Olhares Invisíveis

All Rights Reserved ©

Summary

Em "Olhares Invisíveis" acompanhe a história de um jornalista frustrado, que vive em uma afastada cidade, regida por uma política problemática. Até que em um estranho dia, uma angustiante sensação de estar sendo observado começa a o incomodar. Se bem que, será mesmo apenas uma sensação?

Status
Complete
Chapters
1
Rating
n/a
Age Rating
16+

Olhares Invisíveis

Já sentiu a constante sensação de estar sendo observado? Como se algo, que não existisse, e sequer pudesse ser visto (apesar de incontáveis horas de procura e paranoia), estivesse te observando. Espreitando a sua vida, a cada passo que você dá, a cada suspiro que você solta, a cada dia que você vive, eles SEMPRE estão lá, e sempre estiveram, e você , simplesmente, foi incapaz de vê-los, até hoje.




Tudo começou em mais uma tarde chuvosa de uma terça-feira monótona em Gris, a maior metrópole da região, um lugar cheio de promessas, sonhos e esperanças as quais, ao fim de tudo, sobem aos céus e desaparecem, como as fumaças das fábricas que rodeiam o local. Lá estava eu, voltando do jornal em outro frustrante dia de trabalho, enquanto a fina garoa, gélida e suja pela poluição da cidade, perturbava a minha caminhada rotineira até minha casa. Nada fora do comum até agora, apenas outro tedioso dia de minha desinteressante vida pacata, quando, sem nenhum precedente, me acometeu uma súbita sensação de estar sendo observado, porém, diferentemente daquelas paranoias aleatórias que vão e vem com um piscar de olhos, essa sensação era extremamente real, como se eu tivesse a mais absoluta certeza de que alguém estava me observando, entretanto, não havia nenhum outro ser junto a mim, a rua estava completamente vazia, e naquele lugar haviam somente eu e esta maldita garoa fina, meu interminável tormento usual.

Segui o meu caminho rumo à minha casa, afinal, esta não estava tão longe e tudo isso deveria ser apenas mais uma crise de ansiedade causada pelo estresse, o que faz sentido, pois os dias andam sendo cada vez mais desgastantes lá no meu trabalho, principalmente após a implementação de novas leis de “segurança de informações públicas” impostas pelo governo, regulamentações que, mesmo partindo de uma nobre ideia (proteger a população da desinformação), acabaram sendo mais uma ferramenta de censura da ditadura daqui, na qual, a cada dia que passa, menos sabe o cidadão e mais o mesmo é enganado. Enfim, finalmente, após uns 20 minutos dessa angustiante caminhada, chego à portaria do prédio onde moro, e após subir alguns poucos lances de escada, alcanço a porta de meu modesto apartamento no segundo andar. Tiro do bolso de meu sobretudo cinza, velho e surrado, o qual fora comprado por mim logo depois de que me graduei da faculdade (um feito que parece ter ocorrido a uma eternidade atrás, mesmo que tenham se passado somente alguns poucos anos desde então), minhas chaves, presas por uma fina corrente, ambas de cor férrea, um pouco oxidadas pelo clima eternamente úmido de Gris, com elas destranquei e abri a porta, assim entrando em meu apartamento.

Minha moradia não é nada muito fora do padrão, tem um quarto (onde durmo), um pequeno escritório bem claustrofóbico (onde trabalho quando apenas a tortura no jornal já não me é o bastante) e uma modesta sala conectada à cozinha (onde ocorreriam as inusuais visitas de alguns colegas, parentes e amigos, se ainda houvesse alguém aqui para me visitar). Não é nada muito luxuoso, nada muito abastado, mesmo assim, é mais do que o suficiente para mim, afinal, já não me resta dividir este lugar com mais ninguém. Bons eram os tempos onde minha vida era alegrada pelas pitadas de experiências boas que os amigos e a família sempre nos trazem quando estão por perto, é uma pena que o isolacionismo cada vez mais severo de Gris afaste qualquer ser que sequer cogite vir para cá, seja para visitar amigos e parentes, ou por turismo, se bem que não há nada legal para ver nesse inferno cinza e nublado que chamam de cidade.

Enfim, ao entrar em casa não fiz muitas coisas. Ajeitei meu chapéu e meu sobretudo em um chapeleiro caindo aos pedaços, o qual fora deixado no apartamento pelo proprietário que me alugou este lugar e deixei um café passando enquanto tomava um banho, com a falsa esperança de que as águas levariam consigo o meu estresse de mais um cansativo dia de trabalho. Terminado o meu banho, sentei-me na velha e torta cadeira frente a mesa da minha “sala de jantar”, se é que posso chamar esse grupo de 4 velhas cadeiras e uma diminuta mesa quadrada igualmente ancestral de “sala de jantar”. Com uma caneca cheia de café quente e coloquei algumas das obras de Tchaikovsky, meu compositor favorito, para tocarem em meu celular, com a intenção de tirar um pouco minha mente de todo o turbilhão de desgraças que acontecem no mundo lá fora. Para então, pôr-me a pensar, refletir um pouco sobre a minha vida, as decisões que me colocaram aqui, Por que tinha me tornado um jornalista em meio a uma época de tanta censura mesmo? Já nem consigo me lembrar da minha motivação nos anos em que cursava a faculdade, aquela chama ardente aparentemente inapagável, inegavelmente eram bons tempos, esses nostálgicos tempos que nunca mais voltarão. Tomei mais um gole do meu café amargo, não conseguia parar de pensar nas questionáveis decisões que levaram a minha vida até aqui, enquanto, com a mão livre, eu riscava ainda mais o verniz da mesa onde estava sentado. Até que algo estranho acaba roubando minha atenção. O que era aquilo no armário?

Um olho! Um olho? Era simplesmente impossível! Foi tão rápido, o havia visto de relance, e ao focar minha visão num dos armários da cozinha, já não estava mais lá, sobrando no lugar somente o pote aberto com pó de café e alguns outros itens irrelevantes que sempre estiveram naquele lugar. Mas eu vi, tenho certeza do que vi, um globo ocular, um olhar semelhante ao de um humano, voltado a mim, me vendo tomar o meu amargo café, espreitando minha privacidade como se eu fosse a atração principal de um show televisivo. Será que ele sempre esteve lá? Será que ele ainda estava lá? Impossível, não faz sentido ter um olho dentro do armário da minha cozinha, simplesmente não há razão para acreditar nisso. Tomei coragem, engoli o que restou do escuro líquido amargo em minha caneca e fui averiguar o meu armário. Então, como esperado, não havia nada lá, nenhum vestígio sequer daquele olhar maldito, mesmo assim, a sensação de estar sendo observado voltou a me incomodar, só que dessa vez era pior. Será que havia outros deles ali? Será que eles sempre estiveram se escondendo quando eu ia vê-los? Impossível, devia estar cansado, muito cansado, isso mesmo, estava cansado demais, exausto ao ponto de alucinar com olhos invisíveis que somente eu estava vendo. Parando pra pensar, fazia muito tempo desde a última vez que havia dormido bem, portanto devia aproveitar este dia que pude chegar mais cedo em casa para dormir, afinal, como diz o velho ditado: “não há nada que uma boa noite de sono não resolva”. Deitei-me na minha velha cama e, obviamente, falhei miseravelmente em tentar dormir, fui incapaz de tirar minha mente de tudo o que havia acontecido, era simplesmente impossível! Como seria possível deixar de pensar em que eu havia acabado de ver um olhar, que simplesmente não existe, me observando de dentro do meu armário, após passar toda a tarde sentindo-me observado? Não era. Mesmo assim, me esforcei ao máximo para tentar dormir, liguei a televisão, mesmo que logo depois a desliguei, não aguentava mais ver aquelas propagandas políticas mascaradas como “entretenimento”, elas não eram para mim, não sou igual àqueles ignorantes, a maioria parte da população, os quais se deixam levar por qualquer coisa que vêem. Insistindo mais ainda em uma batalha que já sabia que estava perdida, tentei deixar algo tocando em meu celular, alguma música, talvez um pouco mais de Tchaikovsky me acalmasse. Mas nem isso foi eficaz, nem nada mais que eu fizesse, poderia ter qualquer efeito, aquele olho, ele ainda estava me observando, eu tinha a mais absoluta certeza, só precisava encontrar onde ele havia se escondido. Era isto, essa seria a única forma de conseguir descansar em paz, encontrar aquele olhar maldito. Então, passadas menos de 3 horas de “sono”, levantei-me da cama, e fui procurar aquele olho desgraçado que estava me observando. Obviamente, não encontrei absolutamente nada, não havia nenhum olhar, nem nada que pudesse estar me olhando de lugar algum. E, não me leve a mal, não dei aquela procuradinha preguiçosa que se dá ao perder algo de pouca importância entre as almofadas de um sofá velho, procurei freneticamente, por horas e horas, e nada daquela coisa, por todos os cantos da minha casa, em meu quarto, em meu banheiro, nos armários, até atrás das almofadas do sofá, e nada daquele maldito, talvez ele não existisse mesmo e eu só estava ficando louco. Entretanto, acreditar completamente nisso era impossível, afinal eu sabia que ele continuava a me observar, eu podia sentir isso, mesmo que minha razão me dissesse que era completamente inacreditável. Procurei por tanto tempo, que o sol começou a aparecer, o que me dizia que, infelizmente, já eram 6 da manhã, ou seja, hora de ir trabalhar em meu inferno diário, um dos poucos jornais que ainda podia atuar em Gris.

Tentei seguir com minha manhã como se nada tivesse acontecido, afinal, eu já havia procurado aquilo por todo o meu pequeno apartamento, e como não encontrei nada, certamente nada nunca existiu, devem ter sido os meus olhos enganando a minha mente mais uma vez, provavelmente por causa de todo o estresse que existe na minha vida. Enfim, me vesti para o trabalho, tomei o resto do café que tinha passado na noite anterior, comi uns pãezinhos velhos (os quais nem lembrava de ter comprado e somente me recordei de sua existência, porque os encontrei enquanto procurava por aquele olhar na madrugada anterior) com manteiga. Era como se eu nunca tivesse visto aquele olho, como se nada fora do comum tivesse ocorrido, era só mais outra chata manhã de minha vida em Gris. Porém eu não conseguia tirar minha cabeça daquilo, daquela coisa, espreitando a minha vida enquanto eu não percebia. Será que ela sempre esteve me olhando sem eu perceber? Será que ela ainda está me olhando e eu simplesmente sou incapaz de encontrá-lo? Mais uma vez, aqui está minha mente a me infernizar, me bombardeando com pensamentos incômodos, entretanto, eu tinha que seguir com o meu dia. Então, coloquei meus fones de ouvido, com alguma música aleatória de minha playlist no maior volume suportável, sem a mínima intenção de escutar algo, simplesmente com a vontade de sobrecarregar meu cérebro com algum outro estímulo para o tirar daquela espiral de pensamentos angustiantes, algo que, como sempre, não foi muito eficaz. Afinal, aquele olho poderia não nunca ter estado em lugar algum e, mesmo assim, já estava me assombrando, como se me observasse de dentro de minha alma.

Deixando de lado a minha mais nova fonte de assombro, eu tinha que sair de casa, já eram 8:10 e eu entro no trabalho às 8:30, ou seja, teria que me apressar para chegar a tempo ao trabalho. Abri a porta, constatei que não havia nada faltando em meu sobretudo, dei uma última olhada em meu apartamento com a vã esperança de encontrar algo que eu já sabia que não ia encontrar e saí de meu apartamento rumo ao meu trabalho.

Não havia nada de muito especial no meu caminho até o trabalho, além da mais nova sensação de estar sendo observado. Entretanto, há algo estranho com as estreitas ruas no centro de Gris, algo que eu simplesmente não consigo entender nesse lugar, mesmo em um caminho completamente desértico, por onde às vezes passam alguns carros, eu sinto um profundo desconforto, como se eu estivesse sendo constantemente vigiado, sempre senti essa sensação andando pelas ruas daqui, porém hoje, de todos os dias em que vivi aqui, ela nunca esteve tão forte. Talvez por causa que não dormi bem ontem, talvez porque estava nervoso, talvez por causa daquele maldito olhar que eu acho que eu vi me espreitando ontem a noite. Só sei que esse desconforto estava especialmente desconfortável nesse dia, essa sensação horrível. Entretanto, faltando alguns poucos quarteirões para chegar no jornal, eu vi uma estranha comoção. Haviam várias pessoas em volta de um ônibus com o parachoque grosseiramente amassado contra um poste. Porém, algo chamou a minha atenção, a um nível em que até deixei de pensar nos acontecimentos da noite anterior, algo que fez o meu “instinto de jornalista” (se é que isso existe) arder dentro de mim, me fazendo sacar meu bloco de notas e minha caneta para ver o que havia acontecido ali.

Infelizmente, me arrependo amargamente de ter cedido a minha curiosidade e ido ver o ocorrido naquele ônibus, não por causa do que aconteceu em si, mas por causa da reação das pessoas. Não consigo entender a razão de tanta frieza, de tanta indiferença. Outra coisa que também me incomodou, foram aqueles olhares, não somente o das pessoas, as quais acharam incomum alguém se importando com a fatalidade que havia acabado de ocorrer ao lado deles, mas sim o do cadáver, seu olhar vazio e sem vida me encarava da mesma forma que aquele olho em meu apartamento, como se a morte naquilo estivesse me chamando. Essa visão me fez sair de lá o mais rápido possível, sem coletar informações o suficiente para formular uma notícia decente, mesmo assim, sabia que já tinha mais do que o suficiente para trabalhar hoje no jornal. Afinal, quase toda essa notícia seria reduzida a algum simples parágrafo narrando de forma ridiculamente simples o ocorrido, sem aprofundar ou dar detalhes, diminuindo a morte de alguém a mais uma de várias notícias no jornal. Tudo isso para que sobre mais espaço para a seção de esportes ou seja lá o que o ignorante público estiver interessado no momento, uma prática que me causa mais estresse do que eu gostaria.

Alguns minutos depois, cheguei à sede do jornal, um grande e imponente edifício, que outrora me transmitira esperança, como se o trabalho de lá pudesse trazer justiça e verdade para o povo de Gris. Esse sentimento foi se perdendo com o passar dos anos em que vivi em Gris, é difícil manter sua fé depois de se decepcionar tanto. É um prédio grande, meio arredondado e completamente espelhado por fora, o que o destaca em meio à floresta cinza que é essa horrível cidade. A entrada tem um jardinzinho mal-cuidado em sua entrada, o qual conta com alguns bancos (provavelmente fora projetado para ser uma área social, mesmo que esteja quase sempre vazio), os quais seguem o resto da arquitetura do local de forma levemente harmoniosa, não posso negar que foi uma bela ideia, porém, a falta de algum tipo de cobertura deixa o pequeno jardim sempre molhado pelas desagradáveis garoas tradicionais do lugar, onde mesmo que sempre esteja garoando, nunca chove. Este lugar me traz um clima de pacífico em meio a todo o caos que anda sendo a minha vida e, mesmo nunca estando seco, o jardinzinho continua sendo minha opção favorita durante meus curtos almoços, pela nostalgia que as memórias desse tranquilo lugar me trazem. Após algum tempo apreciando o jardim, prossegui para dentro do edifício, onde me deparei com uma pequena recepçãozinha vazia, com somente o velho recepcionista, que, sonolento, estava escorado em sua desconfortável cadeira. Não passei muito tempo no lugar, somente o suficiente para acenar algum tipo de saudação para ele e fui direto ao meu cubículo, afinal, tinha algo para escrever e preferia fazê-lo rapidamente, antes que o impacto da cena fugisse de minha mente tornando a minha descrição da realidade terrível do ocorrido menos impactante. Entretanto, no fundo, eu soubesse que a editora cortaria grande parte do impacto da notícia, porque nunca que o governo, do jeito que está, permitiria a publicação de uma notícia que alertasse a população, privando-a da alienante ideia de que está tudo bem, quando claramente nada o está. Sendo bem sincero, já nem sei mais o porquê de eu ainda tentar. Se os tempos fossem outros, ou melhor, se eu realmente tivesse liberdade em meu trabalho, estaria agora fazendo o meu trabalho, expondo a verdade em forma de críticas, afinal, meu trabalho como jornalista é arremessar a informação na cara do povo e ter certeza de formar uma sociedade com conhecimento suficiente para não serem enganados. Infelizmente, não é isso que acontece, cada vez mais as pessoas são burras e enganadas, e cada vez mais percebo a falha que a minha profissão tem em Gris, cada vez mais eu entendo meus colegas de profissão terem fugido antes de tudo ter dado errado. Às vezes invejo essa sua inteligência, que outrora havia sido mal interpretada como falta de coragem, ou de vontade, por mim, hoje vejo que eles estavam certos, para mim tudo que me faltou foi coragem e maturidade. Mas enfim, a reportagem, eu tinha que escrevê-la. Já havia perdido tempo demais sendo levado por espirais da minha mente que, como sempre, não me levariam a lugar algum. Então, tirei meu antiquado notebook e meu caderno de minha surrada mochila e comecei a escrever. Não fiz nada muito especial no texto, somente o básico, apresentei o ocorrido, expliquei o que provavelmente o causou, mostrei como “resolveram” o problema e terminei tentando puxar uma reflexão; o básico de todas as reportagens que escrevo antes de passarem pela revisão da editora, que destrói e distorce o meu texto até virar mais propaganda política barata, como sempre tudo acaba sendo.

Estava prestes a acabar o texto, quando percebi que meu notebook estava quase sem bateria. Antes de fazer qualquer coisa, salvei o meu trabalho, para não correr o risco de perdê-lo, e fui buscar pelo carregador, que sempre desaparece quando preciso dele. Após não encontrar nada em minha mochila, presumi que devia tê-lo esquecido em alguma das gavetas na escrivaninha onde me encontrava, então decidi abri-las para ver se encontrava algo. Ao abrir a primeira gaveta, não encontrei nada, apenas alguns Post-Its velhos e amassados, que eu provavelmente me esqueci de levar ao lixo, mas nada do carregador, o mesmo acontecimento se repetiu na segunda gaveta, a qual não tinha nada de interessante a não ser um pacote de folhas A4 recicláveis que eu sequer havia aberto. Entretanto, ao abrir a terceira gaveta, não encontrei o carregador, mas lá estava aquilo, mais uma vez pude ver aquele olhar que tanto me assombrava, me observando fixamente.

Fiquei horrorizado, paralisado de puro medo, queria correr, queria fechar a gaveta e ir embora, porém não conseguia, estava lá, paralisado olhando diretamente para aquele mórbido olhar, o qual me correspondia com o mesmo fascínio e agora, pude perceber que apresentava um sutil movimento, como se estivesse se movendo por entre as sombras da quina daquela gaveta, ajustando seu ângulo sutilmente para me observar melhor. Até que o ardor de meus olhos arregalados me fez piscar e quando minha visão retornou, já não havia nada lá, somente a gaveta aberta e o carregador do meu notebook que eu provavelmente esquecera no trabalho no dia anterior, porque estava alterado por mais uma das minhas recorrentes discussões com a editora do jornal que destruiu completamente o artigo que eu tinha escrito.

Terminado esse encontro horrorífico, já não conseguia mais escrever, minha concentração mal era suficiente para equilibrar-me em cima de minhas pernas trêmulas, enquanto um suor frio escorria por todo meu corpo. Já não aguentava mais estar naquele lugar, pois, até ao meu inferno usual (também conhecido como trabalho) esses olhares tinham me acompanhado. Essa sensação de não só ser observado, como também perseguido, aterrorizava até as profundezas mais densas de meu ser. Então, enviei a reportagem sobre a morte do motorista do ônibus para a editora do jornal do jeito que estava, já sabia que esta notícia nem seria mais a mesma depois de sua “revisão”, como sempre. Em sequência, fechei o meu notebook, guardei minhas coisas apressadamente (desta vez fiz questão de levar comigo o carregador) e fui cambaleando para fora do edifício do jornal onde trabalho.

Minha volta para casa foi estranhamente pacata, não ocorreu nada, e a falta de pessoas na rua em plenas 12 horas me surpreendeu, normalmente encontram-se vários trabalhadores saindo para seu almoço todos aproveitando a fuga, mesmo que momentânea, de seus próprios infernos pessoais. Mais estranho ainda, porém, foi o surpreendente alívio que senti em relação àquela sensação, era como se os olhares tivessem ficado no jornal, como se eles tivessem deixado de me observar, finalmente me deixando em paz (se é que isto era possível, afinal, há tempos não sentia sequer vislumbres de algo que sequer me lembrasse dessa sensação). Essa foi a melhor volta que eu tive do trabalho em muito tempo, infelizmente, mal sabia eu que eu só havia presenciado o começo de algo que estava por vir.

Esse caminho quieto e relaxante, foi uma experiência estranhamente reconfortante para mim. Já estava cansado das pressões e dos estresses do trabalho, o medo daqueles olhares era atormentador. O simples silêncio, tanto externo quanto interno, nunca fora tão prazeroso para mim, mesmo que desde pequeno, eu tenha aprendido a apreciar os raros momentos de calmaria e silêncio. Afinal, eles são sempre sinais de que está próxima uma grande tempestade. Porém, uma parte de mim não conseguia parar de pensar nesse “presságio de uma tempestade”, que era a suposta mensagem advinda deste silêncio, mesmo que a serenidade mental resultante da “fuga” daqueles olhares me era tão benéfica que o caminho de 15 minutos pareceu durar alguns segundos, algo não parecia certo.

Ao entrar no prédio onde moro, porém, não pude deixar de ceder ao pedaço de mim que dizia que algo estava errado. Essa momentânea paz repentina era esquisita demais, sem sentido demais. Mesmo assim, tentei não dar muita atenção à minha mente, pois ela sempre me inunda com conflitos internos insolúveis, e fui em direção ao meu apartamento. Por mais que eu entenda que essa paz é muito estranha, nada poderia parecer normal depois de ver aterrorizantes olhos, que supostamente nem existem, espreitando-me em diferentes lugares como se estivessem me caçando. Entretanto, ao me encontrar frente a frente com a porta de meu humilde apartamento, acometeu-me com mais força essa impactante sensação de estranheza, cada vez mais parecia que algo estava errado, muito errado, a um ponto que chegava a incomodar a minha mente, mesmo que não havia nada de anormal entre o que os meus olhos podiam enxergar.

Mais uma vez, deixei esses pensamentos intrusivos de lado e continuei com a simples tarefa de entrar em casa, mas quanto mais eu me aproximava da maçaneta, mais aquela sensação de estranheza crescia. Era como se a minha mente estivesse tentando me alertar sobre algo que os meus sentidos ainda não haviam percebido . Como se fosse um presságio, uma mensagem cada vez mais gritante de que algo ruim estivesse acontecendo por motivos dos quais desconhecia, e tudo parecia vir daquela mundana porta de madeira velha e desgastada, com uma placa de metal velha, e levemente empoeirada, contendo os números “213” nela. Então, ignorando todos os sinais duvidosos de minha, provavelmente enferma, mente, encostei minha mão na fria maçaneta da porta, o formato dela me parecia estranho, era como se ela não pertencesse àquele lugar de alguma forma que eu não conseguia entender. Surpreendeu-me também o fato da porta do meu apartamento estar destrancada, todavia haviam tantas coisas em minha mente que nem pude pensar nisso, na verdade, nem tive tempo, porque, quando abri aquilo que achava ser a porta do meu apartamento, finalmente entendi a mensagem que o meu cérebro estava desesperadamente tentando me fazer entender, descobri qual era o perigo do qual ele tentava loucamente me alertar e toda aquela angústia “sem motivo” finalmente fez sentido.

Ao abrir a porta, me dei conta de que o que se encontrava na minha frente não era, e nunca fora, a monótona paisagem do meu simples apartamento. Percebi que minha mão, a qual eu achava estar segurando a maçaneta do meu apartamento estava, na verdade, segurando bem aberta uma gaveta da minha escrivaninha do escritório, aquela mesma gaveta onde eu tinha visto o olhar a um tempo atrás. Aquela coisa infernal, ela ainda me encarava, parecia espreitar diretamente as partes mais profundas da minha alma e eu, compulsivamente, a encarava de volta com todo meu ser. Comecei a sentir lágrimas descendo pelas curvas de meu trêmulo rosto, aquela coisa atroz parecia me consumir, como se aquilo quisesse tomar parte de mim! Pensei em correr, pensei em gritar, pensei em fazer qualquer coisa para conseguir deixar de encarar de volta esse maldito olhar. Mas tudo que eu pude fazer era observar, nada em volta sequer parecia existir, era como se tudo que havia, houvera e haverá, fosse aquele olho demoníaco que estava a me açoitar com seu intenso olhar. Senti as minhas pernas começarem a tremer, minha visão periférica começou a escurecer, tudo era oblívio, nada parecia importar, nada parecia sequer existir, a não ser por aquele olhar que me observava sem parar. Estava sendo devorado, puxado cada vez mais fundo para dentro daquilo. Será que ele percebeu que eu sabia que estava sendo observado e agora estava tentando se livrar de mim? Isso não importa, eu precisava arranjar alguma forma de sair dali, alguma forma de fugir daquele olhar, precisava me afastar daquilo antes que fosse tarde! Não conseguia acreditar que aquele seria meu fim, mas, mesmo com o meu corpo todo tremendo, minha mão ainda estava firmemente segurando a gaveta amplamente aberta, mantendo a minha visão focada naquele olhar, que parecia sugar tudo o que havia em mim. Minha visão já estava sendo quase completamente tomada por aquela criatura, quando eu, com um enorme susto, sinto uma mão encostando no meu ombro, desviando minha atenção e me salvando daquela aberração, de ser consumido por aquele monstro.

Ao recobrar minha consciência pude sentir lágrimas descendo pelo meu rosto e encharcando até a gola de minha camisa, pude sentir minha respiração ofegante no meu torso suportado pelas minhas bambas pernas que perderam toda a força, cada respiração corpo doía por todo o meu corpo como se infinitas agulhas perfurassem meus pulmões de dentro para fora. Eu estava vivo, aquela coisa não tinha conseguido me consumir. Ao olhar para o lado, em busca do que pode ter me salvado, não consegui distinguir ao certo seu rosto por causa do choque, e da ansiedade que me inibia de olhá-la ao rosto, mas, pelo uniforme, fui capaz de perceber que era uma das faxineiras do prédio, e, ao olhar pela janela, me dei conta de que já se passava das 8 horas da noite.

Mas, como era possível que eu tivesse passado a maior parte do meu dia em uma ilusão desse olho e ninguém havia percebido? Será que as poucas pessoas que ainda vem trabalhar no escritório viram e não se importaram em sequer analisar o que estava acontecendo? Impossível! As pessoas são curiosas, não havia como elas verem um homem, em completo estado de choque, enquanto olhava para uma gaveta aberta e era consumido por um olhar que ninguém mais parece ver. Bem, é evidente que essa última parte eles não viram, mas, mesmo assim, não faz sentido algum que ninguém tenha visto nada. Tudo está se tornando cada vez mais, muito confuso e eu tinha a sensação de que tentar processar tudo isso ia me enlouquecer no processo.

Após este breve momento de confusão mental, agradeci discretamente à faxineira que havia me salvado (quem sequer deve ter sido capaz de imaginar o que acabara de fazer), peguei minhas coisas e fui correndo para meu simples apartamento, carregando o meu caderno e a caneta em uma mão, e meu notebook no braço contrário, com a mochila meio aberta pela pressa nas costas. Desci de escada, não queria correr o risco de que ninguém me visse assim no elevador, rumores sempre se espalham rápido, como brasas em meio à palha seca, e, por não ter muitos amigos por perto, não tinha o menor interesse de que rumores desafortunados sobre mim começassem a se espalhar pelo jornal, principalmente com os meus colegas de trabalho já não sendo muito amistosos comigo.

Ao passar pela porta do edifício do jornal, a atormentadora garoa fria e fina de Gris, que me encontrou ao pisar no jardim em frente ao prédio, foi um ótimo lembrete da realidade na qual eu ainda estava. Será que essa era apenas mais uma das ilusões daquele olho infernal, que estava apenas brincando comigo, como se eu fosse uma mosca presa na teia de uma aranha, encurralada e indo lentamente de encontro ao meu fim? Impossível, aquela enfadonha garoa era real demais para ser apenas uma ilusão. Pelo menos, foi assim que ela me fez sentir: ainda vivo, pelo menos por enquanto. Esse lembrete de que eu ainda estava em contato com a realidade, pelo menos ao que parece, acalmou até certo ponto a minha alma, e fez com que eu decidisse seguir o resto do caminho andando calmamente, apreciando a monótona paisagem noturna da triste cidade de Gris.

Entretanto, quanto mais eu caminhava, mais eu recobrava a plena noção do que acabara de acontecer e do que estava acontecendo. O que quer que seja aquela coisa, aquele olhar, estava me perseguindo de alguma forma, eu havia descoberto o seu segredo e agora aquilo queria me silenciar, me queria morto. Entender isso me estonteou como se eu tivesse tomado um tiro no peito, havia uma criatura de poderes ininteligíveis vindo atrás de mim, e tudo o que eu poderia fazer era fugir, me escondendo como um rato, enquanto tento buscar alguma saída, alguma solução, por mais insano que esse pensamento seja.

Passado mais algum tempo, acabei chegando na portaria do edifício onde fica o meu apartamento, nesse ponto minha mente já estava completamente em branco, eram tantas ideias, tantos pensamentos, que no fim não passavam de ruídos incompreensíveis que só serviam para contribuir na ansiedade que sentia naquele momento. Porém, ao girar a maçaneta da porta de meu apartamento, um frio subiu pela minha espinha, o qual foi se dissipando como uma onda de medo em meu corpo enquanto eu abria a porta e me deparava com aquela monótona vista da minha simples moradia (a qual não me era assim tão amigável fazia muito tempo). Fui “apreciando” essa sensação enquanto perambulava quase que perdidamente pela minha casa em busca do caminho para o meu escritório. Medo, era isso que eu estava sentindo esse tempo todo.

Ao chegar em meu escritório, uma epifania funesta invadiu minha temerosa mente, como se eu finalmente tivesse entendido uma verdade a qual o meu próprio cérebro estava escondendo de mim esse tempo todo, como se ele a temesse tanto ao ponto de escondê-la no porão mais fundo do meu subconsciente, mesmo assim, nessas horas não deve haver esconderijo algum capaz de fugir daqueles olhos que devem estar até dentro de minha própria mente. O que eu finalmente entendi foi que este era meu fim, já não havia mais nada que eu pudesse fazer contra aqueles olhares, eles já estavam aqui dentro de casa antes e nada os impedia de estar aqui agora, me espreitando, esperando o momento perfeito para me consumir de vez. Entretanto, naquele mesmo momento também fui capaz de entender meu fado, eu tinha que usar meu único “dom” (se é que existe algo desse tipo), tinha que documentar o segredo dessa criatura maldita para, de alguma forma, talvez salvar algum outro alguém que aquilo tente perseguir. Pelo menos pra isso, em toda a minha vida, eu sei que sirvo. Sei que tem suficientes água, café e comida para mais dias do que eu provavelmente ainda tenha de vida, então comecei a escrever tudo até aqui.




Os últimos dias, se é que se passou mais do que um ou dois dias desde que eu comecei a escrever sobre isso, andam sendo cada vez mais difíceis. Os olhares demoraram um pouco mas finalmente conseguiram me alcançar. No início, não passavam de pequenos sustos quando eu abria uma gaveta, ou passava por uma fresta obscurecida, e de pequenos terrores noturnos dos quais eu nem consigo me lembrar em detalhes. Porém, desde a madrugada de hoje, as coisas começaram a piorar, eu, supostamente, havia acabado de “acordar”, quando me dei conta de que o lugar onde eu estava não era sequer remotamente parecido com o meu quarto. O ambiente estava escuro, e, do pouco que se podia enxergar, parecia labiríntico de alguma forma, como um matagal fechado. Entretanto, algo aqui estava profundamente errado, eu podia sentir que algo ruim estava a acontecer, era quase como se o perigo de onde eu me encontrava fosse, de alguma forma inexplicável, sensível aos meus sentidos mundanos. Como não parecia haver nada mais que eu pudesse fazer para sair daquele lugar, comecei a perambular, o som de folhas secas e grama que os meus passos faziam me permitiu inferir que eu realmente estava em algum tipo de floresta, algum tipo de floresta muito estranha, afinal, o lugar parecia um complexo labirinto. Sobre a sensação de perigo comentada anteriormente, a cada passo que eu dava, a cada respiração que enchia os meus pulmões, essa sensação ficava cada vez maior, como se, a cada passo, eu estivesse mais e mais próximo de encontrar algo indescritivelmente aterrorizante.

Continuei meu caminho, caminhando perdidamente nessa floresta sem rumo, até que um frio subiu a minha espinha, eu estava sendo observado, esse tempo todo havia algo, algum ser, me espreitando em meio a esse labirinto soturno. Pior ainda, essa criatura estava exatamente na minha frente agora, eu podia sentir ela lá (mesmo que não consiga entender exatamente como). Então, de forma completamente irracional, meu olhar começou a se levantar em direção a onde eu achava que estava a criatura. E lá estava o que mais me causava medo, um daqueles olhos malditos, contudo dessa vez, aquilo tinha uma forma conectada a si, a qual inicialmente eu não conseguia discernir bem em meio às lúgubres trevas que permeavam todo o lugar.

Ao cruzar o meu olhar com o da criatura, senti uma onda fria tomar conta do meu corpo. O olhar hipnotizante da criatura começou, mais uma vez, a me consumir, a tentar destruir de dentro pra fora tudo o que havia dentro de mim, como se estivesse sugando a minha alma. Estranhamente, dessa vez ao invés de escurecer o ambiente em volta, quanto mais eu olhava para aquele olhar, que me observava meticulosamente de volta, menos a escuridão do lugar parecia atrapalhar minha visão, e mais eu conseguia enxergar a criatura na minha frente. Ao ver aquilo, tinha certeza de que se o impossível acontecesse e eu sobrevivesse à aquilo, essa visão ficaria queimada no fundo da minha retina para o resto da minha vida, como uma tatuagem que eu adoraria poder esquecer.

Ao fundo, podia perceber com nitidez o lugar onde estive perambulando. Era uma “floresta” fechada composta por diversas árvores enormes, completamente mortas, dotadas de uma coloração acinzentada, pálida e sem vida, cujos ramos se entrelaçavam de forma bizarra e deturpada formando uma espécie de teto que parecia se mexer de alguma forma, como se estivesse reagindo à presença da criatura na minha frente, talvez como se quisesse, postumamente, fugir de um fim que já lhe acometeu. O chão, o qual eu erroneamente presumi estar coberto por folhas mortas, estava, na verdade, completamente tomado por algum tipo de raiz que, por sua fina espessura e seu tom cinza-escuro, se assemelhava à longas hifas de mofo com aproximadamente uns 30cm de altura. Essas raízes, por sua vez, diferentemente das árvores que pareciam se retorcer e fugir da criatura à minha frente, aparentavam se comunicar com ela de alguma forma, vibrando violentamente com cada mísero barulho que podem ouvido, ou sentir, nessa decrépita floresta.

Na minha frente, por sua vez, estava uma horrível criatura humanóide alta e esguia, composta de um mar infinito de fios de um tom acinzentado bem escuro, como as ”raízes” que vibram por todo o chão, que pareciam se mover, como se controlassem, de alguma forma, o movimento frenético dos diversos olhos da criatura, que vibravam, olhando de diversos ângulos diferentes cada parte da minha existência. Ao subir mais o meu olhar, foi possível ver a área do rosto dessa enorme criatura, onde se encontrava um interminável vazio que parecia me atrair para as suas profundezas. Era como se eu estivesse olhando para as mais longínquas profundezas do vazio interminável de um buraco negro.

Ao olhar diretamente para o rosto da criatura, o transe hipnótico daqueles olhares parece ter de alguma forma se dissipado, e em seu lugar uma onda de terror paralisante tomou conta de mim. Eu podia sentir um frio subindo pela minha espinha e se espalhando por todo meu corpo, gotas de um suor gélido desciam pelo meu torso trêmulo, enquanto eu estava lá, ofegante e olhando fixamente para o vazio de dentro do “rosto” daquela criatura, um vazio que parecia me consumir para si cada vez mais. Então, pude perceber, com a minha visão periférica, a criatura lentamente estendendo seus enormes braços, repletos de olhos, que se mexiam de forma cada vez mais agressiva e extasiada. Pude sentir a estranha, e até certo ponto asquerosa, textura dos longos fios que compunham os seus braços, e o vibrar dos inúmeros olhos que estavam cada vez mais cravados em mim, com seus olhares cada vez mais cravados dentro da minha alma, enquanto a criatura aproximava o vazio de sua cabeça cada vez mais, enquanto a criatura estava cada vez mais próxima de me consumir por completo. O pânico crescente consumia cada limite da minha mente, eu podia sentir o meu fim chegando, ao mesmo tempo em que a criatura me aproximava lentamente àquele vazio que a compunha.

Seria a criatura aquele vazio, e tudo o que havia em volta eram resquícios que remanesceram das coisas que ela consumiu? Será que aquilo tudo não era só uma ilusão da minha mente, e eu estava simplesmente ficando louco? Seria esse mesmo o meu fim, “morrer” sendo consumido pela criatura cujos olhares me assombraram a semana inteira? Uma infinidade de perguntas tomou conta de minha mente, enquanto eu me amargurava com todas as decisões erradas que trouxeram a minha vida a este fatal fim. Porém nada mais importava, afinal, não havia mais tempo, eu estava prestes a finalmente morrer. Meu rosto já estava a milímetros do vazio no lugar onde deveria estar o rosto da criatura. Até que, com um enorme susto, um barulho estridente me arranca do transe e eu acordo no meu quarto, com o meu despertador tocando, e envolto em uma poça fria de meu próprio suor e de diversas tiras daquele “mofo” asqueroso que constituía todo o corpo da criatura.

Após acordar, milagrosamente vivo, por causa do despertador que eu ingenuamente havia colocado para tocar às 5 da manhã, corri para o meu notebook para escrever tudo isso, não sei mais quanto tempo ainda tenho, consigo sentir o desespero da minha mente perante a morte em minhas mãos trêmulas enquanto digito. Uma sensação estranha me consome, como se a própria realidade à minha volta não fizesse mais tanto sentido como antes, como se algo que já esteve dentro de mim não existisse mais. Sinto os olhares à minha volta me observando, consumindo a minha essência enquanto me espreitam, como abutres em volta de um animal doente e prestes a morrer. Cada vez mais é como se eu visse coisas… Os olhares, esses malditos que sempre estão e sempre estiveram em todo o lugar, espreitando tudo e todos, esperando pacientemente para consumir alguém que achem interessante. Está tudo tão estranho, até parece que eu consigo ver coisas que parecem não existir. O que será real agora, e o que será apenas alucinações da minha mente doente, ou ilusões daquela criatura? Algo de muito estranho está acontecendo comigo…

Olhe pra trás,

EU ESTOU TE VENDO!