A Redenção de Caim (Português-BR)

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Summary

Em um hotel numa pequena cidade brasileira, Caim, um garoto atormentado por sua própria consciência, embarca em uma jornada interior que o leva a confrontar as sombras do passado. Enquanto busca por sua redenção, ele descobre segredos profundos sobre sua existência, desvendando uma trama intricada que questiona a natureza da moralidade humana e mostra até onde a psique é capaz de levar alguém que busca por redenção. Uma narrativa envolvente que mergulha nas profundezas da consciência humana, revelando mistérios que desafiam as fronteiras entre bem e mal.

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n/a
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16+

Capítulo Único

Green Pallace era um hotel. Não era verde e muito menos um palácio. Tinha na parede sete camadas de tinta descascadas que, em algumas manchas escondidas atrás de móveis velhos, formavam as cores do arco-íris.

Era para ser Grim Pallace, mas a gráfica que fez o letreiro tinha um nível de inglês tão precário quanto o da proprietária.

Green Pallace era um hotel, mas algumas pessoas não se importavam em colocar um M no lugar do H, mesmo que ele não estivesse ali. Apesar do nome estrangeiro, o lugar era uma espelunca que mal sustentava a tinta, agora, salmão-desgastado. O bolor nos cantos das paredes e as teias de aranha em volta das lâmpadas amareladas eram os hóspedes mais antigos do edifício.

Apesar de ter uma localização longe dos grandes centros e ser majoritariamente usado por ricos que querem trair sem serem pegos, Green Pallace era um bom hotel e tinha bons funcionários.

Lisa era a recepcionista e podia ser facilmente descrita como uma valentona de filmes norte-americanos, só que de pele negra. Ela é uma amante de artes marciais e pratica karatê todo final de semana.

Mas, essa personalidade parece desaparecer quando ela está com Caim, o camareiro. Sujeito estranho; o ponto fora da curva; a ovelha negra e o último a ser escolhido nas aulas de educação física.

Era um bom garoto, mas suas orelhas de abano, algumas espinhas, um nariz de judeu e uma mandíbula torta era tudo que ele precisava para ser considerado uma aberração pelos outros adolescentes. Lisa não se importava com o físico do garoto, na verdade, admirava todos aqueles detalhes fora do padrão.

E tinha a proprietária, uma mulher de uns cinquenta anos que andava sempre como se a espelunca fosse cinco estrelas. Se já não bastasse o nome do hotel em estrangeiro para pagar de chique, ela andava sempre com um sapato de salto e uma maquiagem exagerada.

A todo momento Caim refletia o porquê ela se recusava a mudar o nome do lugar de Hotel Green Pallace, para Motel Green Pallace, com uma boca ou duas pernas femininas num led lilás — ou verde — horroroso.

Não iria mudar muita coisa para ele, ainda teria que usar luvas para trocar os lençóis e desconfiar de qualquer tipo de substância não identificada sobre superfícies.

Porém entendia que uma mulher dona de um hotel era muito mais bem vista pela sociedade do que uma mulher dona de um motel.

O seu Fernandes era um dos hóspedes mais frequentes. Ele entrava sempre de manhã, por volta das 9h, carregando uma mala gigantesca junto de si. A mesma, além de ser de uma cor laranja desbotada, tinha uma rodinha torta que fazia um barulho insuportável no piso.

Ele olhava sempre para os dois lados antes de entrar, certificando-se de que ninguém o vê adentrar o lugar. Então abandona sua postura de cachorro fujão e infla o peito arrumando o terno importado e ajustando o relógio ao pulso.

Pede sempre o 204 e arrasta, junto de si, aquela maldita mala com aquela maldita rodinha.

Por volta de 19h, entra uma moça, geralmente jovem com um olhar assustado e pede a Lisa para ir até o 204 tratar de assuntos importantes. A garota sempre conta que elas gaguejam para tentar manter suas vozes convincentes o suficiente para convencê-la de que não irão fazer sexo.

Depois, no outro dia, por volta das 7h da manhã, Fernandes sai do H/Motel carregando sua mala, que agora faz menos barulho com a tal rodinha, e diz para Lisa que a moça foi embora durante a noite, tudo isso enquanto tampa, com uma das mãos, o microfone do celular que grita — num som estridente — a esposa questionando o sumiço do marido.

— A reunião foi até mais tarde ontem, querida.

Arrumar o quarto do seu Fernandes era uma aventura. Ele era um sujeito estranho e deixava tudo numa espécie de “bagunça arrumada”. Coisa que Caim que não reclamava, pois era menos serviço para ele.

O trabalho era fácil, trocar lençóis, limpar, zelar pelo bem estar dos hóspedes e ir para casa. Final de expediente, Caim atravessa duas ou três quadras, abre o portão enferrujado que reclama como um velho ranzinza toda vez que o abrem e sobe dois ou três blocos de escadaria. Um apartamento pequeno, mas grande o suficiente para um garoto de, recém, dezoito anos.

Caim não se prendia muito à organização e limpeza, comia qualquer coisa que tivesse e deixava a louça na pia até ter tempo para lavar. Então ele se deita, suspira fundo e pede para si mesmo que, por favor, aquilo não aconteça de novo.

Mas, quando ele perde a batalha contra o cansaço e seu corpo adormece, o rapaz se vê, novamente, frente a frente com aquela criatura.

A tentativa falha de se parecer com a figura humana deixa-a medonha. Membros retorcidos e desproporcionais ao restante do corpo que parece constituído de ruídos de uma TV sem sinal.

O corpo é coberto por erupções e orifícios abertos, de onde larvas e moscas perambulam e a criatura nem sequer parece notar a presença delas.

Seu rosto segue o padrão de desfiguração, carrega junto de si uma boca cheia de dentes miúdos, vários, parecem infinitos. Quando sorri, sua mandíbula torta fica mais evidente e escancara aqueles milhares de pequenos dentinhos costurados em uma gengiva transbordando de inflamação e pequenos bichinhos.

Os olhos são projetados para fora e parecem estar apenas encaixados na cabeça revestida de pele branca, apenas agraciada com alguns pentelhos escabelados.

Caim já se acostumou a vê-la, era inevitável, mas ainda não conseguia deixar de sentir-se enojado quando a via.

Era sempre o mesmo pesadelo, nada de diferente nas falas ou nas ações da criatura. Nem nas dele. Não podia controlar a si e nem controlar nada ao redor, mas sabia que em algum dia da semana, ele sonharia com isso.

— Caim, Caim, Caim… — ela dizia sempre, uma voz que soava como um arranhar de unhas no quadro negro.

Então ela se mexia; inclinava-se para frente e segurava os próprios olhos com delicadeza para que os mesmos não caíssem. As moscas sempre se assustavam e algumas larvas caíam no chão, transformando-se em uma gosma pútrida ao se juntar à secreção das feridas da criatura estranha.

— O primeiro pecador — continuou.

Ela sorri e então põe a enorme mão de dedos longos e compridos sobre a cabeça.

— O nome do primeiro assassino do mundo…

— Não sou religioso.

— Eu sei, Caim.

— Quem tu é?

— Eu não sou ninguém comparado ao que você é.

— Quem eu sou?

E então ela ri, gargalha e se engasga com alguma coisa. Ela não cospe nada, mas Caim suspeita que seja uma bola de cabelos.

— Você sabe com o que Caim matou Abel?

— Uma pedra.

— A mandíbula de um equino.

— Não sou Caim.

— Não o que matou Abel. — ela deu uma pausa. — Mas matou sua irmã, Mabel.

— Foi um acidente, eu tinha oito anos.

— E ela, quatro.

— Já disse, foi um acidente.

— Você a afogou, teve bastante tempo até a morte dela para se dar conta do que estava fazendo.

— Eu não tenho culpa.

— Você estava ciente do que estava fazendo, Caim, não estava?

— Eu tinha oito anos, não tinha noção!

O desespero escalou pelo corpo de Caim como uma erva daninha, matando qualquer resquício de sanidade e deixando o garoto sem fôlego. Eram inúteis as investidas, nenhum átomo de oxigênio respirado dava-lhe uma migalha de comodidade.

Era como se seu coração pulasse mortalmente dentro de um buraco vazio enquanto um peso esmagador sobre seus ombros o fazia querer ir de encontro ao chão.

A fala acusatória somada ao peso que ele sempre carregou por esse acontecimento e junto da imagem desgraçada que tinha daquela criatura, o único resultado possível era uma crise nervosa.

A criatura ri, gargalha, se divertindo da situação, sacode seu corpo estranho e tenta fazer suas pernas atrofiadas se mexerem.

— Não existe perdão sem redenção, Caim.

— Preciso me redimir? Com quem? Como?! — ele berrou.

— Comigo!

De repente tudo começa a tremer, um zunido alto e agudo toma conta da audição de Caim e aquela realidade se fragmenta até que o garoto acorde com um supetão. Seu corpo, submerso no suor, se contorce em espasmos musculares.

Ele deixa a água do chuveiro cair sobre sua nuca enquanto fita a tijoleta já gasta. A água falha algumas vezes e então ele lembra que deixou o microondas na tomada, maldita rede elétrica que não aguenta ligar o chuveiro com qualquer outra coisa ligada.

Quando se dá conta, já é manhã e está na hora de ir trabalhar. Às vezes ele se pegava perdido frente ao espelho, analisando o rosto disforme e se perguntando o que tinha feito para merecer ser tão amaldiçoado.

Não era como se ele não tivesse a resposta todas as semanas.

Lisa estava linda, como sempre, usando uma jaqueta jeans e um perfume de rosas. O dia tinha começado turbulento, um hóspede havia passado mal e vomitado o quarto todo, Caim suspirou e pegou seus equipamentos para ir ao campo de batalha.

— O que andou fazendo ontem à noite, Caim? — Lisa perguntou recostando-se na parede com uma desconfiança injustificada.

— Nada, por quê?

— Tua mão tá meio estranha.

Ele abriu a mão e a fitou, realmente, estava estranha, mas ele não sabia dizer o que era.

— Seus dedos parecem compridos — ela complementou. Era isso, seus dedos estavam esticados de um jeito anormal.

Ele deu de ombros fingindo não se importar, mas no fundo sabia exatamente o que estava acontecendo e isso o assustava muito. Redenção… O que era preciso fazer?

Os lençóis melecados de uma gosma amarela e fedida com certeza não sabiam, Caim apenas suspirou fundo e vestiu suas luvas.

— Adivinha quem apareceu hoje pela manhã?

— Deveria ir ficar na recepção.

— Seu Fernandes — ela continuou, ignorando o que ele havia falado.

— Que bom — respondeu sem ânimo.

— E a moça veio junto dessa vez.

— Legal.

A garota fez um biquinho de desconfiança.

— Nunca te deu curiosidade sobre o que eles fazem?

Caim levantou o olhar levemente e parou o que fazia.

— Não pensei que tu fosse pervertida.

Lisa corou imediatamente.

— Acha mesmo que eles fazem… aquilo? Sei lá, nunca ouço nada.

— Talvez seja porque o duzentos e quatro é no segundo andar e a recepção, no primeiro.

— Tu é um chato — ela revirou os olhos dando as costas para ele e descendo a escadaria.

Estava tudo limpo, faltava apenas levar os lençóis sujos até a lavanderia. Caim juntou todos dentro do cesto e caminhou pelo corredor longo e forrado por um carpete de veludo vermelho — agora bordô por conta da sujeira. As portas intercalavam, uma na direita, outra na esquerda e assim por diante.

Ele parou na frente do 204 e encarou o número do apartamento. O garoto engoliu seco e jogou maldições em si mesmo por estar fazendo isso: encostou o ouvido na porta e se concentrou.

Estava um silêncio absoluto lá dentro, parecia até mesmo estar vazio. Mas então um ruído se fez presente: a espécie de um gemido. Mas não qualquer gemido, não era de prazer, era do tipo que se solta depois de fazer esforço.

Então algumas batidas aconteceram, um zíper foi fechado — ou pelo menos houve a tentativa de fechar — e um objeto metálico caiu no chão.

— Merda — o seu Fernandes disse do outro lado da porta.

Caim não conseguia entender o que acontecia ali dentro, franziu as sobrancelhas e pensou em bater na porta e perguntar se estava tudo bem. Mas então olhou para seus pés próximos à porta.

A pele morena de Caim ganhou um tom pálido ao ver pequenas gotículas vermelhas nos tênis, vindas de debaixo da porta.

Seu coração acelerou, o que estava acontecendo ali? Tinha alguém tentando fazer algo contra o hóspede? Mas era impossível que ladrões entrassem pelas janelas, eram gradeadas. A não ser que ele tivesse entrado no hotel pela entrada, em um momento em que Lisa estivesse distraída, o que não era difícil de se acontecer.

Caim ficou nervoso e começou a suar, sem pensar forçou a fechadura numa tentativa de entrar.

— Quem é?! — gritou, desesperado, seu Fernandes.

— O senhor tá bem?! — o rapaz gritou de volta.

— Claro que tô! Vá embora, seu louco!

Mas então a madeira daquela porta, já ressecada de tantos invernos úmidos, se esfarelou, deixando apenas a fechadura na mão do garoto enquanto o restante da porta se escancarou, revelando um cenário muito diferente do qual Caim esperava.

Seu Fernandes segurava uma faca suja de sangue enquanto encarava o rapaz com fúria. A cama, lavada de sangue. Do lado, uma muda de lençóis iguais ao do hotel, apenas esperando para serem trocados pelos sujos.

Na mala laranja-desbotada com uma rodinha insuportável, o que outrora já fora uma garota se exprimia dentro do objeto com o feixe parcialmente fechado.

Pés na cabeça, cotovelos virados ao contrário, olhos em algum lugar que Caim não queria saber e símbolos estranhos talhados na carne já roxa da menina.

O garoto deu um passo para trás aterrorizado e pôs a mão na boca para não deixar escapar o grunhido de horror.

Há quanto tempo ele fazia isso?

Pelos céus!

A rodinha… A rodinha não fazia barulho insuportável quando ele saia porque a mala estava pesada com um corpo esquartejado dentro.

— Tu não viu nada, camareiro. — o homem de boa aparência rosnou entre os dentes.

— Eu vi muita coisa…

— Nem ouse contar…

— Senão vai cravar essa faca em mim?

O homem riu e Caim se arrepiou. Seu Fernandes, posto em um exuberante terno azul marinho, caminhou na direção do garoto com um sorriso maníaco.

Caim abandonou o quarto imediatamente, porém o homem o agarrou pela gola da camisa e lançou-lhe dentro do cômodo, fazendo-o cair ao lado do corpo de olhar perdido — sem olhos — da garota morta.

Seu Fernandes bateu a porta com violência e apoiou a mesma com uma viga de madeira coberta de sangue, coisa que o garoto ainda não tinha visto.

— Tu vai me matar?

Fernandes sorriu novamente tirando uma mecha de fios negros do rosto com os dedos.

— Não, só mato garotas. Tem sorte por ser homem.

— Considerando a sociedade atual, tenho mesmo.

Mesmo diante de toda aquela situação, Caim ainda conseguia manter-se relativamente calmo. O cenário era, com certeza, grotesco, mas ele já tinha visto coisa pior.

Seu Fernandes começou a andar em círculos, pensando no que fazer com o garoto.

— Quanto tu quer pra ficar com a boca fechada? — ele perguntou.

Caim balançou a cabeça, aquilo não era bom, não tinha como ser bom.

— Prefiro que me mate, não sou bom em guardar segredos.

— Nossa, mas nem se esforça. Por que tanta sede pela morte? A garota da recepção te deu um fora?

— O quê?

— Tá escrito na sua testa que tu gosta dela. Como é seu nome mesmo?

Caim balançou a cabeça de novo, confuso.

— Por que mata elas? Tu é um assassino em série?

— Qual o seu nome? — repetiu insistente.

— Caim.

— Pode se dizer que sim, Caim. E eu mato elas em busca de redenção.

— Redenção? — Caim riu. — Não me lembre daquela coisa.

O sorriso no rosto de Fernandes desmanchou, ele piscou algumas vezes e sentou-se na beiradinha da cama, de frente para Caim.

— Que coisa?

— Ãh?

— A coisa de que falou.

— Ah, só tava pensando alto.

— A criatura… Tu também a vê…

Caim levantou o rosto e encarou Fernandes nos olhos, engoliu seco que fez seu pomo-de-Adão se movimentar bruscamente.

— Olhos encaixados, mãos finas de dedos compridos, milhares de dentes, mandíbula torta, pele cheia de erupções… — o homem descreveu e Caim ficou boquiaberto, nem podia acreditar no que ouvia.

— O que é aquela coisa? — foi a única coisa que conseguiu dizer.

— Não sei, garoto.

— Deus?

— Não, nem Deus, nem o Diabo. Algo pior.

Os olhos do homem deslizaram por Caim, observando cada detalhe da fisionomia do menino com uma expressão de repulsa escancarada nas curvas dos lábios.

— Tu já está num estado bem avançado de punição. Só vai piorar.

Caim suspirou forte e, se apoiando na parede, levantou com dificuldade tentando evitar ao máximo olhar para a garota morta.

— O que sabe sobre a criatura?

Agora Fernandes encarava o chão com o olhar perdido.

— Ela pune aqueles que cometeram pecados cruéis e não foram punidos pela justiça humana. Qual foi seu pecado?

— Qual é o seu?

— Hum — ele respirou fundo e voltou a encarar o garoto. — Eu e meu pai e alguns primos gostávamos de fazer trilhas perto de uma cachoeira. Acontece que, um dia, um dos meus primos tentou roubar minha câmera fotográfica, brincando. Mas eu fiquei com muita raiva e acabei empurrando ele, só que fiz isso muito forte e ele perdeu o equilíbrio e despencou alguns metros de altura. O corpo nunca foi recuperado.

— Deve ter sido apavorante pra ti.

O homem deu de ombros.

— Fingi surpresa como os outros e me fiz de desentendido. Eu seria punido se tivesse contado a verdade.

— Eu entendo…

— E o seu pecado, qual é? — Fernandes voltou a perguntar.

— Matei minha irmã de quatro anos, Mabel, afogada.

O homem ergueu as sobrancelhas, mas não aparentava estar surpreso.

— Vindo de alguém que se chama Caim, não esperava outra coisa.

— Meus pais adoravam ela, eu tinha inveja. Tudo nela era melhor do que em mim, me sentia injustiçado — ele cuspiu as palavras com uma ira notável.

— Não muito diferente da história original. Até se tirarmos o M do nome, fica Abel.

— E pra quê tirarmos o M? — o garoto franziu as sobrancelhas.

— Pra colocar no lugar do H.

Caim até tentou segurar o riso, mas não conseguiu. Ambos começaram a rir sem jeito, pelo visto não era algo que somente o garoto pensava.

Então, aquele de aparência degradável suspirou e apertou os lábios encarando Fernandes que lhe fitava com melancolia.

— O que eu preciso fazer pra me livrar desse castigo?

— Se sacrificar.

O garoto balançou a cabeça confuso — o que Fernandes já tinha percebido ser um bordão — e então o homem explicou.

— Em um determinado momento aquela coisa vai te contar isso, sobre sacrifício. Eu entendi que, do mesmo modo que eu machuquei várias pessoas e saí ileso, agora eu me machuco, matando pessoas que eu amo. Todas essas garotas… — ele apertou os olhos e sua voz falhou. — todas eram importantes pra mim de alguma maneira, primas, tias, amigas e até a única mulher que eu amei a minha vida inteira.

— Mas sua esposa ainda te liga toda vez que tu fica no hotel. — Fernandes encarou Caim com os olhos úmidos e então o menino entendeu o que aquilo significava. — Oh, entendo. Então tu não vinha pra, bem, tu sabe.

— Não! — ele expressou nojo numa careta. — Pelos céus.

Caim ponderou o que Fernandes acabara de falar: o próprio homem estava punindo a si mesmo matando todos aqueles que ama.

— Mas isso não faz que mais pessoas sofram e tu saia isento do que faz? — o garoto questionou.

Fernandes pareceu nunca ter pensado nisso e por um momento ele franziu as sobrancelhas e refletiu. Mas logo retomou o semblante confiante de antes.

— Acho que não, porque desde que comecei a realizar esses sacrifícios, minha fisionomia voltou ao normal. — o coração de Caim bateu mais rápido e a ideia de ter uma aparência normal o seduziu. — Se quiser, posso te ajudar a matar a garota da recepção.

O sorriso malicioso de Fernandes, o corpo cruelmente assassinado do seu lado, a ideia de ser um jovem de aparência normal, mas que estaria para sempre condenado a matar aqueles que ama, tudo isso travava uma guerra dentro da cabeça de Caim.

Se não o fizesse morreria ou se tornaria como aquela criatura? Se o fizesse, o que teria de sacrificar? Seus pais? Amigos e todos aqueles que um dia amará?

Qual era o preço a se pagar por um rosto bonito e uma mente minimamente mais em paz?

Esse martírio pendurou na cabeça de Caim por muito tempo, dia após dia. Ele mal conseguia olhar para Lisa sem querer vomitar. Sentia nojo de si mesmo por ainda cogitar sujar suas mãos.

Em contrapartida, a cada dia, semana e mês que se passava, sua aparência estava ainda mais degradada e os traços da besta já eram reconhecidos facilmente.

Ele voltou a sonhar com ela e como Fernandes havia dito, a criatura agora falava sobre sacrifícios.

— Precisa machucar a si mesmo para que possa trazer paz à sua consciência. Espinhos precisam cruzar sua garganta e então sentirá paz.

Caim sentia que estava enlouquecendo, não conseguia mais dormir e nem comer direito. Fernandes todos os dias se propunha a ajudá-lo e ele fingia que o homem não continuava a levar mais e mais mulheres ao encontro com a morte.

Como ele pode amar tanta gente?”, pensava Caim.

Sua cabeça pesava toneladas e ele não sentia nada além de uma ansiedade cruel todo dia. Tinha medo de dormir e sonhar com a criatura, no outro dia tinha medo de se olhar no espelho e ver uma aberração no reflexo. Caim sentia que estava colapsando e por isso tinha de tomar uma decisão rápida ou senão estaria toda a eternidade condenado ao martírio.


Fazia frio naquele dia. Lisa usava um cachecol rosa e luvas roxas quando chegou em casa, então tirou-os e pôs sobre o cabideiro.

Provavelmente nunca mais os tiraria dali.

Se não fosse o barulho dos carros lá fora, certamente ela teria ouvido os batimentos cardíacos de quem a espreitava por trás da cortina.

Nem podia imaginar que uma aberração planejava ceifar sua vida em busca de redenção.

O nervosismo e a incerteza do assassino eram tão visíveis quando a luz de uma lâmpada.

Quando Lisa sentiu algo ser posto em sua boca, seu corpo sofreu uma descarga de adrenalina e não pestanejou muito: com um reflexo rápido, Lisa disparou um dos muitos golpes que havia aprendido em suas aulas de karatê.

Sem muita dificuldade desvencilhou-se do agressor e finalmente pode encará-lo. Quando viu Caim, ela pensou primeiro que tudo fosse apenas uma brincadeira de mal gosto, mas o olhar carregado do mais puro âmago do ódio dele a fez mudar de opinião bem rápido.

O coração da garota batia forte bombeando sangue para os músculos, mas também porque buscava entender porque Caim, alguém de quem ela gostava muito, estava fazendo isso.

Ele carregava consigo uma faca e nem deu-lhe o privilégio de explicações sobre o ataque, Caim parecia uma besta selvagem tomada por um lampejo de coragem que ele deveria aproveitar ao máximo antes que este acabasse.

A investida foi mais violenta, mas Lisa sabia se defender e nesse momento não estava ligando muito se aquele era seu amigo, porque agora certamente não era mais. A lâmina afiada do objeto cortou de leve a pele do braço da menina e seu sangue quente, cheio de adrenalina, escorreu braço a fora, limpando a roupa e pingando no chão.

Os olhos de Caim gritavam tão severamente por ajuda que pareciam até mesmo projetados para fora. A garota conseguiu o imobilizar sem muita dificuldade e retirar o objetivo cortante de sua posse.

Ele era magro e certamente não possuía habilidades com lâminas.

Após encarar o amigo no chão, ela suspirou tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Seu corpo inteiro ainda tremia pela adrenalina e seu peito doía profundamente machucado por aquela tentativa de homicídio vindo do garoto cujo Lisa cultivava sentimentos.

— Caim, tu acabou de tentar me matar?

Ela não tinha percebido, mas ele estava chorando muito. O rosto roçando o parquet deixou marcas escuras de onde as lágrimas se estacionaram.

— Tu não entende! — ele gritou quase que de forma impronunciável no meio de um soluço e outro. — Se eu não te matar, vou sofrer pra todo o sempre! Eu vou virar aquela coisa!

Lisa não sabia o que era aquela coisa, mas sabia que seu amigo com certeza não estava bem. A começar pelo fato de tentar atacar alguém que sabe lutas marciais.

A garota preparou um pouco de chá para ele se acalmar e pareceu ter funcionado muito bem. Quando Caim ficou mais dentro de si e de volta ao planeta Terra, ela começou as perguntas.

— Eu sou um monstro… Tu não tem ideia do quanto de mim mesmo tive que matar pra conseguir fazer isso. Por favor, me perdoe… — seu queixo se enrugou e ele começou a chorar de novo.

— É um pouco difícil de engolir, mas eu vou tentar. Agora me conta, por quê?

— Tu vai achar que sou louco.

— Já acho, não vai piorar — ela riu, afinal era para ser uma piada, mas com certeza ele não estava no clima para piadas.

— Acho melhor tu se sentar — ele avisou.

E então, como uma nuvem carregada de chuva, Caim despejou tudo em cima de Lisa sem nenhum aviso prévio ou sequer alerta de gatilho.

Desde a morte de sua irmã até o que Fernandes faz com as garotas no quarto.

Lisa empalideceu e puxou uma cadeira para sentar antes que caísse no chão.

— Eu disse que era melhor ter sentado.

— Por Deus…

— Acredita em mim?

— Sim.

— Sério?!

— Sim porque tu vem ficando cada vez mais estranho. Geralmente adolescentes melhoram com o decorrer do tempo, mas tu tá piorando.

Ele piscou algumas vezes compreendendo que ela havia acabado de chamá-lo de horroroso sem dizer essa palavra. Não que fosse mentira, mas era sempre difícil ouvir isso de alguém no qual se gosta muito.

— Como pensou que isso seria uma boa ideia?! — ela protestou tomada de indignação.

— Quando se está virando um monstro a cada dia que passa, quando cada célula e átomo que torna minha existência possível apodrece e me faz ser mais parecido com aquela aberração; até as ideias mais mórbidas parecem te levar a solução.

Lisa se abraçou soltando um suspiro, como se estivesse com frio.

— Não pode matar pessoas e sair impune, isso, na teoria, é exatamente o que essa coisa não quer.

— É, mas funcionou com Fernandes.

Caim respirou fundo lançando a cabeça para trás numa tentativa inútil de tentar fazer as lágrimas não saírem dos seus olhos.

— Redenção… e pecado — Lisa pensou.

— O que tem isso?

— Foram as palavras que tu mais disse… — ela se arrumou sobre a cadeira. — Qual o significado da palavra redenção?

Caim pegou o celular e com alguns cliques na tela, disse, após fungar o nariz:

— “Redenção é o ato ou efeito de redimir ou remir, que significa libertação, salvação. Sinônimos: libertação, perdão.”

— Redenção é o ato de busca pelo perdão…

— Onde tu quer chegar?

— O que as pessoas fazem quando pecam?

— Se confessam, eu acho. — ele deu de ombros, confuso.

— Pra quem?

— Dependendo da religião, pra um deus, por meio de um ritual, em uma oração, em um despacho ou até pra um padre.

— Caim, eles buscam redenção do pecado por meio da confissão.

Os olhos de Lisa brilhavam cheios de esperança e com um fascínio absoluto pela nova descoberta.

— Eu preciso me confessar? É isso? Tanto sofrimento só pra isso? — ele riu incrédulo.

— Por que não confessa pros seus pais? — ela sugeriu.

— Não! De jeito nenhum! Não tenho coragem… Prefiro um padre.

Ela bateu uma mão na outra e o brilho nos olhos aumentou junto de um lampejo de irritação pela teimosia do garoto.

— É isso, Caim! Seu sacrifício!

— O quê?

— Seu sacrifício é se confessar pra seus pais, é a tarefa difícil que vai te machucar. Vai ser como tentar cuspir uma bola de espinhos, vai doer, entende?

— “Espinhos precisam cruzar sua garganta e então sentirá paz…” — ele proferiu baixinho.

Lisa tocou na mão gélida e magra do garoto, fitando-o bem nos olhos.

— Eu confio que tu consegue fazer isso — um sorriso meigo surgiu nos lábios dela e encheu Caim de esperança.

Antes de sair do apartamento de Lisa, ele parou na porta e a encarou envergonhado.

— Me perdoe por ter tentando te matar… Eu só estava…

Ela revirou os olhos e agarrou o rosto de Caim, dando-lhe um beijo que fez o garoto ficar sem palavras para reagir.

— Vá logo, Caim.

Ele assentiu e saiu andando pela rua, determinado a realizar a tarefa mais difícil de sua vida.


— Preciso falar com vocês — ele anunciou para o homem e a mulher na sala.

— Claro, filho, sente-se aqui — a mulher deu espaço para ele no sofá e seu pai lhe ofereceu alguns biscoitos depois de reclamar meia dúzia de palavras sobre as notícias que via no jornal.

— É sobre Mabel…

A menção do nome da irmã fez a mulher abandonar sua costura e o pai abaixar o volume da TV.

Caim sentiu seu coração bater apertado no peito e uma bola se formar em sua garganta. Cada sílaba que pronunciava eram agulhas e espinhos perfurando sua boca, sua língua e alma. Doía, doía muito.

Não sabia quanto tempo demoraria para ter coragem de encarar seus pais de novo pois apenas sentia vergonha de si mesmo. Uma vergonha sem horizontes.

Os dois adultos ficaram sem reação ao ouvir a confissão do filho. A mãe se pôs a chorar e o pai perdeu o olhar em um canto qualquer da sala rodeada de quadros da família.

— Saia daqui — ordenou o homem. Caim assentiu. Ele sabia exatamente para onde iria.

Não era para a casa de algum parente, nem para o hotel e nem muito menos para a casa de Lisa.

— Olá, boa tarde. Eu gostaria de confessar um crime — ele disse a policial na recepção.

Ele não podia esconder o sorriso em seu rosto, estava tão leve que podia jurar que se pulasse, permaneceria flutuando. Sua consciência agora estava limpa e pesava menos de duas gramas. Lamentava o sofrimento que causara aos seus pais, tanto naquele dia como agora.

Anos mais tarde, quando voltou para visitar o Green Pallace depois de ter sido perdoado por seus pais e passado alguns anos preso, a proprietária lhe contou que Fernandes havia morrido. É claro que só disse isso depois de elogiar a beleza física do garoto e ter ressaltado algumas vezes o quanto ele tinha melhorado.


Sua mandíbula havia voltado para o lugar, as espinhas, sumido, seus dedos voltado ao tamanho original e tantas outras características da criatura tinham o abandonado.

— E como ele morreu? — o garoto perguntou intrigado enquanto analisava a nova fachada do hotel.

Duas pernas femininas num led lilás horroroso e abaixo estava escrito: Motel Green Pallace. Ele riu e um sentimento estranho de orgulho o invadiu.

— Horrível, Caim. Foi dentro de um dos quartos, a garota que estava com ele pediu por ajuda. Quando cheguei ele parecia um monstro, totalmente deformado. Horrível — ela esboçou feições de nojo.

Caim lamentou em silêncio pelo homem. Ambos tiveram as mesmas oportunidades de escolhas e cada um deles escolheu enfrentar seus próprios demônios e a própria consciência de uma maneira diferente.

O garoto, agora já um homem formado, pensava em qual teria sido o momento em que Fernandes percebeu que a criatura não passava da sua própria consciência pesada e que tudo que ele estava fazendo para agradá-la era, na verdade, tentativas falhas de enganar a si mesmo e buscar por qualquer mísero farelo de paz interna?