Ecos de Elderglen

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Summary

Ao atravessar o antigo arco de Elderglen, Maxine não apenas foge — ela desperta algo que muitos tentaram manter adormecido. Na Academia de Magia, ela encontra abrigo, mas também perguntas que ninguém parece disposto a responder. Artefatos esquecidos reagem à sua presença. Sonhos estranhos assombram suas noites. E por trás de sorrisos gentis, há olhos que a estudam como se esperassem que ela se quebre… ou floresça. Enquanto presságios se acumulam e nomes proibidos voltam a ser sussurrados, dois rapazes cruzam seu caminho — um filho das sombras, outro da luz — ambos com segredos que a puxam para lados opostos de uma mesma profecia. Maxine não sabe quem é. Mas o mundo mágico está prestes a lembra-la. Entre pactos selados em sangue, poderes antigos demais para serem controlados e um destino que já a escolheu muito antes da fuga, Maxine terá que decidir: resistir ao que cresce dentro de si… ou abraçar o caos e se tornar aquilo que muitos temem. Porque talvez ela não tenha sido salva. Talvez ela tenha sido convocada. Um romance de fantasia sombria, onde liberdade tem preço, promessas podem ser armadilhas — e o destino não gosta de ser desafiado.

Status
Ongoing
Chapters
3
Rating
n/a
Age Rating
18+

Chapter 1 - As Flores da Estufa Nunca Tocam o Sol


O céu parecia ter sido pintado à mão — tons quentes como vinho velho, dourados como ouro recém-polido. Um espetáculo silencioso que contrastava com o frio que se arrastava dentro de mim. A mansão Riverwood cintilava sob a luz mágica da tarde, refletindo o esplendor de um conto de fadas escrito por alguém cruel demais para ser lido por crianças. Festa para eles.

           A casa... ela mudava. Sempre mudava, moldando-se aos humores da família como um animal domesticado, servil. E hoje, ela brilhava — alegre, vibrante, como se a própria magia quisesse agradar os convidados. Era dia de festa.

Para eles.

Para mim? Apenas mais um dia para fingir que existo da forma que esperam. Que respiro da maneira certa. Que sorrio na hora certa. Que não sou um erro ambulante costurado com silêncio.

Acordei antes do nascer do sol, como sempre. O som dos pássaros encantados cantando do lado de fora da janelinha suja do depósito me arrancou do torpor. Eles eram bonitos, em tons de azul profundo e âmbar, sempre empoleirados como guardiões de um mundo ao qual eu nunca pertenceria. Seus cantos, suaves e mágicos, não me alcançavam. A melodia era doce, mas dentro de mim… só vazio.

Me vesti devagar, como se vestir uma armadura. O vestido pendurado na maçaneta era cor de marfim antigo, de tecido áspero, apertado no peito e largo demais nos quadris — um erro proposital. Isis o deixava sempre ali, como um lembrete de que até minhas roupas eram escolhidas por alguém que me odiava. Ainda assim, eu o vesti. Porque desobedecer não era uma opção.

Hoje eu seria uma boneca de porcelana — mas só por fora.

O jardim da casa estava transformado. Luzes flutuantes — pequenas esferas douradas encantadas — flanavam entre roseiras cuidadas por mãos que não eram as minhas. Esculturas de gelo que nunca derretiam adornavam os cantos do gramado, encantadas para parecerem vivas, em poses que mudavam suavemente conforme a música flutuava pelo ar. Um palco mágico, onde cada sorriso era ensaiado, cada riso uma mentira bem contada.

E eu… a sombra em meio ao esplendor.

— Maxine? — A voz era doce, quase melada, mas tinha um tom de deboche que escorria feito veneno. — Quase não te reconheci sem suas roupas usuais. Esse vestido ficou ótimo em você!

Alice Hayworth.

Filha única dos Hayworth. Uma das famílias mais antigas do Conselho de Magia. Ela tinha vinte e quatro anos e carregava o tipo de elegância que vinha com berço e malícia. Bela como uma pintura amaldiçoada, com olhos azul-acinzentados que pareciam ver mais do que deveriam.

Ela dava voltas ao meu redor como quem examina uma obra defeituosa em uma galeria fina.

— Senhorita Alice — murmurei, inclinando a cabeça, automática.

Ela riu — aquela risada doce e cruel — enquanto olhares ao redor começavam a se voltar para nós.

— Nossa… sempre achei que você fosse só tímida. Mas parece mais... domesticada. — A palavra foi cuspida como um insulto disfarçado. Cassian ouviu e riu alto, do outro lado do jardim.

— Ela sabe sorrir, quando quer — ele respondeu sem nem se virar.

Alice se aproximou um pouco mais, seus olhos nos meus, intensos, como se falassem outra língua, tão curiosos quanto uma criança vendo algo pela primeira vez.

- Não reaja — sussurrou. — Continue fingindo que estou sendo uma megera.

Ela me agarrou pelo braço, de leve, mas forte o suficiente para parecer que o queria fazer.

Fiquei imóvel.

- Eu sei o que acontece nessa casa, Maxine. Eu ouço. Sinto. E não vou deixar que continuem fazendo isso com você – Seus olhos azuis queimaram minha pele como brasa.

 - O quê...? – Gaguejei estática.

Meus olhos se arregalaram. Mas Alice manteve o olhar fixo.

 - Você vai fugir hoje. Eu cuidei dos feitiços da janela do seu “quarto”. Arrumei uma mochila com o básico que você vai precisa. Comida. Um mapa. Tem um carro velho, não encantado, virando à esquina, às chaves estão no chão, por trás da roda – O aperto no meu braço aliviou e ela se endireitou com toda a graça que alguém como ela tinha.

Fiquei imóvel.

- Por quê? — murmurei. — Por que me ajudar?

- Porque ninguém deveria passar por isso. Ninguém deveria viver com alguém como essas criaturas nojentas – Ela franziu o nariz em total nojo enquanto olhava para os Riverwood rindo ao longe - E porque a magia que pulsa em você... é selvagem, eu sinto. Não merece morrer enjaulada, precisa ser livre, vocês duas.

Alice sorriu como se estivesse me xingando e me olhou altivamente, dando um passo para trás, em direção à multidão.

 - Lamentável. Parece que você não sabe a sorte que tem de ser uma Riverwood -

Seu tom cortante arrancou risos de uma das matronas perto dali que se aproximavam de nós ao encalço da minha madrasta.

- A meia-noite. Pela janela do depósito. Dirija até a estrada de Elderglen. Vai ver uma clareira. Passe pelo arco de pedra e siga sempre em frente – Murmurou mais baixo e se afastou, acenando para algumas pessoas ao longe.

Antes de desaparecer por entre as taças e vestidos, ela olhou para mim uma última vez.

- Não olhe para trás, Maxine. Nunca. Não se você quiser ser livre – Sussurrou.

E então, ela se foi.

           Eu continuei ali, sozinha, em meio a um mar de risos e vinho e promessas falsas.

           Mas havia uma nova centelha no peito. Uma batida diferente.

           Pela primeira vez, havia um plano, havia uma chance.

Depois da conversa com Alice, a noite ganhou um gosto estranho. Como vinho que azeda na boca, mesmo doce no início.

Meus pés continuaram deslizando pela casa, levando bandejas, limpando respingos, recolhendo taças vazias como uma sombra eficiente. Cassian me empurrou uma ou duas vezes para “abrir espaço” e passou o braço por meus ombros duas outras vezes me “oferecendo” aos amigos como um cafetão apresentando aos clientes uma de suas prostitutas. Isis me lançou olhares que queimavam mais que qualquer feitiço cada vez em que dirigiam olhares na minha direção que não fossem de ódio, nojo ou repulsa.

Mas algo dentro de mim havia mudado.

Não era esperança ainda — era medo. Uma espécie de adrenalina que borbulhava como feitiço instável.

Comecei a contar.

As horas.

Os passos.

As rotas de fuga.

Gravei cada curva da casa. A rachadura no espelho. A planta torta no corredor. O rangido da terceira tábua no andar de cima. Era como se eu estivesse me despedindo de uma prisão que me conhecia demais.

Meus olhos memorizaram tudo. Mas meu corpo já era outro, apenas ansiava por não dividir mais o espaço com aquela família desprezível.

Quando o silencio da noite finalmente caiu e eu tive certeza que todos na casa estavam dormindo, me pus de pé, vesti o jeans, os coturnos e o casaco escuro que Alice deixara magicamente dobrados sob meu colchão fino. Minhas mãos tremiam. Cada passo era uma aposta. Mas o trinco da janela… girou.

Livre.

O ar noturno bateu no meu rosto. Frio. Puro.

Era como respirar pela primeira vez.

Desci devagar, pelo caminho mais escuro do jardim. Nenhum feitiço de alarme. Nenhum aviso mágico. Eles dormiam. Confiavam demais em suas cercas de ouro.

Alice me esperava. Encostada em uma cerca coberta de heras, com a capa escura que a fazia parecer invisível na noite. O envelope em suas mãos parecia um segredo poderoso demais para estar em papel comum.

— Você veio — disse, com um alívio que me emocionou mais do que achei possível.

Assenti, sem conseguir falar. A garganta era uma prisão. Mas meus olhos… meus olhos deviam estar gritando de euforia.

Ela se aproximou e me entregou o envelope.

- Aqui tem uma carta de recomendação para a academia de magia e uma breve explicação da situação, eles proporcionam abrigo àqueles que precisam – Alice disse enquanto me entregava o envelope.

- Porque está fazendo isso? – Eu queria agradecer, mas a pergunta era tudo o que saiu da minha boca naquele momento.

- Porque ninguém merece viver essa vida, Maxi – Seus olhos encontraram os meus, cheios de empatia – E mesmo que ninguém veja agora, há algo dentro de você. Algo grande, que merece poder crescer.

Alice segurou meu rosto entre suas mãos frias, tremendo pelo frio da madrugada ou quem sabe da adrenalina de estar me ajudando a fugir.

- Você merece mais que isso, Maxi – O sorriso doce chegou aos olhos azuis de uma forma que eu jamais vi alguém direcionar a mim – Vá, não olhe para trás, o carro está naquela direção.

Ela apontou assim que soltou meu rosto e eu assenti imediatamente.

- Eu não vou – Assenti.

Eu não olharia para trás.

Nunca.

E eu fui.

Sozinha, na calada da noite, com as mãos abanando e a alma tremendo.

Dirigi por horas. Até que o céu começou a clarear, e percebi...

Eu estava livre.

Pela primeira vez.

Livre