Ecos da destruição

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Summary

🧫🔬 - Isso não é apenas assassinato - murmurou. - Isso é um experimento. E em algum lugar... alguém estava apenas começando. °°° Um corpo oco. Um parasita modificado. Enquanto o mundo continua girando, Mia descobre que algo silencioso está crescendo dentro dele - algo que transforma, que consome... E o apocalipse pode já ter começado.

Genre
Scifi
Author
Mary
Status
Ongoing
Chapters
1
Rating
n/a
Age Rating
16+

O grupo misterioso

Você já se sentiu traído alguma vez...?

Esse sentimento corrosivo... como facadas em seu peito, tão destrutivo... como um veneno invisível, que se infiltra nos recantos mais profundos da alma, corroendo lentamente a confiança construída ao longo do tempo. O sentimento de traição é como uma lâmina fria cortando lentamente, e, a cada movimento, a dor se intensifica, tornando-se uma presença constante que arde na memória. O desgosto não é apenas pelo ato em si, mas pela quebra daquilo que se acreditava ser inquebrável. A desilusão se transforma em raiva, em perda, em uma sensação de vazio que suga a vitalidade. A mente se vê presa a perguntas incessantes, a busca por respostas que muitas vezes não vêm.

O amor doce, puro e verdadeiro, de repente se torna amargo, frio e impiedoso... o lado bonito do amor, em algum momento se tornará feio, isso é inevitável. Mas eis a questão... será que vale a pena arriscar tudo, sabendo que em algum momento tudo irá desabar? Sabendo que irá se machucar? Será que, ao nos entregarmos ao amor, nos condenamos à dor? Aquele amor que promete calor, conforto e companheirismo, mas que, ao menor sinal de fragilidade, pode se transformar em um turbilhão de mentiras e decepções?

Como pude ser tão cega...?

O som do chuveiro ligado a tranquilizava um pouco, a fazia se esquecer de seu pesadelo, de sua recente ruina, seu diagnóstico, seu trauma... sua traição. Afinal... a culpa nunca foi dela. Ela nunca pediu pra nascer assim, nunca fez nada de errado que acarretasse isso. Sempre foi humilde, empática, então por que estavam sendo tão injustos com ela...? Qual o sentido nisso? Por que essa doença nasceu?? Apesar da situação, ela encontrava forças para não chorar por um homem tão escroto quanto o seu ex. Se encontrava decepcionada com a situação... mas se forçou a não derrubar nenhuma lágrima por ele. Não merecia, afinal de contas... ele foi um covarde. A traiu em seu momento mais frágil, mais vulnerável. Como ele pôde pensar que ela morreria...?? Que egoísta. Infelizmente essa seria uma grande insegurança, que carregaria pelo resto da vida, como um grande karma.

Seus cabelos castanhos estavam ensopados, grudados em sua testa levemente inclinada para baixo. Mia se encontrava sentada no box do banheiro, com as pernas abraçadas ao corpo, em uma forma de consolo, deixando com que a água do chuveiro tomasse conta de si, a purificasse desse sentimento agoniante. Isso a consumiu por um breve momento... Será que no fim ele estava certo em tomar tal atitude? De fato... eu estou doente, uma doença que só trouxe prejuízos desde o diagnóstico. Ele só não quis mais problemas em sua vida...

Se dando conta do tempo em que passara ali, optou por desligar o chuveiro. A vida não para... tinha algumas obrigações a cumprir. E talvez fosse melhor sair para descontrair um pouco. Pensar melhor sobre a proposta do médico. Mia só se relacionou uma única vez em toda a sua vida, dividiam um pequeno apartamento no centro daquela cidadezinha, então quando houve o término por parte dela, voltou para sua antiga casa. Não deu satisfação, não perderia seu tempo com coisas tão fúteis... apenas arrumou as malas e pagou um uber.

Seus pais lhe deram total suporte após o diagnóstico, uma casa a qual ela poderia morar depois de receber alta do hospital, e condições financeiras boas, para que se sustentasse. Ao mesmo tempo que se preocupavam... sentiam que nesse momento ela precisaria de um pouco de espaço para si, por isso tomaram a liberdade de mudar de cidade, deixando a antiga casa à disposição para quando ela voltasse do hospital. Mia já era uma adulta...precisava de privacidade, e eles respeitavam isso. Mas naquele trágico momento, talvez... talvez Mia só quisesse alguém consigo, que a abraçasse e confortasse. Se sentia como uma criança que acabara de perder o bem mais precioso. A vida... de certa forma, isso lhe foi tirado dela.

A doença mortal seria um grande fardo a ser carregado... será que ela suportaria? Será que daria conta de resistir aos tratamentos? Havia grande chances de cura, mas por parte dela, pouca esperança... talvez a doença não fosse a primeira a causar sua morte, afinal de contas. Da maneira que se encontrava... não duraria nem um mês.

O abismo infinito da solidão a dominou por completo. Diferente do que pensara antes, sair do chuveiro não a fez voltar à realidade e tomar suas responsabilidades. A deixou muito pior... estava com uma toalha enrolada pelo corpo, com os cabelos ainda pingando, agora sobre o lençol que a pouco acabara de colocar na cama que um dia sua versão mais nova costumava sonhar acordada. Não queria morrer... não tão jovem. Minha vida é tão insignificante a esse ponto...?

Pegou o celular na escrivaninha ao lado e começou a fazer algumas pesquisas involuntariamente. Seu medo de morrer e curiosidade a tomaram por completo. Há uma boa probabilidade de cura, alguns cientistas afirmavam, mas nada muito exato, ela não podia ter a certeza... as chances de viver chegavam a cerca de 95%, mas algo dentro dela a fazia se questionar. E se eu for os 5%? Como posso ter certeza de que não irei morrer...? Ela odiava tudo isso.

Quando estava se aprofundando mais a fundo sobre a doença, seus sintomas, estágios, causas, chegando perto de "morte", sentiu seu celular vibrar em suas mãos. Uma ligação de um número desconhecido, típico de cobranças telefônicas. Mas por algum motivo...ela decidiu atender. Uma sensação muito estranha a consumiu, como um arrepio, um leve sussurro. Como se alguém soubesse que ela estava afundando cada vez mais em seus sentimentos negativos, e tentasse a impedir, a trazendo de volta para a realidade.

— Alô...? - receosa, levou o celular ao ouvido, se questionando sobre a sensação estranha que a cercava. Poderia ser apenas um pressentimento, ela estava péssima, afinal... já não raciocinava direito. Mas quem poderia garantir?

Do outro lado da linha, pôde ouvir uma voz fraca, rouca, e entrecortada por uma tosse cansada. Parecia doente... sofria. Lhe era tão familiar, mas ao mesmo tempo, tão distinta...

— Duas semanas... - parecia como um sussurro melancólico.

— Quem está falando? O que significa duas semanas...? - questionou com um certo ar de curiosidade. Se esforçava o quanto podia para, em vão, reconhecer a pessoa por trás da linha. Talvez alguma conhecida? Era claramente uma voz feminina. Ou alguém que a conhecia por seu trabalho, o que a assustava im pouco. Seria uma vítima de sequestro? Estava sendo mantida em cativeiro? Faziam 2 semanas que estava desaparecida? Onde conseguiu um telefone? Ou melhor... como conseguiu seu número? - olha, se precisa de ajuda... posso rastrear seu telefone. Está em perigo?

— Não... não é isso... — a voz respondeu, ofegante, como se cada palavra fosse um esforço imenso. Como se a machucasse cada vez mais. Mia ouviu mais alguns segundos de tosse do outro lado da linha, sentindo seus sentidos automaticamente se aguçarem. Estava treinada para captar qualquer pequeno detalhe: o som ambiente, o padrão de fala, o nível de desespero. Tudo indicava que a mulher estava debilitada, mas estranhamente calma.

— tudo bem, eu entendi. Tem alguém com você, certo? Não precisa ser direta, finja que está pedindo uma pizza. Se sente mais confortável assim? -Mia insistiu, se levantando da cama e pegando um bloco de anotações e uma caneta, sendo ágil. Houve um silêncio exorbitante... e a garota franziu a testa, confusa. Não sabia o que pensar sobre o assunto, mas estava atenta a qualquer sinal no telefone.

— O tempo nunca esteve ao nosso favor, acredite nisso. Não há como explicar de uma forma clara, e eu nem espero que acredite em mim. Mas sou do futuro... um futuro condenado à destruição completa. Você precisa impedir isso, Mia... não cometa os mesmos erros, não confie em ninguém, nem em você mesma... O destino da humanidade está em suas mãos... nos ajude.

Mia apertou os olhos, tentando processar aquela informação absurda. Fim do mundo? Parecia coisa de gente desesperada. Ou talvez estivesse lidando com alguém mentalmente instável.

_Talvez uma paciente terminal, em surto..._ pensou rapidamente. O tom, a fragilidade da voz, o discurso desconexo... era tudo muito compatível com alguém que poderia ter fugido de um hospital, ou que estivesse tentando alertar sobre algum crime iminente sob o delírio da própria dor.

O silêncio se tornou inevitável do outro lado da linha. A ligação havia caido...

— Talvez a tenham visto no telefone... preciso agir rápido.

Copiou o número de telefone em sua caderneta e começou a procurar suas roupas de trabalho. Cada minuto, cada segundo era extremamente importante naquele momento. Havia uma vítima em jogo, não podia se dar ao luxo de continuar se afundando, não seria egoísta. Mia podia ser a pessoa mais sensível do mundo, mas quando se tratava de salvar alguém, ela se tornava uma rocha firme em meio ao caos.

Vestiu sua roupa preta habitual, a camisa social e o blazer com o brasão do Instituto Forense, como se aquela vestimenta fosse uma armadura contra o mundo. Amarrou os cabelos ainda úmidos em um coque apertado e forçou uma última olhada no espelho , os olhos inchados de tanto chorar a encaravam de volta, mas ela os ignorou. _Agora não é hora para fraquezas._

Pegou o crachá, a bolsa e saiu às pressas. O caminho até a base era curto, mas sua mente parecia atravessar séculos. "Do futuro...? Fim do mundo...? Como alguém em pleno estado de delírio saberia meu nome, minha voz...?" Aquilo a perturbava. Ela já havia lidado com criminosos perigosos, psicopatas, até mesmo situações de reféns. Mas aquela ligação era diferente. Não era só medo... era como se tivesse sido olhada diretamente na alma.

Mia caminhava determinada pelos corredores da sede da perícia, seu coturno ecoando nos azulejos frios, onde o cheiro de café velho se misturava com o de produtos químicos. Não era dia de expediente pra ela, mas isso não importava. Precisava de respostas, e sabia exatamente onde procurar.

Ao entrar no laboratório principal, avistou Beatrice Carvalho, concentrada, com os cabelos presos em um coque bagunçado e os olhos fixos no microscópio. Era considerada a melhor perita da cidade, respeitada até mesmo pela polícia federal. Inteligente, sarcástica, e um pouco cética demais às vezes. Mas Beatrice era seu porto seguro em meio à loucura do trabalho.

— Bea — Mia chamou, com a voz um pouco trêmula. Ainda sentia algo engasgado em sua garganta, o choro repentinamente reprimido, mas ela soube disfarçar bem.

— Mia...? — Beatrice tirou os óculos e se virou, surpresa. — Achei que você estivesse de licença. Tá tudo bem?

— Não exatamente — Mia fechou a porta atrás de si, aproximando-se. — Preciso que rastreie um número pra mim.

Beatrice piscou, curiosa.

— Que tipo de número?

— Talvez uma vítima de sequestro. Precisamos agir rápido.

Sentaram-se lado a lado, e Mia explicou tudo com calma: a ligação, a voz estranha, as palavras sobre fim do mundo, todas as estranhezas do outro lado da linha. Beatrice escutava sem interromper, os olhos semicerrados, como se tentasse processar entre o ceticismo e a preocupação.

— Isso parece... muito filme de ficção científica. Mas conhecendo você — disse ela, digitando o número no sistema — se veio até aqui, é porque tem coisa séria. Você deve ter notado algo na ligação, que a levou a pensar isso, então não questionarei.

Mia respirava fundo ao seu lado, os olhos fixos na tela, como se pudesse antecipar uma resposta antes mesmo de aparecer.

Antes que o rastreamento terminasse, o celular de Mia vibrou novamente em sua bolsa. Um aviso silencioso, sutil, mas que gelou sua espinha.

Ela o retirou devagar, esperando por outra ligação estranha.

Mas não era isso.

— O que foi? — Bea perguntou, sem tirar os olhos da tela.

— Um grupo... — Mia murmurou. — Fui adicionada a um grupo de mensagens.

Beatrice arqueou uma sobrancelha, finalmente olhando para ela. — Grupo? Que tipo de grupo?

Mia clicou, e o nome do grupo lhe causou um calafrio imediato: "Fim do Mundo".

Dentro do chat, seis pessoas estavam online. Todos com nomes que ela não reconhecia. Mas o que a deixou inquieta foi a conversa que rolava, como se ela já estivesse ali o tempo todo.

°•°𝓕𝓲𝓶 𝓭𝓸 𝓶𝓾𝓷𝓭𝓸•°•

7 membros

~ 𝓗𝓮𝓷𝓻𝔂

Vocês realmente acreditaram na lábia daquela garota? É sério mesmo?

~𝓣𝓱𝓸𝓶𝓪𝓼

Calma, Henry. Ninguém aqui disse que acreditou cegamente... Só achamos estranho o fato de todos nós termos recebido ligações semelhantes e, no fim, sermos guiados até ela. Não é coincidência demais? Talvez ela saiba de algo, o nome dela foi citado.

~ 𝓗𝓮𝓷𝓻𝔂

Coincidência seria se todos tivessem sonhado com um panda cantor de sertanejo no mesmo dia. Isso aqui? Isso é palhaçada! Parece coisa de roteiro mal escrito. Umbrella Academy mandou lembranças.

~𝓣𝓱𝓸𝓶𝓪𝓼

Ao invés de surtarmos, por que não tentamos conversar com ela? Talvez ela tenha alguma resposta. Ela está online, afinal. Vamos tentar.

~𝓒𝓵𝓸𝓮

Já pararam pra pensar que podem existir... extraterrestres? Que talvez essas ligações venham de fora do planeta? E se formos algum tipo de experimento?

~

𝓗𝓮𝓷𝓻𝔂

Cloe! Você pirou de vez? É a minha irmã! Tá falando sério? Que tipo de loucura você anda assistindo? Ninguém aqui tem o mínimo de senso para concordar comigo?

~𝓜𝓲𝓪

É sério isso? Um grupo de estranhos me adiciona dizendo que o mundo vai acabar? Alguém pode me explicar que confusão toda é essa?

~𝓣𝓱𝓸𝓶𝓪𝓼

Desculpa pelo jeito que isso chegou até você. Nós só... recebemos uma ligação. Todos nós. A mesma voz. E ela nos dizia para encontrar você. Sabe nos informar melhor a cerca disso?

~ 𝓗𝓮𝓷𝓻𝔂

É pedir demais que você use seu cérebro e perceba que isso tudo é ridículo? Pra que levar tão a sério um trote?

~𝓜𝓲𝓪

Eu também recebi a ligação. Disse que o mundo iria acabar em breve... Mas, convenhamos, isso é loucura. Já estou me encarregando disso. Não há nenhuma possibilidade disso ser real.

~ 𝓗𝓮𝓷𝓻𝔂

Graças a Deus, alguém com bom senso! Gente, é claro que isso é só uma brincadeira de mau gosto. Cientificamente, o sol só vai morrer em cinco bilhões de anos. E alienígenas? Por favor. Isso aqui é só paranoia coletiva.

~𝓣𝓱𝓸𝓶𝓪𝓼

Talvez... Mas e se não for? Só estou dizendo: e se, por algum motivo, isso for verdade? Precisamos conversar. De verdade. Todos nós.

~ 𝓗𝓮𝓷𝓻𝔂

Ah claro. Vamos fazer o quê? Uma reuniãozinha apocalíptica com pão de queijo?

~𝓣𝓱𝓸𝓶𝓪𝓼

Não custa tentar. Somos só pessoas confusas tentando entender algo que não faz sentido. Vai ser só uma conversa. Podemos nos encontrar no restaurante La Lune, às 19:00h?

Automaticamente, Henry ficou offline. Ao que parecia, não era um cara com muita paciência, mas de uma coisa estava certo. Não valia a pena investir em assuntos tão banais quanto esse. Não quando se há uma vítima na jogada.

O som do ventilador no teto girava em círculos monótonos, abafando os pensamentos que zumbiam na cabeça de Mia. O grupo de mensagens ainda estava ali, piscando no topo da tela. Mas ela já não tinha mais o que dizer.

Saiu do aplicativo. Abriu a aba de chamadas. O número estava lá. Restrito. Nenhuma identificação. Nenhum registro. Apenas a memória do que havia escutado.

— Não há sinal de origem. Nenhuma operadora registrada. O chip... não existe. É como se fosse um número fantasma. Ele fez a ligação, mas não veio de lugar nenhum. É literalmente uma voz saindo do nada.

— Pode ser um spoofing? Tipo, alguém mascarando um número?

— Pode. Mas mesmo spoofing precisa de uma base. Um IP. Uma operadora. Aqui não tem nada.

Mia passou a mão no rosto, tentando organizar os pensamentos.

— Bea... e se... e se isso tudo for um jogo psicológico? Uma chantagem.

— Como assim?

— Pensa comigo: uma ligação misteriosa. Uma voz dizendo que o mundo vai acabar. Depois, um grupo de pessoas — todas diferentes — sendo direcionadas até mim. E agora, um número que nem existe. Isso é perfil de sequestro.

Beatrice arregalou os olhos.

— Mas ninguém foi sequestrado...

— Ainda. — Mia engoliu em seco. — Isso tem todas as marcas de um possível crime cibernético. Alguém está criando uma rede falsa, testando reações. Manipulando. Pode ser um jogo... ou um aviso.

Beatrice se recostou na cadeira.

— Você acha que há uma vítima por trás disso?

— Sim — Mia sussurrou, sentindo sua pulsação acelerar. — E talvez essa vítima seja alguém que tentou pedir socorro... de um jeito que ninguém entenderia. E por algum motivo... ela me escolheu.

Beatrice encarou a tela em silêncio.

Mia se levantou.

— Vou tratar isso como um caso de sequestro. Tenho recursos, contatos e... sei seguir rastros. Alguém está preso. Alguém está tentando falar. E eu não vou ignorar isso.

Não podia simplismente ignorar a ligação como qualquer outra pessoa faria. Não diria nada sobre com os outros além de Beatrice, e faria seu trabalho da melhor maneira possível, agindo como uma profissional. Se o chip não existia, havia uma possibilidade de ser um telefone descartável. Ou talvez alguma coisa no sistema havia dado errado,gerando assim uma confusão. Mas Mia tinha certeza de uma coisa... não ficaria ali parada, esperando que algo caísse em suas mãos.

Logo, Beatrice partiu. Era uma jovem muito ocupada, muito requisitada. Sozinha no laboratório silencioso, com as luzes brancas refletindo friamente nas superfícies metálicas, Mia apoiou os cotovelos na bancada e entrelaçou os dedos, afundando o rosto nas mãos por alguns instantes. O caos já havia passado. Agora, havia apenas o eco dele.

Era como se, pela primeira vez em dias, pudesse pensar. Parar. Respirar. Não para descansar, mas para organizar o turbilhão.

"Do futuro."

Era fácil rir daquilo em voz alta. E, no entanto, o riso nunca veio. Não por medo. Mas por intuição.

Porque se fosse só delírio... por que seu nome? Por que aquele tom? Por que a sensação de que a ligação fora feita por alguém que a conhecia por dentro, como ninguém mais conhecia?

Não era uma paranoia. Era a sensação de que algo estava se movendo por baixo da superfície, como um animal debaixo do gelo. Invisível... mas real.

E então, pela primeira vez, ela olhou para os detalhes não com os olhos da policial científica, mas com os olhos da mulher traída, da paciente vulnerável, da pessoa esquecida no próprio sofrimento.

Duas semanas.

Essa era a primeira pista.

A voz disse "duas semanas" antes de qualquer outra coisa.

"Quem some e só tem esse tempo?" — pensou.

Alguém sob controle. Alguém impedido de falar. E se aquele tempo fosse... o prazo de vida? Ou o tempo que ainda tinha antes de ser silenciada?

O tom de voz não era de quem queria enganar. Era de quem suplicava.

A tosse... a rouquidão... poderia ser fingimento, claro. Mas havia um peso ali, um desespero tão humano que doía. E a calma... aquela calma insuportável, que Mia conhecia bem. A calma de quem já aceitou a dor como parte da rotina. Como ela mesma havia feito.

A conexão foi imediata.

"Ela também está morrendo."

E foi aí que a ideia do sequestro realmente tomou forma. Não era só uma ligação perturbadora. Era um pedido de socorro disfarçado de loucura. Porque ninguém ouviria a verdade vinda da boca de uma "louca".

Mas Mia ouvia. Ela reconhecia aquele tipo de voz. Porque era como a dela própria — fragmentada, ainda pulsando sob o peso de algo que não se dizia em voz alta.

O grupo também não parecia encenação. As conversas estavam desconexas, desordenadas, cheias de atrito — como o choque natural entre estranhos que enfrentam algo absurdo. Se fosse armação... não teria tanto ruído.

"A confusão é o que dá credibilidade."

E então um pensamento surgiu, doloroso, mas necessário:

"E se não for só uma vítima?"

E se fossem várias?

E se todos naquele grupo fossem parte de um mesmo experimento?

Uma ideia horrível começou a se formar.

E se a ligação não fosse o início?

E se... todos ali já estivessem sendo observados? Testados?

Seria loucura pensar que alguém, algum grupo, estivesse brincando com suas mentes, medindo reações humanas diante de uma ameaça absurda? Uma simulação de crise? Um estudo social?

Ela mesma já vira isso. Em pequena escala. Sequestros psicológicos. Grupos manipuladores. Cultos.

Mas aquilo parecia maior. Mais... elaborado.

E por algum motivo, ela havia sido o centro.

"Por que eu?" — pensou. — "Por que meu nome?"

Seus dedos apertaram as têmporas com força.

Não queria pensar nisso agora. Não queria mergulhar de novo nesse oceano de paranoia e dor. Mas, ao mesmo tempo... havia algo reconfortante naquela hipótese.

Porque se aquilo tudo fosse uma encenação, uma tentativa de manipulação, ou mesmo um sequestro... então havia lógica. Havia um porquê. E se há lógica, há um caminho.

"Melhor do que acreditar que enlouqueci."

Ela respirou fundo.

Talvez... talvez ela estivesse tentando encontrar sentido no caos como forma de sobreviver. Talvez aquela teoria do sequestro fosse apenas sua mente agarrando-se a algo sólido.

Mas se fosse isso... que fosse.

Era melhor do que a dor.

Melhor do que o silêncio.

Melhor do que se sentir inútil diante da morte.

E, no fundo, no silêncio que voltou a reinar, Mia entendeu:

Ela não queria salvar o mundo.

Ela queria salvar alguém.

Porque se conseguisse fazer isso... talvez, só talvez, ainda pudesse se salvar também.

O laboratório permanecia mergulhado num silêncio denso, quebrado apenas pelo zumbido constante dos equipamentos e pelo som distante da cidade lá fora. As palavras de Mia ainda ecoavam em sua mente como ondas reverberando após um impacto. Havia algo maior, algo sombrio por trás daquela ligação. E quanto mais pensava, mais o peso de tudo parecia se tornar uma sombra espessa sobre seu peito. Mas, por algum motivo, ela já não sentia mais a dor como antes. Era como se, aos poucos, estivesse anestesiando-se de si mesma.

A introspecção a consumia.

A ideia de um sequestro ganhava forma em sua mente com assustadora coerência. A ligação, o número fantasma, a voz rouca, o pedido de ajuda disfarçado. E agora aquele grupo... seis pessoas ligadas por uma voz comum, guiadas a ela como peças de um jogo perverso. Tudo parecia calculado demais para ser fruto de coincidência. Talvez alguém, doente ou não, estivesse tentando manipular suas emoções. Ou, pior ainda, testar sua reação. Ver até onde ela iria, até onde se importaria.

O que mais a incomodava era não saber quem estava por trás disso. Ela já havia investigado criminosos que se escondiam por trás de códigos e disfarces. Mas aquilo era diferente. Era pessoal. Alguém sabia sobre ela. Alguém havia escolhido ela. E isso... era um grito silencioso que perturbava seus sentidos.

Seu peito ainda ardia, não pela doença, mas pela impotência. Queria respostas. Mas tudo o que tinha era o vazio do número inexistente e as palavras ecoando na memória: "Não confie nem em você mesma."

Mia logo foi tirada de seus pensamentos, sua linha de raciocínio, por um chamado. O dever lhe chamava, um corpo havia sido encontrado.

Um sinal surgiu na tela do sistema interno. Um alerta simples, direto. Um corpo havia sido encontrado.

As coordenadas estavam ali. Mia inspirou devagar. A realidade a puxava de volta como um gancho invisível.

O mundo podia estar desmoronando. Mas os mortos continuavam a cair, e ela ainda era a única responsável por ouvir seus últimos gritos.