💉 Capítulo 1 – Sal Grosso e Sopa Rala
O cheiro no abrigo era uma mistura de sopa de legumes, suor velho e desespero esticado ao sol.
Nunew ajustou a touca azul que cobria parte do cabelo loiro e segurou firme a concha de metal. As mãos, pequenas, estavam vermelhas do frio. Já fazia duas horas que ele servia sopa sem parar — e ainda havia uma fila dobrando o corredor. Ele não reclamava. Nem franzia o rosto. Só continuava, um rosto calmo no meio do caos.
Até que o próximo da fila deu um passo à frente.
— Que maravilha — disse uma voz arrastada. — Um pirralho pra me servir comida de hospital. Vai jogar cenoura na minha cara também ou isso é só pra quem sorri bonito?
Nunew ergueu os olhos. E viu ele.
Alto. Magro. Casaco sujo de tinta ou vômito — difícil saber. Os olhos escuros eram fundos e ferozes, como se dormissem há anos com medo de acordar.
Zee. Tinha algo escrito no nome dele mesmo quando ninguém o dizia. O tipo de cara que parecia carregar um furacão no bolso e um soco engatilhado nos dentes.
— Boa tarde — disse Nunew, educado, como se não tivesse acabado de ser chamado de pirralho. — Quer sopa?
Zee deu um sorriso torto. Tinha dentes bonitos, mas faltava algo atrás deles.
— Quero caviar. Mas já vi que não vai rolar, né?
— É sopa de batata com cenoura e macarrão — respondeu Nunew, paciente. — Só temos isso hoje. Se quiser.
Erro dele.
— Depende — respondeu Zee, dando um sorriso torto. — Tem droga no fundo?
Nunew piscou devagar. Não sorriu.
— Não. Mas tem pão. Quer?
— Só se for com vodka.
Nunew ignorou.
— Se quiser, ele diz — Zee bufou, passando a língua pelos dentes. — Como se alguém aqui tivesse opção. Tá bom. Manda aí, loirinho. Me alimenta com tua compaixão.
Nunew serviu a sopa com calma. Sem rir. Sem se incomodar.
— Toma cuidado. Tá quente.
Zee pegou o prato como quem segura um cigarro aceso. Com desprezo. Com vontade de jogar no chão. Mas não jogou.
Sentou na mesa mais próxima e ficou encarando o prato como se a sopa fosse sua inimiga de infância.
Nunew voltou a servir o próximo da fila. Mas sentiu o olhar dele. Zee ainda estava olhando. Não com interesse. Com raiva. Com um tipo de provocação que implorava por briga.
— E aí, loirinho — Zee chamou de novo. — Você faz isso porque quer ou é castigo da escola cristã?
Nunew ergueu os olhos por um segundo, sem sorrir.
— Faço porque tem gente com fome.
Zee riu. Baixo. Amargo.
— E você acha que isso salva alguém?
Nunew não respondeu.
Porque não era pra convencer ninguém.
Era só sopa.
E às vezes, era tudo o que dava pra oferecer.