Prólogo - Resoluções Tortas
A Praça Central, com seus canteiros, árvores e a igreja católica de arquitetura mista, era tão antiga quanto a própria cidade, mas algumas coisas nela nunca mudavam. Estavam ali as pessoas que a usavam para transitar entre uma loja e outra no quinto dia útil de cada mês; os estudantes indo e voltando animados na troca de turnos; pessoas pedindo esmolas; pregadores religiosos disputando o espaço e os ouvidos dos passantes com os artistas de rua e outras figuras, peculiares e anônimas, que se misturavam à multidão.
Melissa pensava nisso enquanto andava pelo calçadão de pedra e observava a rodinha de adolescentes vestidos de preto cercando um menino com um violão. Lembrava-se de um passado em que ela mesma podia ser vista em um desses grupos, junto de seu irmão e outros garotos. Acontecia uma discussão ruidosa sobre a próxima música do repertório: enquanto alguns queriam que o rapaz tocasse Smells Like Teen Spirit, outros queriam ouvir qualquer coisa menos esta música. O dono do violão, depois de muito tentar, fez valer a sua vontade e dedilhou as primeiras notas, favorecendo os que preferiam Nirvana e inflamando os ânimos dos que se opunham.
Melissa sorriu. Talvez Kurt Cobain não imaginasse que uma música sobre um desodorante fosse virar motivo de discórdia entre pessoas que nem haviam nascido na época em que foi escrita, mas era precisamente o que acontecia naquela praça, num país estrangeiro, vários anos no futuro. Pensando bem, histórias com desodorantes costumavam causar mesmo discórdia. Kurt tinha lá a sua, e Melissa também tinha a dela.
Ela havia trabalhado em um local onde um colega costumava causar desconforto para sua equipe, não pela falta do desodorante, mas pelo excesso. Já tinha sido advertido, mas considerava bobagem: sempre que estava de saída, retocava o produto dentro da sala fechada, e o rastro indelével era sentido até no dia seguinte. Um dia, o desodorante sumiu. O rapaz ficou tão triste que os colegas sentiram pena e se reuniram para comprar um novo, mas de fragrância diferente do anterior; Ela ainda se lembrava da felicidade dele ao receber o presente. Tudo pareceu ter se resolvido de forma pacífica: os colegas não reclamaram mais do cheiro, a vítima do roubo ficou contente e o assunto foi esquecido. Mas Melissa tinha sua teoria sobre o caso: e se, em vez de roubar, o responsável pelo sumiço do desodorante na verdade não o jogou fora? Era uma suposição maldosa, mas ela não ficaria surpresa se assim fosse.
Anos depois, ela encontrou por acaso uma ex-colega e, depois de alguns minutos de conversa, o caso do desodorante ressurgiu.
– Mas então, você lembra do Davi?
– Que Davi, Raquel?
A mulher, Raquel, deu um risinho.
– Do desodorante.
Melissa gargalhou.
– Ah, é claro! O que tem ele?
– Continua por lá, mas agora subiu de cargo. Ficou no lugar do Victor – foi a resposta – Agora pode comprar desodorantes ainda mais caros.
– Você é bem maldosa – Melissa abaixou o tom, como se fosse compartilhar um segredo – Mas você sabe que aquela história do roubo nunca me convenceu?
Raquel ergueu uma sobrancelha.
– É mesmo?
– É. Desde aquela época minha ideia é de que alguém que já não aguentava mais a situação pegou o desodorante do Davi e jogou fora.
Foi a vez de Raquel de explodir em risos.
– Sério mesmo, Melissa? Essa é sua teoria?
– Sim, por quê? – Melissa deu de ombros, rindo também – Eu sei que é absurdo, mas não consigo imaginar outra possibilidade.
A ex-colega deu um suspiro profundo e parou com as risadas, mas ainda havia diversão em seu olhar.
– A sua teoria não é tão absurda... até porque foi exatamente isso o que aconteceu.
O queixo de Melissa caiu.
– O quê?! Como você sabe isso?
Raquel olhou nos olhos dela, a resposta tão calma quanto sua expressão.
– Porque fui eu que botei aquilo no lixo.
Melissa pensou nessa conversa por vários dias. Ver um problema ser resolvido de maneira tão clandestina causava uma sensação estranha, muito diferente de alívio: o produto não foi recuperado, mas substituído e, embora também tenha agradado quem o recebeu, as coisas nunca seriam exatamente como antes. Aquilo era só um desodorante, é verdade, mas quantas situações semelhantes não ocorriam centralizadas em coisas tão menos mundanas? Será que produziriam mais do que um leve desconforto?
Melissa acompanhava a música em pensamento enquanto chegava a outra extremidade da praça.
O refrão havia chegado e os amantes de Nirvana cantavam tão alto quanto podiam.
Com as luzes apagadas, é menos perigoso.
Ela se encaminhava para o final do calçadão. Atravessou a rua e ainda conseguia ouvir os garotos.
Caminhou até uma esquina e mudou a rota, descendo por uma calçada íngreme enquanto o som do violão e das vozes se perdia nos ruídos da cidade, substituído pela lembrança da versão original da canção.
A rua ia se esvaziando conforme a distância da praça aumentava, pois muitos evitavam seguir por aquele caminho, preferindo as paralelas menos inclinadas apesar da distância maior. A descida era longa, mas Melissa pretendia chegar à próxima esquina e contornar metade do quarteirão: na rua de baixo, um mercado com promoções devia estar aberto àquela hora e ela queria aproveitá-las. Quando alcançou a esquina, no entanto, teve de diminuir o passo: o calçamento, destruído há vários dias e com blocos de pedra espalhados a esmo, era um perigo mesmo para alguém jovem, e ela não queria voltar para casa com um joelho ralado.
Não adiantou. O tropeço veio, mas não pelos blocos: enquanto tentava desviar deles descendo para o asfalto, um monte de pedregulhos deslizou sob seus tênis e a levou ao chão, ferindo mais do que apenas um joelho. Ela ficou um instante deitada, processando a dor de olhos fechados antes de respirar fundo e fazer um esforço para se levantar maior do que o que fez para sair da cama antes das onze em seu dia de folga. Olhou em volta e agradeceu por não haver ninguém para presenciar a cena, embora tenha estranhado o silêncio pesado no que eram as proximidades de um mercado.
Pôs-se de pé, verificou os machucados – não eram tão graves –, bateu a poeira da roupa... e estremeceu.
A fachada do mercado, mais para o meio do quarteirão, estava coberta de tábuas velhas, como se o lugar estivesse abandonado há muitos anos. A rua e as calçadas estavam cheias de papéis e lixo, e folhas secas se amontoavam nas sarjetas. Em vez dos comércios, casas silenciosas se enfileiravam até perder de vista. Um vento estranho soprou pelo meio da rua, assobiando entre as frestas das janelas, cheias de fissuras e vidros quebrados. Não era gelado, mas provocava arrepios.
Meu Deus, o que é isso?
Nenhuma outra pessoa além dela estava à vista, nem qualquer animal podia ser notado ou ouvido. Melissa correu para o meio da rua e olhou para o céu. Uma sensação de abafamento que não era nem física nem mental a invadiu quando o fez.
Em lugar do saudável céu azul que havia visto ao sair de casa, uma camada baixa e densa de nuvens vermelhas a observava.