sangue e gelo - pelas ruas estreitas

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Summary

Nas sombras úmidas e tortuosas de Lutécia, uma cidade medieval marcada por segredos, sonhos partidos e vielas estreitas, algo antigo e monstruoso desperta. Enquanto o povo busca refúgio em rotinas simples - entre tavernas, feiras e histórias sussurradas - um mal desconhecido começa a se espalhar silenciosamente pelas ruas encharcadas de chuva. É nesse cenário que Theron, um humilde tratador de cavalos, e Olga, filha de uma tecelã, cultivam um amor ingênuo e puro. Mas em uma noite que deveria ser como tantas outras, o casal se vê tragado por uma série de eventos que colocam em xeque não apenas o futuro deles, mas a segurança de toda a cidade.

Status
Ongoing
Chapters
1
Rating
n/a
Age Rating
13+

Chapter 1

CAPÍTULO

I

Pelas ruas estreitas

A brisa suave da tarde pairava por todo lado. O pôr do sol banhava Lutécia com seus últimos raios dourados. Aos poucos, a penumbra da noite adentrava as ruas da cidade, dando lugar para o cantarolar dos pequenos grilos pelas sarjetas. O crepitar das tochas lançava sombras tremulantes nas paredes, e sua luz fraca iluminava as vielas que se tornavam cada vez mais escuras. Durante a noite, era comum que os trabalhadores dos campos, soldados, ferreiros e até mesmo os cuidadores do estábulo deixassem suas obrigações de lado para aproveitar o burburinho da cidade.

Theron era um dos rapazes que cuidavam do estábulo real, que concentrava os cavalos mais rápidos e belos da região. Era responsável pela limpeza, bem como pela distribuição de feno e água nas baias.

Ao fim do dia, ele costumava ir até a casa de Olga, uma jovem com cabelos dourados e olhos azuis como o céu. Como a mãe, era tecelã – passava o dia entre linhas e agulhas. Juntos, Theron e Olga costumavam passear por toda a cidade, mas seu lugar favorito era o centro, onde uma fonte de água cristalina parecia guardar os sonhos simples que compartilhavam.

Theron saiu às pressas para encontrar Olga.

Já passava das seis quando finalmente terminou de dar água ao último cavalo.

- Pronto, Astor, água pra você até eu voltar amanhã – dizia Theron, acariciando o focinho do belo corcel. – Agora deixa eu correr, já estou atrasado, e Olga já deve estar irritada. Tchau, até amanhã! – Pegou sua capa de algodão – velha e áspera – cujas costuras, à mostra, revelavam os muitos remendos. Mas ela o aquecia nas manhãs frias.

- Nossa... hoje você demorou bastante, hein? – disse Olga, sentada no chão com os braços apoiados nos joelhos.

- Desculpe, estava terminando de dar água aos cavalos – disse Theron, com semblante de tristeza.

- Tudo bem, imaginei que você pudesse estar por lá!

- E então, vamos? – Theron estendeu sua mão até Olga, que lhe retribuiu com um largo sorriso, segurando-a.

- Então me conta como foi seu dia no estábulo? Algo de diferente?

- Apenas o de sempre. O velho Cedric continua implicando com tudo que fazemos. “Não pode isso, não pode aquilo.” Sabe, Olga, eu sonho... com a gente longe daqui. Só eu e você, sem Cedric, sem gritos, sem ordens... – Theron desviou o olhar por um instante, envergonhado por sonhar tanto.

- Esperarei ansiosa por este dia – dizia Olga, rindo de Theron. – Só você mesmo para sonhar tanto!

- Deixe-me sonhar, só por hoje. Você merece mais do que esse lugar, Olga. – Merecemos... mais do que esterco de vaca até os joelhos. Imagine: eu, você e dois filhos correndo por todo lado. Seria um sonho.

Olga não disse nada, apenas olhava fixamente nos olhos de Theron. Sentia que aquilo poderia ser real, queria acreditar em cada palavra dita por Theron. Mas como? Se os dois não eram nobres, se não tinham terras? No fundo: nada daquilo ser realizaria. Ainda assim, não podia deixar Theron perceber.

- Dois filhos, é? Certeza que herdariam minha inteligência! – disse Olga, com um leve sorriso.

- Se forem parecidos com você, eu os amarei – respondeu Theron, desviando o olhar por um instante.

Olga apenas sorriu, mas o silêncio entre eles se prolongou. Theron suspirou, olhando para o céu. A brisa balançava os cabelos de Olga com delicadeza.

- Mas... mudando um pouco de assunto... O rei chegou hoje cedo no castelo. Não parecia bem.

- Como assim? Será que está doente?

- Acho que não. Ele parecia estar cansado, com os olhos baixos. Talvez tenha passado outra noite em claro... no colo das putas do Otto – disse Theron, com um sorriso irônico.

- Você está maluco, Theron? Seja mais cuidadoso! Você sabe que não é seguro sair por aí balbuciando ofensas ao rei!

- Perdoe-me, meu bem, mas todos do reino conhecem a fama do rei Conri. Mulherengo desde os tempos de príncipe, vivia nos bordéis, farreando como se não se houvesse amanhã. Um vício desses deve ser difícil de largar.

- Acho que comentários assim não deveriam ser ditos ao relento. Os guardas estão sempre patrulhando as ruas... se um deles nos escutar, estaremos bem ferrados. Além disso, o rei já não é mais um príncipe – deve saber muito bem quais são suas obrigações.

- Você tem toda razão, meu bem... – Theron olhou em volta discretamente, mas o sorriso irônico ainda permanecia. – Mas que é estranho ele aparecer logo pela manhã, com aquela cara de cansaço, ah, isso é muito estranho!

Conforme Theron e Olga caminhavam em direção ao centro, a noite já havia se instalado sobre Lutécia. As vozes dos comerciantes silenciavam, dando lugar ao cantarolar vindo das tavernas. As cantigas antigas e o som suave dos alaúdes pairavam no ar, misturando-se à brisa fria da noite, que tocava levemente os tecidos das tendas, fazendo-os dançar ao vento. O cricrilar dos grilos acompanhava a melodia da taverna, e juntos, em um só compasso, compunham uma canção que parecia durar por horas.

A chuva começou de mansinho, como um sussurro nas folhas das árvores, enquanto Theron e Olga se aproximavam da praça central. O céu, antes dourado pelos últimos raios do entardecer, agora se cobria de nuvens escuras, e o som das primeiras gotas ecoava no silêncio da cidade que aos poucos mergulhava na noite.

Ao virarem a esquina que levava até a fonte – seu lugar favorito – deram de cara com uma cena inesperada: estacas de madeira fincadas ao redor da fonte. Cordas grossas formavam um perímetro, como se alguém quisesse manter os curiosos afastados. Um pequeno letreiro balançava ao vento, e nele lia-se:

“INTERDITADA POR ORDEM DO CONSELHO”

Duas tochas tremeluziam nas laterais, quase apagadas pela chuva fina. Diante da fonte dois guardas em trajes escuros permaneciam parados. Um deles, encurvado sob o peso da armadura, observava os arredores com tédio. O outro mantinha as mãos na empunhadura de sua lança, como se qualquer um pudesse representar ameaça.

Olga parou, franzindo o cenho.

- O que é isso? – murmurou, apertando a mão de Theron.

Theron deu dois passos à frente, sem se aproximar demais.

- Senhores... houve algum problema? – perguntou, tentando soar respeitoso.

Um dos guardas o fitou. A chuva escorria pelo elmo.

- Ordem do conselho. Voltem para casa.

- Mas... é só a fonte. A gente sempre vem aqui... – insistiu Olga, tentando olhar por cima da barreira.

- Não hoje. – disse o segundo guarda, mais ríspido. – E não nos próximos dias.

Antes que pudessem se afastar, uma rajada de vento soprou, fazendo a chuva cair com mais força e balançando levemente o letreiro. Olga conseguiu ver por um instante o chão da praça, próximo à fonte – uma mancha escura escorria por entre as pedras, misturando-se à água da chuva. Não era grande, mas era vermelha o bastante para ser reconhecida: Sangue.

Theron também notou, mas nenhum dos dois disse uma palavra. Um silêncio pesado caiu entre eles. Os guardas nada comentaram, como se esperassem que o casal simplesmente entendesse que era hora de partir.

Theron puxou Olga pela mão.

- Vamos... – disse em voz baixa. – A taverna ainda deve estar aberta.

PARTE

II

A porta da taverna rangeu como um velho baú sendo forçado a abrir. O calor do ambiente, o cheiro de vinho escuro e de carneiro assado bateram no rosto de Theron e Olga assim que cruzaram a soleira. O burburinho era alto, mesas cheias, copos erguendo-se em brindes, e o som de um alaúde acompanhava a voz doce do bardo.

O casal se acomodou em um canto discreto, distante do tumulto. Não trocaram palavras desde que saíram da fonte. Olga mantinha os olhos fixos na mesa, e Theron, com o capuz ainda molhado da chuva, apenas observava os arredores com certa inquietação.

Passadas algumas horas, o ambiente da taverna já não parecia tão hostil. A tempestade havia abrandado do lado de fora, deixando apenas o som constante da água escorrendo pelas calhas e goteiras.

Olga agora sorria. O calor do vinho, o som melódico do alaúde e a companhia de Theron haviam finalmente a acalmado. Com os dedos entrelaçados sobre a mesa de madeira gasta, ela contava sobre uma senhora idosa que perdera um saco de farinha na feira e sobre como o padeiro tentou, desastradamente, socorrê-la sem deixar cair os pães recém-saídos do forno.

Theron ouvia atento, como sempre fazia. Ria baixo, lançava comentários irônicos, e por vezes, deixava o olhar descansar no rosto de Olga, como se aquele instante pudesse durar para sempre. Quando estavam juntos, o tempo parecia mais leve, como se Lutécia, com seus segredos e medos, pudesse esperar.

Mas o tempo não espera.

O sino da catedral bateu ao longe, marcando as últimas horas da noite. O burburinho da taverna diminuía pouco a pouco, e a lareira agora queimava apenas brasas. Olga soltou um suspiro suave, observando a quietude da noite além da janela, onde apenas o vento tocava as pedras da rua.

- Já está tarde – disse ela, com certa relutância. – É melhor irmos antes que meus pais me matem.

Theron concordou com um aceno leve, em silêncio, os dois se levantaram. Ele a ajudou com a capa e, juntos, caminharam em direção à porta. Mas, antes mesmo que pudessem abri-la, um velho de barba longa e cabelos ralos, no balcão, falou alto – quase gritando entre arrotos e soluços:

- Eu vi com meus próprios olhos! Juro por minha vida! Aquilo não era homem, sim uma besta... tinha olhos de fogo e presas de javali! O pelo negro como a noite e o bafo... quente igual ao inferno!

Alguns riram. Outros apenas fingiram ignorar. Mas Olga, sentiu um arrepio subir pela espinha.

Do fundo da taverna, um grupo de homens levemente embriagados caiu na risada, zombando do velho que acabara de falar. Um deles se levantou do banco com dificuldade – quase tropeçando – e lançou uma pergunta provocadora ao ancião:

- E como você sabe disso, seu bêbado imundo?! – disse o homem.

- Eu... a vi ontem à noite... – balbuciou o velho, antes de ser interrompido por um arroto que arrancou gargalhadas do grupo.

- Se você a viu, então por que não está morto? – retrucou outro homem, escorando o cotovelo na mesa, com o sorriso cínico escancarado. – Ouçam bem, amigos: não existe fera alguma! Esse velho só está delirando de tanto vinho podre que enfiou goela abaixo. Agora, voltemos a beber!

Todos na mesa assentiram, erguendo as canecas num brinde ruidoso.

Alguns clientes riram com eles. Outros apenas desviaram os olhos, como quem teme dar ouvidos de mais a palavras que não devem ser ditas em voz alta.

- Vamos – disse Theron, baixando a voz junto ao ouvido dela. – Esse lugar já teve conversa de mais por hoje.

Ao atravessarem a soleira, foram recebidos pelo frio cortante da madrugada. A névoa se espalhava pelas vielas como um véu pálido, e o som abafado dos próprios passos parecia ecoar fundo demais.

No caminho de volta, algumas tochas presas às paredes de pedra serviam de luminárias e indicavam o percurso pelas ruas estreitas da cidade. Sua luz fraca e crepitante projetava sombras trêmulas, que dançavam nas paredes como espectros antigos.

Theron caminhava com Olga enlaçada em seus braços, descrevendo o quanto estava feliz por estar com ela. E Olga, envolvida pela noite e pela presença do rapaz de cabelos castanhos, se apaixonava ainda mais a cada palavra.

Ao passarem por um beco escuro, Theron parou de repente, puxou-a para junto do corpo e a beijou com intensidade. O gesto foi tão repentino que Olga se assustou e o empurrou, rindo.

- Tá maluco? Você quase me matou de susto! – disse ela, com um pequeno sorriso no canto da boca.

- Não consegui resistir... eu... te amo, Olga Velino.

- Eu também te amo, Theron Brand.

Em seu íntimo, Theron desejava passar o resto da vida ao lado dela e não suportava a ideia de desperdiçar um único instante longe de sua amada.

Ficaram ali, sob a luz tremula da tocha mais próxima, trocando beijos e sorrisos. Mas então, um estalo seco ecoou ao fundo do beco. Olga se afastou instintivamente.

- Espera... tem alguém ali – disse, com a voz mais tensa.

- Deve ser só um rato – murmurou Theron, tentando manter o clima leve enquanto se aproximava para beija-la novamente.

- Não é um rato... – disse ela, franzindo o cenho. – Sinto que tem alguém... nos observando. – Olga ergueu a voz. – Tem alguém aí?

- É só o vento, meu bem. Esquece isso.

- Theron, eu ouvi! Para de duvidar de mim. – disse, irritada, olhando para o fundo do beco.

- Tá bom! Ta bom! Eu vou lá ver, calma...

- Espera... Não quero que vá sozinho. Eu vou com você.

Avançavam lado a lado; os passos ecoavam entre as paredes úmidas. Um odor forte começou a invadir o ar – pesado, nauseante, como carne crua apodrecendo.

- Você tá sentindo esse cheiro? – perguntou Olga, cobrindo o nariz.

- Sim... talvez algum lixo apodrecido.

Mas o cheiro parecia piorar a cada passo. Então ouviram outro som – raspado, irregular, como garras arranhando pedra.

Ambos pararam.

- Theron... – sussurrou Olga, com os olhos fixos na escuridão.

- Deve ser um rato grande – ele respondeu, hesitante.

- Está vendo alguma coisa?

- Não... nada.

De repente, um par de olhos brilhou entre as sombras – vermelhos, incandescentes, como brasas ardendo na fornalha de um ferreiro. E então... sumiram.

O som cessou. O vento parou. Nem mesmo os grilos cantavam.

Um silêncio pesado caiu sobre o beco. Um silêncio errado.

Theron respirou fundo e virou-se para ela, tentando parecer tranquilo.

- Eu falei que não era Nad...

Um impacto seco e brutal o interrompeu...

O corpo de Theron tombou no chão. Sua cabeça havia desaparecido.

O sangue espirrou com força, tingindo as pedras. A poça vermelha escorreu rapidamente pelas frestas do chão até alcançar os pés de Olga. O sangue quente molhava seu rosto, que há pouco fora tocado pelos lábios de seu amado. O sabor do beijo ainda permanecia em sua boca.

Ela ficou paralisada. O olhar, vidrado. Não conseguia gritar – apenas pequenos gemidos escapavam de sua garganta, sufocada pelo horror. Os pensamentos turbilhonavam: metade dela queria correr; a outra, cair e morrer ali mesmo.

Suas pernas tremiam tanto que mal conseguiam sustenta-la. Mas, mesmo sem saber para onde ir, ela correu.

Correu sem direção, tropeçando nos próprios pés, com o corpo ainda trêmulo e desgovernado. O cheiro de carniça permanecia em seu nariz, como se a criatura estivesse colada à sua pele.

Ela olhava para trás a todo momento, o pavor queimava em seus olhos. Mas a criatura que a observava antes já não estava mais lá.

Parou adiante, sem fôlego, ofegante, os olhos tomados por lágrimas. O rosto encharcado. O peito ardendo.

“O que era aquilo?”

E então, sem som, ela apareceu.

A criatura diante dela – como se tivesse saído da própria escuridão.

Era uma aberração infernal: pelos negros como breu, dentes longos e curvados cobertos de sangue, olhos ardentes como carvão incandescente. O fedor de carne pútrida era quase insuportável, como a cada respiração queimasse sua garganta.

Olga mal teve tempo de piscar. A besta avançou num salto. Abocanhando-lhe a cabeça.

O grito nunca veio.

E o que restou foi apenas o som do corpo sendo arrastado, desaparecendo nas trevas, enquanto Lutécia dormia.