O Retorno
O salão da Lady Danbury estava abafado pelo calor dos sussurros. Ventarolas batiam com mais força do que o necessário, enquanto olhos pintados de curiosidade miravam a entrada como se esperassem o retorno de um fantasma.
E talvez fosse exatamente isso que ela representava.
Aurora Duskmore, a jovem que sumira dos círculos londrinos ainda na adolescência, estava de volta. O vestido azul noite dançava ao redor de seu corpo como uma segunda pele, marcando a cintura fina e deixando os ombros expostos com um atrevimento que apenas uma dama educada na França ousaria carregar com tamanha graça. Seus olhos, de um castanho âmbar quase dourado, varreram o salão com serenidade. Mas por dentro... ela sentia o sangue ferver.
Sabia exatamente onde estava pisando.
E quem não estaria feliz com isso.
Do outro lado do salão, Anthony Bridgerton parou de falar no instante em que a viu. O copo de conhaque ainda entre os dedos, o visconde sentiu um arrepio estranho percorrer-lhe a espinha. Ele não era de se impressionar com vestidos ou sorrisos. Mas havia algo em Aurora — algo perigoso. Como se ela conhecesse um segredo seu que nem ele sabia carregar.
— Ora, ora — murmurou Elizabeth Lancaster, ao lado de Lady Featherington, com um sorriso ácido —, a bastarda dos Duskmore resolveu aparecer.
Aurora ouviu. Claro que ouviu. A voz de Elizabeth era como uma navalha disfarçada de perfume caro.
Ela caminhou com passos decididos, o som do cetim riscando o assoalho polido, até parar diante da anfitriã. Curvou-se em um cumprimento elegante e virou-se, inevitavelmente, para ele.
Anthony.
— Visconde Bridgerton — disse com uma voz calma, porém cheia de intenções ocultas —, não esperava encontrá-lo tão... sóbrio.
Ele arqueou uma sobrancelha, intrigado com o tom.
— E eu, senhorita Duskmore, não esperava encontrá-la tão... viva.
Os olhos de Aurora brilharam por um breve segundo.
A guerra havia começado.
