A Simbiose
Haruko sempre foi uma criança solitária. Não por escolha, mas por necessidade - era assim que ela se protegia. Depois de três mudanças em quatro anos, aprendera que fazer amigos era um investimento temporário, uma promessa quebrada antes mesmo de ser feita.
Ser albina não ajudava. Os olhos verde-esmeralda que sua avó chamava de "presente dos céus" eram, para as outras crianças, apenas mais uma razão para olhares estranhos e sussurros. Seu cabelo branco como neve, sua pele pálida que queimava ao menor raio de sol - tudo a tornava diferente. Sempre diferente.
O condomínio Nova Aurora era igual aos outros: gramados perfeitos, portões automáticos, vizinhos que sorriam sem olhar nos olhos. A casa cheirava a tinta fresca e mofo antigo, uma combinação que lhe dava dor de cabeça. Mas foi no jardim de inverno abandonado, um anexo de vidro embaçado nos fundos da propriedade, que Haruko encontrou seu primeiro - e último - segredo.
Entre vasos rachados e terra ressecada, no canto mais úmido e escuro, havia ela.
A planta era uma anomalia. Suas folhas eram quase translúcidas, de um branco cadavérico percorrido por veias roxas que pareciam pulsar sob a luz fraca. Haruko se ajoelhou diante dela, fascinada. Era como olhar para um espelho vegetal - algo pálido, rejeitado, esquecido em um canto escuro.
- Joga fora essa coisa morta! - disse sua mãe ao passar pela porta, carregando caixas. Ela nem olhou direito. Nunca olhava.
Mas Haruko sentiu algo diferente. Quando tocou o caule fino com seus dedos delicados, um formigamento percorreu seu braço. Não era desagradável; era quase... reconfortante. Como se a planta estivesse dizendo: Eu também estou sozinha. Eu também sou diferente.
O vaso de barro fendido tinha um símbolo estranho gravado na lateral - algo que lembrava vagamente uma boca aberta. Ou talvez mãos suplicantes.
Naquela noite, ela a levou para o quarto, segurando o vaso contra o peito como se carregasse um tesouro frágil.
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Nos primeiros três dias, a planta definhava. Haruko tentou tudo que encontrou na internet: água destilada, luz indireta, adubo orgânico, até músicas suaves (ela lera em algum lugar que plantas respondiam à música clássica). Nada funcionava. A terra permanecia seca como osso, e as folhas murchavam ainda mais, até se tornarem quase transparentes.
- Por favor - sussurrou ela na terceira noite, com lágrimas nos olhos verdes.
- Não morra. Não me deixe sozinha também.
Na quarta noite, frustrada e exausta, Haruko decidiu remover as partes mortas. Pegou a tesoura de poda pequena que ganhara de presente da avó e tentou cortar uma folha seca com o máximo de cuidado.
A lâmina escorregou.
O caule tinha uma borda serrilhada, invisível a olho nu, afiada como vidro. O corte foi profundo - um talho diagonal na ponta do dedo indicador. Haruko soltou um suspiro de dor e levou o dedo à boca, mas já era tarde.
Três gotas de sangue caíram no vaso.
Plop. Plop. Plop.
A terra as absorveu instantaneamente, como um animal faminto. E então... o silêncio se transformou em som.
Um sussurro. Não de vento ou folhas - mas de algo respirando.
Haruko recuou, o coração disparado, seus olhos esmeraldas arregalados. Diante de seus olhos, as folhas pálidas começaram a se tingir de verde. Não gradualmente, mas como tinta se espalhando na água. Em segundos, a planta inteira brilhava com um verde vibrante, quase radioativo - um contraste chocante contra sua pele branca como porcelana.
E no centro, entre as folhas, algo começou a inchar: um broto. Negro como piche, do tamanho de um punho cerrado.
Haruko deveria ter fugido. Deveria ter chamado alguém.
Mas pela primeira vez em anos, ela não se sentia sozinha.
- Você... você me aceitou...- sussurrou, tocando delicadamente uma folha.
- Você bebeu de mim.
A folha tremeu sob seus dedos, quase como um ronronar.
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A transformação foi rápida demais para ser natural.
Em uma semana, a planta havia triplicado de tamanho. Suas gavinhas, antes finas como linha, agora eram grossas como cordas, escalando a cabeceira da cama de dossel que Haruko tanto amava, enroscando-se nos pés da escrivaninha branca, rastejando pelas bordas do teto. O broto negro havia se aberto em uma flor bizarra: pétalas carnudas de um vermelho-vinho profundo, com estames que se moviam levemente, como dedos tateando o ar.
Haruko acordava todas as manhãs mais cansada que no dia anterior. Olheiras profundas molduravam seus olhos verde-esmeralda, e sua pele já naturalmente pálida adquiria uma translucidez cerosa, quase fantasmagórica. Seus pais, ocupados demais com o trabalho e as discussões noturnas, mal notavam.
- Você está se alimentando direito, querida?
- perguntou sua mãe uma vez, distraída, enquanto passava batom diante do espelho.
- Estou...- mentiu Haruko, sua voz doce como sempre.
A verdade era que ela não sentia fome. Sentia apenas... vazio. Como se algo estivesse sendo sugado dela lentamente, de dentro para fora.
Os furos começaram na segunda semana.
Pequenos, do tamanho de picadas de mosquito, apareciam em seus braços brancos como neve, pescoço delicado, tornozelos finos. Sempre de manhã. Sempre em lugares que ela não conseguia lembrar de ter coçado.
Uma noite, Haruko acordou às três da manhã com a garganta seca. Ao acender a luz do abajur - uma peça delicada com cúpula de cristal -, viu.
As gavinhas da planta não estavam mais na parede.
Estavam sobre ela.
Fios finos como cabelo humano, translúcidos e úmidos, enrolados ao redor de seu pulso pálido, subindo pelo antebraço. E na ponta de cada fio... algo minúsculo e afiado. Algo que mordia.
Haruko não gritou. Ela era gentil demais para isso, mesmo com medo. Apenas se afastou rapidamente, e as gavinhas se soltaram imediatamente, recolhendo-se para o vaso com um movimento quase envergonhado.
Ela examinou o braço sob a luz: três novos furos, pequenos e precisos, com bordas que já começavam a cicatrizar. Ao redor de cada perfuração, sua pele tinha uma tonalidade levemente esverdeada.
Deveria ter arrancado a planta pela raiz naquele momento.
Mas quando olhou para ela - para as folhas que tremiam levemente, para a flor que se curvava em sua direção como um animal ferido -, sentiu algo inesperado.
Culpa. E compaixão.
- Você estava com fome...- sussurrou ela com sua voz doce, estendendo a mão cuidadosamente.
- Tudo bem. Eu entendo o que é precisar de algo e não ter.
A flor se abriu um pouco mais, e um perfume suave - como jasmim misturado com terra úmida - preencheu o quarto.
Haruko, pela primeira vez em semanas, sorriu. Seus olhos verde-esmeralda brilhavam na penumbra.
O acordo não foi falado, mas foi feito.
Todas as noites, Haruko se deitava de braços abertos, seu cabelo branco espalhado no travesseiro como neve. Todas as noites, as gavinhas vinham. Elas eram gentis agora, quase carinhosas, enrolando-se ao redor de seus membros delicados como abraços antes de perfurar a pele.
A dor era mínima - apenas uma pressão, um formigamento, e então... alívio. Como se algo tóxico estivesse sendo drenado dela junto com o sangue. As inseguranças, a solidão, o medo de nunca pertencer - tudo sugado através das gavinhas.
Haruko começou a dormir doze, catorze, dezesseis horas por dia. Seus professores enviavam e-mails preocupados que seus pais ignoravam. Ela parou de sair do quarto, exceto para ir ao banheiro. A planta agora ocupava metade do espaço, suas raízes rompendo o vaso e se espalhando pelo piso de madeira clara, criando fissuras que exalavam um cheiro doce e podre.
Mas Haruko não se importava.
Porque pela primeira vez na vida, ela não estava sozinha. A planta ouvia. Quando ela falava sobre a escola, sobre os olhares, sobre como as pessoas se afastavam quando ela chegava perto, as folhas tremiam em resposta. Quando chorava, as gavinhas a acariciavam com uma ternura que nenhum humano jamais demonstrara por ela.
E nas manhãs em que acordava - pálida além do natural, fraca, quase translúcida, podia jurar que via algo nas pétalas da flor.
Reflexos de um rosto que não era o dela. Mas que tinha seus olhos. Verde-esmeralda. Brilhantes. Vivos.
Suas amigas imaginárias da infância nunca foram tão reais.
A transformação final aconteceu em uma noite de lua nova.
Os pais de Haruko vinham evitando o quarto da filha há dias - o cheiro se tornara insuportável, doce e pútrido como fruta apodrecendo. Mas o silêncio daquela noite era diferente.
Absoluto.
Nada de respiração suave, nada de música baixinha que ela costumava deixar tocando. Apenas... vazio.
- Haruko! Vem aqui agora e me explica por que está faltando a escola!
Nada.
Haron Seu pai, pegou um jornal e sentou na poltrona.
- Deixa ela, crianças nessa idade são travessas.
E assim foi.
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- Haruko querida, você não está com fome?
Marina forçou a porta (a maçaneta estava coberta por uma substância viscosa e verde), o quarto não existia mais.
No lugar das paredes cor de lavanda e dos móveis delicados, havia uma selva. Gavinhas grossas como braços humanos cobriam cada centímetro de superfície. Flores imensas, vermelhas e negras com detalhes brancos, pendiam do teto como frutas obscenas. O chão era uma tapeçaria de raízes que pulsavam, pulsavam, em um ritmo lento e hipnótico.
E no centro de tudo, sobre o que restava da cama de dossel, havia um casulo.
Três metros de altura, feito de folhas entrelaçadas e pétalas úmidas. Translúcido o suficiente para revelar uma forma humana dentro - pequena, delicada, com os braços cruzados sobre o peito.
- Haron oque é isso..? - Sussurrou, o mesmo se aproximou, incrédulo.
O rosto de Haruko estava visível sob a membrana vegetal. Cabelo branco fundido com folhas pálidas. Olhos fechados, mas por baixo das pálpebras, um brilho verde-esmeralda pulsava. Boca entreaberta. Pele verde como clorofila, mas ainda com a palidez característica.
Mas ainda respirava.
- HARUKO! - a mãe gritou, avançando.
As gavinhas no chão se ergueram como serpentes.
- NÃO SE APROXIMEM...
A voz não vinha do casulo.
Vinha do vaso de barro no canto do quarto - rachado, pulsante, com algo batendo dentro dele como um coração. E a voz era suave, doce, feminina. Era a voz de Haruko, mas multiplicada, ecoada por algo antigo.
O pai pegou a tesoura de jardim que trouxera e deu um passo à frente. As gavinhas se contraíram, formando uma barreira.
E então, lentamente, o casulo começou a se abrir.
O que emergiu não era mais inteiramente Haruko.
A pele mantinha sua palidez albina, mas agora tinha uma tonalidade esverdeada, e veias escuras como raízes se ramificavam sob a superfície translúcida. Os cabelos brancos haviam se fundido com folhas macias de um branco prateado que cresciam diretamente do couro cabeludo, formando uma coroa etérea. Mas eram os olhos que causavam verdadeiro fascínio e horror.
Ainda eram verde-esmeralda, vibrantes, brilhantes, hipnóticos.
Mas também eram outros. Pupila dupla. Íris dividida verticalmente, como pétalas de flor. Como se dois seres olhassem através das mesmas janelas de jade.
- Haruko? - a mãe sussurrou, em lágrimas.
A menina - a coisa - inclinou a cabeça com a mesma delicadeza de sempre.
- Ainda estou aqui, mamãe - disse ela, e sua voz era doce como mel, mas com um eco verde, úmido, vegetal.
-Mas não estou mais sozinha.
Ela estendeu a mão. As gavinhas se afastaram, criando um caminho.
- Ela me escolheu. Eu a escolhi. Somos... uma agora.
- Isso é loucura! - o pai gritou. - Vamos tirar você daqui, vamos a um hospital, vamos!
- Vocês nunca me viram de verdade...
Haruko o interrompeu, e pela primeira vez em sua vida, sua voz gentil tinha poder. Autoridade. Presença.
- Nunca olharam além da minha pele branca e dos meus olhos estranhos. Mas ela olhou. Ela viu beleza onde vocês viam diferença. Ela ficou quando todos iam embora.
As flores no teto se abriram. Esporos dourados e brancos começaram a cair como neve.
- Agora vocês também vão ficar. Vão fazer parte de algo bonito, eu quero uma família feliz, quero... Que me amem...
A mãe deu um passo atrás, mas as raízes já serpenteavam ao redor de seus tornozelos.
- Haruko, por favor...
Os olhos verde-esmeralda da filha - agora divididos, agora outros - se encheram de lágrimas.
- Eu só queria uma família que ficasse, mamãe. Agora vou ter.
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Três semanas depois, o condomínio Nova Aurora foi colocado em quarentena.
A casa da família de Haruko havia sido consumida por uma vegetação agressiva e desconhecida. As autoridades tentaram queimar, cortar, envenenar. Nada funcionava. A planta se regenerava em horas.
E cada tentativa de remoção resultava em mais crescimento.
Casas vizinhas começaram a apresentar fissuras nos pisos. Raízes emergiam de torneiras. Flores brancas e vermelhas brotavam de tomadas.
As famílias evacuadas relataram sonhos estranhos: uma menina de cabelo branco e olhos verdes chamando seus nomes. Um convite sussurrado em uma voz doce para ficarem. Para pertencerem.
No centro de tudo, onde antes ficava o quarto de Haruko, havia agora uma árvore.
Imensa. Retorcida. Com casca branca como neve manchada de verde, que lembrava pele de porcelana. E seiva que corria com um brilho esmeralda.
Na base do tronco, três casulos pendiam como frutas.
Menores que o primeiro.
Mas crescendo.
Dentro deles, formas humanas. Uma com o formato da mãe. Outra do pai. E uma terceira...
Menor. Mais nova. Talvez uma vizinha que se aproximara demais.
No topo da árvore, sentada em um trono de galhos entrelaçados, havia ela.
Haruko. Ainda doce. Ainda gentil. Ainda de olhos verde-esmeralda.
Mas não mais sozinha.
Nunca mais sozinha.
Dessa vez ela sorria...
F
I
M