#1 The deep end
BLURB
Ash Storm tem problemas. Problemas grandes. Ou, sendo mais preciso: o pau dele tem problemas grandes. Do tipo que faz as garotas terminarem com você. Então, quando ele se muda para uma cidade nova, parece o momento perfeito para começar uma terapia. Na cidade de onde ele veio, uma cidade ridiculamente pequena, todo mundo se conhece. As garotas fazem fofoca. Os terapeutas conhecem os pais dele. Ele não podia pedir ajuda lá, mas agora, finalmente pode. Mudança grande, cidade grande e, com sorte, uma solução para os seus grandes problemas.
Conheça Peyton Snow, a terapeuta dele. Ela tem uma queda por Ash desde que era criança, embora ele mal se lembre dela. Ela não sai com ninguém e seu foco principal é ser uma terapeuta foda, ajudando o maior número de pessoas possível. Ela está determinada a ajudar Ash, mesmo que isso signifique conversar com ele sobre uma parte do corpo com a qual ela fantasia à noite, na cama, sozinha. Ela é profissional. Ela consegue fazer isso, não importa o quão... duro seja. Trocadilho intencional.
Faíscas voam, mas ambos estão determinados a não deixar rolar. Os dois têm bons motivos para não sair com ninguém, e uma terapeuta saindo com o paciente? Nem ferrando. Nunca. Nem em um milhão de anos... Será?
Aviso: você pode ler este livro totalmente como uma história independente. No entanto, ele faz parte de uma série. Confira os livros “Guide to books by Goddess Hedone” no meu perfil para saber mais! Lá explica a melhor ordem para ler os livros, mas eu escrevo todos eles como independentes, então sinta-se à vontade para escolher! Só saiba que as participações especiais e os easter eggs não farão sentido se você ler este livro separadamente. Não importa muito, você não precisa dessa informação, mas se você pensar “por que outros leitores acham isso engraçado nos comentários?” ou “por que ela está trazendo essa pessoa aleatória para a história?”, é bem provável que seja um personagem de um dos meus outros livros.
O primeiro livro da série é "Sweet Caroline", caso você queira começar do comecinho, com o casal que iniciou todo este universo.
Para aqueles que já leram “Blaming Benjamin”: este conto se passa no final do livro. Então haverá uma certa sobreposição entre os capítulos finais, mas, fora isso, é completamente separado e irá um pouco além dessa linha do tempo.
Espero que todos gostem deste conto!
#1 The deep end
Ponto de vista do Ash
Primeiro dia no trabalho e também meu primeiro dia de terapia. Que jeito de mergulhar de cabeça, Ash.
Por outro lado, é o que eu sempre fiz. Quando fiz meu primeiro estágio durante a faculdade de pedagogia, o professor que me orientava ficou doente e eu tive que assumir a turma dele por causa da falta de professores. Eu só estava fingindo que sabia o que estava fazendo há cerca de uma semana e, de repente, era responsável por 25 alunos da quarta série. Eu dei conta, recebi uma oferta de emprego antes mesmo de terminar a faculdade e continuei mergulhando de cabeça todos os dias.
A escola não tinha dinheiro suficiente para atividades extracurriculares? Adivinha quem organizou a vaquinha...
A mãe que deveria fazer as fantasias da peça da escola simplesmente sumiu? Adivinha quem estava assistindo a vídeos no YouTube sobre como operar uma máquina de costura no meio da noite...
O professor da sétima série ficou doente e não tinha nenhum outro professor para o cargo? Adivinha quem de repente passou de ensinar a quarta série para lidar com crianças de doze anos...
Meus irmãos mais novos queriam ir a uma festa e precisavam de alguém para buscá-los depois? Adivinha quem pulou no carro...
Mamãe e papai estavam tendo uma crise no relacionamento e acharam que ninguém perceberia? Adivinha quem não só percebeu, como tentou juntar os cacos da melhor maneira que pôde...
Para ser justo, não acho que meus pais sejam pessoas ruins. De jeito nenhum. A crise deles acabou eventualmente, e eles voltaram a ser um casal amoroso e forte. Ainda assim, o dano ao meu eu jovem e sensível já estava feito naquela altura. Sempre fui uma daquelas crianças que absorve o estresse de todo mundo e tenta consertar tudo. Eu achava que isso era coisa de filho mais velho, mas não sou o mais velho. Tenho duas irmãs mais velhas.
De muitas maneiras, eu me sentia como o mais velho enquanto crescia. Minha irmã Rose é tão mais velha que eu que entrou na faculdade quando eu tinha apenas 6 anos. Minha irmã Daisy é uma rebelde e passou a maior parte da adolescência completamente focada nela mesma. O que eu entendo, porque ela é gay e lutou com isso por muito tempo, sempre se sentindo diferente, mas sem saber exatamente o porquê. Ela se tornou uma versão muito mais feliz de si mesma depois que se assumiu, mas será que ela parecia ser a irmã mais velha e responsável? Nem ferrando.
Esse sou eu. Exatamente. O primogênito por padrão, eu acho.
Além disso, não é como se eu tivesse feito essas coisas para a escola onde trabalhava tudo sozinho. Minha mãe é professora da segunda série e ela ficava acordada comigo no meio da noite, costurando fantasias. Ela fazia as decorações para as vaquinhas que eu organizava. Ela me ajudou quando eu estava me sentindo sobrecarregado, responsável por uma turma inteira sem treinamento adequado. Ela sempre foi meu exemplo. É por isso que continuei morando em casa enquanto cursava a faculdade. Eu queria estar perto dela e dos meus três irmãos mais novos.
A primeira é Ivy, que é três anos mais nova que eu. Ela é um amor, sensível como eu. Ela também é um pouco moleca, embora goste de usar vestidos brilhantes. Ela é uma daquelas garotas que combina os dois lados perfeitamente, nunca se encaixando totalmente em uma caixa. Como ela é tão parecida comigo, também emocionalmente sensível, sempre senti que precisava protegê-la. E protegi. Não acho que ela tenha nenhum dos problemas que eu tenho. Ela não precisa de terapia. Ela está feliz e estabelecida com o namorado, Cliff. Acho que, de todos os pequenos lobos raivosos que meus pais criaram, ela é a mais bem ajustada do bando.
Depois tem a Violet, nossa pequena rainha do drama. Ela chegou quando eu tinha 7 anos e, quando ela nasceu... acho que foi aí que as coisas mudaram para mim. Lembro da mamãe ficar mal-humorada e cansada durante aquela gravidez. Ela voltou ao normal depois que a Violet nasceu – mais ou menos – mas eu sempre sinto a responsabilidade de garantir que a Daisy e a Ivy não estivessem aprontando muito, para que a mamãe pudesse se concentrar na Violet.
Muita pressão para uma criança de 7 anos, pode acreditar.
Não é que meus pais esperassem que eu assumisse isso. Nem ferrando. Eles até conversaram comigo sobre isso na época, me dizendo que eu não precisava estar sempre cuidando da Ivy, que eu não deveria ficar mandando minhas próprias irmãs ficarem quietas e se comportarem, que eu deveria aproveitar e simplesmente ser criança. Mas falar é fácil, fazer é difícil.
As coisas ficaram realmente difíceis quando a mamãe engravidou do meu irmãozinho Quill. Eu tinha 8 anos na época, quando minha mãe mal conseguia sair da cama. Tudo o que ela fazia era chorar, e ela mal olhava para o Quill nos primeiros meses de vida dele. Eu não era velho o suficiente para entender totalmente o que estava acontecendo. Poxa, meu pai nem entendeu no começo.
O nome disso? Depressão pós-parto.
Isso pode mudar a personalidade inteira de alguém. A mamãe passou de doce, amorosa e forte para uma sombra trêmula, mal-humorada e soluçante de quem ela costumava ser.
Ela melhorou, graças à nossa babá que morava conosco e cuidava de nós, as crianças mais novas, ao papai apoiando a mamãe de todas as formas possíveis e à mamãe fazendo terapia. Levou um tempo, mas tivemos nossa mãe de volta.
Mais uma vez, não culpo ninguém pelo que aconteceu. Rose, Daisy, Ivy, Violet e Quill não parecem ter nenhum trauma persistente daquele ano horrível em nossas vidas. O fato é que eu tenho, e tenho quase certeza de que aquele ano difícil, quando eu tinha 8 anos, é parte do motivo pelo qual estou dirigindo para a terapia hoje, logo após o meu primeiro dia de trabalho.
Ao estacionar em frente ao prédio que abriga várias pequenas empresas e um monte de apartamentos em cima, respiro fundo para me centrar. Verifico minha aparência no espelho retrovisor e percebo que pareço exausto. Sem surpresa, já que me mudei para a cidade há apenas uma semana e esta manhã comecei meu novo emprego como professor da sexta série na mesma escola onde meu cunhado, Jagger, ensina na pré-escola. Eu tenho uma aparência bem comum nos meus melhores dias, mas hoje não é um deles. Pareço abatido – olheiras profundas, cabelo precisando desesperadamente de um corte e minhas sobrancelhas parecendo que estão tentando fugir do meu rosto. Passo os dedos nelas, tentando forçá-las a ficarem em um formato normal, mas os pelos simplesmente voltam a subir. Jesus, preciso de uma bela aparada. Sem falar no fato de que não me barbeio há uma semana e já estou ostentando uma barba cheia.
Não admira que as crianças não tenham me dado trabalho hoje. Pareço muito mais intimidador do que realmente sou.
Pego minha bolsa do notebook e saio do carro, indo em direção ao local onde minha terapeuta tem seu consultório. Há uma pequena sala de espera, cercada por várias portas, cada uma com o nome do terapeuta. Não há recepcionista ou local para fazer check-in, então apenas me sento. Peyton Snow tem seu próprio consultório, assim como os outros, então acho que eles apenas compartilham esse espaço pequeno para que não precisem criar salas de espera separadas para seus clientes. Aceno para duas mulheres que também estão sentadas aqui, e elas sorriem educadamente antes de desviar o olhar novamente.
Ok, nada de conversa fiada. Por mim, tudo bem.
Respondo a algumas mensagens dos meus irmãos enquanto espero, a maioria delas da minha irmã mais velha, Rose. Ela também mora na cidade e está super animada por eu ter me mudado para cá. Nossos pais, Violet e Quill ainda moram na nossa cidade natal a três horas de distância, Daisy não tem uma base fixa já que viaja o tempo todo a trabalho, e Ivy mora do outro lado do estado com o namorado. Acho que a Violet pode acabar ficando na nossa cidade natal, mas o Quill com certeza não vai. Ele não é um garoto de cidade pequena, apesar de ter crescido em uma. Rose já está trabalhando para tentar convencê-lo a se mudar para cá. No momento, ele trabalha em tempo integral em uma loja de artigos esportivos, já que optou por não ir para a faculdade. Ele sempre brinca que a mamãe não tinha mais nenhum cérebro para dar para ele, já que era a quinta gravidez dela, e que ele está feliz que ela guardou a beleza para ele.
E como guardou. Ele é meu irmão, e eu sou hétero, então não olho para homens dessa forma, especialmente quando são parentes meus, mas o Quill é, empiricamente e objetivamente, bonito. Qualquer um com olhos pode ver isso. Somos um pouco parecidos, tendo a mesma cor de cabelo e olhos, mas definitivamente não herdei os genes da beleza nesta família. Tudo isso foi para as minhas irmãs e meu irmão. Mas eu tenho o cérebro. Sou um nerd de marca maior e nem me importo em admitir isso.
“Ash Storm?”
Olho para cima quando meu nome é chamado, vendo a jovem loira que aparentemente é minha terapeuta. Minha amiga Alana me deu o contato dela, alegando que ela é incrível. Ela também é ex-irmã adotiva da Alana, e eu a encontrei algumas vezes quando era mais novo, mas não me lembro muito dela. Isso soa muito escroto, eu sei, mas meus pais têm um milhão de amigos e a maioria deles tem filhos. Fui arrastado de casa em casa por anos, para tantas festas de aniversário. Sempre ficava um pouco sobrecarregado em situações como essa, então muitas vezes acabava brincando com meus irmãos, já que eu já os conhecia, ou lendo sozinho em um canto da sala. Engraçado pensar que me tornei professor, mesmo sendo socialmente estranho. Bem, costumava ser. Ainda sou um pouco, às vezes.
“Ei”, digo enquanto me aproximo dela, apertando sua mão. “É bom te ver de novo, Srta. Snow.”
Ela dá uma risadinha, tirando o cabelo longo do rosto. A mão dela está tremendo um pouco, o que me faz pensar que ela pode estar nervosa. “Me chame de Peyton. É bom te ver também, Ash. Entre.”
O consultório dela é aconchegante, e ela aponta para uma das poltronas grandes enquanto ela se senta na outra. Há um caderno no apoio de braço dela, além de uma jarra de água, dois copos e uma caixa de lenços na pequena mesa entre nós.
“Então...” eu digo, prolongando a palavra. “Como nós... fazemos isso?”
Ela me dá um sorriso doce, porém profissional. “Você nunca fez terapia antes, certo?”
Balanço a cabeça. “Provavelmente deveria ter encontrado um terapeuta anos atrás, mas... não sei. Quando eu era mais novo, teria que pedir aos meus pais, e não queria que eles sentissem que fizeram algo errado que me afetou tanto a ponto de me fazer sentir que precisava de ajuda profissional. E então, quando fiquei mais velho, percebi que minha cidade natal era tão pequena que os terapeutas eram todos... você sabe... pessoas que eu conhecia. Os filhos deles estavam na minha turma, ou eles costumavam ser os líderes do grupo de apoio da minha mãe, ou o filho deles era amigo de um dos meus irmãos... Não queria contar meus problemas para alguém que pudesse sair contando para a minha família.”
Peyton acena. “Entensível. Tenho que dizer, no entanto... Embora eu nunca quebrasse a confidencialidade das nossas conversas, eu também não sou exatamente uma estranha para você. Eu costumava ser irmã adotiva da Alana, e sei que vocês são amigos. Além disso, meus pais adotivos são próximos dos seus pais. Nós nos encontramos algumas vezes quando éramos crianças.”
Eu aceno. Sei de tudo isso. Considerei antes de enviar um e-mail para ela. “Alana jura que você é a melhor, então me sinto mais confortável conversando com você do que com uma completa estranha, acho? Ela confia em você, e eu confio nela, então... Aqui estou. Além disso, sempre me sinto mais confortável conversando com mulheres do que com homens.”
Ela pega o caderno e anota algo. “Não se preocupe quando eu anotar isso”, diz ela, segurando-o. “Não significa que você disse algo estranho. Eu anoto coisas que quero retomar depois.”
“O comentário sobre me sentir mais confortável perto de mulheres?” suponho com um pequeno sorriso. “As pessoas sempre presumem que isso significa que sou gay. O que eu não sou.”
Por algum motivo, as bochechas dela ficam vermelho-vivo. “Não é o que eu... Eu não iria apenas... Mas sim, eu anotei isso, mas só porque... Quer dizer... É interessante.”
Ela é tão desajeitada quanto eu, o que me deixa estranhamente à vontade. Espero mesmo que a Alana esteja certa e a Peyton seja realmente uma ótima terapeuta. Ela é um pouco nervosa, no entanto.
“Vamos começar comigo me apresentando, e então você pode ir em frente e me dizer o que espera alcançar nas suas sessões comigo”, diz Peyton, com a voz estável e forte novamente. “Eu sou a Peyton Snow, 26 anos, como você já sabe. Dirijo meu próprio consultório há dois anos.” Ela gesticula com a mão para a parede com todos os seus diplomas. “Eu poderia te contar onde estudei e todos os cursos que fiz, mas tenho certeza de que você já leu sobre tudo isso no meu site.”
Ela me pegou como o nerd que se prepara bem. Ela não está errada. “Li, sim.”
“Nós já conversamos um pouco por e-mail”, ela continua, olhando para o caderno. “Você não entrou em muitos detalhes, mas me disse sobre o que gostaria de trabalhar. Eu já tive alguns outros pacientes com problemas semelhantes, só para você saber. Cada pessoa é diferente, mas acho sempre bom saber que você não está sozinho. Os homens não costumam falar sobre essas coisas, mas você definitivamente não é o único cara no mundo com medo de engravidar uma garota, a ponto de isso afetar sua vida amorosa.”
Ok, estamos entrando de cabeça, eu acho.
“Tem algo que eu precise saber sobre você?” ela pergunta. “Me conte o básico. Quem é Ash Storm? E o que você espera ganhar fazendo terapia?”
“Antes de entrarmos nisso, preciso te contar...” Porra, estou temendo isso o dia todo. “Não contei a extensão total dos meus problemas no e-mail.”
Ela não diz nada, apenas me olha com uma expressão aberta e convidativa.
“Eu te disse que... que não estou saindo com ninguém agora. Que tenho medo de engravidar alguém. Que minha ex e eu terminamos por causa de um susto de gravidez, e que ela queria filhos, enquanto eu nem quero fazer sexo sem camisinha. Essa não é a história toda, no entanto.”
Isso vai ser constrangedor.
“Qual é a história toda?” ela pergunta, inclinando a cabeça para o lado.
“A história toda é...”
Vamos lá, Ash. Você consegue. Você precisa contar para alguém, ou nunca vai resolver esse problema.
“É quase um milagre que minha ex tenha tido um susto de gravidez, já que a gente não transava com muita frequência. E isso é porque... Bem, eu acho...”
Apenas fala de uma vez.
“Eu acho que posso ter disfunção erétil.”