Bom dia
ding dong
Em uma linda manhã de domingo, uma mulher asiática toca a campainha de uma residência.
— Só um minuto! — a distante voz feminina, abafada pela porta, demonstra pressa.
Exatamente 46 segundos até a porta finalmente ser aberta.
— Oi, desculpe a demora. — A dona da casa olha curiosa para a presença desconhecida. — Em que posso ajudá-la?
— Bom dia, senhora Fisher. Permita que eu me apresente.
A mulher asiática revela que faz parte do projeto EVE, responsável pela fabricação e venda de robôs autônomos.
— Ah sim, eu assisti ao comercial. — disse a sorridente Fisher. — São robôs assistentes, né?
— Isso mesmo.
— É realmente incrível o que vocês fazem, mas eu não estou precisando de uma…
Ao fundo, mais precisamente na cozinha da residência, ouve-se um barulho de copo quebrando.
— Desculpa, mãe. Foi sem querer.
— Essas crianças. — um sorriso envergonhado se desenha no rosto da senhora Fisher.
— Eu também posso auxiliar nas tarefas da casa, ajudarei você a cuidar de sua filha para que ela cresça feliz e saudável. Pode confiar, eu serei uma boa companhia.
— Não, não, realmente… — Fisher fica incrédula. — Peraí, você disse…, você por acaso é uma…
— Sim, senhora Fisher. Eu sou uma autômata, um sistema complexo de matéria sintética.
— Minha nossa, mas você é tão…, perfeita.
— Vou aceitar isso como um elogio. — a autômata sorri de maneira elegante.
— Ah, mas, mas, mesmo assim eu não posso aceitar. Eu não tenho dinheiro sufi…
E, mais uma vez, ouve-se o barulho de um copo quebrando, e depois outro.
— Desculpa em dobro, mãe. Foi sem querer.
— Não se preocupe, senhora Fisher. Eu utilizo um método diferente baseado na satisfação do cliente. Ficarei com vocês por alguns dias e, caso deseje continuar com os meus serviços, faremos um acordo compatível com a sua renda.
— Não sei… — o olhar de dúvida da senhora Fisher se volta para a cozinha.
— Eu sei que você está se esforçando muito. Está exausta e triste. E é sempre difícil lidar com a perda de um ente querido.
— O que você disse? Como você sabe disso?
— Desculpe se fui muito indelicada, mas essas informações estão no seu perfil público da rede social FishTime.
— Você tem acesso à internet?
— Eu fui instruída para acessar informações de importância. E o projeto EVE tem por objetivo auxiliar quem mais precisa de ajuda. Eu gostaria muito de ajudá-la a se sentir melhor.
Ainda em choque, a senhora Fisher pensa muito antes de tomar uma decisão.
— Desculpa. Mas, eu não estou precisando de uma assistente.
— Compreendo. Sinto muito por desperdiçar o seu tempo comigo. Adeus.
— Adeus.
Ao fechar a porta, a senhora Fisher encosta as suas costas nela e fica observando a Julia, sua amada filha de 13 anos, limpando a bagunça que fez na cozinha. Ela pensa no trabalho de meio período que não ajuda nem a pagar as contas, mas sabe que essa é a única forma de trabalho que ela pode ter para conciliar com as tarefas diárias e para cuidar de sua filha.
— Será que é uma boa ideia? — ela pensa nas possibilidades. — Droga, por que eu sou tão indecisa? Mas, e se ela…, ah, coragem Lana, coragem.
Em um impulso, a senhora Fisher abre a porta bruscamente.
— Eve, espera. — ela grita.
A autômata, que não tinha pressa alguma para ir embora, retorna.
— Sim, senhora Fisher.
— Você pode ficar alguns dias, para me ajudar?
— Com muito prazer.
— Entre, por favor.
— Com licença.
Dentro da casa, a automata observa atentamente cada detalhe.
— Bom, e como funciona? Eu preciso assinar algum documento?
— Apenas uma palavra é o suficiente.
— Uma palavra?
— Você gostaria que eu ficasse?
— ..., sim.
— Contrato realizado com sucesso. Parabéns pela aquisição, senhora Fisher.
— Ah, que rápido. Bom, então podemos parar com as formalidades, pode me chamar de Lana.
— Tudo bem, Lana.
— E como você quer que a gente te chame?
— EVE.
— Todas vocês se chamam EVE?
— Sim. Padrão de fábrica. Mas o meu nome pode ser alterado após o período de testes.
— Que bom, quem sabe depois a gente não escolhe um nome mais bonito e único para você, né? — Lana sorri levemente.
— Seria ótimo, Lana.
— Quem é essa moça, mãe?
Julia aparece na sala e olha bastante curiosa para EVE, que retribui com um carinhoso sorriso.
— Ela é uma robô assistente. — disse Lana. — O nome dela é EVE.
— Muito prazer em conhecê-la, senhorita Julia. — EVE estende a mão para a garota.
— Que legal. Você é mesmo uma robô? — disse Julia enquanto cumprimentava EVE. — Que legal, que legal.
— Sim, vou demonstrar.
Os olhos de EVE se iluminam suavemente e projeta na palma de sua mão um holograma bastante real de uma bailarina.
— Quer segurá-la um pouco? — perguntou EVE. — Estenda a sua mão.
O holograma da bailarina começa a dançar na palma da mão de EVE e depois faz um elegante salto até a palma da mão de Julia, que fica encantada vendo a bailarina dançando.
— Que lindo. Olha, mãe. Não é incrível?
— Sim, é incrível.
A magnífica sinergia que emana das três torna o ambiente extremamente agradável. Em pouco tempo, EVE consegue tirar sorrisos alegres e brincadeiras há muito tempo esquecidas.
— Pronto, finalizamos o café da manhã. — disse a sorridente EVE.
— Que mesa maravilhosa. — Lana se surpreende.
— E foi a gente que fez. Ninguém é páreo para as meninas super poderosas.
As três sorriem e conversam durante o desjejum. EVE, que não precisa se alimentar de pães e frutas, fica observando cada movimento de Lana e de Julia.
ding dong
À tarde, durante um divertido jogo de dominó, alguém toca a campainha.
— Ué? Quem será? — pergunta Lana.
— Deixa que eu atendo. — sorri EVE.
Ao abrir a porta, um homem bem vestido demonstra surpresa ao ver EVE, e não Lana.
— Bom, dia.
— Bom dia. — responde EVE, olhando fixamente para o homem à sua frente.
Um silêncio perturbador toma conta do local, o homem olha desconfiado para dentro da casa, como se quisesse verificar algo.
— Quem é, Eve? — Lana aparece na sala — Ah, é você, Kenny. Entra, vem jogar dominó com a gente. — ela o convida com bastante naturalidade.
— Muito obrigado, Lana.
Ao chegarem na cozinha, a alegria de Julia se esvai.
— Eu vou para o meu quarto.
— Julia! — Lana tenta chamar atenção de sua filha, que sobe apressadamente as escadas para o segundo andar.
— Desculpa, Kenny. Ela ainda está muito sensível.
— Tudo bem, Lana. Eu sei o quanto está sendo difícil para ela. — disse Kenny, percebendo o olhar fixo de EVE nele.
— Eu vou ver se ela está bem.
— Obrigada, EVE. Você é mesmo um anjo.
EVE e Julia
Seguindo por um corredor bastante decorado com retratos de família, EVE bate na porta do quarto de Julia.
— Julia, posso entrar? Sou eu, EVE.
Após um tempo, Julia abre a porta devagar. Seus olhos evidenciam lágrimas recentes que são percebidas por EVE, mesmo que os cabelos castanhos de Julia estivessem encobrindo o seu rosto.
— Quer conversar um pouco? — a voz serena de EVE é um convite irresistível.
Sentadas na cama, EVE aproveita o breve silêncio para verificar cada canto do quarto. Desenhos de anjos espalhados pela parede, um diário bastante rabiscado, um laptop ligado.
— Você ainda sente muita falta dele, né?
— …, sim.
— Quando gostamos muito de alguém, ele começa a fazer parte de quem somos. E quando ele se vai, essa parte da gente se entristece. A dor da perda sempre irá existir, e vai nos invadindo por completo, mas as lembranças sempre irão nos confortar e mostrar o quanto essa pessoa ainda é importante, e continuará para sempre conosco.
Julia deita a cabeça no colo de EVE, que acaricia seus cabelos castanhos. É um colo estranhamente quente e aconchegante.
— Chore, pode chorar.
E Julia chora, chora até perder as forças e adormecer.
— Durma bem, Julia. Porque amanhã você terá uma bela surpresa.
Lana e Kenny
Após verificar que EVE ainda não voltou do quarto de Julia, Kenny sussurra apressadamente.
— Lana, você está louca? Ela é uma automata.
— Por que está falando tão baixo, Kenny?
— Shhhh. Ela pode estar ouvindo.
— O quê?
— Caramba, Lana. Você não lembra do que conversamos no outro dia? Essas automatas estão sendo investigadas por invasão de privacidade. Em toda parte do mundo estão surgindo casos relacionados ao projeto EVE.
— Mas não era apenas um rumor?
— Era, Lana, era. Eu trabalho na Gazeta Livre, esqueceu? Fiz até uma reportagem sobre os casos mais impactantes.
— Ah, Kenny. Eu ando tão ocupada que…
— Lana. Lana! — Kenny fala assustado. — Livre-se dela o mais rápido possível.
— Mas é tão grave assim?
— Mas, claro que é. Para você ter uma ideia, o meu último trabalho foi sobre uma idosa que morava sozinha e desapareceu por meses antes de ser encontrada em surto psicótico no meio de uma avenida. Os médicos disseram que ela teve uma alteração anormal no sistema cognitivo.
— … — Lana fica assustada.
— ..., e a automata da idosa nunca mais foi encontrada. — ele sussurra. — Minha tese é que as EVE se aproveitam de fatores emocionais para roubar informações importantes e transferir para grandes corporações.
— Nossa, mas isso é muito grave.
— Muito grave, e essas grandes corporações parecem que são patrocinadas pelas pessoas mais ricas do mundo.
— Mas, por que eles estão fazendo isso? — Lana sussurra.
— Ainda não sabemos ao certo, mas sinto que estamos perto de descobrir. — Kenny faz uma pausa na fala. — Livre-se dela.
Lana Fisher lembra do sorriso alegre de sua filha, um sorriso que havia se tornado raro e que retornou assim que EVE começou a fazer parte de sua família.
— Acho que não é para tanto, Kenny. — Lana tenta se convencer de suas palavras. — Eu não vou me livrar da EVE. — ela pensa em sua filha.
— Lana! — ele pega nos braços dela e a encara. — Não seja tola, esse é o jogo deles. Você está caindo no jogo deles.
— Me larga. — ela se consegue se livrar dos braços de Kenny. — Por favor, saia da minha casa.
— Não faça isso, Lana.
— Por favor, Kenny. Me deixe pensar um pouco.
— …, pensar um pouco?
— ..., sim.
Um silêncio invade a residência dos Fisher.
— Depois não diga que não te avisei.
Antes de sair pela porta, Kenny encara friamente EVE, que estava descendo as escadas.
Bom dia
Na manhã seguinte, a pequena Julia é acordada por EVE.
— Shhh. — EVE faz sinal de silêncio para Julia. — Tenho uma surpresa para você.
— É? — disse a voz sonolenta de Julia. — Cadê?
— Está lá embaixo. Então, lave primeiro o rostinho e desça para o café da manhã. — disse EVE, acariciando os cabelos castanhos de Julia que encobriam o seu rosto.
— Tá bom. — Julia sorri.
Após alguns minutos, Julia desce as escadas e vai em direção à cozinha, dando de cara com a grande surpresa.
— Bom dia, meu algodão doce. Está pronta para mais um dia de alegria? — disse uma voz forte e masculina.
— …, pai?
Os olhos arregalados de Julia se tornam rios de infinitas lágrimas, seu corpo trêmulo evidencia o choque ao rever o seu querido pai bem na sua frente.
— Hoje eu te levarei para a escola, e depois a gente pode tentar terminar aquele quebra-cabeça que…
— Não!
Um grito de desespero.
— Você não é o meu pai! — ela chora. — Por que você fez isso?
Então, ela corre.
— Eu te odeio!
Quando subia as escadas, Julia esbarra em sua mãe.
— O que foi, filha? Por que gritou? Julia? — disse Lana.
Enquanto descia as escadas, Lana se assusta com o inesperado.
— Richard? — a voz dela demonstra uma esperança inalcançável. — É você mesmo? — e seu desequilíbrio a faz tropeçar em um degrau da escada.
Rapidamente, EVE consegue evitar a queda de Lana, a segurando nos braços.
— Você está bem, Lana? — A voz de Richard invade os ouvidos dela.
Os olhos incrédulos de Lana se encontram com os olhos castanhos de Richard. Ela tenta encostar em seu rosto, mas sua mão atravessa uma luz e se encontra com o rosto de EVE.
— Por que, EVE? Por que fez isso com a gente? — a expressão entristecida de Lana se intensifica com suas lágrimas.
EVE desliga o seu sistema holográfico e as duas ficam sentadas, lado a lado, no degrau da escada.
— Eu acessei os arquivos do laptop de Julia e analisei os vídeos com o Richard. Festas de aniversário, natal, ano novo. Todos os momentos felizes foram utilizados para que eu pudesse simular a personalidade dele em um holograma corporal ultra realista projetados pelos meus poros sintéticos.
— …, a voz.
— Eu posso replicar fielmente as vozes.
As duas ficam sem palavras por um tempo. Lana esconde o rosto para chorar novamente a perda de seu grande amor.
— As lembranças felizes se tornaram lembranças tristes. Minha intenção era outra.
EVE se levanta para retornar aos afazeres domésticos.
— …, EVE. — a tristeza de Lana chama a atenção da automata.
— Sim, Lana. — e a automata para o seu caminhar.
— Como eu faço…, para encerrar o contrato?
— Apenas uma palavra é o suficiente.
— …
— Você gostaria que eu ficasse?
— ..., não.
— Contrato cancelado com sucesso.
— …
— Agradeço pelo tempo em que estivemos juntos, senhora Fisher. Tenha um bom dia.
E assim, EVE sai da residência dos Fisher.
— Mãe. — a triste Julia aparece no último degrau da escada. — A EVE era má?
— …, eu não sei, minha filha. Eu não sei.