Capítulo 1
Certa vez, em um lugar distante e enigmático, vivia uma família mergulhada em dificuldades: o filho carregava tormentos psicológicos; os pais, sem dinheiro; e a estrutura familiar era frágil — algo que ninguém desejaria ter.
Decididos a mudar de vida, os pais optaram por colocar o filho em um curso, enquanto buscavam emprego. A mãe, mulher estudiosa, dominava inglês básico, entendia bem de matemática e possuía diversos certificados. Era inteligente, mas rejeitada até pela própria família. Faltara-lhe sorte, não esforço.
O filho, por sua vez, já havia desistido da vida em pensamento diversas vezes. Só não tomara atitudes extremas por um único motivo: sua família. Amava profundamente os pais e não suportaria vê-los sofrendo com sua partida. Por anos, aguentou. Mas algo nele quebrou. Começou a preparar sua carta de despedida.
Enquanto os pais seguiam entregando currículos em uma empresa que poderia mudar suas vidas, o filho aproveitou a oportunidade e fugiu. Queria encontrar um sentido — ou ao menos, algo que doesse menos que a vida que levava. Deixou o bilhete sobre o sofá, com a TV ainda ligada no jornal. O cachorro, silencioso, ficou para trás.
Durante a fuga, encontrou uma mulher que, aos seus olhos, parecia saída de um sonho. Decidiu ali mesmo: ela seria a última chance de felicidade. Passou dois dias tentando imaginar como se aproximar, como conquistar sua atenção. Por fim, a abordou num parque, onde ela tirava fotos de uma paisagem deslumbrante. Sem hesitar, pediu para ser seu amigo, declarando-se logo em seguida. Ouvindo um "Sim, podemos nos conhecer melhor", sentiu o coração acelerar. Uma fagulha de alegria, finalmente.
Decidiu voltar para casa. Estava morando provisoriamente em um abrigo, distante do lar. Ao chegar, a porta ainda estava trancada. Pegou a chave reserva escondida nas plantas, entrou... e congelou.
A TV continuava ligada, no mesmo canal. A carta, intacta sobre o sofá.
Correu até o cachorro, que mal conseguia latir. A ração estava seca, o chão sujo, e o animal, deitado num canto, tremia. Dois dias... sem nenhum sinal dos pais. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação.
O medo rasgou-lhe o peito como vidro fino.
Pegou o telefone e ligou para a polícia, tentando explicar o inexplicável com a voz trêmula.
Horas depois, os policiais chegaram. Vasculharam a casa, buscaram nos hospitais. A verdade veio por uma ligação: dois corpos haviam sido encontrados no rio que cortava a cidade, próximo à entrada da empresa onde os pais haviam deixado seus currículos. Os documentos estavam com eles. Os corpos, irreconhecíveis. Nenhuma testemunha. Nenhuma pista.
O mundo congelou naquele instante.
Ele se calou. O cachorro parou de latir. A casa mergulhou num silêncio sobrenatural.
Entrou no quarto. Pegou uma caneta. Não era a carta da fuga. Era outra. Era a final.
Na manhã seguinte, os policiais voltaram.
Encontraram o cachorro deitado ao lado do corpo, encolhido, lambendo-lhe a mão fria. Não chorava, não latia — apenas esperava. Como se ainda acreditasse que o dono abriria os olhos a qualquer momento.
Sobre a antiga carta, havia uma nova. Escrita com tinta azul, as bordas manchadas.
> "Olá pai, olá mãe.
Decidi que minha vida aqui estava difícil demais. Não sentia mais felicidade, então fui atrás dela.
Não sabia o que ela seria: uma pessoa, um objeto, uma paisagem... ou a morte.
Agora eu sei. Era ela. A morte.
Ela me chamou quando vi vocês naquela notícia.
Sussurrou que, sem vocês, eu era só silêncio.
Eu voltei. Mas, como disse... não sou mais o mesmo.
Me chamem, se um dia me reencontrarem, de Hell.
Amei vocês, do meu jeito quebrado.
E por amar demais, parti.
Obrigado por tudo."
Os policiais não entenderam. A carta parecia antiga. O papel, amarelado. O cheiro, envelhecido. As palavras, secas — como se tivessem sido escritas antes mesmo da fuga.
Mas ninguém havia estado na casa.
Nem ele.
Nem os pais.
A TV? Ligada. A primeira carta? Intocada. O corpo? Frio demais. Como se estivesse ali há dois dias.
O cachorro, agora sozinho, foi recolhido pelos policiais. Mas jamais se acostumou. Recusava comida, latia à noite como se chamasse por fantasmas. E toda vez que passava por um sofá, deitava ao lado, lambendo o ar vazio.
> “Alguns dizem que ele morreu naquele sofá, antes mesmo de partir. Outros juram que o viram sorrindo em algum parque, ao lado de uma mulher desconhecida. Mas uma coisa é certa:
Aquela pessoa... nunca morreu.”