Onde Não Nasce Amor

Summary

Zee Pruk tem 19 anos, mora com a mãe omissa e o padrasto violento, em um apartamento mofado que fede a bebida e silêncio. Na escola, era visto como promissor - inteligente, bonito, com um talento cruel para escrita. Seu professor dizia que ele podia ir longe. Mas a realidade bateu antes dos sonhos. E como tantos, Zee caiu. Primeiro foi a maconha - "só pra relaxar". Depois a cocaína. Depois a heroína, o crack, os comprimidos desconhecidos. Agora, aos 19, ele não escreve mais. Ele vende, rouba, mente. Troca o que sobrou da alma por mais um trago, mais uma fuga, mais um dia respirando. Do outro lado da cidade, vive Nunew Chawarin, 18 anos. Criado por pais humildes, trabalhadores, que não tinham muito, mas sempre deram amor. Nunew faz faculdade de Serviço Social, estuda à noite, trabalha num centro de apoio a moradores de rua aos fins de semana. É lá que ele encontra Zee pela primeira vez - um vulto encurvado no chão da calçada, os olhos opacos, um caderno rasgado ao lado. E algo nele - no jeito como respira, no jeito como finge não estar implorando - prende Nunew. O que nasce entre eles não é amor. Não ainda. É dor reconhecendo dor. E uma esperança míope de que, se eles se agarrarem forte o suficiente um ao outro, talvez não afundem. Mas a lama é profunda. E o amor, às vezes, não basta.

Genre
Erotica/Lgbtq
Author
Keroly
Status
Ongoing
Chapters
1
Rating
n/a
Age Rating
18+

💉 Capítulo 1 – Sal Grosso e Sopa Rala


O cheiro no abrigo era uma mistura de sopa de legumes, suor velho e desespero esticado ao sol.

Nunew ajustou a touca azul que cobria parte do cabelo loiro e segurou firme a concha de metal. As mãos, pequenas, estavam vermelhas do frio. Já fazia duas horas que ele servia sopa sem parar — e ainda havia uma fila dobrando o corredor. Ele não reclamava. Nem franzia o rosto. Só continuava, um rosto calmo no meio do caos.

Até que o próximo da fila deu um passo à frente.

— Que maravilha — disse uma voz arrastada. — Um pirralho pra me servir comida de hospital. Vai jogar cenoura na minha cara também ou isso é só pra quem sorri bonito?

Nunew ergueu os olhos. E viu ele.

Alto. Magro. Casaco sujo de tinta ou vômito — difícil saber. Os olhos escuros eram fundos e ferozes, como se dormissem há anos com medo de acordar.

Zee. Tinha algo escrito no nome dele mesmo quando ninguém o dizia. O tipo de cara que parecia carregar um furacão no bolso e um soco engatilhado nos dentes.

— Boa tarde — disse Nunew, educado, como se não tivesse acabado de ser chamado de pirralho. — Quer sopa?

Zee deu um sorriso torto. Tinha dentes bonitos, mas faltava algo atrás deles.

— Quero caviar. Mas já vi que não vai rolar, né?

— É sopa de batata com cenoura e macarrão — respondeu Nunew, paciente. — Só temos isso hoje. Se quiser.

Erro dele.

— Depende — respondeu Zee, dando um sorriso torto. — Tem droga no fundo?

Nunew piscou devagar. Não sorriu.

— Não. Mas tem pão. Quer?

— Só se for com vodka.

Nunew ignorou.

— Se quiser, ele diz — Zee bufou, passando a língua pelos dentes. — Como se alguém aqui tivesse opção. Tá bom. Manda aí, loirinho. Me alimenta com tua compaixão.

Nunew serviu a sopa com calma. Sem rir. Sem se incomodar.

— Toma cuidado. Tá quente.

Zee pegou o prato como quem segura um cigarro aceso. Com desprezo. Com vontade de jogar no chão. Mas não jogou.

Sentou na mesa mais próxima e ficou encarando o prato como se a sopa fosse sua inimiga de infância.

Nunew voltou a servir o próximo da fila. Mas sentiu o olhar dele. Zee ainda estava olhando. Não com interesse. Com raiva. Com um tipo de provocação que implorava por briga.

— E aí, loirinho — Zee chamou de novo. — Você faz isso porque quer ou é castigo da escola cristã?

Nunew ergueu os olhos por um segundo, sem sorrir.

— Faço porque tem gente com fome.

Zee riu. Baixo. Amargo.

— E você acha que isso salva alguém?

Nunew não respondeu.

Porque não era pra convencer ninguém.

Era só sopa.

E às vezes, era tudo o que dava pra oferecer.