Ingênua Curiosidade
É tarde da noite, fui acordado por um estridente trinar vindo do estábulo. Ganidos, gemidos talvez? Ou seria apenas o som das velhas madeiras do casebre rangendo com o lufar do vento, ou com o passar de algum animal noturno? Impossível saber, aparentemente ninguém mais dos meus companheiros ouviu nada, ou apenas ninguém parece ter se importado o suficiente com o som, pois nenhum deles aparenta ter acordado. Teria eu tido apenas um pesadelo e ouvido coisas inexistentes? Será que só esqueci de tomar meu remédio para dormir e acabei dormindo mal e tendo algum terror noturno novamente? Maldita decisão de ouvir os meus amigos e os acompanhar em uma de suas “expedições” a lugares abandonados! Agora eu me encontro praticamente sozinho, apavorado, envolto em uma bolsa encharcada com o meu próprio suor (vide o meu saco de dormir de péssima qualidade que eu comprei de última hora) e em um ambiente tão tenso que o ar parece estar pesado ao ponto em que se torna difícil o trabalho de respirar (ou talvez seja só eu sendo medroso, como sempre).
Passam-se alguns minutos, meus ouvidos se adaptam aos sons noturnos do ambiente e, bem ao fundo, me é perceptível um som destoante. Parece, como se algum tipo de líquido viscoso estivesse se escorrendo, ou melhor, se movendo. O barulho continua, como se litros desse líquido escorressem, mesmo assim eu não consigo perceber nada de diferente ao meu redor. Bem, não tenho nada melhor pra fazer, e dormir aparentemente não é mais uma opção para o meu corpo, pelo menos não depois desses barulhos estranhos. Então, acho que vou até lá para ver o que é esse som, quem sabe eu encontro algo interessante por lá antes deles conseguirem explorar. Talvez assim eles passem a me respeitar mais e parem de encher o meu saco só por ser o menor.
Após tomar coragem por algum tempo, me dirigi em direção à mochila de Ísis, para pegar uma forte lanterna de carcaça amarela que me demandava as duas mãos para segurá-la, que eles sempre carregavam consigo quando saíam para fazer coisas como essa. Depois, saí do pequeno acampamento improvisado que montamos dentro de um casebre caindo aos pedaços, o que parece ter sido a casa principal disso, que parece ser o que sobrou de uma pequena fazenda, abandonada e bem isolada (além de parcialmente consumida) por um matagal que a cerca. A cada passo, o ranger das anciãs tábuas do piso me assustava novamente. O ambiente, iluminado apenas pela luz da lua crescente que jazia no céu (afinal, não quero acordar os outros ligando a lanterna aqui dentro) só agrega ao sentimento de tensão que toda essa situação me dá. Nunca mais eu me deixo ser convencido a acompanhá-los em coisas como essa!
Finalmente, paro de deixar o medo me fazer enrolar e saio do casebre. O bucolismo desse ambiente noturno, que usualmente me traria paz, dessa vez não desperta nada além de um medo primal dentro da minha alma, como se meu inconsciente pudesse sentir o que eu estou procurando e soubesse que não haverá nada de bom em encontrar aquilo. A cada barulho que meus ouvidos captam é mais um pico de adrenalina que sinto cruzar todo o meu corpo. Porém nenhum deles aparenta ser tão constante quanto o errático som daquele líquido, que sequer dá alguma menção de parar.
O caminho até o que parece ser um estábulo é bem vazio, na verdade, essa fazenda toda é bem vazia. O ambiente formado por poucas construções bem esparcidas entre si, com uma plantação totalmente morta ao fundo acaba deixando um enorme espaço vazio, por onde estou transitando em direção a esse som bizarro.
Ao me aproximar de onde o barulho aparenta ser emitido ele me parece estranho. É como se, o que eu estivesse ouvindo não fosse um líquido escorrendo, mas algo diferente. É um som errático e bizarro se repetindo em intervalos descoordenados, de uma forma que eu sequer sou capaz de descrever bem, apenas sei que instaura em mim um imenso temor em ver a sua causa, mas talvez isso seja apenas o meu medo falando mais alto. Chegando mais perto do enorme portão do que parece ser um velho estábulo caindo aos pedaços, arruinado pelo abandono e tomado por teias de aranha e mofo até em seu exterior, começo a sentir um cheiro asqueroso. Esse odor de podridão suplanta o forte cheiro de grama e mofo que cobre toda a fazenda, estranhamente deixando resquícios de um gosto metálico em minha boca. Aproximar-me mais de abrir esse portão me faz cada vez mais enjoado, de qualquer forma, minha curiosidade está falando mais alto. afinal, que mal poderia me fazer ser corajoso apenas dessa vez? Entretanto, ao abrir o portão iluminei uma cena que fez eu me arrepender instantaneamente desse meu inocente surto de coragem. Neste momento, tive a mais clara certeza no mundo que era melhor apenas ter continuado dormindo como fizeram meus amigos.
Lá dentro havia uma enorme criatura atormentadora, com a altura de um urso, porém de caráter alongado e esguio, com uma asquerosa pele avermelhada como se estivesse coberto por uma enorme ferida aberta. Aquilo estava extremamente curvado, com suas enormes e longas mãos dotadas de grandes garras curvadas, cravadas em algum tipo de animal silvestre, já quase irreconhecível graças à criatura que o estava trucidando de formas brutais e grotescas enquanto parecia se alimentar dele. Sua enorme boca lotada de dentes repulsivamente amarelados estava devorando o que sobrou do animal, rasgando pedaços diversos dele com uma facilidade aterrorizante, como se aquele animal fosse feito de massinha, enquanto veias saltavam em seu corpo, presumivelmente devido ao esforço físico.
Porém, antes que eu pudesse reunir a coragem necessária para reagir, a criatura virou seu rosto em minha direção. Seu semblante bizarro, com pequenos olhos, minúsculos pontos pretos que se perdiam em meio à imensa bocarra a qual tomava a maior parte de sua face, esboçava algum tipo de sorriso demoníaco, enquanto da enorme língua que pendia de sua boca escorria um viscoso líquido avermelhado e nojento. E, antes que eu pudesse sequer raciocinar sobre o que estava acontecendo, meu corpo começou a correr de volta em direção ao casebre onde dormiam meus amigos.
Posso ouvir atrás de mim o trotar da criatura, que solta um ruído que lembra algum tipo de risada, porém completamente distorcida e infernal, como se feita por um humano em profundo sofrimento. Ela estava chegando perto de mim, cada vez mais perto, eu tinha certeza disso mesmo sem ter a coragem necessária para olhar pra trás, podia ouvir a sua respiração ressoar junto com meus gemidos de cansaço e desespero enquanto corria em direção ao casebre onde eles estavam. Como era possível que eles não ouviram desde meus gritos de desespero até o barulho dessa perseguição e acordaram!? Ou será que eles tinham ouvido esse tudo e fugido sem mim, me deixando como uma isca para sua sobrevivência? Pensamentos nauseavam mais e mais a minha mente, tornando meu desespero crescentemente mais intenso e o que começou como uma corrida pela sobrevivência se tornava cada vez mais uma fuga por poucos mais minutos de vida. Até que eu finalmente cheguei no casebre, abri sua porta e, na maior pressa possível, a fechei atrás de mim. Porém ao olhar para dentro do casebre em busca de algo que pudesse bloquear a porta atrás de mim, sou capaz de entender o porquê de ninguém ter acordado.
Na minha frente, estava a própria representação do inferno. Todo o lugar estava banhado em sangue, por toda a parte jaziam pedaços brutalmente esquartejados do que eu presumo algum ser o que restou dos meus amigos. Jogados por toda a parte, jaziam restos deformados de membros humanos retorcidos e grosseiramente deformados, compondo essa angustiante cena de desespero e morte. Diversas marcas de garras marcam todas as paredes e o piso, criando essa grotesca imagem doentia, vinda diretamente de alguma representação dantesca da própria brutalidade. Olho para as minhas roupas, percebo que o que encharcou os sacos de dormir não era suor, mas sim sangue, o mesmo sangue ao qual o meu se juntará em poucos instantes, quando aquela criatura me alcançar.
Começo a tremer, minhas pernas perdem a força, consigo ouvir a criatura chegando cada vez mais perto, em um trotar lento cuja razão agora já entendo, afinal, não há mais pra onde eu fugir e nem ninguém que possa me ajudar (por mais que eu duvide que qualquer coisa seria capaz de parar aquela enorme figura em meu encalço). Parte de mim ainda é incapaz de aceitar que é o fim, como em um último surto de aflição, minha mente busca exasperadamente alguma solução, alguma salvação, alguma fuga. Mas tudo o que ela é capaz de encontrar dentro de mim é esse crescente desespero, somada a uma desesperança cada vez maior. Definitivamente esse é o fim.
Agora, ajoelhado, entre lágrimas e soluços consigo entender que, na verdade, não foram eles os que não acordaram a tempo, fui eu. Eu fui a presa que, em meio ao banho de sangue criado por essa criatura enquanto ela se banqueteava dos corpos do que algum dia foram meus amigos, acabou se escondendo por pura sorte, porém em minha ingênua curiosidade acabei voltando de volta às suas garras. Através da porta posso ouvir sua respiração errática e seus rosnados disfarçados de risadas malévolas. Acabou para mim! Aquilo está aqui, bem atrás de mim! Seus passos se aproximam cada vez mais, até que, com um estouro, sinto a porta atrás de mim se abrir e uma de suas enormes mãos, pulsando erraticamente, mas de alguma forma em consonância com essa cacofonia de rosnados e gemidos, me agarra pelo torso e me puxa em meio à escuridão bucólica desse ambiente noturno.