" Ele perguntou, sem ter certeza se queria mesmo saber a resposta.
"Vou destruir eles. Arrancar tudo e fazer com que se arrependam de terem mexido comigo."
Apollo sabia que não adiantava discutir, então recuou na hora. Pelo menos ele vai ser um problema. Ax pensou, mas, mesmo que a ideia devesse ser reconfortante, algo dentro dele não sossegava.
Apollo suspirou, derrotado. "Faz o que tem que fazer, Ax, mas não quero te ver todo arrebentado na minha porta tão cedo, tá?" Ax assentiu. Levar uma surra não fazia parte dos planos dele.
De repente, ele sentiu uma vontade louca de ir embora.
Então, se despediu do irmão mais novo e saiu correndo. Apollo não ficou surpreso com o comportamento do irmão — ele sempre parecia querer fugir —, mas isso não significava que não ficasse decepcionado.
Apollo decidiu ir para a oficina e descontar um pouco. Depois, provavelmente encontraria Nikolai no bar.
Preciso de um cigarro, porra, preciso mesmo de um cigarro.
Ax nem tinha saído da cadeia fazia vinte e quatro horas e já estava estressado pra caralho. Primeiro os pais, depois Apollo, e pra completar, tinha ido ver Eros, e só isso já era o suficiente pra fazer ele querer arrancar os próprios olhos. Caralho, pensou com um riso, que bom estar em casa.
Enquanto voltava da casa de Eros, decidiu ceder àquele velho hábito e parou a moto perto da ponte onde costumava ficar quando era criança, olhando pras águas azuis por horas, tentando decifrar o que poderia estar escondido ali. Alguns anos depois, no mesmo lugar, como um adolescente magricela que tinha acabado de descobrir os poderes mágicos da maconha.
Ax tentou afastar as lembranças que vieram em seguida. Lembranças que o faziam se lembrar de alguns dos seus erros, uma parte dele que nunca conseguiria apagar. Sentiu vontade de bater a cabeça na parede pra esquecer tudo o que tinha feito.
Ele balançou a cabeça enquanto tragava o cigarro devagar, saboreando o gosto amargo, e começou a andar em direção ao seu ponto, perto do centro da velha ponte de madeira. Quando se aproximou, não pôde deixar de notar uma figura pequena e curvilínea parada sozinha, olhando pras estrelas ou talvez tentando criar coragem pra pular. Se fosse a segunda opção, não podia culpá-la — muitos já tinham tentado, sem sucesso, porque a água não era funda o suficiente pra afogar ninguém, mas isso não tinha impedido as tentativas, nem mesmo a dele.
Na época, ele tinha vinte e cinco anos, um lixo de homem, como costumava se descrever quando se referia àqueles anos. Quis dar um fim em tudo, mas a única coisa que conseguiu foi uma perna quebrada e um braço fraturado, nada de catarse como esperava.
Não há descanso para os ímpios. Talvez o Padre Logan tivesse razão, afinal. Ax com certeza não estava tendo nenhum tipo de descanso.
Ax se aproximou por impulso da mulher misteriosa que estava encostada no parapeito da ponte.
"Você não devia estar fazendo isso." Ax comentou, casual, quando chegou perto dela.
"Com licença?" Celia retrucou para o homem atrás dela. "Olhar pras estrelas agora é crime?" Ela não se virou pra olhar pra ele, mas a voz grave fez suas pernas se apertarem. Bom, isso é novo, pensou, e bufou.
"Era isso que você tava fazendo?" Ele perguntou. Celia não teve tempo de responder, porque ele abriu a boca de novo. "Você podia ter caído."
Ah, tá. Sua consciência respondeu. Ela assentiu uma vez, mas o movimento passou despercebido por Ax, que estava ocupado demais admirando as curvas dela por trás. Um sorriso de aprovação surgiu no rosto dele enquanto seus olhos percorriam o corpo dela. "Eu sei disso." Ela respondeu depois de alguns segundos de silêncio ensurdecedor.
"Então tô supondo que você não se importa de morrer? Porque você vai morrer se cair daí, garotinha." Foi a última parte da frase arrogante que fez sua mente ligar os pontos e uma lâmpada acender na cabeça dela. As palavras "Cuidado, garotinha." ecoaram na sua mente, e os olhos do homem de olhos azuis cristalinos vieram à tona.
Caralho, não pode ser.
Celia fechou os olhos e decidiu se virar para confirmar suas suspeitas. A visão que a recebeu não a surpreendeu. O homem alto, de cabelos escuros, estava bem na frente dela, com apenas alguns metros de distância entre os dois. "Se você acha que alguém pode morrer caindo nessas águas, então é um idiota. Desculpa te decepcionar, mas esse lago é raso demais pra afogar alguém, e mesmo que eu quisesse pular, não seria da sua conta."
Ax a observou com curiosidade. Quem é essa mulher? Sua sobrancelha se ergueu em questionamento.
"Olha, querida, por mais que eu adore ficar aqui sendo insultado, se você vai bancar a mimada, eu já vou indo."
Celia revirou os olhos. "Então dirige com cuidado, espero que não atropele ninguém que esteja passando." Ela o dispensou, de verdade. Estava irritada, e nem mesmo aqueles olhos azuis lindos iam impedir sua raiva. Ela não era uma dessas mulheres que caem aos pés de um homem só porque ele é bonito, e que se dane se fosse começar a agir assim agora.
Ax estava pronto pra retrucar, mas quando a viu perder o equilíbrio, todos os comentários sarcásticos sumiram da sua mente. O corpo dela cambaleou para trás, e ela teria caído do parapeito direto na água escura se ele não a tivesse segurado a tempo.
"Porra, porra, porra. Merda." Celia murmurou sem parar enquanto seu corpo era jogado no chão de madeira da ponte.
"Tá tudo bem?" Ax perguntou, agachando-se ao lado dela.
"Tô, sim, obrigada." Ela respondeu, educada, e olhou para os pés, xingando mentalmente a si mesma por ser desastrada nos piores momentos. O dedo indicador de Ax ergueu seu rosto para que ela olhasse diretamente para ele.
Algo mudou no ar no momento em que seus olhares se encontraram. Ax não conseguiu evitar examinar o rosto dela, olhando-a quase como se fosse uma raridade que nunca tivesse visto antes. Talvez fossem os anos de celibato, talvez fosse a personalidade fogosa dela, mas não importava o que fosse, Ax a queria. Queria domar aquela mulher de olhos cor de mel.
"Qual é o seu nome?" Ax perguntou, a voz baixa e rouca.
Um perigo ambulante. Era isso que ele era.
"Celia." Ela respondeu, sem desviar o olhar do estranho.
"Alexander Vidal." Ele se apresentou e estendeu a mão, oferecendo um aperto. Celia aceitou enquanto ele continuava: "Mas pode me chamar de Ax."
Quando as palavras dele fizeram sentido, os olhos de Celia se arregalaram. O irmão de Apollo, o infame — como Rachel o chamava —, Ax, estava bem na frente dela, olhando-a com um brilho malicioso nos olhos.
De repente, ela percebeu a proximidade entre os dois. Se ele inclinasse a cabeça um pouco, estariam se beijando. Celia olhava diretamente para os lábios carnudos dele e engoliu em seco, nervosa. O pequeno movimento não passou despercebido por Ax, que deixou escapar um sorrisinho, percebendo que a pequena fogosa estava atraída por ele.
Bom, não dava pra culpar ninguém, o cara poderia tentar uma freira se quisesse, e Celia não era freira. Por um instante, ela se perguntou como seria se ele a tocasse de forma íntima, se suas mãos percorressem todo o corpo dela, mas esses pensamentos foram interrompidos quando Ax fechou a distância entre eles. Num instante, ele a estava beijando. Agia de forma primitiva, quase animalesca, e ela não pôde evitar se perguntar o que poderia fazer para agradá-lo, se submeter a ele sem nem precisar pedir. Não estava pensando direito. Celia não podia querer se entregar a um completo estranho, não fazia sentido. Ela não era o tipo de mulher que agia de forma tão imprudente.
A necessidade primitiva deve ter sido transmitida para ela sem que percebesse. O beijo se aprofundou, a boca dele buscando a dela, e por mais que quisesse recuar e dar um tapa na cara dele pelo comportamento, não conseguiu evitar se sincronizar com ele.
Alguns segundos depois, Ax interrompeu o beijo, e Celia lutava para recuperar o fôlego. Ele pressionou a testa contra a dela, seus olhos azuis praticamente vasculhando sua alma. "Que tal", começou, e um sorrisinho apareceu de novo, "a gente ir pra minha casa e continuar?" Celia sentiu os olhos se arregalarem e a raiva subir.
Ela ergueu a mão sem pensar e deu um tapa na cara dele, apagando aquela expressão arrogante do rosto. "Como você se atreve? Eu não sou alguém que você pode sorrir e achar que vou cair aos seus pés e obedecer a cada ordem sua. Vai se foder." Ela baixou as mãos para o chão de madeira e as usou para se levantar, mas Ax a impediu quando tentou se mover. "Tira as mãos de mim, porra." Ela rosnou e tentou puxar o braço da pegada firme dele.
"Você me beijou de volta." Foi tudo o que ele disse. Sem desculpas, sem explicações. Apenas constatou o fato de que ela tinha correspondido ao beijo.
Ela não tinha o que dizer.
Ele não estava ouvindo, mas ela precisava esclarecer isso. "Olha, Sr. Vidal—"
Ele ergueu uma sobrancelha, divertido brilhando nos olhos.
"Eu não vou aceitar que me trate como uma puta qualquer. Não sei quem você pensa que é, mas não pode simplesmente pedir pra uma mulher que acabou de conhecer transar com você." Ela afirmou, respirando fundo para se acalmar. "E, se é isso que quer, não sou a mulher certa. Tem um bar no centro, caso tenha esquecido, e tenho certeza de que vai encontrar muitas interessadas, tá?"
Em resposta, ele só lhe deu um sorriso, um que o tornava ainda mais irresistível. Devia saber o efeito que aquele sorriso tinha nas mulheres. Aquele filho da puta lindo, ela pensou, e fez uma careta para si mesma.
"Você sente atração por mim, mas resiste. Por quê? Por acaso sabe quem eu sou?" Ele perguntou devagar, um olhar duro substituindo o brilho malicioso de alguns instantes antes.
"Não, não sei. E esse é exatamente o meu ponto."
"Não entendo."
"Você pode... pode..." Não gagueja, sua idiota.
"Eu posso o quê, exatamente? Te matar? Desculpa, princesa, não tenho nenhum machado por aqui, então não vou reencenar nenhum filme de terror." Ele disse, com sarcasmo. "Não sei o que você ouviu sobre mim, Celia, mas, embora duvide que seja algo bom, posso te garantir que te matar não faz parte dos meus planos." Ele a encarou com firmeza, mas tudo o que ela conseguia focar era na forma como o nome dela saía da boca dele, o sotaque acariciando as sílabas, fazendo a dor entre suas pernas aumentar.
Mas ela tinha seu orgulho. Luxúria não era suficiente para fazê-la abrir mão dele. "Bom, transar com você também não faz parte dos meus planos, então por que não me solta pra eu ir embora?"
"Quem falou em transar?" Ele perguntou, e o sorriso brincalhão voltou ao rosto.
"Você é impossível." Ela bufou e balançou a cabeça.
"Não, não sou. Eu só falei o que quero de você. Você é que está transformando isso em algo que não é."
"E o que é, então? Uma transa de uma noite? Não tô procurando isso."
"Tem certeza de que não sabe quem eu sou?" Ele perguntou. Os olhos de Celia estavam cheios de confusão. Quem ele era, afinal? O que tinha de tão importante nele para garantir que ela deveria saber quem era e o que fazia?
"Ah, pelo amor de Deus." Ela exclamou, usando as mãos para empurrar o peito forte dele. "Seu babaca arrogante. Me solta." Ela continuou. Ax nem sentiu o empurrão, era ridículo. Ela realmente achava que sua força faria diferença nele?
Ax se levantou em silêncio e ofereceu a mão. Celia preferiu não depender dele para se levantar. Em vez disso, empurrou o chão e conseguiu ficar de pé.
Deu um passo à frente, depois outro, mas seus pés reclamaram, então parou e tirou as botas de salto alto. O alívio tomou conta do corpo dela na hora.
Ax olhou para a coisinha pequena na sua frente e achou graça de como ela era miúda em comparação a ele.
"Não tem nada que eu possa fazer pra te convencer?" Ele perguntou. Celia queria beijá-lo de novo, não podia negar a atração que sentia, mas, ao mesmo tempo, ele era irritante pra caramba.
"Olha, não sei qual é o seu problema, mas eu só quero ir pra casa. Não, você não pode me convencer." A voz dela quase entregou o que realmente sentia sobre a proposta.
"A gente ainda vai ver isso." Foi a resposta dele.
Celia revirou os olhos para a resposta teimosa, mas, lá no fundo, sentiu um calor se espalhar pelo corpo. Precisava sair dali antes que ele fizesse algo que a fizesse jogar a cautela pro alto e se entregar a ele.
"Boa noite", Celia disse enquanto seus pés descalços se apressavam para longe daquela ponte maldita.
Ax não ia desistir tão fácil, não era do seu feitio.
Ele ia convencê-la, não importava quanto tempo levasse.
E, pelo jeito que ela reagiu, não ia demorar muito.
"Boa noite, pequena."