Coffee
— Derek? — Travis chamou da cozinha. — Tira essa sua bunda preguiçosa da cama. O chefe vai ficar puto se a gente se atrasar de novo.
Ah. Meu despertador humano sem botão de soneca. Revirei os olhos e suspirei. Ao me virar, minha mão agarrou o travesseiro e o joguei na parte de trás da minha cabeça. Fazia seis meses que eu tinha me mudado para morar com meu parceiro de departamento, Travis. Ele era meu melhor amigo e eu podia confiar nele para qualquer coisa. Na maior parte do tempo, parecia que nada tinha mudado. No entanto, parecia que eu estava morando com um dos meus pais.
Eu não podia culpar muito o Travis por isso. Ele cresceu órfão e assumiu a responsabilidade pela irmã mais nova quando ainda era jovem. Ele naturalmente começou a tentar me ajudar com as minhas falhas. Eu realmente agradecia pelo Travis me apoiar e estar ali. Conhecendo o passado dele, eu fazia o meu melhor para ignorar quando era demais. Eu não sabia muito sobre Cecilia, no entanto. Ela era três anos mais nova que Travis e eu, o que a deixava com vinte e quatro anos.
Cecilia estava envolvida em um processo judicial, e Travis ficou um caco até que eu presumi que eles ganharam. Honestamente, eu não achava que era meu lugar fazer perguntas. Pensei que, se o Travis quisesse conversar sobre isso, ele poderia. Eu nunca fui o tipo de pessoa que se mete na vida dos outros. A situação toda já era estressante por si só; não havia motivo para ficar remoendo tudo aquilo toda vez que ele estava em casa.
— Derek!
Meu travesseiro não teve chance; a mesma mão que o agarrou numa tentativa fracassada de abafar o som, o mandou voando pelo quarto. Um gemido de irritação escapou dos meus lábios. Rastejei até a beira da cama, joguei as pernas para fora e me espreguicei.
— Já estou indo! — gritei de volta.
Suspirei novamente, passando a mão pelo rosto. A barba grossa arranhou a palma da minha mão. Eu sabia que precisava levantar, mas, de alguma forma, me sentia despreparado para o dia. O sol ainda não tinha nascido, mas a luz fria da lua brilhava através da janela. A luz prateada iluminava o chão de madeira escura e as paredes azul-pálidas. Os raios frios pareciam adicionar um ar de pressentimento ao ambiente.
Forcei-me a levantar antes de caminhar em direção ao banheiro. Depois de um banho rápido, penteei meu cabelo castanho-claro bagunçado, deixando-o cair sobre o lado direito do meu undercut.
— Porra — murmurei. O "eu" do passado era muito desleixado; jogar as roupas na direção da cômoda não é um jeito eficiente de guardá-las. Minhas mãos remexeram tudo até encontrar uma camiseta branca e uma calça do uniforme.
Me vesti o mais rápido possível e comecei a calçar os sapatos.
Trim!
Fiquei surpreso ao ouvir a campainha tocar àquela hora.
— Você pode atender? — Travis gritou do outro banheiro.
Joguei a cabeça para trás e suspirei de novo. Peguei a última peça do meu uniforme, uma camisa social da empresa, e comecei a caminhar em direção à porta da frente e desci as escadas. Meus pés pesados se arrastavam pelo tapete enquanto eu bocejava, aproximando-me do barulho do outro lado da nossa porta. Um braço dentro...
Trim!
A campainha tocou novamente enquanto eu deslizava o outro braço para dentro da manga da camisa, ignorando os botões.
— Caramba... — murmurei. — Tá bom! Tá bom, já estou indo! — resmunguei, desejando uma caneca enorme de café preto.
Abri a porta e congelei ao ver a cena à minha frente. Não eram os olhos castanhos cautelosos encontrando os meus por uma fração de segundo antes de baixarem para o chão. Nem era o cabelo loiro-mel da mulher que caía solto diante do rosto. Nem foi a criança minúscula que se agarrava à perna dela que me paralisou.
O que me chamou a atenção foi o olho roxo que o cabelo dela tentava esconder. Era seu lábio inchado e ensanguentado, e seu pulso direito com pelo menos o dobro do tamanho normal. Deixei meus olhos verde-sálvia se desviarem hesitantes para a menina — um corte grande atravessava sua testa, com sangue grudando em seu cabelo loiro liso. A raiva borbulhou no meu peito. A criança não podia ter mais de quatro anos. Ainda assim, ela tremia e se encolhia sob o meu olhar. O esforço para não se esconder de mim era evidente.
— O Travis está? — A mulher perguntou, dando um passo para trás nervosamente.
— Uh, sim — comecei. — Entre. Por favor.
Saí da frente da porta para que elas pudessem entrar na casa.
— Não — ela respondeu, afastando-se rapidamente.
A criança começou a chorar baixinho. Suas mãos se agarravam à perna da mãe. Seus olhos azuis brilhantes estavam tão arregalados de medo que pareciam grandes demais para o rosto. Seus lábios rosados e pequenos tremiam, apesar de estarem pressionados em uma linha firme.
— Tudo bem — entrei de volta, erguendo as mãos. — Tudo bem. Vou chamar o Travis.
Corri para o quarto do Travis, abrindo a porta de supetão. Ele estava prendendo o último botão de sua camisa perfeitamente passada. O quarto dele era imaculado; sua aparência era sempre impecável. Viver em orfanatos durante toda a infância o tornou um total maníaco por limpeza.
— Falando sério, cara? — Ele começou, parando quando viu minha expressão. — O que aconteceu?
O maxilar bem barbeado do Travis enrijeceu e seus olhos castanhos-claros se estreitaram. Sua pele, já clara, empalideceu um pouco.
— Acho que é a sua irmã. — Tentei forçar minha voz a soar calma.
Falhei. Eu nunca tinha visto o Travis parecer com medo. No entanto, quando sua expressão relaxou, um terror verdadeiro encheu seus olhos. Por um segundo, fiquei preocupado que ele fosse desmaiar.
— Tav? — perguntei, mas ele passou correndo por mim, me ignorando.
Segui lentamente, permitindo-me imaginar a Cecilia que eu tinha criado na minha cabeça através das histórias de infância. Ela sempre fora a parceira teimosa, atrevida e destemida dos planos estúpidos do Travis. Era difícil imaginar a garota tímida na varanda como aquela criança impetuosa, mas não havia como negar. Suas características físicas eram parecidas demais com as do Travis para ser coincidência.
Eu tinha certeza de que era a Cecilia. Tudo o que eu precisava saber era quem eu teria que matar por ter machucado a irmã caçula do meu melhor amigo. Travis era minha única família, e eu faria qualquer coisa por ele e pelas pessoas dele.
Olhando para a irmã, Travis parou no limiar da porta da frente. Ficou claro que ele estava se certificando de não assustá-la. Seu cabelo castanho-claro cortado no estilo militar brilhava sob a luz da varanda.
— Cici? — Travis perguntou, sem fôlego, mas de alguma forma furioso ao mesmo tempo.
— Oi, Tav... — A resposta dela foi algo entre envergonhada e nervosa.
Apoiei-me na parede atrás dele e lutei para permanecer estoico. Cecilia me olhou com cautela antes de retornar o olhar para o irmão. Os ombros do Travis pareceram relaxar quando ele percebeu que eu estava dando cobertura.
Travis suspirou, parecendo derrotado. — Quando?
— Ele apareceu ontem à noite... — Ela parou, com lágrimas nos olhos. — Eu chamei a polícia, mas ele fugiu.
— Por que vocês não foram para o hospital? — Ele disparou, soando ríspido demais, na minha opinião.
A menina choramingou, escondendo-se ainda mais atrás da mãe. Instintos que eu nem sabia que tinha me fizeram endurecer, sentindo a necessidade de protegê-las. Quando aqueles olhos azuis petrificados encontraram os meus, eu quis me colocar entre a criança e tudo o que a assustava.
— E esperar que ele nos encontre lá? — Cecilia rebateu, puxando a forma trêmula da menina para mais perto. — Eu tive que ir embora. Não sabia para onde mais ir.
— Tudo bem, tudo bem... — Travis pausou, organizando seus pensamentos antes de se agachar e tentar alcançar a criança. — Vamos, Skyler. Querida...
A menina choramingou novamente, enterrando o rosto na mãe. Uma dor passou pelo rosto do Travis quando sua sobrinha se encolheu ao vê-lo. Eu só conseguia imaginar a mágoa que meu melhor amigo sentiu com aquela rejeição.
— Para onde estamos indo? — Cecilia perguntou, parecendo insegura.
— Para o hospital. — Apesar de seu esforço valente, a dor ainda era evidente na voz do Travis.
— Tav... — ela começou, nervosa.
— O departamento trabalha com a Dra. Smith. Ela não vai permitir que nenhuma informação chegue a ninguém, a não ser ao meu chefe. — Travis a cortou, desesperado.
— Vou direto para o trabalho e falo com o chefe, depois encontro vocês no hospital — ofereci.
Travis me lançou um olhar de agradecimento. Fiquei feliz por ter um trabalho, mas Cecilia me olhou incrédula, como se não soubesse muito bem por que eu tinha ousado falar. A expressão dela teria me feito sorrir em outras circunstâncias.
— Tudo bem — ela finalmente cedeu, franzindo a testa nervosamente.
— Cici — Travis disse em um tom baixo e calmo. — Não vou deixar isso acontecer de novo.
Cecilia mordeu o lábio e endireitou a postura, assentindo rigidamente. Apesar da fachada à prova de balas, lágrimas encheram seus olhos, ameaçando transbordar, e suas mãos tremiam de nervoso.
— Vou para a delegacia, então. Tenho certeza de que o chefe terá muitas perguntas que não posso responder, então vou adiantar a papelada — disse eu, sentindo-me invasivo.
— Sem papelada! — Cecilia disse freneticamente.
— Valeu, cara — Travis disse enquanto saía, levando Cecilia para seu carro.
Segui-os para fora, bem ciente de que Cecilia olhava para trás regularmente. Então, caminhei até meu carro e entrei, esperando que eles partissem. Enquanto saíam, Cecilia me observou pela janela. Nossos olhos se encontraram, e forcei um sorriso, assentindo em sinal de reconhecimento.