Capítulo 1
Ninguém esfolava melhor um coelho do que Aleric. E ninguém se divertia tanto quanto ele ao fazer isso também. Era antes do meio-dia quando ele terminou de arrancar toda a pelugem do pobre animal no quintal de sua pequena residência. Um sorriso se mantinha em seus lábios, pois sabia que, dessa vez, não seria sopa de mingau no almoço de novo.
O homem era um grande caçador, mas sua aparência era muito diferente para essa profissão. Era alto e robusto, a ponto de você duvidar que seus passos não causassem um escândalo na floresta.
Quando Aleric ergueu o animal esfolado, ouviu um barulho estranho vindo de uma moita próxima. Ele se levantou e seguiu em direção ao som. Ao se aproximar, um cervo disparou em direção oposta, seguindo para a cidade. Largando o coelho no chão, Aleric pegou o arco e flecha ao seu lado e pensou:
"Esse cervo vai me dar duas semanas de descanso de sopa de mingau!"
Poucos animais maiores que um coelho circulavam naquela região. Ele correu atrás da presa, mas já não estava tão em forma quanto antes; sua barriguinha não ajudava nada naquela corrida.
De repente, havia perdido o cervo de vista e se encontrava diante da cidade. Sendo um homem recluso, Aleric raramente visitava aquele local. Não gostava da ideia de ser reconhecido pelas pessoas, mas, ao avistar o cervo do outro lado, perto de uma barraca de maçãs, não teve outra escolha. Um cervo daquele tamanho seria valioso tanto para ele quanto para o mercado da caça.
Ao adentrar na cidade, esbarrou e empurrou algumas pessoas, mas algo estava estranho. O movimento parecia maior que o habitual, com olhares desconfiados e murmúrios nervosos. Um homem, ao passar por ele, sussurrou sobre um tal sequestro, enquanto um grupo na praça discutia em tom baixo sobre uma "terrível maldição". A cidade estava em tensão, mas Aleric não podia perder a presa.
Enquanto corria, percebeu que estava se aproximando cada vez mais de um castelo, o qual Aleric não tinha a menor intenção de se aproximar. No entanto, não conseguia deixar de seguir o cervo; tudo aquilo parecia mais mágico do que ele imaginava.
Quando o cervo desapareceu novamente, Aleric se viu diante do imenso castelo. Sabia que ali morava a família real. O local se erguia imponente diante dele, com uma aparência imaculada: paredes brancas e adornos dourados que brilhavam ao sol. Após um momento de observação, os portões se abriram, como se o convidassem a entrar. Aleric estava hesitante, mas, ao olhar para dentro, viu o cervo esperando por ele. Estava longe demais para que uma flecha o acertasse, mas, se entrasse, a presa não teria como escapar.
Atravessou disparado, quase por instinto, mas, assim que entrou, os portões se fecharam atrás de si, e o animal desapareceu.
Aleric logo se viu desesperado. Aquele não era o lugar mais convidativo para ele, e, se alguém o encontrasse ali, teria sérios problemas. O jardim do castelo era sereno, com várias florzinhas roxas espalhadas pelo terreno. De longe, avistou uma figura acenando para ele.
— Aqui! Aqui! — gritava a voz do homem.
Assustado e desesperado, Aleric correu para dentro do castelo, sem pensar que isso tornaria sua fuga ainda mais difícil. O que lhe chamou a atenção, ao adentrar, foi o silêncio inquietante. O castelo, normalmente cheio de vida, estava vazio. Nenhum criado circulava pelos corredores, nenhum som ecoava pelos salões. Algo definitivamente não estava certo. Ele ainda se lembrava da arquitetura do lugar e, sem pensar muito, subiu correndo as escadas em espiral, entrando no primeiro quarto que encontrou à sua frente.
Ao entrar, Aleric teve uma visão que o deixou sem palavras. Havia uma bela dama dormindo profundamente em sua cama. A moça tinha cabelos dourados e encaracolados, que iam até o pescoço; sua pele era branca como a neve, e seu rosto delicado e angelical lembrava o de um anjo. Sem perder tempo, ele se aproximou e tentou acordá-la, mas sem sucesso.
— Princesa Thalassa? Acorde. Sou eu, Aleric. Você se lembra de mim?
Assim que essas palavras saíram de sua boca, a porta do quarto se abriu e alguém adentrou na sala. Aleric, assustado, se virou e levantou o arco e flecha na direção dele, mas abaixou imediatamente ao ver sua aparência. Era um velho que sorria gentilmente, como um bom amigo, apesar de Aleric nunca o ter visto antes. O idoso usava um manto branco de curandeiro e era bastante baixinho. Seu cabelo, ralo, contrastava com sua enorme e cheia barba branca.
— Não tenha medo, caro caçador. Não estou aqui para lhe capturar, sou apenas Erold, um curandeiro de sua majestade — disse o velhinho, ainda sorrindo. — Creio que já conheça a princesa Thalassa.
Aleric não respondeu de imediato, mas, depois de alguns segundos de silêncio, sussurrou um simples "Sim" como resposta. Naquele momento, ele se perguntava como uma simples caçada a um cervo o havia levado até ali.
— Como sabe que sou um caçador? — Aleric perguntou, rapidamente.
— Ora, chutei. É muito difícil um caçador não carregar um arco e flecha.
Aleric suspirou um pouco aliviado; talvez fosse só uma grande coincidência. Erold se aproximou da linda moça dormindo e, olhando para Aleric, disse:
— Escute, caçador — explicou o curandeiro. — Como sabes, Thalassa DeTal é a única filha da família real. Seus pais, o rei e a rainha, desapareceram há uma semana. Desde então, ela está em um sono profundo e não acorda. O mesmo aconteceu com as outras duas famílias mais nobres da cidade: Braeval e Liranova; sumiram e seus filhos dormem profundamente. Esta manhã, tive uma visão de que um nobre cavaleiro chegaria ao castelo e que decidiria viajar para o Norte, nos ajudando a salvar os nobres e romper essa terrível maldição. Tudo está apontando que você é o nosso cavaleiro salvador!
Aleric, incrédulo, respondeu:
— Perdão, mas o senhor está louco? Eu não sou uma pessoa adequada para esse trabalho, sou apenas um humilde caçador. Sem contar que, no passado, tive sérios problemas com a família real. Para falar a verdade, nem deveria estar aqui. Com certeza, outro cavaleiro deve estar a caminho.
O caçador antes de se virar para a porta, admirou a bela dama que jazia dormindo e balançou a cabeça. Ele acreditava que não conseguiria salvá-la, por mais que tanto quisesse.
O velhinho, que ouvia com atenção, respondeu:
— Sei bem do seu passado, Aleric Sarmento.
Aleric estremeceu ao ouvir seu nome completo.
— Conheço os erros que o afastaram do nosso reino de Caldoria, o levando a viver isolado, longe de amigos e família, em uma cabana na floresta. Acredito que esta seja a sua chance de redenção. Você é mais capaz do que acredita e, talvez, essa jornada traga mais do que imagina.
Erold lançou um olhar furtivo para a moça.
Aleric, assustado com o conhecimento do velho, refletiu nas palavras que lhe foram ditas. Talvez essa fosse sua chance de recuperar sua honra e deixar de viver nas sombras da vergonha, como um caçador solitário. A ideia de retornar ao mundo e enfrentar seus próprios erros, porém, era aterrorizante. Mas havia também a bela princesa Thalassa, por quem nutria um amor antigo, puro e bonito. Não podia continuar fugindo de si mesmo. Não podia negar a chance de salvar alguém tão nobre.
— Fale mais sobre a missão. — pediu, agora um pouco mais convencido.
— Irei lhe fornecer um cavalo e os suprimentos necessários para sua viagem ao Norte. As terras que você vai atravessar são razoavelmente seguras, mas o perigo está no local onde você terá de ir para salvar os nobres. Chama-se Fortaleza Vermelha, e você reconhecerá o lugar assim que o avistar. Ainda assim, não é nada que você não consiga lidar! Está disposto a partir agora, jovem caçador?
— Agora? — exclamou Aleric, surpreso com a urgência. — Mas ainda não tenho nada preparado!
— Não seja bobo, Aleric! Já cuidei de tudo. Seu cavalo está à sua espera. — O velho Erold desceu as escadas com uma energia impressionante, e Aleric mal conseguiu acompanhá-lo. Quando chegaram à entrada do castelo, um corcel negro como a noite, acompanhado de uma bolsa provavelmente cheia de suprimentos, os aguardava.
Erold entregou-lhe uma espada.
— Isto lhe será útil. Ainda se lembra como usá-la? — perguntou, com um sorriso travesso. — Mesmo que eu torça para que não precise.
— Ei, eu tenho um arco e flecha. — Aleric respondeu em um tom ofendido.
O velho, com um movimento rápido, pegou o arco e as flechas e as jogou no chão.
— Tenha espírito, homem! Estou lhe dando uma espada, algo muito mais magnífico do que isso.
Aleric, ainda um pouco desnorteado com a situação, subiu em seu cavalo. No momento em que estava prestes a se despedir, uma menininha apareceu ao lado do curandeiro, segurando sua mão. Sua pele era amarela, e seus olhos, puxados, negros como uma jabuticaba.
Com desespero na voz, ela gritou:
— Espere! Espere! Por favor, me deixe ir!
O velho olhou para a pequena e respondeu:
— Fuya, desta vez você não pode ir. Essa é uma missão para os mais velhos e experientes, suas habilidades ainda estão sendo treinadas.
Aleric deu uma risada alta e disse:
— Escuta o que ele diz, criança. Missão para quem tem experiência, não para quem ainda está aprendendo a segurar uma espada.
A menina, claramente irritada, fechou a cara e cruzou os braços, enquanto Aleric acenava e começava a galopar em seu cavalo. Quando o caçador já estava a alguns metros deles, Erold pareceu se lembrar de algo e gritou:
— Caçador, você precisa correr! Daqui a 4 dias, o Sol Vermelho vai acontecer!
Aleric, que mal ouviu, gritou de volta:
— Como? "Precisa correr se não o Sol Vermelho vai fazer churrasco de você?"
A criança, tentando ajudar, gritou ainda mais alto:
— Não, bobão! Daqui a 4 dias, o Sol Vermelho vai acontecer!
— Se eu me perder, o Sol Vermelho vai me derreter? — Aleric gritou de volta, ainda mais confuso, mas já estava longe demais para que eles pudessem gritar algo em resposta.