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Inverdade

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Summary

Cada pessoa tem sua própria verdade. Mas a verdade é uma mentira de dois gumes. Um paladino que começou a duvidar de seus caminhos e uma assassina dividida entre sangue e paz se unem, embora se odiando, para proteger uma ninfa que carrega uma profecia. Esse é o começo de uma aventura, um romance, e uma jornada repleta de inverdades.

Genre
Adventure
Author
William
Status
Ongoing
Chapters
5
Rating
n/a
Age Rating
16+

I - Lisander - Um traidor

Sono. O sono é algo extremamente importante. Sem eles nós morreríamos de exaustão. Uma noite bem dormida melhora nosso humor, nossa saúde, nossa atenção- Eu sinto um chute, que mais parece um coice, atingir a boca do meu estômago acompanhado de uma fala.

— Eu achei que elfos não precisassem dormir.

— Drys! — Eu exclamo, ainda bem sonolento.

Quem é essa… bendita pessoa que amaldiçoa meu sono com coices? É a Drys. Uma Sátira (nos dois sentidos se quiser saber) morena com cabelos cacheados castanho escuro e a metade inferior de uma cabra marrom. Ah, caso eu não tenha mencionado, ela é a razão de cada um dos meus problemas.

— É sua vez de ficar de vigia. — ela fala acenando a cabeça em direção a saída da caverna.

Eu olho ao redor, procurando por uma pequena Ninfa que é a única razão de eu não ter matado aquela maldita cabra. Encontro-a num sono tão profundo quanto quando fui dormir, ainda banhada na leve luz do luar. Pera, luz do luar? Eu olho para fora e vejo a lua, horas antes de amanhecer. Eu olho pra Drys, começando a se arrumar para dormir.

— Não tá nem perto do amanhecer, esse não foi nosso acordo. — eu reclamo.

Ela responde enquanto se arruma no saco de dormir. — É, pois é. Mas você meio que já levantou e eu meio que já tô indo dormir então… se vira.

Eu suspiro, pego minha túnica e saio para fora da caverna resmungando ofensas que machucariam minha reputação se ouvidas.

Uma túnica. Uma simples túnica fica entre mim e o frio da noite nessa floresta. Se me contassem há apenas semanas atrás se algum dia eu cobriria meu sagrado corpo com uma vestimenta tão bárbara quanto essa, admito que gargalharia até a manhã seguinte. E pensar que eu realmente cheguei nessa situação. Eu, um alto elfo e consagrado paladino utilizando roupas inferiores aos dos plebeus da Trindade. Inaceitável, ridículo.

Eu me sento perto das cinzas do que um dia foi uma fogueira montada horas atrás. A madeira ainda liberando um pouco de fumaça.

— Você realmente se superou dessa vez, Lisander.

O vento não me responde.

Talvez você esteja pensando o que exatamente aconteceu. E não é do meu feitio esconder informações.

Eu sou, eu era, um renomado paladino da Trindade, o maior império que esse mundo já testemunhou. Um império feito pela junção das três santas raças: Elfos, humanos e anões. Juntas sob uma mesma bandeira nós nos tornamos invencíveis e eu, junto de centenas de outras almas corajosas, formamos o esquadrão de purificação com a santa missão de espalhar o brilho único da Trindade por essa terra corrompida com raças monstruosas como goblins, orcs… e sátiros.

Tudo começou há duas semanas atrás. Meu esquadrão foi escolhido para uma missão de emergência. Alguma maldita ameaça aparecia na fronteira do reino. Praticamente uma declaração de guerra. Bravamente, eu liderei meu esquadrão em direção à floresta de onde vinha o mal. Chegando lá, nos separamos para procurar com mais eficiência a fonte do perigo. E procurar eu fiz. Olhei pelas árvores, pedras e arbustos. Mas nada parecia apresentar ameaça alguma. Admito que até cogitei cessar minha busca com esperanças de que talvez fosse um alarme falso. Porém, pouco antes de desistir, encontrei-a. Uma Ninfa.

Ninfas são espíritos da natureza. Seres puramente arcanos, caóticos e incontroláveis. Durante minha educação, foram contadas histórias de Ninfas que tomavam cidades inteiras por razões tão levianas quanto destruir uma árvore. Ergui minha espada e segurei meu escudo. Derrotar uma Ninfa sozinho não seria tarefa fácil. Tentei contactar algum membro do meu esquadrão antes de abordá-la, mas sem sucesso. Talvez a Ninfa já tenha cuidado deles, pensei. Maldita criatura. Respirei fundo e exclamei:

— Fique parada onde está, ser das trevas!

A pequena criatura me olhou virando levemente a cabeça pro lado semelhantemente a um cachorro confuso. Tinha folhas de árvores simulando cabelo, pele esverdeada com alguns toques marrons ao redor das bochechas. Era pequena, tinha semelhança a uma criança humana. Seu visual não era intimidador, mas não abaixei a guarda. Aparência inocente é um truque comum entre seres impuros.

Avancei sem pensar mais que duas vezes. Estranhamente, a pequena ninfa não expressou reação. Talvez não precisasse desviar, talvez sequer soubesse como. Balancei minha espada com maestria, seria um corte avassalador. Porém, instantes antes de atingir o espírito da floresta, parei.

Porquê? Seu rosto. Era algo tão inocente, puro. Dado que já havia visto diversas crianças em minha duradoura vida, mas aquele rosto me cativou. Desde o início de nosso encontro nem uma palavra foi dada por parte da Ninfa. E por meu lado, apenas hostilidade. Um infante, por mais jovem e ingênuo que seja, irá chorar caso sinta medo, talvez grite, até. Mas essa criança? Talvez sequer tivesse noção do conceito de medo. Olhei para ela, seus olhos eram como duas gigantes e redondas esmeraldas. Brilhando tanto quanto os vagalumes à noite. Os hereges têm um ditado: Os olhos são os portões da alma. Um dito que nunca havia sentido pra mim, até agora.

Abaixei minha espada, junto à minha guarda. Uma emoção que só pode ser descrita como remorso tomou conta da minha alma. Só a memória de ter olhado pra um ser tão belo com intenções assassinas me causava repúdio. Eu me abaixei, estava prestes a tentar me comunicar com a criatura quando sou surpreendido por um ataque por trás. Eu rolei pro lado, desviando o ataque. Eu me viro pra identificar o agressor.

— Fica longe da Ninfa — a agressora misteriosa fala. — Ela é minha, elfo.

Seu rosto é familiar. Pele morena, cabelos cacheados. Um e meio chifres. Metade dela é cabra?

— E quem seria você, meia-cabra? — Eu pergunto me levantando e erguendo minha espada.

Ela não responde. Ao invés disso avança em minha direção com uma adaga em cada mão. Adagas ensanguentadas. Minha expressão muda de confusão para fúria em um instante. Se esse sangue for dos meus companheiros espero que os deuses tenham piedade da alma da meia-cabra, pois eu não irei.

Uma sequência de golpes se desenrola em frente a Ninfa. Admito que a engenhosidade dos golpes de minha oponente eram formidáveis. Golpes com adaga seguidos de chutes com o mesmo impacto que uma maça. Porém, antes que qualquer dano decisivo fosse feito escutamos vozes. Soldados. Paladinos. Reforços.

— Compatriotas! — eu grito. — Aqui!

Minha oponente rapidamente desengaja do combate, e corre em direção à Ninfa.

Eu corro para proteger a Ninfa. Seja lá o que essa cabra deseje com ela, é meu dever como Paladino defender a honra dos meus amigos e eu não posso deixar a Ninfa morrer aqui. Vendo que não conseguirei chegar a tempo me preparo para um ataque. Respiro, faço uma rápida oração aos deuses e aponto minha espada em direção à minha adversária e um pequeno raio sai dela, derrubando a cabra com o choque.

Ao meu lado, um pouco atrás de mim, vejo alguns colegas paladinos.

— Aqui! — exclamei. — A cabra está vulnerável!

Eles, no entanto, não pareciam estar muito focados na assassina. Ao invés disso, sua mira estava na Ninfa.

— Esperem, a Ninfa não é uma ameaça, é apenas uma criança!

Mas eles não pareciam acreditar.

— Lisander, seu esquadrão está morto e você está protegendo uma criatura das trevas? O que deu em você? — Um dos paladinos fala.

Eu paro por um instante. Meu esquadrão. Meus amigos. Foram realmente mortos? Eu olho pra cabra, lentamente se levantando. As adagas ensanguentadas. Minha teoria estava realmente certa?

Eu suspiro.

Ele continua:

— Vê? Sua ignorância matou seus amigos. Recomponha-se Lisander. Ainda há tempo de salvá-los.

— Não, a culpada pela morte deles é ela.

Eu aponto pra mulher-cabra com a ponta da minha espada.

A cabra fala:

— Eu? Eu não fiz nada, juro! Ele ficou maluco, seu paladino!

Outro paladino a interrompe:

— Calada, você é Drys não é? A Trindade tem muitas perguntas para você. E depois, o que te espera é apenas a morte.

O nome Drys ajuda a finalmente refrescar minha memória. Uma Sátira. Drys, a Sátira. Uma famosa criminosa que vinha nos atormentando pelos becos da trindade há anos. Porém antes que pudesse fazer algo sobre meu recém lembrado conhecimento, o primeiro paladino começa a tensionar seu arco em direção à Ninfa. Sem pensar duas vezes, ergo meu escudo a protegendo.

— Saia daí, Lisander. Não jogue sua carreira fora! — o paladino exclama.

— Não posso! Não deixarei que atire numa criatura inocente!

Me viro para olhar a Ninfa.

Sua expressão parece ainda mais confusa. Me pergunto se ela sequer entende o que estamos dizendo.

— Último aviso, Lisander de Strom. Realmente desejas que o nome de sua família seja para sempre sujo por conta de sua deserção?

Penso na minha mãe em casa recebendo tais notícias. Meu coração bate com um pouco mais de força quando penso no olhar de desaprovação de meu pai. A Ninfa olha para mim, me encarando. Aqueles mesmos olhos me prendendo num dilema impossível. Abaixo meu escudo, fecho meus olhos, e deixo a flecha passar. Poucos instantes depois, escuto um barulho de perfuração. Meu coração se parte em imaginar a cena. Porém, quase instantaneamente, escuto outra perfuração — Um exagero na minha opinião. — De qualquer forma, abro os olhos lentamente.

— Ótimo jeito de se proteger, Elfo. O que os olhos não vêem o coração não sente, né? — Drys fala.

Para minha surpresa, a Ninfa se encontra viva e intacta. Eu olho para os paladinos e vejo dois cadáveres. Drys conseguiu novamente.

— Agora, capitão, você vai sair daqui e inventar alguma história boba ou vai querer morrer que nem os outros seis?

Eu retruco. — Sonhe se acha que vou te deixar matar a Ninfa.

— Pera, pera, pera, você acha que eu quero matar ela? Você e seus colegas da Trindade que são sobre matar raças alheias.

— Raças como a sua. Você acabou de matar seis homens, caso tenha esquecido.

Nós então escutamos mais vozes vindo em nossa direção. Paladinos nunca andam apenas em duplas, quartetos no mínimo.

Drys suspira.

— Vem comigo. — ela diz.

— Como se eu fosse. Você é uma criminosa, Drys. Eu, um agente da justiça divina.

Ergo minha espada em direção à ela, ameaçando-a.

— Justiça divina é o meu casco esquerdo. E outra, você realmente acha que algum paladino nesse império inteiro vai querer proteger a Ninfa? Eu nem sei o que deu em você pra querer proteger ela.

Por mais que eu odeie dizer isso, Drys tem um ponto. Por juramento, nós devemos exterminar toda e qualquer raça que apresenta uma ameaça para A Trindade ou que seja das trevas. Por definição, a pequena Ninfa se encaixa nas duas.

— E o que você sugere que façamos? — pergunto.

— Primeiro corremos, depois falamos. Eles já devem estar quase aqui.

Ela não está errada. As vozes na floresta parecem cada vez mais perto. E em maior quantidade.

Nós corremos.

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