Parte l
Parte 1: A Fuga e a Igreja
Santana do Escarcéu, 1910.
A noite parecia densa demais para uma cidade tão pequena. O céu escuro estava sem lua, e nem os grilos ousavam cantar. Na floresta que cercava o vilarejo, cinco adolescentes corriam como se o próprio inferno os perseguisse.
Gilda Moura, a mais velha, liderava o grupo com o rosto endurecido. Suas mãos apertavam com força os dedos da pequena Iná, sua irmã de onze anos, que ofegava em prantos, com os pés descalços cobertos de lama e sangue seco. Joãozinho da Luz, filho do ferreiro, vinha logo atrás, segurando um crucifixo ainda sujo com o sangue de coronel Vicente Avelar. Seus olhos, sempre brilhantes, agora estavam escuros, vazios. Raul, um rapaz mudo que comunicava tudo com os olhos, guiava os demais por trilhas pouco conhecidas. E Murilo, o mais novo, tremia com o rosto branco como cera, lutando para não cair a cada passo.
A cidade dormia, ignorando o que havia acontecido horas antes.
O coronel Vicente, homem poderoso, devoto e intocável, estava morto. Apunhalado no coração dentro de sua sala, onde, pouco antes, tentara abusar da pequena Iná. Gilda, ao ver a cena, não hesitou. Tomou a faca da cozinha e o matou. Os outros estavam lá. Ninguém era inocente. E, naquela cidade, ninguém acreditaria neles.
— Não vão nos ouvir — disse Gilda, entre dentes. — Não vão nos perdoar. Vamos fugir. Vamos sumir antes que eles decidam nos enforcar.
A trilha os levou até o lugar mais temido de Santana do Escarcéu: a velha Igreja de São Jerônimo, abandonada desde 1870, quando o pastor Elias dos Montes enlouqueceu e matou doze crianças num ritual sombrio.
— É o único lugar onde não nos procurarão — murmurou Joãozinho. — Ninguém entra lá desde... desde sempre.
A igreja ficava no topo de uma colina isolada. Suas paredes estavam cobertas de musgo, as janelas rachadas, os sinos silenciosos. Um cheiro de terra molhada e mofo saía de dentro. O portão de ferro rangeu como um grito preso quando Gilda o empurrou.
Ao entrarem, o silêncio era tão profundo que podiam ouvir seus próprios batimentos. O altar estava intacto, mas coberto de velas apagadas. Um crucifixo antigo jazia no chão, rachado ao meio. O vento parecia sussurrar dentro da nave principal.
— Vamos descansar aqui — disse Gilda. — Amanhã... a gente vai pra mata.
Eles se deitaram nos bancos partidos, tentando se aquecer uns aos outros. Iná tremia sem parar. Murilo soluçava baixo. Joãozinho mantinha os olhos abertos, vigiando as sombras. Só Raul, o mudo, dormia como uma pedra, os sonhos talvez protegendo-o da loucura.
Do lado de fora, nenhum barulho. Do lado de dentro... algo respirava.
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Naquela madrugada, Iná acordou.
Sentiu uma presença diante do altar. Levantou-se devagar, os pés descalços fazendo quase nenhum som no chão de pedra. Viu uma figura ajoelhada, coberta por um véu escuro.
— Moça...? — sussurrou.
A figura virou-se. Seus olhos estavam vazios, sem pupilas. Um sorriso se abriu lentamente no rosto pálido.
— Injustiça... dorme aqui. Justiça... desperta no sangue — disse a mulher, antes de desaparecer em poeira.
Iná gritou. Mas ninguém acordou.
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Pela manhã, a igreja estava vazia. Nenhum sinal dos jovens. Nem pegadas. Nem sangue. Nem roupas. Nada.
A cidade acordou com o sino da matriz — não o de São Jerônimo — e logo os boatos começaram. Diziam que os jovens haviam fugido. Outros, que os espíritos os tinham levado. Alguns, os mais velhos, sabiam: aquela igreja guardava segredos que ninguém ousava contar.
A mãe de Gilda chorava no alpendre. O pai de Joãozinho se embriagou e nunca mais foi o mesmo. A cidade seguiu... mas nunca esqueceu.
Uma semana depois, uma criança jurou ver Iná perto da mata, cantando uma música que ninguém conhecia. Nua, coberta de terra. Sorrindo.
Mas ninguém acreditou nela.
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Cinco meses mais tarde, durante a festa de São João, alguém ouviu tambores vindos da direção da igreja.
— Deve ser o vento — disse um velho.
Mas o vento... não tinha ritmo.
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