Capítulo Um - Nova.

Sozinha no meu escritório, eu encarava sem esperança uma foto querida minha e do meu pai. A imagem foi registrada no dia em que me tornei policial oficialmente, e ele nunca pareceu tão orgulhoso de mim quanto naquele dia. Em meio à felicidade que senti, uma tristeza começou a surgir. Palavras nunca poderiam descrever o quanto eu sentia falta dele, mas, felizmente para mim, não pude me deixar levar pela melancolia por muito tempo, pois bateram à porta.
“Ei, Nova, o Chefe Neils quer vê-la no escritório dele. E um aviso: ele não está nos melhores dias.”
Afundando na minha cadeira giratória, verifiquei a hora no meu relógio. Tinham acabado de passar das 8 da manhã; o que significava que isso não podia ser notícia boa.
“Valeu pelo aviso, Andrea.” Forcei um sorriso para a policial que passava e ela saiu. Eu estava hesitante em sair da mesa; meu instinto dizia que algo estava errado e, honestamente, não sabia se conseguiria lidar com mais notícias ruins.
Relutante, desliguei meu computador e subi para o escritório dele, que fica no último andar da delegacia. Ao me aproximar da porta, percebi que ia levar uma bronca, mas rezava silenciosamente para não ser demitida.
Respirando fundo, bati com firmeza.
“Entre”, chamou o Chefe Neils com um tom severo. Entrei e fechei a porta atrás de mim, apreensiva para me virar. Quando finalmente o fiz, notei que minha ficha policial já estava aberta na mesa dele.

“Senta essa porra de bunda aí, Nova.” Fiz o que ele pediu e me preparei para o sermão. “Quer explicar o que aconteceu enquanto eu estava fora?” O Chefe Neils sentou-se na sua cadeira de couro de encosto alto, com os braços cruzados, esperando pacientemente pela minha resposta.
“Chefe, entendo que coloquei a operação em risco, mas eu agi pelo meu instinto. Acreditei que era moralmente correto diante das circunstâncias.” Falando a verdade, esperava que ele visse que eu só tinha boas intenções. Eu jamais teria arriscado tudo daquela forma se não achasse que estava fazendo a coisa certa.
“Em que momento, durante seus treze anos como agente, te disseram para colocar um caso em risco por causa de um palpite? Não é nem sobre isso, Nova; é sobre você ter desobedecido ordens. Você foi mandada parar várias vezes.”
“Eu sei”, suspirei, frustrada com a situação em que me encontrava. “Sinto muito.”
“Passamos três anos construindo esse caso, e você, porra, estragou tudo!” Dei um pulo quando ele deu um soco na mesa, furioso. “Ainda não acredito que você me colocou nessa posição. Você, de todas as pessoas, Nova.” O Chefe se levantou, com minha ficha na mão, mas em vez de me encarar, virou-se para olhar pela janela em direção à rua movimentada lá embaixo. Aquele homem de um metro e oitenta não conseguia nem olhar nos meus olhos enquanto tirava a última coisa que me restava na vida. “Nova, você sabe que não tenho outra escolha. Não importa o que você diga, você ainda ignorou suas ordens.”
“Chefe, por favor, eu te imploro, não faça isso. Eu preciso desse emprego. Eu ralei pra caralho para chegar aqui. Metade das informações desse caso a gente nem teria se não fosse por mim, indo além com as pistas.” Implorei a ele, sentindo que toda a minha vida estava pendurada por um fio. “Por favor, Neils; você sabe que isso é tudo o que me restou.”
“Eu queria poder fazer vista grossa, Nova, de verdade, mas já é tarde demais. Já coloquei outra pessoa para assumir o caso, e ele me garantiu que tem uma pista nova sobre um cara que pode ter nos atraído.”
Isso é impossível.
Eu investiguei todas as pistas possíveis; não encontrei nada.
“Quem? Quem assumiu o caso?”, perguntei, atordoada.
“Agente Blake.”

“Você não está falando sério?”
“Ele é um agente excepcional, por mais que vocês se odeiem. Eu diria que é o segundo melhor, atrás de você. Isso é difícil para mim também, Nova. Ainda me lembro do seu pai te trazendo a este escritório quando você nasceu, e te ver crescer e se tornar uma mulher linda. Podemos estar distantes agora, mas já fomos muito próximos.” Fiquei quieta, furiosa comigo mesma por estar naquela situação. “Seu pai, ele ainda estaria orgulhoso da agente que você foi e de tudo o que conquistou. Mesmo que tenha chegado a este ponto, eu ainda me importo com você.” Ele parou de falar e se virou para me encarar.
Era realmente o fim.
Tirei meu distintivo de dentro do blazer e refleti sobre o que significava deixar para trás a única coisa que me restava na vida.
“Você quer saber quem me disse para agir conforme meu instinto? Meu pai. Seu parceiro de longa data e melhor amigo. Nenhum treinamento oficial poderia ensinar as coisas que aprendi com ele, e agora estou sendo punida por isso. Você até me disse que eu aprendi com o melhor; essas foram suas palavras quando ele morreu.” Lágrimas brotaram nos meus olhos.
“Nova, você quebrou regras demais, porra. Você não me deixou outra escolha.”
“Mas eu salvei a vida daquela garotinha!”
“Não importa quem você salvou, porra”, ele rebateu. “Você colocou a si mesma e a outros nove agentes em risco!”
“Mentira! Cada um deles, inclusive você, é um bastardo de coração frio. Eu tomaria a mesma decisão novamente se significasse que ela viveria.”
“E olha onde isso te levou? Com nada e com ninguém.” Neils deu de ombros e jogou casualmente a pasta do meu caso na lixeira, como se eu não fosse nada; como se o nome da minha família não significasse nada para ele depois de todos esses anos.
Eu estava fervendo de raiva.
“Vai se foder!”, gritei e saí pisando duro do escritório dele, batendo a porta. Do lado de fora da porta estava a única pessoa que eu detesto ver todo santo dia: Thomas-porra-de-Blake.
“Más notícias?”, perguntou Thomas, divertido. Dei um passo para o lado para passar por ele, mas ele deu o passo no mesmo momento, bloqueando meu caminho de novo. Relutante, encarei os olhos dele desta vez. Altivo, Thomas estava orgulhoso em seu terno azul-marinho sob medida, com sua pistola Colt 45 característica bem ajustada dentro da jaqueta e, como sempre, o cabelo penteado à perfeição. Serei a primeira a admitir que ele é um agente excepcional; se não o melhor que conheço, mas existe uma aversão mútua entre nós.
Eu o odeio.
Ele me odeia.
É simples assim.
Existem muitas razões para Thomas Blake ter esse efeito em mim, sendo a principal que ele se acha o Sr. Perfeito e, para olhos destreinados, isso pode ser verdade; ele pode ser alto, moreno e bonito, mas eu vejo através dele e de seus ternos chamativos. Até onde eu sei, Thomas subiu de cargo sem uma base policial; ao contrário de mim, que segui os passos do meu pai, mas, fora isso, não tenho vergonha de dizer que não sei nada sobre ele. Tudo o que sei é que, desde o segundo em que Thomas chegou à delegacia, ele sentiu a necessidade de me odiar. Ele faz questão de me irritar, pregando peças bobas ou me menosprezando sempre que pode. Claro, não entro em nenhum dos seus jogos infantis, mas, neste momento, estou extremamente irritada por ele ter acabado de me ver perder o emprego.
“Sai da frente”, exigi, e então vi sua expressão mudar. Ele tinha acabado de notar as lágrimas que eu tentava limpar do meu rosto.
“Merda. Não achei que ele faria isso de verdade”, Thomas parecia surpreso. “Vou ser honesto com você, Nova. Não entendo por que ele te dispensou; você é uma policial do caralho. Sinceramente, vou sentir falta da sua presença; ver você é a única coisa que eu realmente espero”, Thomas se aproximou, levantando meu queixo, garantindo que eu fizesse contato visual com ele antes de falar de novo. “Você deve estar triste, com seu pai sendo o agente herói e tudo mais. Aposto que ele ficará muito orgulhoso de você estragar o legado dele logo após a sua morte.”
“Vai se foder.”
Empurrei-o para o lado e continuei a caminhar pelo corredor enquanto ele me chamava.
“Tudo é justo no amor e na guerra, gata!”, ele riu. “Boa sorte com o horário das nove às cinco. Ouvi dizer que a Starbucks está contratando.” Ignorei-o a princípio, mas, ao chegar ao elevador, não havia chance de eu deixar ele ter a última palavra, não dessa vez.
Virei-me e gritei de volta. “Ei, Thomas? Esqueci de mencionar, lembra da loira burra que você levou pra casa do bar no mês passado?” Ele pensa bastante sobre a minha pergunta.
“Qual delas?”
“Aquela que estava com o tom de laranja errado.”
“Ok, lembrei. O que tem ela?”
“Bom, acontece que ela estava com um caso sério de gonorreia. Você deveria dar uma checada no seu pau antes que ele caia.”
“O quê!?”
Jogando o cabelo sobre o ombro, entrei no elevador e apertei o botão para fechar as portas. Essa foi a única coisa positiva que pude tirar dessa situação; isso e o fato de não ter que ouvir ele assobiando a música de Etta James, ‘I just want to make love to you’. Todo. Santo. Dia.
Quando o elevador abriu novamente, respirei fundo e voltei à minha mesa para recolher meus pertences. Senti-me um pouco atordoada, parecia surreal que, em todos os anos em que estive aqui, tudo se resumia a apenas uma caixa de papelão. Nunca me senti tão decepcionada comigo mesma, e fiquei feliz por não ter uma plateia enquanto fazia a caminhada da vergonha para fora do prédio pela última vez.
Ao chegar ao meu carro, ponderei para onde ir; casa? Não, eu precisava de uma bebida, então fui para o único lugar onde eu sabia que poderia encontrar algum consolo àquela hora do dia: o bar.
Quarenta e cinco minutos depois de chegar, eu estava bêbada, lutando para ficar de pé e com um caso sério de soluços. Tinha acabado de atingir o estágio da depressão enquanto tomava o último gole de vinho branco do copo, imaginando como minha vida estava uma bagunça. Sentindo que ia desabar, decidi que era melhor ir para casa antes de começar a chorar no ombro de algum estranho.
Pedi um Uber, fui ao banheiro para me recompor, mas ao voltar para o bar, havia alguém no meu lugar. Travei no caminho ao notar que era Thomas Blake.
“Isso é simplesmente maravilhoso.”, suspirei para mim mesma e tentei passar silenciosamente sem ser notada, mas o álcool tinha outros planos. Tropecei direto na mesa de sinuca, derrubando os tacos no chão, e agora o bar inteiro se virou para olhar na minha direção.
“Droga, Nova. Imagino que a Starbucks recusou aquele currículo?”, Thomas gritou.
“Vai se foder, Blake”, murmurei, tentando andar em linha reta, mas falhando miseravelmente. Podia ouvi-lo e seu amigo rindo às minhas costas, mas tomei uma atitude superior e os ignorei, continuando em direção à saída. O táxi ainda não tinha chegado, então tirei meu celular da bolsa para checar onde ele estava, mas, sem que eu percebesse, Thomas tinha me seguido para fora.
“Espero que você não esteja indo embora por minha causa”, ele falou enquanto se encostava casualmente na parede de um jeito pretensioso. “Por favor, fique. Sinceramente, não me importo de assistir ao espetáculo de alguém se fazendo de boba.”
“Desculpe te decepcionar, Thomas, mas estou indo para casa.” Bem quando eu ia verificar onde meu motorista do Uber estava, ele arrancou o celular das minhas mãos. “Não seja um idiota, Thomas. Me devolve meu celular?”
“Isso não é muito educado. Olha, entendo que você teve um dia difícil, então aqui, pode pegar de volta.” Thomas estendeu o celular para eu pegar, mas quando tentei arrancar, ele moveu a mão, o que me fez calcular mal o passo e cair de joelhos na frente dele. Isso me deixou furiosa, e agora não me importava mais com o celular; eu tinha algo muito melhor para ele contemplar.
Levantei-me, puxei minha arma da bolsa e a apontei diretamente para a têmpora de Thomas. Ele congelou instantaneamente; vendo que tinha me levado longe demais em um único dia. Enquanto fazíamos contato visual, houve alguns segundos de silêncio ensurdecedor entre nós, então, de repente, os olhos dele mudaram. Vi a fúria tomar conta dele momentaneamente; suas íris foram do azul do oceano para um preto azeviche em menos de um segundo; ele estava furioso.
Agarrando meu pulso em um movimento rápido, ele me desarmou. Pegando minha arma, ele me prensou contra a parede de pedra onde estava encostado momentos antes. Tentei me soltar, mas não adiantou; Thomas era muito mais forte do que eu, e, em minha defesa, eu estava muito intoxicada. Se eu estivesse sóbria, isso teria tido um fim muito diferente. Achei que tudo o que eu podia fazer naquele momento era rir conforme o aperto dele ficava mais forte.
“Sua vadia idiota! Sacar uma arma para mim no meio da rua! Qual é o seu grande plano agora, Nova? Sem arma. Sem celular. Bêbada numa segunda-feira à noite. Olha só para você, já desmoronando sem a proteção do papai para te manter segura.” As palavras dele me atravessaram, tanto que quase implorei para ele parar.
Um carro virou a esquina, distraindo nós dois e, felizmente, desarmando a situação. Thomas afrouxou o aperto, me dando a chance de me afastar e, enquanto o fazia, consegui pegar meu celular de volta, mas minha arma já era outra história.
“Não acho que seja uma boa ideia, Srta. Dean.” Thomas agora deu um passo para fora do meu alcance. “É melhor eu ficar com isso por enquanto. Especialmente porque, legalmente, você não tem mais o direito de estar armada.” Escovando-se casualmente, Thomas ajeitou seu terno e garantiu que seu cabelo estivesse de volta ao lugar perfeito.
“Devolve.”, exigi.
“De jeito nenhum, porra. Você vai acabar atirando em mim desta vez. Você acha que eu sou estúpido?”
“Eu nunca ia atirar em você, Thomas. Nem carregada ela está. Olha, era do meu pai. Ele me deu. Eu já perdi tudo, então, por favor, só me devolve?”
Eu mostrei fraqueza a ele, esperando que em troca ele me devolvesse a arma, mas eu estava errada em pensar que ele tinha qualquer empatia naquele coração gelado.
“Não me importa se o Al Capone te deu, você não vai ficar com ela. Agora, seja uma garotinha boazinha, entre no seu táxi e vá se foder. Olha o seu estado. Você nem é digna de ser uma agente depois desse showzinho. Pense em quão decepcionado seu pai estaria se estivesse aqui para ver isso. Você está desmoronando. Acho que devo te dar os parabéns, pois você superou todas as minhas expectativas de quão fraca você é.” Fiquei ali parada absorvendo o que ele acabara de dizer, e o que mais me atingiu foi saber que ele não estava mentindo. Eu quase me senti grata por ele estar me dizendo a verdade. Enquanto o motorista do táxi buzinou para me apressar, tomei a decisão definitiva de ir para casa e, pela primeira vez na minha vida, desisti; não tinha mais nenhuma vontade de lutar.
“Obrigada, Thomas. Por ser tão honesto comigo.” Olhei para minhas mãos, sentindo um sentimento de pesar me invadir. “Desejo mesmo boa sorte com o caso.”
Thomas ficou lá, confuso, enquanto eu entrava cambaleando no carro, derrotada. Quando o motorista saiu, meu celular vibrou na minha mão, então puxei a barra de notificação para baixo e vi que era uma mensagem do meu motorista do Uber dizendo que estava atrasado. Levantei o olhar do celular e vi o reflexo do meu motorista atual no espelho retrovisor. Os olhos dele iam da estrada de volta para mim. Dando uma olhada rápida para o banco do passageiro vazio, vi o cano de metal de uma arma aparecendo debaixo de um jornal.
Este não era o meu motorista.
Como é possível um adulto ser sequestrado? E bem na frente de um dos melhores agentes da força policial britânica.
Sentei-me em pânico, tentando não demonstrar nenhuma preocupação por estar agora sozinha e desarmada, tudo graças a Thomas-porra-de-Blake.