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A Casa que Vestia Gente

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Summary

O que você faria se, ao entrar numa casa antiga, descobrisse algo macabro o que você faria?

Genre
Horror
Author
M.R GRIMM
Status
Complete
Chapters
1
Rating
n/a
Age Rating
16+

Chapter 1

Na pequena cidade Ligonier, interior da Pennsylvania, havia lugares que não apareciam em mapas. Trilhas de terra que terminavam em nada, casas abandonadas que pareciam apodrecer para sempre sem nunca desabar, e colinas que respiravam como se escondessem algo vivo debaixo da terra.

A mais temida ficava no fim da County Road nine, uma estrada que se desfazia em cascalho e lama até sumir sob o peso da mata fechada. No alto daquela colina envolta em neblina erguia-se a Mansão Smoke, um casarão de tijolos enegrecidos que parecia observar a cidade em silencio.

Ninguém falava muito sobre a família que morava ali. O máximo que se ouvia eram murmurinhos, sussurrados no bar da esquina. O Steel & Whiskey. Entre goles de cerveja quente e whisky ruim e cheiro de mijo constante que vinha do banheiro ouvia-se:

— Sempre sorrindo...

— Nunca envelhecem...

— Não são como a gente.

— E às vezes, o vento ousava sussurrar o nome deles.

E o assunto morria ali, afogado em silêncio.

Alguns juravam que, em noites de calor sufocante, um vento frio descia da colina trazendo consigo um cheiro estranho: doce demais, como açúcar queimado, misturado ao fedor de carne em decomposição. Outros diziam que a mansão nunca ficava realmente escura — as janelas altas brilhavam de dentro para fora, como olhos amarelados que não fechavam nunca, observando cada movimento sutil da pequena cidade.

O Órfão

Thomas não dava ouvidos a histórias de bêbados degenerados. Tinha dezenove anos, órfão desde cedo, e aprendera a sobreviver aceitando o que aparecesse: carregar caixas no mercado, lavar carros, limpar porões cheios de mofo em troca de uns trocados. Morava num quarto pequeno acima da barbearia local, onde o cheiro enjoativo de loção pós-barba impregnava até seus sonhos, dividindo colchão com ratos do tamanho de sua mão.

Foi ali que encontrou o anúncio ou esperança de algo melhor, colado com fita barata na porta:

“Procura-se jovem dedicado para trabalho fixo em mansão. Acomodação e salário generoso incluídos. Procurar Família Smoke.”

Ninguém se candidatou. Ninguém em Ligonier ousaria subir aquela colina. Mas Thomas, cansado de dividir espaço com ratos em um colchão velho e contar moedas para comprar pão dormido, viu naquilo a sorte que esperava.

A Chegada

A charrete que o buscou tinha rodas que rangiam como ossos velhos, e o cocheiro parecia um velho decrepito que saíra da tumba do Egito. Quando os portões da mansão se abriram, o barulho pareceu uivo de um animal feroz, um frio subiu pela espinha — não o frio comum do outono, mas algo que mordia os ossos por dentro.

As árvores ao redor se contorciam em formas quase humanas. A névoa, estranhamente, era mais espessa dentro dos muros do que fora.

Na entrada, a família Smoke o aguardava.

O patriarca era alto demais, esguio demais, usando um terno antiquado que parecia saído de uma fotografia antiga desbotada. Ao lado dele, a esposa usava um vestido de renda imaculada que tremulava levemente sem haver vento. Seu sorriso era tão largo que parecia prestes a rasgar a pele. Atrás, três filhos, jovens, bonitos... mas iguais demais. Como se fossem cópias imperfeitas uns dos outros.

Thomas os cumprimentou, tentando esconder o desconforto. Eles o cercaram com abraços formais, educados e calorosos. Mas havia um detalhe que ele não conseguiu ignorar: nenhum deles piscava.

O Banquete

Naquela noite, Thomas foi convidado a jantar. A sala de refeições era imensa, iluminada por dezenas de velas que tremulavam como uma dança macabra.

Na mesa, repousavam pratos fumegantes: carnes cozidas até se desfazer, bolos negros que, ao serem cortados, soltavam um líquido espesso e vermelho, e jarras de vinho tão denso que parecia óleo.

— Coma, Thomas. Você precisa de forças — disse a Senhora Smoke, o sorriso dela esticando os ossos do rosto como se fosse costurado por dentro.

Thomas obedeceu. Levou o garfo à boca e mastigou. O gosto era metálico ferroso, como sangue coalhado. A textura lembrava couro molhado, algo que não deveria estar em um prato. Engoliu seco, lutando contra o reflexo de enjoo.

A família observava em silêncio, imóvel. Os cinco pares de olhos fixos nele como se fosse uma oferenda.

A Primeira Noite

O quarto que lhe deram era espaçoso, mas frio. A cama parecia firme, os lençóis limpos... mas tinham um cheiro estranho, doce e enjoativo, como flores misturadas a carne estragada.

Thomas adormeceu tarde. E acordou com susto súbito.

Primeiro ouviu passos leves, depois gemidos abafados correndo pelos corredores, e finalmente um som que gelou seu sangue: o choro de uma criança, vindo de dentro das paredes.

Guiado pela curiosidade e pelo medo, seguiu o som com uma vela em mãos. Quando passou diante da escadaria, um estrondo metálico ecoou pela casa — o relógio de pêndulo batera três vezes, rompendo o silêncio como um grito de socorro. Thomas estremeceu, o coração disparando, antes de perceber que era apenas o relógio da mansão marcando três horas da manhã. Com as pernas bamba, continuou pelo corredor até encontrar uma porta no fim dele. O trinco estava enferrujado, mas ele forçou até abrir .

O que viu o fez vomitar ali mesmo, no chão:

Cabides com peles humanas esticadas como casacos. Havia luvas feitas de mãos, costurados um ao outro. Máscaras de rostos inteiros penduradas em pregos, com sardas, cicatrizes, até tatuagens. No canto, dobrada com cuidado, repousava a pele de uma criança pequena, como se fosse um vestido de domingo.

O cheiro era doce e podre, como açúcar queimado misturado a sangue.

A Revelação

— Você não devia estar aqui, Thomas.

Um coral de voz veio de trás.

Ele se virou.

A família inteira estava parada no batente da porta.

Thomas sentiu o corpo fraquejar — as pernas cederam, o estômago se revirou, e um calor úmido o tomou de baixo para cima. O medo era tão absoluto que ele não conseguiu se mover, nem respirar. Ficou ali, congelado, com os olhos arregalados, como uma pedra prestes a rachar.

Foi então que aconteceu.

As peles que usavam começaram a se desprender, escorregando para o chão como roupas velhas e gastas. Por baixo... nada. Não havia carne, nem osso, nem olhos ou bocas — apenas formas flutuantes de fumaça negra, densas e frias, moldadas como lembranças distorcidas de pess.

Os corpos pairavam, sem peso, e ao redor deles o ar parecia se apertar. Thomas sentiu um frio que não vinha do vento, mas de dentro de si, um vazio que engolia a luz da vela, como se houvesse buracos invisíveis sugando tudo o que era sólido ou seguro. O silêncio era absoluto, exceto pelo sussurro que atravessava os ossos: “Hoje, você é nosso.”

— Nós vestimos o que consumimos — disse o Patriarca, a voz ecoando como vento dentro de sua cabeça. — E hoje... vestiremos você.

A fumaça avançou.

Thomas tentou correr, mas o ar queimava seus pulmões, como se respirasse carvão aceso. Sentiu a pele arder. As unhas começaram a se soltar, os dentes amoleceram dentro da boca, a visão escureceu.

Ele caiu de joelhos, engasgando, sentindo mãos invisíveis arrancarem pedaço por pedaço de sua carne. Seu último ato foi vomitar, e junto ao gosto metálico e emborrachado, veio a aterradora compreensão: o que ele tinha comido... era pele humana.

O Silêncio da Colina

Thomas nunca mais foi visto.

A charrete que o levara até a mansão voltou vazia. No bar de Ligonier, ninguém comentou sua ausência. Era como se todos já soubessem o destino de quem ousava servir os Smoke.

Ainda assim, há quem jure que, em noites de neblina, quando as luzes da mansão se acendem, pode-se ouvir risadas abafadas vindas da colina. Entre elas, uma nova voz — jovem, desesperada, implorando por ajuda.

E em Ligonier, todos repetem o mesmo aviso, como uma oração proibida:

Quando os olhos da família Smoke pousarem sobre você... é o fim da sua história.

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