Chapter 1
Dylan narrando:
Depois de alguns minutos, eu estava pronto. A arma na cintura incomodava meu quadril — eu detestava aquilo. Para um lobisomem e Alfa, eu sabia que poderia matar qualquer coisa — ou qualquer um — com as próprias mãos. Mas a arma, carregada com balas de prata, fazia parte do treinamento que recebi do meu pai antes de me tornar Alfa.
“Um Alfa deve usar mais a cabeça do que as mãos, meu filho” — ele sempre dizia.
Naquela manhã, eu estava animado para eliminar um maldito que havia desonrado a matilha e cometido atrocidades em nosso território.
Tudo começou duas semanas atrás, quando um dos guerreiros encontrou uma jovem loba quase morta em uma parte isolada da floresta. Ela estava coberta de lesões e com os cabelos raspados. No entanto, o que mais chamava atenção era uma tatuagem de lua dourada nos ombros — algo que indicava que ela não pertencia à nossa matilha. Mas isso nunca nos impediu de ajudar alguém.
E é aí que a situação se torna ainda pior.
Aquela jovem loba havia sido jogada na floresta porque acreditavam que já estava morta. Ao redor de seu corpo, haviam dezenas de covas, a maioria delas contendo restos de corpos já deteriorados, mas todos com a mesma característica: jovens lobas.
Trouxeram a moça para a casa da matilha, e eu me assegurei de que ela tivesse acesso aos melhores tratamentos para sua recuperação. Felizmente, ela se reabilitou bem. Fiz questão de visitá-la para entender sua história e saber se ela tinha alguma ligação com os outros corpos. Ela estava hesitante em falar, e, quando finalmente se abriu, seu rosto se transformou em uma verdadeira cachoeira de lágrimas. Me aproximei de seu corpo, ainda coberto por hematomas.
— Ouça, eu não te conheço, mas garanto que cortaria a cabeça do infeliz que fez isso com você. Seus olhos se arregalaram, e ela parecia confusa. — Meu Alfa, eu não quero morrer. Me arrependi de ter fugido do palácio, mas... Se o senhor permitir, voltarei a trabalhar e pagarei todo o prejuízo. Eu juro, meu Alfa. — O que você está dizendo? Onde fica esse palácio? — Por favor, Alfa, eu já disse que estou arrependida. — Seus olhos transbordaram mais uma vez.
Nossa conversa foi interrompida pela chegada de Lucca, Beta da matilha e meu melhor amigo.
— Alfa, já descobri o que aconteceu com Janine Luter, e você não vai gostar do que vou te contar. — Janine quem? — Luter, senhor. — A mulher respondeu. — Me chamo Janine Luter e pertenço à Matilha da Lua Dourada. Pertencia, na verdade...
— Como eu estava dizendo, Janine foi vendida pelo pai a um homem chamado Lester Mcfield. Ele possui um clube de mulheres na divisa entre nossa matilha e o território dos humanos. Até onde consegui descobrir, algumas jovens lobas são forçadas a trabalhar lá durante a noite...
— Durante todo o dia! — Ela sussurrou, a dor evidente em sua voz.
— Janine, fale comigo. Eu te asseguro que pode confiar em mim. Sou o Alfa dessa matilha. Se você me contar o que sabe, posso ajudar você e as outras mulheres. — Mas e o seu pai? — Meu pai faleceu há seis meses.
Ela suspirou aliviada, tão aliviada que eu fiquei sem ar por um momento. Mas o que isso tem a ver com ele?
— O Alfa Even sempre soube sobre o palácio. Ele costumava nos visitar duas vezes por mês para pegar o dinheiro e... ficar com algumas lobas.
Engoli seco. Eu me lembrava de ver minha mãe brigando com meu pai por causa dos casos que ele tinha. O vínculo de companheiro fazia com que, quando ele dormia com outra, minha mãe sentisse uma dor intensa, quase insuportável. Eu costumava amarrar um pingente de prata no tornozelo dela para enfraquecer o vínculo, tornando as dores mais leves. Mas eu não conseguia acreditar que meu pai concordasse com a exploração de mulheres.
As lobas não eram apenas para prazer. Elas eram a base da matilha. Sem elas, os lobos não passariam de criaturas ferozes e descontroladas. São nossas mulheres que nos dão força, equilíbrio e amor. Sem elas, nossa união como comunidade não subsistiria.
— Ela está certa, Alfa — disse Lucca. — Seu pai não apenas sabia, como também era sócio do local. Depois que ele morreu, Lester se tornou ainda mais violento com as garotas, especialmente com as que tentam fugir — ele falou, olhando para Janine.
— Foi o seu caso? — Perguntei a ela.
— Sim, senhor. Na verdade, Lester comprou uma humana meses atrás e tem feito a vida dela um inferno. Ela se deita com mais de quinze homens por dia — lobos, humanos, híbridos... Não sei como ela ainda está viva. — Seus olhos encontraram os meus, e nunca vi olhos tão sofridos quanto aqueles. — Eu decidi ajudá-la a fugir, mas fomos descobertas. Ele deu uma surra nela, mas disse que me mataria.
Ouvi toda a história de Janine com um ódio crescente dentro de mim. Como meu pai aceitou participar disso? Enriquecer à custa do sofrimento dessas mulheres? Mas eu daria um fim a tudo isso. Depois de algumas horas de conversa com Janine e Lucca, eu tinha tudo o que precisava para destruir Lester Mcfield.
Estávamos a poucos minutos do famigerado Palácio, um lugar que mais parecia um pulgueiro nojento, com cheiro de sexo e uísque no ar. Assim que entrei, notei o choque nas expressões das pessoas à minha frente.
— Lester! — Rosnei alto. — Todos vocês, fora daqui.
— Ora, ora... Por essa visita eu não esperava. Alfa Dylan... — O olhar dele era cheio de desdém. — Você me lembra muito seu pai. Claro que falta força e ânimo em seu rosto, mas fico feliz em ver que teve coragem de vir até aqui. Me diga, tem preferência por alguma garota? Temos algumas “preciosidades” por aqui, e hoje, por conta da casa...
Caminhei em sua direção, diminuindo a distância entre nós. Minha respiração estava pesada; o ódio queimava no meu peito, crescendo a cada segundo. Eu estava a um passo de perder o controle e me transformar.
— Você vai soltar essas mulheres e fechar essa merda — rosnei.
Ele soltou uma risada debochada. — Ah, meu jovem menino... eu vi você crescer. Não ouse me dar ordens, não estamos na matilha, lembra? — inclinou-se com desdém. — Venha, vou lhe servir um bom uísque... e escolherei pessoalmente uma garota para você. Prefere mais magra... ou com um pouco de carne?
Não pensei. Minha mão acertou o rosto dele com força, e o primeiro soco foi apenas o começo. Continuei golpeando, um atrás do outro, até o sangue dele respingar quente na minha camisa. Quando tentou levantar a mão em rendição, tirei a arma da cintura e encerrei tudo com um tiro limpo no meio da testa.
Tenho certeza de que sofreu menos do que aquelas mulheres já haviam sofrido.
— Leve essa merda daqui — entreguei a arma a Lucca. — Ajudem as garotas. Vamos levá-las para a colônia, minha mãe já organizou tudo.
— Alfa! — a voz de um dos soldados soou atrás de mim. — Tem uma humana aqui... acho que ela não vai sobreviver à viagem.
— Onde ela está? — perguntei, caminhando rápido até um dos quartos.
Estranhamente, senti uma calma inesperada naquela sala. O ar carregava um cheiro diferente... levemente adocicado, quase hipnótico.
— Ela está aqui, Alfa. Acho que está ferida — avisou um dos soldados.
Segui o rastro do odor até o banheiro anexo ao quarto. Ali, vi uma pequena figura sentada no chão, o rosto apoiado no assento do sanitário. O sangue manchava o piso perto dela e escorria por algumas partes das pernas. Sua pele, pálida demais, estava coberta de hematomas arroxeados. Os longos cabelos pretos escondiam quase todo o seu rosto.
Ajoelhei-me devagar, nivelando meu olhar ao dela, e toquei seu queixo para erguê-lo. Ela estava tão fraca que mal conseguia manter a cabeça erguida.
— Alfa, eu posso cuidar disso se... — começou o soldado atrás de mim.
— Não. — Interrompi firme, segurando-a contra o peito. — Diga ao Lucca que ela vai no carro conosco.
Senti um leve murmúrio escapar de seus lábios, mas era baixo demais para entender. Caminhei até o veículo e me sentei no banco de trás com ela nos braços. Meus dedos desenharam movimentos circulares em seu braço, quase sem pensar.
Foi então que senti pequenas faíscas percorrerem minha pele ao tocá-la. Um arrepio estranho, mas... bom. Não pude evitar o sorriso que se formou em meus lábios.
— Então essa é a garota que... — Lucca interrompeu a própria frase, puxando o ar com força. — Cara... o cheiro dela... É ela mesmo?
— Tenho certeza que sim, mas ainda preciso ver seu rosto — respondi sem desviar o olhar dela. — Entre logo no carro. Quero tirá-la desse maldito lugar.
Acomodei-a melhor em meu colo, sentindo seu corpo frágil relaxar levemente contra o meu. Inclinei a cabeça, sussurrando junto ao seu ouvido, como uma promessa:
— Mantenha-se forte, minha pequena... minha doce Luna.