O espelho que mente
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O despertador berrou às seis da manhã, um grito metálico que rasgou o silêncio do quarto. Hazel, 17 anos, gemeu e esmagou o botão de soneca com a ponta do dedo. A luz fraca que entrava pela fresta da cortina já era o suficiente para revelar o contorno dos seus quatros irmãos dormindo espalhados pelo chão, em colchões e sacos de dormir improvisados. O pequeno Noah, com seus dois anos, ressonava tranquilamente ao lado da cama, um anjinho que não fazia ideia do caos que o cercava.
Hazel se arrastou para fora do colchão, sentindo o peso do mundo em cada músculo. O cheiro de café requentado já pairava no ar, vindo da cozinha, onde sua mãe, Dona Sophia, provavelmente já estava de pé há horas. A casa, pequena e abarrotada, sempre parecia sussurrar as dificuldades financeiras e o cansaço acumulado.
O primeiro compromisso do dia, antes mesmo do sol decidir aparecer por completo, era o espelho do banheiro. Era como um ritual macabro, uma tortura diária. Hazel se aproximou devagar, os olhos ainda embaciados pelo sono, mas já antecipando a imagem que a esperava.
Ela se viu ali, refletida. As pernas finas, que nas fotos que via na internet pareciam pernas de boneca, para ela eram grossas demais, desproporcionais. A barriga, mesmo que lisa, parecia uma bola saltando para fora. Os braços, magros, eram, na sua mente, flácidos e pesados. Cada curva, cada detalhe, era dissecado e julgado com uma crueldade implacável.
"Não é possível", murmurou, a voz rouca. "Como eu posso ser assim?"
Uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto, traçando um caminho quente na pele fria. Ela apertou os olhos, tentando apagar a imagem, mas ela persistia, gravada a fogo na sua retina. A voz da mãe ecoou do corredor: "Hazel! Anda, vai acordar o Josh e a Daisy! O café já vai esfriar!"
Hazel respirou fundo, o ar parecendo denso e difícil de engolir. Deu um último olhar para o espelho, um olhar de ódio e impotência, e saiu do banheiro, deixando para trás a garota que ela via e que a atormentava, para enfrentar mais um dia.
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