Chapter 1
— É quase inacreditável que irá se unir ao filho de Mikkel, O Implacável. Você foi favorecida pela deusa, Saskia.
Ela esperou, mas nenhuma resposta surgiu. Incomodada com o silêncio, notou que a irmã carregava algo em seu pescoço e esticou as mãos para tocá-lo.
— Onde o encontrou? Não deveria usá-lo.
Saskia havia passado os últimos dias que antecederam aquela união sem dizer nada. Ela costumava ser muito falante e ativa, a mais velha entre as três, mas, agora, até mesmo Elspeth estava lutando para tirar algumas míseras palavras da boca de sua irmã mais velha. Sua personalidade tinha mudado por completo desde que soubera que teria de se casar com um homem que sequer conhecia, de uma tribo distante e indesejada, quebrando todas as regras com as quais cresceu e sobre as quais foi doutrinada a obedecer cegamente.
— Por que não?
— Ele não é seu.
O ar se tornou mais pesado, mas o aspecto mais surpreendente daquela pequena conversa que acabara de ser compartilhada entre as jovens irmãs foi o fato de Elspeth não se sentir culpada pelo que havia dito.
— E por que se importa? — Saskia respondeu. — Ela sequer era sua amiga.
— Precisa aceitar o que foi decidido. Não é a única cujo destino foi alterado sem aviso. Faça as pazes consigo mesma e talvez receba o que lhe pertence.
— Casar-se com o homem de uma tribo rival me parece muito longe do que estava escrito em meu destino — ela devolveu. — O que, então, me pertence, se não é o que me foi prometido?
— Está cega de raiva — Elspeth desconversou, ignorando-a.
— Se não quer que eu o use, terá que arrancá-lo de mim. Ou já se esqueceu do que realmente é, como todas as mulheres desta tribo parecem ter esquecido?
Saskia sentiu a raiva nos olhos de Elspeth, ambos queimando seu rosto em uma manifestação de fúria que raramente era vista em sua irmã, sempre tão serena e agradável — ou o que ela deduzia como pura condescendência. Em uma atípica demonstração física de frustração, raiva e orgulho ferido, Elspeth avançou contra ela como um animal selvagem, suas mãos alcançando seu pescoço nu. Elas costumavam brigar assim quando eram apenas crianças, mas nunca depois de crescer. Nunca com as próprias mãos. E então... Ela se conteve. Antes que pudesse machucá-la, seus dedos enrolados de agressividade se encolherem de volta para onde pertenciam, a raiva desaparecendo tão rápido quanto havia irrompido.
— Está apenas provando que Mitena nunca falha em suas escolhas — ela insultou Saskia. Foi uma maneira estranha de se despedir, mas a verdade é que nunca houve muito amor entre elas.
— Sabe o que quero dizer. Sabe o que me espera esta noite, Elspeth, e não são as obrigações carnais de minha união. — ela tentou uma última vez, na esperança de resgatar dela algum resquício de afeto. — O que sabe sobre este acordo que eu não sei? O que minha mãe segredou a você que decidiu-se por não segredar, também, a mim?
Encararam-se. Houve um instante em que Elspeth pareceu mudar de ideia, mas ele logo desapareceu.
— Preferia acabar como Auma?
— Não ouse falar sobre ela para mim.
— Saskia! O barco está aqui! — Sigerith, sua irmã mais nova, gritou ainda de longe, e adentrou a pequena cabana com entusiasmo. — O barco!
— Esperarei lá fora com nossa mãe — Elspeth finalizou a conversa. — Não se demore. É tempo de partir.
Saskia não poderia dizer que estava decepcionada — pois isto implicava, portanto, que em algum momento havia esperado algo de sua irmã —, mas a sua mágoa era aparente. Deslizando os dedos pelas tranças feitas em seus cabelos ruivos, sentiu as várias tiras de tecido azul que se enroscavam em seu penteado como pequenas cobras. Tomou a adaga que guardava próximo à sua cama e, sem duvidar, cortou uma grande mecha de cabelo onde uma trança bem feita tinha sido formada.
— Siggy, pegue. Guarde-a para mim. — pediu à caçula.
— Mas você não pode voltar, nossa mãe nos disse.
— Caso aconteça — ela insistiu.
Sigerith não entendeu, mas guardou a mecha de cabelo da irmã como ela havia pedido.
— Está com medo, Saskia?
— Estou com raiva — ela foi sincera. Não disse o motivo, mas as duas sabiam por quê, embora a menina mais nova não fizesse ideia do que havia se passado semanas antes de sua irmã ser prometida ao filho de um líder famoso por mutilar seus adversários e sentar-se em um trono feito de prata como se governasse todas as tribos. — Se um dia estiver no meu lugar, nunca confie em ninguém. É a primeira coisa que devemos aprender quando somos trazidas a este mundo. Se se recusar a caçar, se tornará presa. Tem ideia de como é assustador ser caçado?
— Nós não caçamos. Mitena não nos permite fazer isso.
— Só quando ainda somos meninas. Não depois que nos tornamos mulheres. Você verá.
Com sua irmã prestes a ser levada para sempre por um homem estranho e a ele tornar-se submissa — algo impensável para mulheres como elas —, Sigerith começou a se sentir melancólica, temendo sua vida sem Saskia ao seu lado. Ela amava a irmã tremendamente, a ponto de quase doer, e na verdade doía muito agora precisar deixá-la ir daquele jeito.
— Amo-te — Saskia beijou a bochecha de Sigerith com carinho. — Somos irmãs. Seremos sempre irmãs. Não fique triste por me ver partir.
Ela assentiu, incapaz de falar ou talvez com medo, pois não queria deixar sua voz trêmula falar por ela e marcar nas memórias de sua irmã uma última imagem infantil e lacrimosa de si mesma.
Abraçaram-se afetuosamente e Sigerith teve que deixar a cabana para se juntar à família também, pois aquele caminho tinha que ser feito por Saskia e ninguém mais. Ela não fazia mais parte daquela tribo, nem daquela família, nem daquela linhagem. Estava sendo forçada a trocar aquela pele e deixar tudo que amava para trás, sem ser questionada se queria ou não fazê-lo. Aquela era sua terra, seu povo, seu clã, mas ela não tinha mais chance de reivindicá-los. Seu direito havia sido arrancado de suas mãos por sua própria mãe e todas aquelas mulheres permitiram-na empurrá-la para fora por medo de algo que continuavam temendo ser verdade.
— Que Mitena possa guiá-la enquanto estiver longe de nós, Saskia — Mistila se despediu, seus olhos reconhecendo o colar pendurado no pescoço da filha. — Deixe isso aqui. Não pertence mais a você.
— Eu disse a ela, minha mãe, mas Saskia não quis me ouvir — Elspeth reforçou.
— Quanto mais resistir a isso, pior será para todos nós — Mistila falou. — Aceite o que virá.
— E para mim? Por que pensa em todos nesta tribo, menos em mim?
Ela olhou nos olhos de sua mãe, castanhos como os dela, e mais uma vez não obteve as respostas ou o afeto pelos quais tanto ansiava — e entendeu, talvez tardiamente, que eles jamais viriam.
Ao seu redor, todas as mulheres de sua tribo começaram a cantar em uníssono uma velha canção, sempre cantada para aquelas que estavam prestes a deixar Lupoma, sem certeza se seriam capazes de voltar. Os que partiam deixavam seus corações e seus espíritos, as duas coisas mais preciosas que compunham os corpos de todos os mortais vivendo sob os braços maternais de sua deusa.
Minha poderosa Deusa, devo chamar a ti
Pois eu sou tua filha e contigo falarei
Ouça minhas tristezas, perdoe minha alma perdida
Leve-me para onde nossas raízes fortes serão capazes de crescer
Minha poderosa Deusa, devo chamar a ti
Estou saindo desta terra e tenho medo de não voltar
Cuide de minhas irmãs enquanto estou sendo levada
Enquanto meu coração e espírito ficarão com você
— Pois quero que saiba, minha mãe, que esta tribo não significa mais nada para mim — Saskia tirou o colar com relutância, desprezando as lágrimas teimosas em seu rosto. — E já que meus pés não são mais bem-vindos neste solo que um dia ensinou-me a caminhar, declaro que a deusa não guia mais meu coração e meu espírito. Ela me deu alegria e a tirou de mim. Não tenho nada a agradecer. Que a lua se aproxime de nós com raiva e violência, nos transformando nos monstros sanguinários que realmente somos.
Mistila ficou horrorizada com as palavras que saíram da boca de sua própria filha. Ela queria puni-la de novo, exatamente como fizera antes, mas se conteve, buscando o apoio de seu marido e de Elspeth enquanto Sigerith, chorando ao cantarolar a música, observava Saskia afastar-se deles. A moça entrou no pequeno barco de madeira decorado com tochas, flores brancas e muitas ervas e oferendas à deusa, e, assim que ele começou a se distanciar da margem, Saskia quis olhar para trás, mas não conseguiu. Não podia. Era proibido. À sua frente, do outro lado do rio, seu noivo a esperava. O canto de suas irmãs, tias, primas e companheiras tornou-se um pouco mais suave, soando mais como o canto de seres místicos do que vozes de pessoas reais. Ela queria pular na água e fugir, mas não havia para onde ir. Nenhuma terra para reclamar. Nenhuma família com a qual pudesse se refugiar. E à medida que as palavras de sua tribo se tornavam parte de seu passado, as palavras daquelas faces desconhecidas tornavam-se parte de seu futuro.
Apertou as mãos, querendo esconder os dedos trêmulos. O barco levava alguns minutos para alcançar a outra margem, uma ínfima barreira que os separava de forma ilusória. Pensou em pular, mas eles iriam encontrá-la muito depressa. Sabia nadar e por isso tentar tirar a própria vida ao se afogar era impossível. Esticou o braço para que pudesse tocar a água. Estava gelada. Na outra mão, a tocha que deveria segurar e entregar ao futuro marido continuava acesa, mal iluminando seu rosto cheio de repulsa. Por uma brevidade, as feições calorosas de Auma a visitaram, mas logo foram substituídas por aquelas das quais, por mais que tentasse, não conseguia se livrar: seu corpo decapitado, jogado à beira do rio como se descartado feito carne podre.
Ao longe, enxergou as silhuetas dos tenebrianos. Não saberia distinguir qual deles era o homem com quem se uniria; para ela eram todos iguais. Alguns deles puxaram o barco para perto da areia, empolgados, quando ele se aproximou. Seu futuro marido deu um passo à frente dos demais, segurando sua mão para que ela pudesse sair. Coberto de peles e adornado com brincos e uma pintura escura que manchava seu rosto pálido e fazia sobressaltar seus olhos, seu rosto grifado por uma cicatriz pequena, mas visível, a encarou. Ao olhá-lo, Saskia não sentiu nada além de completa indiferença.
— Queimamos nossa velha pele para que uma mais resistente possa crescer em seu lugar — disse, como a tradição lhe pedia que fizesse.
Ela juntou suas mãos às dele na tocha que trouxera consigo, e, como seu ritual de união pedia, inclinaram-na para baixo, ateando fogo no barco juntos. As chamas engoliram tudo lentamente, envolvendo as flores, as oferendas e as ervas em uma fogueira voraz que podia ser vista do lado oposto do rio. Os olhos de Saskia também se incendiaram, o castanho se tornando avelã enquanto ela mal conseguia discernir os rostos de sua família através das chamas.
— Eu ofereço a ti, Saskia de Lupoma, meu corpo e minha língua — disse o rapaz, marcando o símbolo de fertilidade em sua testa com tinta vermelha. — Pois meu corpo é guiado por minhas ações e minha língua por meus pensamentos.
A ela entregaram o mesmo recipiente de onde saiu a tinta vermelha. Cheirava a sangue fresco. Saskia mergulhou seus primeiros dois dedos nele, imitando-o.
— Eu ofereço a ti, Ingwolf de Tenebra, meu corpo e minha língua — ela marcou sua testa assim como ele fez, mas com o símbolo de virilidade. — Pois meu corpo é guiado por minhas ações e minha língua por meus pensamentos.
A sacerdotisa de Tenebra se aproximou, amarrando seus pulsos esquerdos com um cordão vermelho.
— Onde o coração bate e o sangue é criado, nasce o fio que conduz nossas vidas. — disse a velha mulher, fechando os olhos enquanto murmurava palavras que nenhum dos dois podia ouvir ou entender, suas mãos cobrindo as do jovem casal. — Unem-se agora, enquanto o sol ainda se esconde sob as nuvens, com a bênção dos homens. Ao anoitecer, serão abençoados pelos deuses. Têm permissão para quebrar este cordão somente quando a noite partir-se ao meio.
Terminada a rápida cerimônia, todos comemoraram. A união tinha acontecido e era a hora de beber e festejar em homenagem à junção daquele casal que, agora amarrado pelo cordão vermelho, prometia fazer tanto em tão pouco tempo por aqueles que depositavam neles suas maiores esperanças. As celebrações durariam a noite inteira, com muita música, bebida e comida, até o sol nascer novamente, mas o casal permaneceria amarrado um ao outro até que pudessem cortar o cordão ao meio e ir para sua própria cabana.
Sem terem muito o que conversar, Ingwolf e Saskia deram os primeiros passos como marido e mulher, os novos líderes de uma próspera tribo que, assim como Lupoma, resistia com bravura aos violentos avanços de Hagno. Eles tinham uma longa noite pela frente, mas suas vidas futuras pareciam tão difíceis de decifrar quanto as palavras enigmáticas da sacerdotisa. Saskia, no entanto, tinha uma camada mais espessa de preocupações para carregar sobre os ombros.
Na grande casa de luz amarelada, iluminada pelas tochas que dançavam junto com aqueles que já estavam embriagados, onde os habitantes convergiam, compartilhando uma mesa com todos os homens e mulheres importantes de Tenebra, a comida servida era completamente estranha para Saskia. Cheiravam como algo proibido, indesejado. A bebida era escura, lodosa, de aroma forte e escorria pelos queixos barbudos e robustos dos homens como sangue velho de carcaça. Suas danças tinham movimentos bruscos, quase desengonçados, e não havia suavidade e conexão com nada a não ser seus próprios desejos e falta de graça. Não tinham cabelos arruivados como ela e suas irmãs e a maioria das pessoas de sua tribo, mas sim loiros e muito claros — alguns tão claros que chegavam a parecer brancos —, de barbas e cabelos mais longos, tatuagens pelos corpos robustos e olhos claros. Usavam peles para se aquecer e calças de pano para cobrir as pernas. Falavam alto, gesticulavam e brindavam suas canecas no ar como se o líquido jamais fosse cair pelas beiradas, mas sempre caíam, inundando tudo ao redor e deixando tudo pegajoso e cheirando a azedo. Quanto mais comiam, mais comida aparecia sobre a mesa, e quanto mais se embebedavam, mais cerveja preta era despejada.
— Não está com fome? — o jovem líder notou que ela evitava o javali.
— Não comemos carne.
Ingwolf, ainda mastigando, lembrou-se de onde sua nova esposa tinha vindo.
— Pode comer agora. Você é uma de nós. — ele mordeu mais um generoso pedaço de carne, a gordura deixando seus lábios brilhosos. — Nossos deuses não nos impedem de caçar animais no bosque, como a sua. Somos livres.
Saskia hesitou. Ela nunca tinha comido nenhum tipo de carne em sua vida. Não era permitido em Lupoma. No entanto, Ingwolf estava certo. Tinha rejeitado suas raízes em favor do fogo aceso nas tochas que iluminavam as cabanas de Tenebra. Mitena não podia mais puni-la por ser uma filha infiel.
Enquanto seus pulsos ainda estavam presos um ao outro, ela inclinou a cabeça apenas o suficiente para dar uma mordida na carne que Ingwolf tinha em sua mão direita. O sabor era muito diferente do que ela havia comido até então, infiltrando-se em sua boca como sangue espalhando-se pela água. Sentiu-se estranha, mas Ingwolf descobriu que estava gostando daquilo mais do que deveria.
— Ei, Ingwolf! Não quebre as regras! Espere pelo menos até a meia-noite para levá-la para a cama! — um dos homens riu, já bêbado demais para ter vergonha do que dizia da esposa de seu líder. — Ela não vai a lugar nenhum!
Todos gargalharam juntos, bebendo e dançando ainda mais. A música, contudo, parecia ficar cada vez mais alta.
— E então?
— Não tenho muito o que dizer.
— Eu mesmo o matei — orgulhoso, ele bebeu mais da cerveja preta que estava prestes a acabar, seus goles tão sedentos que era possível ver o líquido escuro escapando pelos lados de sua boca. Soava bruto, imaturo e um tanto presunçoso. — Posso ensiná-la a caçar e poderá comer o animal que quiser. Aprendi com meu pai.
Saskia percebeu que aquela era a sua maneira de tentar estabelecer algum tipo de vínculo com ela antes que a meia-noite chegasse. Sendo um homem jovem, um guerreiro nato e filho de Mikkel, O Implacável, era natural que Ingwolf se sentisse muito satisfeito com sua esposa. Ela possuía um rosto redondo pintado de sardas, braços e pernas fortes e um cabelo volumoso que tinha as mesmas cores das folhas de outono. Para ele, era bonita o suficiente para se olhar e parecia disposta a entender como sua tribo funcionava. Era de se esperar que ele lhe lançasse olhares furtivos sempre que podia, oferecendo-lhe todos os tipos de comida para que ela pudesse inclinar a cabeça e comer de sua mão como um filhote indefeso, ajustando a posição de seu corpo para que seus braços pudessem se tocar com um pouco mais de frequência e a corda se tornasse mais apertada. Estava genuinamente curioso por sua falta de familiaridade e sentia-se atraído por ela.
— Já caçou um lobo antes, Ingwolf?
— Lobo? — o rapaz, tentando conter um arroto e dando sinais de sua embriaguez, riu com a pergunta. — Não existem mais lobos vivendo neste lugar. Mataram todos eles há muito tempo.
— Os hagnenses? — Saskia evitou a cerveja, percebendo que aquela tinha sido uma sábia decisão de sua parte.
— Todos nós matamos, não somente os hagnenses — ele coçou o pulso, incomodado com o cordão. Tinha puxado a esposa para todos os lados a noite inteira enquanto gesticulava e bebia, esquecendo-se dele. — Exceto...
Ele se perdeu no que dizia, distraindo-se, agarrando a cerveja outra vez.
Quando chegou a hora, todos estavam bêbados demais para notar quando Saskia e Ingwolf deixaram a grande casa, caminhando lado a lado para onde teriam que dividir um espaço dali em diante. Ainda quieto, Ingwolf finalmente cortou o cordão vermelho, libertando-os, deixando apenas o que se assemelhava a uma pulseira. Quase se desequilibrando, tirou as peles pesadas, a proteção de couro e sua bata, apagando algumas das tochas menores para deixar a cabana um pouco mais escura, expondo todas as suas cicatrizes de batalha de uma vez. Algumas eram tão grandes que o rastro por onde a agulha havia passado para costurar a pele ia do ombro à cintura. Não pareciam velhas, e, na verdade, tampouco humanas. Ser filho de um símbolo de guerras vitoriosas e sangrentas certamente não tinha se tornado parte de quem era de forma leviana.
Saskia fez o mesmo, desabotoando sua capa azul do broche de ouro que a prendia. Viu quando a sombra embriagada de Ingwolf se aproximou dela, seus cabelos loiros parecendo avermelhados como os dela quando não eram iluminados. Seus dedos passearam pela pele sardenta de seu pescoço, onde horas antes estava o colar que sua irmã quase a atacou para ter de volta.
— Ao menos sua aparência me agrada — ele comentou com a voz arrastada e o hálito denso, sem pensar muito no que dizia.
Ela desviou os olhos e se conteve para não deixar transparecer em seu rosto o desgosto de ter de casar-se e deitar-se, todas as noites dali em diante, com um beberrão. Ainda sem nada que fosse capaz de conectá-los de verdade, ele, alheio à sua aversão e apatia, a tomou pela mão e a levou para a cama, subindo com dificuldade, e colocou-se sobre ela de maneira indelicada, mas parecia ébrio demais para seguir adiante, mesmo que quisesse. Saskia sabia bem onde escondera a adaga e estava pronta para usá-la antes que seus instintos respondessem por ela. Ingwolf chegou a acariciar seu peito com uma distância embriagada, tentando concentrar-se no que fazia. Felizmente ou não, a cerveja de qualidade que era fermentada em Tenebra o puxou para um sono profundo muito rápido, e Ingwolf, rumorejando, adormeceu ao lado de Saskia.
Observando-o dormir de bruços na cama, ela vestiu-se novamente e saiu da cabana, desaparecendo nas sombras.