Cap I
Eu deveria admitir que a vida como humana, pobre e escrava era um verdadeiro porre - se bem que o termo "escrava" era antiquado para a minha situação, de acordo com a governanta a minha posição era de serva. Não que isso deixasse de tornar a minha vida um "porre".
-Layla! -suspirei, novamente estava perdida em meus pensamentos e deixado de lado meus afazeres - Layla! Céus - levantei os olhos e observei Vivian, com as sobrancelhas cerradas mostrando a sua indignação - não acredito, sério! Em algum momento não serei eu a te tirar de seus devaneios, você por acaso prestou atenção no que eu disse? - exclamou irritada arqueando uma sobrancelha.
- desculpe, estava perdida em pensamentos - resmunguei cansada - qual era o assunto mesmo?
- o duque vai nos visitar, escutei mais cedo a governanta exclamando com as outras servas - sussurrou como se estivesse cometendo um crime - deixou bem claro que não vai aceitar nada menos que perfeito para a visita - cruzou os braços, encaixando a pequena bandeja entre seu braço direito e as costelas - o visconde nesse momento se encontra mais paranóico que o normal.
- o duque? - sussurrei de forma nervosa, como explicar? Nunca o tinha visto em meus 22 anos. O conhecia pela sua fama, cruel e impiedoso - quando ele chega?
- amanhã ao amanhecer. - disse dessa vez ajeitando o avental e a bandeja em suas mãos - bom, termine logo o que está fazendo, teremos uma longa noite. Principalmente você já que está encarregada dos quartos - deu uma piscadela e virou as costas, me deixando ali perplexa com a súbita notícia.
Encolhi os ombros e aceitei meu destino "mais uma noite sem dormir" ajeitei meus cabelos em um rabo de cavalo e dei tapinhas no avental de meu uniforme. o melhor a se fazer nesse momento era terminar de limpar e organizar os quartos, assim poderia evitar o momento da chegada do duque e a ira do visconde ao amanhecer.
Acelerei os passos, entrando em um dos quartos e olhando em volta "quanto luxo, uma pena nunca ser usado" cortinas longas que iam do teto ao chão, em tons dourados e brancos, uma cama grande que acomodaria tranquilamente seu inquilino com mais 3 garotas, o piso em mármore branco polido e a grande janela que se estendia de uma parede a outra. Balancei a cabeça em negativa, não era o momento de admirar. Fui diretamente à clareira colocando as madeiras e acendendo a pequena chama, precisava deixar o quarto aquecido para a chegada de seu hóspede, troquei os lençóis por novos e poli o grande chão de mármore. "Ele poderia ver minha calcinha por debaixo do meu uniforme através do reflexo no chão" - ri baixinho com esse pensamento, orgulhosa de meu serviço - olhei ao redor e suspirei, estava tudo pronto e através da janela eu já podia ver o sol mostrar sua cor.
- acredito que posso tirar algumas horas de sono antes da próxima batalha - murmurei saindo às pressas do quarto, indo direto para o pequeno dormitório após os jardins. Podia ver de longe um pequeno ponto vermelho parado na porta do dormitório, era Maristela a governanta me observando - senhora - a cumprimentei parando em sua frente - está tudo em ordem como desejado.
- vejo que já está ciente da chegada de nosso hóspede - murmurou, a observei. Ela era humana, assim como as outras servas, de longos cabelos ruivos, pele clara e olhos castanhos. Ostentava seus 1,70 de altura. Mais incrível ainda era saber que ela estava no seu auge aos 78 anos e mesmo assim mantendo a aparência de 27. - felizmente será por apenas 5 dias, os boatos de que o visconde estava recebendo bruxas ao vilarejo chegou aos ouvidos do duque - me encarou de braços cruzados, Maristela nunca foi má, mas, sempre manteve a linha hierárquica entre servas e governanta. Posto que ela conquistou ao ser acasalada por um lobo guerreiro, eram raras as humanas a ter esse privilégio e aqui estava ela ostentando sua beleza mesmo após tantos anos. Além de subir na classe social ganhou com o vínculo de seu parceiro lobo mais algumas centenas de anos em vida - vá descansar, entendo que esteja exausta da longa noite de serviços mas infelizmente serão 5 dias cansativos para todas.
- Sim senhora - aguardei enquanto a via se retirar em passadas largas para dentro do dormitório. Acelerei novamente meus passos em direção ao meu quarto, cada segundo perdido era um segundo a menos para meu descanso. Adentrei o quarto pequeno, apenas uma cama, uma cômoda, uma janela e um pequeno banheiro, com paredes em tons de amarelo pastel. Caminhei até um pequeno espelho e me observei, cabelos castanhos e ondulados que iam até a cintura, um rosto pequeno e fino, olhos castanhos, lábios rosados, pele clara e uma baixa estatura de 1,58 de altura, magra com pequenas curvas "nada de interessante" dei de ombros e me dirigi ao banheiro, tomei um rápido banho e me deitei vestindo uma simples camisola.
Não era uma vida triste e muito menos rodeada de catástrofes, era apenas o mais profundo e solitário "eu", infelizmente esse era o destino daqueles nascidos humanos em um mundo onde a supremacia permanecia nas mãos de lobos, bruxas, metamorfos e ninfas. Separados ao nascer dos pais e encaminhados para alguma família e por fim assumir seu propósito ao chegar a maturidade, servir.
Sinceramente eu me sentia como um animal, precisamente um filhote de cachorro que foi tirado da mãe antes mesmo do desmame e doado a alguém que lhe prometeu casa, comida e cama. Assim como eu, poucas criadas tiveram algum contato direto com o visconde e menor ainda eram aquelas que sabiam algo além de seu título. Em meus anos de vida meu conhecimento era de que ele era um metamorfo, responsável pelo vilarejo cujo nome era rocamadour, era um homem extremamente amargo e apesar de não aparentar passar de seus 30 anos ele carregava consigo 126 anos de vida.
Nunca tive a oportunidade de sair dos jardins para fora do grande casarão, igualmente outras servas. Não fomos abençoadas como Maristela, podia transitar livremente e graças a sua união conquistou uma pequena casa no vilarejo abaixo. Oh como eu a invejava.
- Garota! - abro os olhos com batidas na porta. "Quanto tempo eu dormi?" - vamos, todas foram convidadas para um reunião - ouço a pessoa atrás da porta exclamar, não reconheço a voz.
- quanto tempo eu dormi? - Ah, meu corpo estava me matando e eu poderia jurar que não chegaria ao fim da semana viva. "Que triste fim, morrer de cansaço"
- cerca de 3 horas, acredito eu.
- já estou indo, nos encontramos por lá - levanto de forma cansada, eu realmente estava esgotada. Visto rapidamente o uniforme composto por um vestido simples e liso de algodão que chegava até pouco acima dos joelhos e um avental preto.
- Layla, pelo amor. Maristela já está me cercando e se você se atrasar só posso pedir a Deus que me tenha - exclama exaltada e pude finalmente reconhecer a voz "eliza!"
- estou indo, estou indo! - abro a porta apressada, com passos rápidos a acompanho enquanto prendo apressadamente meus cabelos em um rabo de cavalo desarrumado.
Ao entrar no salão principal, vejo ao centro Maristela prostrada com uma prancheta em suas mãos. Seus olhos nos lançam um olhar visivelmente irritado. Ela pigarreia e finalmente inicia as ordens do dia.
- como todas estão cientes, estamos com hóspedes - o silêncio no salão permanece enquanto ela diz de forma calma e tom ameno - o duque estará em nossos cuidados por 5 dias. A quem descansou bom e a quem não, forças - por algum motivo, sinto uma leve pinicada "isso foi para mim?"- as tarefas serão divididas em dois grupos. Um servira exclusivamente ao duque e o outro grupo continuará com suas tarefas abituais da casa.
"Oh, eu bem que poderia estar no segundo grupo" a ideia de estar servindo exclusivamente ao duque não me agradava, definitivamente não queria receber alguma punição. Ao menos a sua espécie eu sabia qual era.
- vamos ao primeiro grupo - a observei levantar a prancheta - Eliza e Amélia estão responsáveis pelos afazeres do quarto, Victoria cuidará da cozinha e tudo que for servido ao nosso hóspede e por fim - vi seus olhos se direcionando a mim e o frio subir por meus calcanhares - Layla será a serva pessoal de nosso convidado