A Pechincha
O som dos pneus no cascalho úmido ecoava pelos arredores silenciosos enquanto o carro da família subia a estrada íngreme que levava à propriedade. Lucas pressionou o rosto contra a janela embaçada, observando a densa vegetação que flanqueava o caminho serpenteante. Galhos retorcidos se entrelaçavam acima da estrada, criando um túnel natural que filtrava a luz do sol em feixes dourados e sombrios.
“Olha só o tamanho dessa casa!” exclamou Carmen do banco da frente, sua voz carregada de uma excitação quase infantil. “Roberto, você não disse que era tão grande assim!”
Roberto sorriu, mas Lucas notou suas mãos tensas no volante. “A corretor disse que era espaçosa, mas... realmente não esperava isso.”
Quando a mansão finalmente emergiu da cortina de árvores, Lucas sentiu algo estranho se contorcer no estômago. A estrutura vitoriana se erguia imponente contra o céu acinzentado, suas torres e janelas em arco criando uma silhueta que parecia saída de um conto de fadas sombrio. A tinta das paredes, um verde musgo desbotado, descascava em algumas áreas, e heras trepadeiras abraçavam as paredes como dedos possessivos.
“É... impressionante,” murmurou Lucas, sem conseguir decidir se era uma impressão boa ou ruim.
O corretor já os aguardava na entrada principal, um homem magro de meia-idade que parecia desconfortável mesmo sob seu sorriso profissional. Quando saíram do carro, Lucas percebeu como o silêncio era absoluto ali - nem mesmo o canto de pássaros quebrava a quietude opressiva.
“Família Santos!” o corretor se aproximou rapidamente, como se quisesse encurtar ao máximo o tempo ali. “Sou Carlos Mendes. Bem-vindos à Mansão Valmont!”
“Valmont?” Roberto franziu a testa. “Pensei que o nome fosse diferente nos papéis...”
“Ah, sim, bem...” Carlos limpou a garganta nervosamente. “É como os moradores da região sempre chamaram. O nome oficial mudou algumas vezes ao longo dos anos.” Ele se virou rapidamente para a mansão. “Vamos entrar? Tenho certeza de que vão adorar!”
Enquanto caminhavam pela entrada de pedra, Lucas olhou para cima e seu coração parou por um instante. Na janela do sótão, uma pequena silhueta loira observava a aproximação do grupo. Por um segundo, ele jurou ver um rosto pálido e delicado, emoldurado por cachos dourados. Mas quando piscou, a janela estava vazia.
“Tem alguém morando aqui ainda?” perguntou, acelerando o passo para alcançar os adultos.
Carlos quase tropeçou. “O quê? Não, não! A casa está vazia há... bem, há bastante tempo. Por que pergunta?”
“Achei que vi alguém na janela do sótão.”
O corretor riu, mas o som saiu forçado. “Deve ter sido reflexo da luz. Essas janelas antigas às vezes pregam essas peças.” Ele destrancou a porta principal com mãos que tremiam levemente. “Entrem, entrem!”
O interior da mansão era ainda mais impressionante que o exterior. Um hall de entrada amplo se estendia diante deles, com um lustre de cristal antigo pendendo do teto alto e uma escadaria de madeira escura que subia em curvas elegantes para o segundo andar. O cheiro de madeira velha e umidade impregnava o ar, misturado com algo mais sutil - talvez flores murchas ou folhas em decomposição.
“Construída em 1887,” explicava Carlos enquanto os conduzia pelos cômodos. “Dezesseis quartos, oito banheiros, biblioteca, conservatório... Realmente uma propriedade única.”
Carmen correu os dedos pelos detalhes entalhados da lareira da sala de estar, seus olhos brilhando. “É perfeita, Roberto. Imagina as reuniões que podemos fazer aqui!”
Mas Lucas estava mais interessado no que Carlos não estava dizendo. O corretor evitava certas áreas da casa, redirecionando sutilmente o grupo quando se aproximavam do porão ou do sótão. Suas explicações sobre a história da propriedade eram vagas, repletas de “bem, isso foi há muito tempo” e “os detalhes não são muito importantes”.
“Por que está sendo vendida tão barata?” perguntou Lucas diretamente, ignorando o olhar de advertência do pai.
Carlos parou de falar por um momento, como se a pergunta o pegasse desprevenido. “Bem... os proprietários anteriores se mudaram repentinamente. Questões familiares, sabe como é. Querem vender rapidamente.”
“Que tipo de questões familiares?”
“Lucas,” Roberto o repreendeu suavemente, mas o garoto persistiu.
“E quem eram os proprietários anteriores? Há quanto tempo moravam aqui?”
O desconforto de Carlos era quase palpável agora. Ele ajustou a gravata e forçou outro sorriso. “Os Valmont eram... bem, eram uma família muito reservada. Moraram aqui por gerações, mas como disse, tiveram que partir repentinamente.”
Carmen, completamente alheia à tensão no ar, já estava fazendo planos. “Roberto, precisamos ver o jardim! E aquele conservatório seria perfeito para minhas plantas.”
Quando saíram pela porta dos fundos para explorar os jardins, Lucas ficou para trás por um momento. Algo o fazia querer olhar para cima mais uma vez. E lá estava ela - a garotinha loira na janela do sótão. Desta vez, ela acenou lentamente com uma mão pequena e pálida. Seus lábios se moveram, como se estivesse falando, mas nenhum som chegou até ele.
“Lucas!” a voz de Carmen o chamou do jardim. “Vem ver essas roseiras!”
Quando olhou para a janela novamente, ela estava vazia.
Duas horas depois, os papéis estavam assinados e as chaves, nas mãos de Roberto. Carlos praticamente correu para seu carro, murmurando algo sobre “outros compromissos” e “qualquer dúvida, me liguem”.
“Estranho,” comentou Roberto, observando o corretor partir em disparada pela estrada de cascalho. “Parecia ter pressa de ir embora.”
“Ele devia estar atrasado,” disse Carmen, já planejando mentalmente a decoração. “Lucas, querido, vai escolher seu quarto! Qualquer um que quiser, exceto a suíte principal.”
Lucas subiu as escadas devagar, seus passos ecoando no corredor vazio. A madeira dos degraus gemia suavemente sob seu peso, criando uma melodia melancólica que parecia acompanhar seus movimentos. No segundo andar, um corredor longo se estendia em ambas as direções, pontilhado por portas de carvalho escuro.
Escolheu um quarto no final do corredor, com duas grandes janelas que ofereciam vista para o jardim traseiro e para a floresta que se estendia além. O cômodo era espaçoso, com uma lareira pequena e papel de parede floral desbotado que provavelmente estava ali há décadas.
Enquanto explorava o quarto, Lucas notou algo peculiar. Uma das tábuas do assoalho, perto da janela, estava ligeiramente levantada. Quando se ajoelhou para examinar, descobriu que estava solta. Sob ela, alguém havia gravado palavras na madeira com uma ferramenta pontiaguda:
“Alice está perdida. Ajudem Alice.”
Um arrepio percorreu sua espinha. As letras eram claramente de uma criança - irregulares, algumas ao contrário, como se escritas por alguém que ainda estava aprendendo.
Um som suave de passos no corredor o fez levantar rapidamente. Recolocou a tábua no lugar e se dirigiu à porta, mas quando a abriu, o corredor estava vazio. Os passos, no entanto, continuaram - pequenos, leves, se afastando em direção ao sótão.
“Mãe?” chamou, mas sua voz apenas ecoou de volta.
Lá embaixo, ele podia ouvir seus pais conversando animadamente sobre reformas e móveis. O som de suas vozes parecia vir de muito longe, como se a casa fosse muito maior por dentro do que aparentava por fora.
Lucas ficou parado no corredor por um longo momento, escutando. O silêncio era quase sólido, pesado como uma manta molhada. Mas embaixo dele, quase imperceptível, havia algo mais. Um sussurro suave, como o som de uma criança cantarolando uma canção de ninar.
Quando desceu para se juntar aos pais, Lucas não mencionou nem a mensagem no assoalho nem os passos no corredor. Algo lhe dizia que não seria uma boa ideia - pelo menos, não ainda.
Mas naquela noite, enquanto a família jantava na cozinha ampla usando pratos de papel e comida de restaurante, Lucas olhou pela janela e viu uma luz suave se movendo pelo sótão. Uma luz pequena e dourada, como se alguém estivesse caminhando com uma vela.
Alguém muito pequeno.
“Alice,” sussurrou para si mesmo, e a luz na janela piscou uma vez, como se em resposta.