Capítulo 1
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PRIMEIRO DIA
POV: Haven
Eu odeio Deus. Ele tirou de mim algo que não estava à disposição. Ele tirou o meu alicerce. A única coisa em que eu podia me apoiar quando as coisas ficavam difíceis. Ele tirou meus pais de mim. Estou entorpecida. O luto é um tipo de dor diferente. Não é nada parecido com um joelho ralado ou um braço quebrado. É vazio, raiva, depressão e perda, tudo embrulhado em um só pacote.
Hoje é o primeiro dia de aula e eu sou a motorista do meu irmão e dos meus primos. Minha tia basicamente desistiu da vida desde que minha mãe faleceu. Foi difícil para todos nós, mas minha tia entrou em um poço sem fundo.
Ela bebe para se entorpecer. Meu tio, por outro lado, tem trabalhado feito um condenado para pagar por tudo. Ele é ótimo. Eu cuido do meu irmão e dos meus primos por nós dois.
Meu tio paga pela minha gasolina. Eu tenho que dirigir para duas escolas diferentes e depois levar todo mundo para o futebol e o basquete depois da aula. Meu irmãozinho Cade e meus primos Holden e Hayden estudam no ensino fundamental.
"Não esqueça de levá-los para o treino", diz minha tia, colocando um cigarro na boca enquanto segura sua taça de vinho. Ela é a própria definição de crise de meia-idade.
Eu balanço a cabeça vigorosamente enquanto coloco as lancheiras nas mochilas de cada um. Eu mal tive tempo de preparar meu próprio material escolar. Tudo o que tenho é um caderno e um lápis. Nada de fichários ou um monte de marca-textos.
Hoje de manhã, apenas escovei o cabelo e os dentes, vestindo um moletom e calças confortáveis, apesar do calor de agosto. As olheiras sob meus olhos estavam bem visíveis, embora eu nem me importasse em cobri-las.
Deixei as roupas dos meninos prontas, sem sobrar tempo para as minhas. Eu nem me importava. Não sinto aquele frio na barriga de volta às aulas. Meu estômago não está dando nós e minhas mãos não estão suadas. Estou vazia de qualquer felicidade ou empolgação. Esses sentimentos estão enterrados fundo, e não consigo encontrá-los por mais que tente.
Os meninos entram no meu Nissan e seguimos em direção à escola deles. Quando chegamos, Cade me dá um beijo na bochecha, enquanto meus primos gêmeos me dão abraços rápidos e correm para encontrar as outras crianças na frente do prédio. Forço um sorriso, dou tchau e vou embora.
O caminho para a minha escola é silencioso. Sem risadas de crianças no banco de trás, sem música tocando baixinho. Apenas minha respiração e o som do motor. Motoristas adolescentes são idiotas. Vi dois deles parados no acostamento com os para-choques destruídos. Estremeço ao ver os cacos de vidro espalhados pela estrada.
Sou fechada duas vezes antes de conseguir entrar no estacionamento da escola. Encontro uma das últimas vagas, jogo a mochila nos ombros e saio do carro.
Meu cabelo castanho voa no meu rosto e o vento sopra forte pelo estacionamento. Minha cabeça já está quente por causa do sol quando chego na escola. Imediatamente, todos os olhares se voltam para mim. Tento ignorar enquanto caminho pelos corredores. Não falo com ninguém da escola desde a morte dos meus pais. Embora muitas pessoas tenham enviado condolências.
Eu tinha amigos, ou melhor, costumava ter. Todos faziam parte da minha aula de balé. Nos conhecíamos desde crianças. Éramos próximos até eu parar de ir aos treinos. Alguns ainda me cumprimentavam quando me viam, mas, fora isso, não havia muito o que dizer. Uma das minhas amigas próximas, Hannah, me mandou mensagens durante o verão até que parou. Ela fez amizade com o pessoal mais popular, me deixando sozinha na base da cadeia alimentar.
Eu me sentia confortável comigo mesma. Meus amigos adoravam meu jeito positivo. E eu sonhava com Landon Adams. Nós crescemos juntos e ele fazia meu coração disparar. Agora, quando passo por ele nos corredores, não sinto aquele frio na barriga. Nem mãos suadas. Não sinto nada.
Quando viro a esquina, sou emboscada. "Meu Deus! Coitada! Como você está aguentando?", Sadie segura meus ombros enquanto Hannah e Cora ficam ao lado dela. Sadie é uma cobra, sempre foi. Ela é tão cheia de si. E a Cora é como se fosse meu último neurônio. Não acredito que a Hannah é amiga delas. Elas viviam chamando a Hannah de gorda e de piranha.
Sadie olha em volta para garantir que todos vejam como ela é doce e atenciosa antes de me puxar para um abraço. "Sinto muito pelos seus pais!", ela grita. Sinto minha raiva subir, borbulhando na superfície, estou prestes a explodir.
"Tira a porra das mãos de mim", eu esbravejo e empurro a morena magricela. Ela tropeça para trás e Hannah me olha com os olhos arregalados.
"Qual é o seu problema, garota?", Sadie exclama quando recupera o equilíbrio.
Eu reviro os olhos para ela. "Você é o meu problema, porra! Me toca de novo e eu juro por Deus", digo, enquanto a adrenalina corre pelo meu corpo. O que há de errado comigo?
"Estou surpresa que você não tenha gostado, sapatão", diz Cora, rindo. Antes que eu possa me controlar, eu avanço nela. Um corpo robusto me para.
"Ei, parem com isso!", grita um homem. Cambaleio para trás e vejo o vice-diretor, Sr. Davis. Uma multidão se formou ao nosso redor com os celulares em punho. As pessoas estão gritando "WorldStar". "Para a minha sala! Todos vocês!"
Eu rosno e abro os punhos. Nunca fui uma pessoa violenta. Tudo o que Sadie ou Cora disseram antes passava batido, mas agora sinto que cada palavra me corta.
Empurro a multidão de pessoas que se formou durante meu surto e marcho em direção à sala com o Sr. Davis logo atrás. Ele aponta para a cadeira e eu me jogo nela.
Durante toda a minha adolescência, nunca fui rebelde ou nada do tipo. Nunca tinha sentado na sala do diretor.
O Sr. Davis fecha a porta atrás de si e se senta em sua cadeira giratória barulhenta. "Qual é o seu nome, senhorita?", ele pergunta enquanto digita no teclado. É claro que ele não sabe meu nome. Ninguém sabe. Ou, acho que, ninguém lembra.
"Haven Collins", digo com má vontade. Os olhos do Sr. Davis se arregalam em reconhecimento. Quando o acidente aconteceu, saiu em todos os jornais. Houve canais de TV na frente da casa da minha tia por semanas.
"Entendo. Sinto muito pela sua perda", ele diz, e eu fico tensa. Assinto e espero que ele continue. "O que aconteceu com a senhorita Sadie?", ele insiste.
"Ela começou a me abraçar por atenção, então a empurrei. E a amiga idiota dela, Cora, me chamou de sapatão", digo em tom monótono.
Sr. Davis acena. "Vou falar com ela, mas você nunca deve deixar ninguém tirar você do sério desse jeito. A violência nunca é a resposta."
Fico ainda mais irritada. "Eu estava na minha e a Sadie estava me provocando", afirmo com naturalidade.
"Eu entendo que você está passando por muita coisa agora. Vou enviar um e-mail para seus professores, mas não quero ver isso acontecer de novo. Eu admiro você por se defender, mas se você se envolver em outra briga com um aluno, terei que suspendê-la."
Esfrego as têmporas e solto um gemido. Não foi assim que imaginei meu primeiro dia. Eu nem sei mais quem eu sou.
Quando a primeira aula começa e a professora começa a passar o cronograma, eu me desligo completamente. O relógio tiquetaqueia enquanto a música toca alto nos meus fones de ouvido.
"Ok turma, vamos fazer algumas apresentações. Sei que a maioria de vocês do último ano se conhece, mas eu não conheço vocês. Digam seu nome e um fato divertido sobre vocês." Tudo o que a Sra. Hudson diz entra por um ouvido e sai pelo outro.
Alguns minutos se passam e sinto um toque no meu ombro. Viro a cabeça e vejo a Sra. Hudson me olhando com um ponto de interrogação. Tiro o fone de ouvido. "Hã?", pergunto, franzindo a testa.
"Seu nome e algo sobre você", diz a Sra. Hudson, endireitando-se.
"Haven Collins e minha cor favorita é azul." Falo alto o suficiente para a professora e as pessoas ao meu redor ouvirem.
Sra. Hudson murmura algo e depois bate na minha mesa. "Nada de celulares na aula. Na próxima vez, ficará na minha mesa." Assinto, mas assim que ela vira as costas, o fone volta para o meu ouvido.