Home (Livro 1: Second Chances)

Todos os Direitos Reservados ©

Resumo

Reggie estava começando a esquecer como era sentir medo e passando a acreditar que estava segura. Mas quando sua vida começou a desmoronar, a única coisa que a mantinha de pé era a pessoa que ela vinha mantendo à distância. TW: Alguma menção a abuso doméstico, embora não em detalhes.

Status
Completo
Capítulos
63
Classificação
5.0 43 avaliações
Classificação Etária
18+

Chapter 1

Dias quentes de verão eram o pior, pensou Reggie enquanto levava a mão ao rosto para secar o suor da testa. Ela respirou fundo, olhou para a cerca e pegou o pincel novamente. Essa cerca estaria pintada antes do pôr do sol, nem que fosse a última coisa que ela fizesse, sussurrou como um mantra para continuar.

“Reggie! Ei, Reggie!”

Reggie virou-se e protegeu os olhos do sol para ver Yvonne, sua melhor amiga, acenando da varanda dos fundos com o telefone da casa em uma das mãos. Era um casarão colonial de dois andares que ela usara todas as suas economias para comprar, mas que precisava de muito trabalho para se tornar o imóvel valioso que poderia ser. Localizada em Madison, uma cidade pequena a uma hora a oeste de Chicago, e cercada por casas em condições muito melhores e com gramados impecáveis, Reggie dava o seu melhor na manutenção, lutando contra a quantidade absurda de trabalho que o local exigia.

“Telefonema da delegacia”, gritou Yvonne. “Pegamos mais um!”

Reggie colocou o pincel de volta na bandeja e limpou as mãos no macacão enquanto atravessava o jardim às pressas para atender. Yvonne balançava a cabeça com um sorriso contido enquanto lhe entregava o aparelho.

“Obrigada, Yvie”, disse Reggie, pegando o telefone e entrando direto em casa. “Alô, aqui é a Regina Buckley.”

“Olá, aqui é o policial Cullen, da 13ª Delegacia. Me disseram que você é a pessoa certa para ligar caso eu tenha...”

“Qual a idade?”

“Como?”

“A criança, qual a idade dela?” Reggie remexeu a tigela no centro da ilha da cozinha para encontrar as chaves do carro.

“Sete anos.”

“Menina?”

“Não, um menininho, senhora.”

“Certo, posso estar aí em trinta minutos.”

Reggie desligou sem esperar pela confirmação e virou-se para Yvonne, que estava ocupada fazendo sanduíches na cozinha.

“Menino, sete anos”, disse ela, vendo o desânimo passar pelo rosto de Yvonne antes que ela se recompusesse rapidamente e voltasse a se concentrar no que estava fazendo.

Regina contornou a ilha, aproximou-se de Yvonne, passou o braço pelos ombros dela e apoiou a cabeça na dela.

“Temos espaço para mais um, não temos?” perguntou Reggie, embora já soubesse a resposta.

“Nós daremos um jeito”, declarou Yvonne.

Reggie sorriu e olhou para o caos na bancada. Fatias de pão estavam espalhadas por toda a superfície, algumas puras, outras com manteiga ou maionese, além de uma verdadeira linha de montagem de coberturas que Yvonne usava para fazer os lanches — uma das poucas refeições que ela conseguia preparar sem disparar os alarmes de incêndio.

O plano original era alugar os quartos e conseguir dinheiro com inquilinos para ajudar nas reformas. Mas, antes mesmo que ela pudesse colocar o anúncio, houve um incêndio na casa dos vizinhos que deixou os dois pais hospitalizados. Reggie acolheu as três crianças por alguns dias e descobriu uma nova paixão.

Ela se registrou como lar adotivo e começou a receber crianças imediatamente. No último ano, ela abrigou quase vinte e três crianças. Algumas ficaram por pouco tempo, outras por mais. Algumas voltaram para os pais ou responsáveis, outras foram adotadas, e algumas até atingiram a maioridade lá. O "Lar" — seu título oficial, porque ela estava nervosa demais no cartório para pensar em outra coisa — ficava geralmente cheio, o que a deixava exausta na maior parte do tempo.

Após alguns meses quase esgotada, ela anunciou uma vaga para alguém morar no local e Yvonne se mudou. Elas dividiam a maior parte das tarefas, e as crianças tinham afazeres como lavar roupa e cuidar do jardim, então, na maior parte do tempo, a casa funcionava como um reloginho. No momento, elas tinham seis crianças menores de dez anos e um adolescente, então, com essa nova criança, elas chegariam à capacidade máxima.

“Estarei de volta em breve”, disse Reggie, pegando um pedaço de presunto de uma das vasilhas. “Vou buscar o menino agora.”

“Vou deixar a comida pronta e separar a parte da horda. Eles devem chegar a qualquer momento.”

“Ah, espera... você tem um encontro com o George mais tarde, não tem?”

“Podemos adiar!” disse Yvonne com um aceno de mão.

“Eu voltarei a tempo, não deve demorar muito.”

“Não se preocupe com isso, Reggie, dirija com cuidado!”

Reggie olhou para o relógio e notou que eram quase três e meia. As crianças estariam saindo do ônibus escolar logo, então ela precisava se apressar.

“Se o Gus não tiver lição de casa, você pode pedir para ele continuar pintando a cerca?” pediu Reggie enquanto saía da cozinha.

“Com certeza.”

“Valeu, até mais!”

Reggie acenou para Yvonne e correu para o carro, carinhosamente chamado de Hank. Ela fez uma prece silenciosa para quem estivesse ouvindo para que aquela lata-velha pegasse e chegasse até a delegacia, e agradeceu quando o motor deu sinal de vida logo na segunda tentativa.

O trânsito estava tranquilo e ela chegou à delegacia em tempo recorde, mas só depois de desligar o motor percebeu que estava usando um macacão respingado de tinta com uma regata neon por baixo. Ela puxou o espelho retrovisor para olhar mais de perto e gemeu de desânimo ao ver que seus cachos ruivos estavam presos com uma bandana tie-dye, também suja de tinta e gasta. Ela tinha uma mancha de tinta verde em uma bochecha e um rastro branco na outra. Ela desejou ter pelo menos usado uma cor só naquela maldita cerca.

“Merda”, resmungou ela enquanto limpava o rosto com os dedos, mas não adiantou nada.

Ela saiu do carro e olhou para os tênis surrados que usava, um Converse verde de cano alto e um cinza de cano baixo.

“Merda!” murmurou novamente, olhando no banco de trás para ver se havia um par reserva, mas não viu nada.

Ela sabia que não tinha tempo de voltar para casa para se trocar, e havia um menino esperando por ela na delegacia que ela odiaria deixar esperando. Ela limpou as mãos na calça e enfiou as chaves no bolso, subindo os degraus da entrada às pressas e torcendo para que o policial não fosse do tipo observador.

A delegacia estava cheia e ela teve que esperar sua vez de falar com o policial da recepção. Para uma delegacia de bairro, ela sempre se surpreendia com a agitação que encontrava ali. Ou talvez fosse porque ela só ia lá para buscar alguma criança, e qualquer coisa que entrasse em seu caminho naqueles momentos parecia infinitamente irritante. Finalmente, quando chegou sua vez, ela sorriu gentilmente para Jerry, o policial que sempre ficava na recepção.

Ele estava perto da idade de se aposentar, parecia ter comido sua cota de rosquinhas matinais e seu uniforme estava esticando para comportar tudo. Mas seu rosto era caloroso e aberto, sendo a recepção perfeita para qualquer um que chegasse ali em apuros.

“Oi, Jerry. Recebi uma ligação de um tal policial Cullen sobre uma criança.”

“Ei, Reggie. Pois é, um 11-80 na rodovia”, disse Jerry, balançando a cabeça com pesar, e Reggie sabia por experiência que aquele código significava um acidente de carro com ferimentos graves. “Os pais foram levados de helicóptero para o Cook County, mas o menino parece ter saído apenas com alguns arranhões.”

“Que sorte”, disse Reggie, fazendo uma careta. “Ele está na sala da família, certo?”

“Exatamente.” Jerry apertou um botão e a campainha soou para destrancar a porta lateral.

Regina sorriu, empurrou a porta e caminhou rapidamente pelo saguão até os fundos do prédio, onde ficavam a sala de descanso e a sala da família. Ela já estivera ali mais vezes do que gostaria de lembrar, mas cada vez parecia a primeira. Ela respirou fundo e tentou fazer com que seu sorriso parecesse caloroso e acolhedor ao abrir a porta.