Holambra Coffee
Segunda-feira, seis da manhã.
Mais uma manhã em Holambra. Não possuo muitos planos para hoje (os que possuo estão enumerados), então espero ter um dia tranquilo. Me levanto de minha cama, calço minhas sandálias e faço minha higiene pessoal matinal. Realizo um pequeno alongamento, e confiro minha pequena lista de afazeres diários disposta na escrivaninha:
• Organizar a casa (retirar a caixa do escritório);
• Colocar as roupas para lavar (coloridas);
• Ler o próximo capítulo de Drácula;
• Pegar um pouco de Sol (recomendação médica);
• Fazer uma breve caminhada (recomendação médica);
• Comprar frutas (banana, maçã, pêssego, maracujá).
Gosto da organização e da rotina, sempre fui assim. Guardo diários em que anoto minha rotina desde a infância, e esse será apenas mais um de minha coleção. Honestamente? Me sinto extremamente satisfeito por haver pouquíssimas ocasiões onde não sigo o meu dia conforme o planejado.
Reservei um tempo para arrumar a casa que, surpresa, não estava muito bagunçada. Após isso li mais um capítulo de Drácula. Confesso que protelei a leitura desse por um tempo. Esse livro é medíocre para padrões modernos, opinião pessoal. A não ser que o leitor tenha nascido em 1987 e experienciado em primeira mão a ideia de um vampiro (ou deveria dizer em segunda mão, pois existe Carmilla), "ser um clássico" não vai te salvar de ser um livro mais ou menos.
Eu riscaria os últimos três afazeres de minha lista apenas indo comprar as frutas. Segundo o médico, tenho passado tempo demais dentro de casa e isso tem afeado negativamente minha saúde, também me instruiu a fazer caminhadas matinais. Impossível discordar da palavra do médico, em primeiro lugar porque Ciência, em segundo lugar porque tenho estado pálido, com o sono desregulado e, confesso, carrancudo (não voltarei atrás em minha opinião sobre Drácula). Tive a ideia de aproveitar a situação para visitar a nova cafeteria que abriu perto da quitanda - um bom café não mata ninguém. Visto uma roupa casual, pego meu molho de chaves junto da lista de frutas que preciso comprar, e saio de casa.
O dia em Holambra está bonito como sempre, e faz um frio agradável. As pessoas estão acordando, os comércios abrindo. Alguns cachorros cochilam pelas calçadas. Não há muitas pessoas na rua, ainda é possível ouvir o som dos pássaros cantando, felizes. Holambra está linda, como sempre. Em verdade, esse é o principal motivo de eu morar nessa cidade: ela sempre está linda.
Chego em frente a cafeteria. A fachada possui um tom rosa receptivo e acolhedor e, nas laterais, um amarelo girassol vívido. Possui alguns vasos com uma variedade de plantas, e no topo um grande letreiro com o nome “Holambra Coffee”. Três mesas dispostas pela calçada, quatro cadeiras cada. Metal? Madeira? Plástico. Tudo bem.
Seus arredores também me agradam, com árvores dispostas pela praça. Na outra calçada há uma carroça e, atrás dela, um casal de floristas, carregando lindas flores sortidas. O jovem homem prepara delicadamente cada buquê, enquanto sua companheira os dispõe com carinho encima da carroça. Infelizmente, só trouxe dinheiro para o café e para as frutas.
Ao entrar, a porta se choca contra um pequeno sino pendurado na parede, que produz um agradável som, algo como "tlin, tlin". O interior possui o mesmo clima convidativo e aconchegante que o exterior, e o cheiro de café acentua esse sentimento. Há apenas eu na cafeteria, talvez por ser muito cedo, talvez pelo café ter sido recém-inaugurado.
Me sento em uma das cadeiras do balcão (essa é de metal), pego o cardápio e passo o olho pelas opções de café. Fico impressionado com a variedade de opções, considerando que a cafeteria inaugurou há pouco tempo. O fato de não haver clientes me deixa contente, pois terão tempo para preparar meu café com carinho, e também não precisarei esperar tanto e atrasar minha rotina. Passo alguns minutos revisitando cada opção do cardápio, até que ouço uma voz feminina próxima ao meu ouvido:
Você quer café.
Sinto um arrepio subir pela minha espinha, e me viro rapidamente em direção à voz. É uma morena alta e muito bela que acaba de invadir meu espaço pessoal. Arqueio levemente uma sobrancelha, e respondo:
— Perdão?
— Você quer café.
— Como você sabe disso?
— Bom, você está em uma cafeteria... (ela olhou ao redor, com um sorriso zombeteiro)
Me sinto como um aluno que acabou de fazer a pergunta mais estupida de toda sua jornada estudantil. A jovem mulher não se dá ao trabalho de segurar o riso. Veja bem, em minha defesa, não estou acostumado a ter pessoas sussurrando em meu ouvido, muito menos assim, de súbito. Qualquer pessoa com o mínimo de bom senso não se aproximaria assim de um estranho. Suspiro levemente para me colocar nos eixos - o que não ajudou - e então disse:
— Sim... sim, eu gostaria um café. Me veja um Mocha Macchiato gelado, por favor.
— Fresco.
— O quê?
— Você é fresco, isso é café de gente fresca.
Nos encaramos por alguns segundos. Seus olhos cor de jade encontraram com os meus e senti meu estômago revirar. Ela fez um bico, falou com ironia:
— Você não gosta de piadas, não é?
— Isso foi uma piada?
— Óbvio, esse café é maravilhoso!
— É mesmo, não é? - Sorrio, sem graça.
— Mas você ainda tem cara de fresco.
Meu Deus, essa mulher. Quem é essa mulher? Como é possível uma pessoa ser excêntrica dessa forma? Já conheci pessoas excêntricas, mas não assim. Compartilhamos apenas algumas poucas palavras e ela já conseguiu me reduzir a uma criança boba. Sinto como se estivesse caindo na brincadeira do “pete e repete” de novo e de novo. Enfim, a moça se vira e começa o preparo do café
Observo a mulher enquanto meus pés ansiosos se balançavam por baixo da bancada. A moça possui destreza no que faz, como se trabalhasse com isso há anos. Não pude deixar de notar que ela reveza seu olhar entre o café e eu. Agora que o clima se tornou mais agradável para mim (quer dizer que está silencioso, e eu posso me refugiar em meus próprios pensamentos), presto mais atenção nela. Ela veste um cropped verde pistache e calça jeans clara rasgada. Por entre os buracos da calça — provavelmente feitos por ela mesma — é possível ver uma meia-calça escura. Tudo isso debaixo de seu avental creme, enfeitado com bordados de pequenas florezinhas feitas à mão. Sua roupa me surpreende, essa vestimenta delicada contrastando com sua personalidade vívida... Não gostei.
Após alguns poucos minutos, ela me entrega o café. Antes que eu possa experimentá-lo, ela decide puxar assunto:
— Então, qual seu nome?
— É Romero.
— É um nome interessante, diferente. Eu gostei. Muito prazer.
— E o seu?
— Me paga um café.
— Perdão?
— Me pague um café e eu te digo meu nome.
Ela me lança um sorriso sincero (isso me assusta). Paro e penso por um tempo, e apenas uma pergunta ressoa em minha mente: Como eu cheguei a esse ponto? A pouco tempo atrás eu estava seguindo minha rotina, e agora eu estou trocando um café por um nome? Isso é ridículo, eu não pagaria qualquer quantia que fosse só para saber o nome de uma pessoa que eu provavelmente nunca mais verei, mesmo que seja apenas um café! Eu nunca faria esse tipo de coisa!
— Vai pagar, Romero?
— ...Sim.
A curiosidade matou o bolso do homem moderno. Ela preparou outro Macchiato e então se sentou ao meu lado. Fez questão de encostar a cadeira bem perto da minha. Essa mulher parece não possuir noção alguma de espaço pessoal. Confesso que fiquei encantado com a excentricidade dessa mulher. Seu sorriso é ao mesmo tempo atraente e intimidador, como se fosse perigoso olhar por muito tempo.
Talvez fosse minha ansiedade social, mas tenho quase certeza de que ela passou ao menos um minuto me encarando antes de dizer qualquer coisa. Depois de rir da minha suposta cara de palhaço, ela resolve puxar assunto novamente:
— Você também gosta de chá, Romero?
— Não é minha preferência...
— E de flores, você gosta, Romero?
— Sim, gosto de sua beleza e unicidade - Nesse ponto já não sabia se estava falando das flores ou....
— Você possui uma flor favorita?
— Uma planta, o girassol, ele me traz alegria.
— Flor.
— Planta com flor. É uma herbácea.
— Você parece ser bem chato.
Ela riu, eu não (em parte por ela estar certa). Apesar do bom momento, sempre que eu tentava fazer uma pergunta à moça ou adicionar um comentário, ela trocava de assunto. Era difícil acompanhar a energia dessa mulher.
— E o café, estava bom, Romero?
Seu sorriso se desfaz e seu semblante se torna preocupado. Uma surpresa, para mim.
— Estava sim, obrigado.
— Estava mesmo?
— Não acredita em mim?
— Não é isso, é que você tem cara de fresco.
— É sério, isso?
— Claro que não, bobo!
Ela sorriu e me deu alguns tapinhas nas costas. Normalmente eu ficaria irritado, mas estou desconcertado desde a primeira vez em que ela falou comigo. Passamos mais um tempo jogando conversa fora. Ela parece gostar muito de falar, então conseguimos sustentar uma conversa — monólogo da parte dela — por um bom tempo. Nós terminamos nossos cafés e, como não havia nenhum cliente, ela decidiu me acompanhar até a entrada da cafeteria. O sol já estava mais alto no céu, e mais pessoas andavam pelas ruas.
Antes que eu pudesse agradecer, a moça correu para o outro lado da rua, e apanhou alguns girassóis com os floristas. Ela correu de volta em minha direção, e entregou o buquê em minhas mãos:
— Isso é pelo café. Muito obrigado, Romero!
Ela sorriu novamente, aquele sorriso doce e genuíno. Fiquei confuso, desconcertado, surpreso e feliz, tudo ao mesmo tempo. Não é muito comum você ser extorquido e presenteado pela mesma pessoa, no mesmo dia. Eu olhei para os girassóis, radiantes e bem cuidados, e então para ela, com as mãos entrelaçadas.
— Muito obrigado, você não precisava ter comprado as flores...
— Vai aceitar ou não, fresco?
— Pare de me chamar assim!
Eu sorri para ela. Essa mulher é como uma mistura agridoce que te expande o paladar. Antes de voltar para a cafeteria, ela pegou um lápis e uma caderneta no bolso de seu avental, escreveu um recado, arrancou a folha e a colocou no meio dos girassóis. Dessa vez, ela não falou nada, apenas sorriu, e foi o suficiente. Ela entrou de volta na cafeteria, e eu segui meu rumo para casa.
Agora já estava perto do meio dia, o clima havia esquentado, o sol brilhava majestoso no céu, e já se podia ouvir as crianças brincando de bola, pega-pega ou qualquer outra brincadeira na rua. As lojas se abriram, os cachorros latiam. A cidade acordou.
Cheguei em casa, dispus meus sapatos na entrada, fui ao o banheiro, me despi e me banhei. Após isso vesti uma roupa leve, e fui cuidar das flores. Coloquei os girassóis com cuidado em um jarro com água, e os deixei perto da janela para tomarem sol. Também peguei o recado que a moça havia me escrito, me deitei na cama e, após um tempo pensando, decidi ler. Eram apenas duas palavras:
“Prazer, Nala :)”
Ao ler isso eu olhei para cima e, com um sorriso bobo em meu rosto, disse para mim mesmo:
— Eu esqueci de comprar as frutas.