É melhor eu ficar sozinho essa noite

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Summary

August conhece Dan por acidente. Ou pelo menos ele pensa que foi acidente. O que começa com uma campainha inconveniente vira um jogo perigoso de aproximação, desejo bruto e vulnerabilidades expostas. Às vezes, o maior susto da vida não é o amor — é alguém finalmente ficar.

Genre
Romance
Author
LexSilvas
Status
Complete
Chapters
1
Rating
n/a
Age Rating
18+

🌙 É melhor eu ficar sozinho essa noite


Lex Silvas


08/08/25




Bom, a minha vida é um tédio. Isso é um fato. E eu estou bem com isso. Meus dias se resumem a trabalhar em casa escrevendo essas histórias malucas de fantasia sobre elfos, fadas e toda essa merda de mundo encantado e mágico. Para um bando de punheteiros de vinte e poucos anos que amam essas porcarias. Quanto maior o peito das elfas, mais aparecem essas garotas fantasiadas em eventos nerds e, consequentemente, mais livros eu vendo. Isso pelo menos paga as minhas contas. Não dá pra reclamar.

E por falar em punheta, não me orgulho de dizer que tenho feito uso dessa atividade saudável com mais frequência do que gostaria de admitir. Mas é que, ultimamente, os caras que eu conheço estão mais interessados em autores mais renomados. E também… eu não estou muito nessa “vibe” de sair e buscar um parceiro pra noite. Prefiro ficar sozinho. Nada como a minha própria companhia fodida de merda.

Meu nome é August Davis. Tenho a pele clara, com um tom quente que às vezes ganha um leve rosado nas bochechas e no nariz, principalmente quando estou ao sol ou depois de algum esforço. Meus olhos são verdes, claros, quase translúcidos em certas luzes, com cílios escuros acima deles. As sobrancelhas são grossas, bem desenhadas, com um arco discreto que acompanha minhas expressões. Meu nariz é reto, proporcional ao rosto, com uma ponta arredondada. Os lábios são cheios, especialmente o inferior, com contornos naturais e uma cor suave. Meu cabelo é castanho escuro, ondulado e cheio de volume. Alguns fios caem sobre minha testa, meio desordenados. Tenho o pescoço longo, ombros largos. Sou esguio, com um corpo atlético. Meus músculos são definidos, mas não exagerados — resultado mais de movimento constante do que de academia. A pele tem textura suave, com algumas pintas espalhadas e veias discretas que aparecem sob a superfície.

Moro neste apartamento há quase quatro anos e mal conheço meus vizinhos, pois só saio quando realmente preciso. E assim eu vivo: sozinho, sem animais de estimação ou plantas, porque mal sei cuidar de mim mesmo — imagina de outro ser vivo. Crianças estão incluídas.

Estou sentado na frente do computador escrevendo mais um capítulo da minha saga de fantasia chamada Reinos de Tamreal, parado, olhando para a tela em branco sem um único parágrafo digitado. Até que ouço a campainha tocar. Só penso: deve ser alguma criança brincando ou alguém que tocou errado. Nunca recebo visitas, nem pedi entrega essa noite. Vou até a porta, olho pelo olho mágico e não vejo ninguém. — Bando de crianças chatas do cacete — digo.

A campainha toca de novo. Abro a porta imediatamente. Ao olhar para baixo, vejo uma garotinha de pele escura, cabelos crespos presos por um cordão colorido. — Posso te ajudar? — pergunto, sem entender o que ela está fazendo ali. — Cathy! — grita um homem vindo logo atrás no corredor, correndo. — Me desculpa por isso — diz ele. — Minha filha é um pouco arteira.

— Tudo bem — digo, sorrindo forçado. — Eu não estava fazendo nada demais.

Só odiando a minha existência a propósito. Odeio quando eu não consigo escrever.

A aparência desse homem é de alguém másculo, alto, que se exercita sem obsessão, mas com disciplina. Mesmo assim, sem camisa, ele deve ser lindo pra cacete. O tom de pele é moreno bem clarinho, quase translúcido sob certas luzes. E o sorriso… largo, genuíno, com um toque de charme e timidez. Assim como os ombros largos dele que parecem me provocar pra eu montar em cima deles. Os olhos castanhos escuros, profundos, e um nariz grande, comprido, pontudo e lindo. Falem o que quiserem, mas eu tenho um tesão fodido por homens de nariz grande. Arriscaria dizer que ele não é dos Estados Unidos. Talvez da Europa. Acho que da Inglaterra. Algo nele me lembra Liverpool — talvez esse jeito de se vestir, meio cantor indie. Se ele rir e tiver covinha, acho que eu vou morrer.

Ele não me parece estranho, acho que já o vi antes.

— Sinto muito por isso — diz ele, com sotaque carregado.

— Tudo bem — digo de novo. — Você e sua esposa têm uma bela filha.

Ele ri.

— Falei algo errado? — pergunto.

— Eu não tenho esposa — diz ele. — Nem marido, caso esteja se perguntando.

— Eu não estava — digo. — Mas é bom saber disso.

— Bom?

— Não, bom eu… — digo, gaguejando. — Essa informação foi… útil. Útil também não.

Ele ri de mim, ao me ver constrangido.

Puta que pariu, ele tem covinha sim. O que está acontecendo? Abortar missão, coração idiota. Só ignora esse gostoso do caralho.

— Estou feliz que minha filha tenha tocado sua campainha — diz ele. — Foi um prazer conhecê-lo. Sr…?

— Só August — digo.

— Dan — diz ele. — Só Dan.

Ele se vai com a garotinha, e eu fico lá, só observando. Olhando a bunda grande e bonita marcada pela calça social que ele usa. Nossa, como eu ia me divertir com aquela bunda se tivesse a chance. Mas estou só olhando mesmo, pra ter material pra mais tarde fazer uma visitinha pra ele na minha mente antes de dormir. Punhetas, lembra?

Volto pro meu apartamento e continuo olhando pra aquela página em branco, ficando cada vez mais desesperado conforme as horas passam. Depois de mais um bom tempo nessa tortura, desisto e vou assistir um pouco de TV. Tentar relaxar. Por enquanto, é o melhor.



No dia seguinte, estou mais uma vez em frente ao computador, mas dessa vez não quero me torturar demais por não ter nada pra escrever. Pensamentos que só querem me foder. Resolvi que não vou me estressar com isso. Fico só mexendo no celular, já que nada quer vir a mente pra que eu possa escrever. Até que ouço a campainha tocar de novo. Mais uma vez, estou surpreso. Não recebo visitas há um bom tempo, e essa deve ser a semana mais animada da minha vida inteira. Olho novamente pelo olho mágico e vejo o mesmo homem de ontem, agora com roupa de enfermeiro. Abro a porta, ainda sem entender nada.

— Oi — diz ele. — Desculpa te incomodar de novo.

— Oi — digo.

— Só queria pedir desculpas pelo outro dia, com minha filha — diz ele. — Imaginei que você fosse uma pessoa ocupada, talvez estivesse jantando com sua esposa.

— Quer se desculpar por ter me incomodado antes… me incomodado de novo?

Ele fica sem graça.

— Peço desculpas a você e à sua esposa — diz ele, tímido.

— Esposa? — pergunto. — É sério isso?

— Bom, eu não sei o que dizer — diz ele sem graça. — Marido?

— Falei com o Sr. Fiderborn. Ligo pra ele toda noite pra saber como está, já que vive sozinho — digo. — Ele me falou que você perguntou sobre mim pra ele. Você é o enfermeiro que o filho contratou pra cuidar dele, veio ontem só pra checar as coisas, já que era sua folga.

— Sou o enfermeiro dele, sim — diz ele, sem graça. — E você também perguntou sobre mim, pelo que vejo.

— Ele não te respondeu se eu tenho ou não esposa ou marido?

— Disse que você era solteiro, até onde ele sabe — diz ele. — Namorou alguém, mas isso foi há muito tempo. Um rapaz que ele disse que era bem esquisito.

— O Michael era peculiar mesmo. Não ajudava ele ter piercing nas bochechas.

— Só queria saber mais sobre você.

— Por quê? — pergunto.

— Queria te convidar pra tomar um café comigo algum dia. Quem sabe?

— Quer sair comigo? — digo, rindo.

— Achei você interessante, só isso, August Davis — diz ele.

— Sabe meu nome completo. Que bom pra você — digo, colocando a mão na porta.— Por que veio aqui?

Ele coloca a mão na porta e a segura.

— Só queria te convidar pra um café e uma conversa — diz ele, seguro de si. — Como eu já te falei.

— Por que não leva sua esposa pra tomar um café com você? — pergunto, sério. — Não costumo sair com homens casados.

— Já te disse que não sou casado — diz ele. — Quem te falou isso?

— Tem uma filha. Eu só imaginei.

— Imaginou errado — diz ele. — Me divorciei há uns três anos.

— E agora sai por aí transando com homens. Que adorável.

— Quem disse isso pra você também? — pergunta ele. — Acho que está assumindo muitas coisas sobre mim sem me conhecer — diz ele sorrindo. — Eu não transo com qualquer um.

— E o que está fazendo aqui?

— Quero conhecer você antes de ir pra cama com você — diz ele. — Sabe que é assim que os relacionamentos geralmente funcionam.

— Não estou procurando um relacionamento no momento.

— Posso fazer você mudar de ideia — diz ele.

— E quem disse que eu quero mudar de ideia?

— Não custa nada tentar — diz ele.

— E como você pretende fazer isso?

— Me dá uma semana — diz ele. — E você vai me convidar pra entrar no seu apartamento pra tomar um café. Não precisamos ter nada físico. Nem beijo, nem sexo. Só dois adultos no mesmo espaço. O que me diz?

— Uma proposta interessante, mas eu ainda não sei.

— Me diz que sim — diz ele. — Quero a chance de te conquistar — diz ele, andando de costas pelo corredor.

— Por quê?

— Porque eu gostei do seu sorriso — diz ele, se afastando.

— Eu não me lembro de ter sorrido pra você.

— Você sorriu — diz ele.

— Você só pode ser louco.

— Um pouco — diz ele. — Sim ou não? Estou indo embora, e se você não me responder, isso pra mim é um sim. Não diga nada se quiser que eu te conquiste.

— Não vai ser tão fácil assim — digo. — Boa sorte.

Fico lá, sem saber o que dizer mais. Homem nenhum nunca chegou na minha porta e simplesmente me quis assim, do nada. Ainda mais um gostoso desses. Ele entra no elevador. E eu não digo nada. Ele aperta o botão, sorri pra mim, me dá um tchau, e a porta se fecha, me deixando ali, sem entender nada. Aquilo foi real?

Tá. A primeira regra do jogo da conquista é resistir no começo, pro outro achar que está te conquistando. Isso dá a ele um ar de poder. Mas como eu vou me manter difícil se eu só quero transar com aquele narigudo inglês gostoso do caralho?

Eu não posso simplesmente puxar ele pra dentro do meu apartamento, agarrar ele e talvez transar com ele na entrada mesmo, sem nem ter tempo de chegar no sofá da sala ou no meu quarto? Vou ter que me fazer de difícil por um tempo antes disso. E depois... só cair de boca.




Ele toca a minha campainha uns dois dias depois, e eu já não me surpreendo mais com aquilo. Era quase como se eu esperasse que ele aparecesse. Eu não estou de muito bom humor hoje. Eu não sei se consigo disfarçar isso.

— August, oi — diz ele com um sorriso. — Eu só queria saber como você está hoje.

— Eu estou bem — digo sério, com a cara fechada.

— Aconteceu alguma coisa com você?

— Eu só não dormi muito bem ontem à noite.

— Eu sinto muito por ouvir isso — diz ele. — Quer que eu meça sua pressão? Você parece um pouco pálido.

— Boa tentativa — digo, sorrindo forçado.

— Posso fazer isso aqui no corredor mesmo, se você quiser — diz ele.

— Olha, quer saber, Dan — digo. — Um café. Que tal? Tem uma cafeteria aqui na esquina do prédio. Estou afim de um bom café. Se você quiser támbém.

— Eu adoraria.

Descemos o elevador juntos, calados, um ao lado do outro. Eu só me contenho para continuar me fazendo de difícil. Não vou agarrar esse homem ali no elevador e lamber ele inteiro como eu quero. Preciso ter autocontrole mesmo que sexo com raiva seja, por muitas vezes, incrível.

— Você está bonito hoje, August — diz ele.

— Ai, cala a boca — digo com raiva. — Eu nem te conheço pra você vir assim do nada e ficar me dizendo essas coisas.

— Eu não falei nada demais — diz ele, sorrindo. — Só disse que você está bonito.

— Obrigado — digo sério. — Isso é comum no seu país, ficar dizendo que as pessoas estão bonitas?

— Quando elas estão… sim.

O elevador chega no térreo e eu saio raivoso, pisando duro no chão. Não sei por que estou agindo assim tão na defensiva com ele. É só transar com ele. Subir de volta ao meu apartamento convidar ele pra entrar e depois… sexo. O bom e velho.

Que vontade do caralho de só tocar nele. Aposto que o peito del deve ser bem firme de se tocar. Deslizar a minha mão pelo corpo dele inteiro.

No café, me sento numa das mesas do lado de fora, e Dan se senta na minha frente com seu ar charmoso e confiante. Estou lá, emburrado, e depois que a garçonete traz nossos pedidos, fico esfriando meu café com sopros.

— Você parece de mau humor hoje — diz ele. — Aconteceu alguma coisa além da noite maldormida?

— Não é você — digo. — Eu sempre fico assim quando não consigo escrever.

— Estou lendo um dos seus livros — diz ele, bebericando o café. — Você escreve bem.

— Obrigado — digo.

— Estou no primeiro volume ainda — diz ele com um sorriso. — Estou curioso pra saber o que vai acontecer com a princesa Isabelle no final. Ela é uma mulher incrível.

— Por quê?

— Porque gostei muito dela — diz ele. — Achei uma personagem cativante.

— Não isso. Por que você me quer? — pergunto, zangado, sem saber direito ainda o por quê.

— Ah, uau — diz ele, surpreso. — Você quer saber o quê?

— Por que você quer enfiar o seu pau em mim?

Ele ri bebendo o seu café.

— Só me responde com a verdade — digo.

— Qual verdade você quer ouvir?

— Como assim qual verdade? — pergunto cruzando os braços. — Só tem uma verdade, poxa.

— Eu não sei o que te responder — diz ele. — Eu só gostei de você.

— Porque a sua filha tocou a minha campainha e você me viu descabelado e com cara de bunda naquela noite — digo. — Se atrai por caras esquisitos?

Ele ri e beberica mais uma vez o café.

— Você não estava tão mal naquele dia — diz ele, rindo. — E com certeza não é esquisito.

— Eu estava sim — digo, insistindo. — Eu estou mal todos os dias.

— Não está — diz ele ainda rindo. — Você é bonito, August. Descabelado ou não.

Eu só me encosto na cadeira, e sei que estou fazendo bico.

— Tá bom, você quer a verdade — diz ele. — Aqui vai a verdade… verdadeira.

— Manda ver.

— Naquela noite não foi a primeira vez que eu te vi. Nem a segunda. Nem a terceira. Ou quarta. Foi a quinta.

— A quinta? Por isso que eu sabia que eu te conhecia — pergunto. — Você por acaso conta? Então, seguindo a sua lógica, essa daqui é…

— A sétima.

— E qual foi a primeira?

— Eu te vi no primeiro andar, recebendo aquele sofá vermelho enorme — responde ele.

— Nossa, isso foi há uns seis meses.

— Eu sei.

— E por que você me notou? — pergunto. — Eu não sou tão bonito assim pra chamar a atenção de alguém.

— Eu discordo — diz ele, sorrindo. — Mas foi o que você disse naquele dia que me chamou a atenção.

— E o que eu falei? — pergunto. — Me fode gostoso entregador?

— O rapaz disse: “É um sofá enorme. Dá pra dividir com muitos amigos e assistir TV à vontade essa noite.” E você respondeu: “Eu moro sozinho e não recebo muitas pessoas em casa. Eu vou ficar sozinho essa noite”

— Eu disse isso? — digo, me arqueando um pouco na cadeira.

— E da segunda vez, eu estava indo até a casa do Sr. Fiderborn, e você estava na porta da sua casa, recebendo o entregador de comida que te falou: “Esse é um pedido grande, senhor. Vai receber muitas pessoas na sua casa essa noite?” E você respondeu: “Essa noite eu estou sozinho. É tudo pra mim.”

— Puta que pariu — digo, envergonhado. — Não era um pedido tão grande assim. Eu só amo sushi e queria garantir que ia conseguir escrever durante os próximos dois dias sem ser interrompido. Por isso eu queria estocar um pouco de comida.

— E a terceira vez…

— Ai, não. Eu já entendi. Eu falei que ia ficar sozinho pra alguém aleatório e você ouviu.

— Você falou isso pra mim — diz ele.

— Pra você?

— Nos encontramos no hall de entrada e eu te desejei feliz Natal — diz ele, franzindo os lábios. — E eu te perguntei se você ia aproveitar o feriado com a família. E você respondeu?

— “Não, eu vou passar sozinho” — digo, desviando o olhar com irritação. — O que você está querendo dizer com isso? Que quer me foder porque eu sou uma pessoa solitária?

— Eu não quero só te foder — diz ele, rindo. — Eu quero conhecer você. Tentar te entender. Fazer parte desse seu sozinho.

— Não vai ser mais sozinho se tiver mais alguém comigo — digo rindo.

— Ainda sim eu quero saber mais sobre você.

— Por quê? — pergunto, rindo nervoso. — Eu não sou tão complexo assim. Eu só gosto de ficar sozinho com os meus pensamentos, só isso. Quando não tem ninguém por perto, eu posso ser eu mesmo. Rir de coisas idiotas. Andar pelado no meu apartamento. Ouvir as merdas das músicas pop que eu amo. Não é tão complicado assim.

— Gosta de quais músicas pop? — pergunta ele. — Eu gosto da Winona Tyler. Ela tem uma voz linda.

— Tá bom, sabichão — digo com mais raiva do que gostaria.

Eu retiro a carteira do bolso, pego uma nota e coloco sobre a mesa.

— Vamos — digo.

— Pra onde?

— Pro meu apartamento — digo, me levantando da cadeira. — A gente vai transar. Parabéns.

— Eu agradeço o convite, August — diz ele. — Mas eu vou ter que recusar.

— Como assim? Não era isso que você queria? — pergunto, confuso.

— Ah, sim. Eu adoraria isso.

— Então o quê? — pergunto, ainda confuso. — Você conseguiu o que queria. Eu estou te convidando pra ir no meu apartamento e me comer. Goza onde você quiser em mim. Pode me foder do jeito que desejar. Eu até te chamo de papai se você quiser.

— É isso que você quer?

— Interessa o que eu quero? — pergunto, hostil.

— Interessa pra mim.

— Interessa mesmo? — pergunto, ainda mais hostil. — Bom, eu sou só uma pessoa solitária qualquer, Dan. Então se você quiser entrar na merda do meu apartamento, me foder e depois me matar, vai em frente. Ninguém está nem aí pra mim mesmo.

— Isso não é verdade.

Eu o olho, zangado, só querendo chorar.

— Vai à merda — digo, indo embora e deixando ele pra trás.

Volto pro meu apartamento irritado, me tranco lá e só quero me jogar de cara no sofá. Mas aí eu lembro que foi ele que o Dan viu chegar naquele dia, e só quero rasgar esse sofá com os dentes. Porcaria de sofá vermelho de merda.

Ouço a campainha e olho pelo olho mágico. É o Dan. Abro a porta com raiva.

— O que você quer agora? — pergunto, irritado. — Você está fodendo com a minha solidão. Eu amo ser sozinho. Não tem nada de errado nisso.

— Calma, eu sou amigo — diz ele.

— Muito engraçado. Eu não sou a bosta de um cachorro — digo emburrado, — O que você quer? Veio me foder?

— Eu vim me desculpar pelo que eu disse — diz ele. — Eu não sabia que você ia surtar daquele jeito. Me desculpa.

— Entra no meu apartamento agora, abaixa as calças e vamos transar — digo com raiva.

— O quê?

— Você me ouviu — digo, saindo da frente da porta. — Coloca a porra do pinto pra fora pra mim te chupar. Entra ou vai embora. Você escolhe.

Ele fica parado por um tempo, sem saber direito o que fazer.

— Tá bom — diz ele, vindo com as mãos levantadas, entrando no meu apartamento. — Mas eu quero deixar bem claro que eu não queria que fosse desse jeito que você me convidaria pro seu apartamento.

— E de que jeito você gostaria? — pergunto, me virando pra ele e fechando a porta. — De toalha, pedindo pra você consertar a porra do meu encanamento?

— Melhor do que desse jeito hostil — diz ele, rindo nervoso. — Olha, me desculpa mesmo, August, pelo que eu disse. Você tem o direito de ser sozinho. Eu estava errado em pensar que você, de alguma forma, não poderia ser feliz.

— E você ia vir e me trazer essa porra de felicidade — digo. — E pra que isso ia me servir?

— Sei lá. Pra ver você sorrir — diz ele. — Você tem mesmo um sorriso bonito.

— Para de falar isso — digo. — Só tira a roupa logo.

Puxo minha camiseta e a jogo longe. Tiro os sapatos e abaixo as calças, ficando só de cueca.

— O que você está esperando? — pergunto bravo o encarando.

Ele me olha de cima a baixo, passando os olhos por todo o meu corpo. Fico envergonhado com aquilo e tento cobrir algumas partes do meu corpo com os braços.

— Eu não vou tirar minha cueca até que você tire a sua — digo. — Anda logo.

Ele continua me olhando com um olhar ponderado.

— Para de me olhar e tira logo a roupa, Dan — digo, desconfortável. — Pra rolar sexo você tem que estar pelado também.

— Você é lindo, August — diz ele, ainda encarando meu corpo magrelo. — Você sabia disso?

— Não sou, não — digo. — Tira a roupa pra eu ver você também.

Ele sorri, tira a camisa e me mostra aquele físico sexy que me deixa salivando. Eu sabia que ele era gostoso pra caralho sem camisa. Eu falei. Fico em silêncio, observando ele se despir. Ele tira toda a roupa, inclusive a cueca, e coloca a mão na frente do membro, que parece enorme. Quando vejo que ele realmente está pelado, abaixo minha cueca e fico nu na frente dele.

— Por que você está se cobrindo? — pergunto. — Por acaso tem uma vagina aí e não quer que eu veja até ser tarde demais?

— Gira.

— O quê? — pergunto.

— Dá uma voltinha pra mim — diz ele. — Quero te ver.

— Não — digo direto.

— Não quer me ver — diz ele. — Então dá uma volta devagar pra eu te ver por completo.

Olho pra ele sem saber direito o que fazer, mas, mesmo assim, dou uma volta devagar com os braços abertos e paro, sem graça, tentando disfarçar.

Ele sorri pra mim.

— Você é mesmo lindo, August — diz ele.

— Pronto, agora que me viu, me mostra o seu pau — digo sério.

Ele retira a mão devagar da frente do membro, e eu fico olhando pra ele com tesão e também medo.

— Viu só, nada de vagina — diz ele com um sorriso.

— Você está de pau duro já — digo.

— Você me deixa excitado.

— Por quê?

— Porque você é bonito pra cacete — diz ele, sorrindo. — Quantas vezes eu vou ter que falar isso?

Olho pra baixo, tentando evitar o olhar dele, que me encara direto nos olhos.

— Pode vir — digo. — Eu já estou pronto.

— Não! — diz ele firme. — Vem você até mim.

— Tá com preguiça de andar alguns poucos metros? — pergunto, rindo tímido.

— E você… está com medo de vir até mim?

— Não — digo, mas ainda sem me mover. — Apesar do seu pau duro estar me dando um pouco de medo. Ele parece que vai doer um pouco quando entrar. Mas eu aguento.

— Então está com medo de mim sim.

--Eu disse que eu estou com medo do seu pau — digo.

— É só um pinto — diz ele pra baixo entre as suas pernas. — Você também tem um. E eu não estou com medo.

— Você ia adorar que eu tivesse com medo, não é?

— Não — diz ele.

— E como você ia adorar que eu estivesse agora, hein? — pergunto rigido. — De quatro?

— Não — diz ele. — Eu ia amar que você estivesse mais perto.

— Então é só vir, garanhão — digo. — Eu estou bem aqui.

— Eu também estou bem aqui — diz ele. — De pau duro no meio da sua sala, bem no meio da tarde. Pronto pra te foder.

— Agora só falta você estar num outro meio… no meu — digo rindo claramente nervoso.

— Eu poderia — diz ele, rindo. — Mas você tem que querer isso.

— Eu quero, porra — digo rindo, ficando nervoso. — Eu já estou pelado na sua frente. O que mais você quer de mim?

— Que você venha até aqui — diz ele com um leve sorriso. — Simples assim.

— Isso é ridículo — digo, rindo nervoso.

— Por que tem tanto medo, August?

— Eu não estou com medo — digo, bravo. — Quer ver como eu não tenho medo.

Simplesmente agarro meu pênis ainda mole, até que ele começa a endurecer nas minhas próprias mãos. Começo a esfregá-lo, me masturbando ali na frente dele. Olho diretamente pra ele, mordendo os lábios, com uma expressão que mistura prazer e raiva ao mesmo tempo. Ele fica lá, quieto, me olhando com um ar de superioridade que me irrita.

— Gosta do que está vendo, Dan? — pergunto, provocando. — Já vi que você é do tipo que gosta só de olhar.

— Eu gosto mesmo do que estou vendo — diz ele com um leve sorriso. — É uma pena que você vai gozar aí, tão longe de mim.

— Gostaria que eu gozasse em cima de você? — pergunto, ofegante.

— Eu adoraria isso — diz ele. — Sabe do que eu gostaria mais?

— Alguém mais gostoso do que eu?

— Que você só me deixasse te tocar.

— O que você quer, uma maldita permissão por escrito? — digo, rindo enquanto ainda me toco. — Só vem aqui, porra!

— Você sabe o que eu quero.

— Que eu vá até você — digo, parando de me masturbar e olhando pro lado, suspirando zangado.

— Você quer isso também. Não quer?

Suspiro mais e fico lá, em silêncio, me segurando pra não chorar.

— Quem é você? — pergunto, sentindo meu coração querendo sair pela boca. — Sempre chega na casa dos outros, toca a campainha e oferece essa filosofia de merda sua?

— Na sua, sim — diz ele. — Quer mais uma verdade?

— Por favor — digo dando de ombros.

— A minha filha não tocou sua campainha por acaso. Eu pedi pra ela fazer isso.

Rio nervoso, me segurando pra não chorar.

— Por quê?

— Porque eu queria te ver — diz ele, estranhamente sereno. — Eu queria foder com você porque te achei gostoso pra caralho. Então me diz aí: o que vai ser? Eu me visto e vou embora, ou você me deixa realizar meu desejo com você?

Eu fico em silêncio por um tempo.

— A quarta vez? — pergunto. — Quando foi a quarta vez que você me viu? Eu falei pra quem que eu ia ficar sozinho pelo resto da minha vida?

— Você sorriu pra mim — diz ele. — Eu estava com o Sr. Fiderborn todo sujo de vômito. Sabe como ele fica depois das sessões de quimo dele. Nós entramos no elevador e ele estava sujo de vômito e fedendo e eu disse que eu pegaria o próximo e você só sorriu e disse que não ligava pra aquilo. Você foi gentil naquele dia. E isso me fez ver que você parecia ser uma boa pessoa no fundo. E é com isso que eu gostaria de foder.

— Quer foder comigo porque eu senti o cheiro do vômito do Sr. Fiderborn com você no elevador — digo cabisbaixo. — Por isso você está pelado na minha sala. De pau duro.

— Porque você disse pra ele que ele ia ficar bem no final e depois você só sorriu pra mim — diz ele. — Um sorriso com todos os dentes a mostra. Não só um meio sorriso um sorriso completo. Aquilo arrancou um pedaço do meu coração pra colocar você no lugar.

— Isso foi semana passada — digo. — Eu não sei por que eu não lembrei de você de imediato?

— É por isso que eu estou pelado na sua sala.

— Porque eu sorri pra você — digo ainda cabisbaixo.

— Porque você foi gentil — diz ele. — E isso eu acho sexy pra caralho.

Me pego sentindo um súbito impulso de só querer correr na direção contrária, me trancar no quarto e fingir que nada daquela merda aconteceu até que ele e o mundo inteiro desapareça diante de mim. Mas eu sei que vou passar o resto da minha vida me arrependendo disso. Revivendo esse momento diversas vezes na minha cabeça fodida de merda.

— Quer que eu vá embora ou fique, August? — pergunta ele. — A decisão é sua.

Eu fico lá parado pensando por um tempo.

— Ah, que se foda — digo, indo pra trás, na direção do meu quarto.

Ele me olha, decepcionado.

— Então tá — diz ele.

De repente, eu volto com tudo, me jogo nos braços dele e o beijo com todo o tesão que arde dentro de mim. Beijo com mais vontade do que jamais imaginei que sentiria por ninguém. Ele me segura firme, como se já soubesse, de algumas forma, que esse momento ia acontecer. Suas mãos deslizam pelas minhas costas, descem até minha cintura, e eu só deixo. Deixo que ele me segure e me toque. Pela primeira vez, eu deixo que alguém me tenha por completo. Eu estou morrendo de medo e de tesão, mas eu quero cair nos braços dele.

Nossos corpos se encaixa com uma urgência quase violenta. Ansiando desesperadamente um pelo outro Ele me empurra contra a parede da sala, me prende ali com o peso do seu corpo, e eu sinto o calor dele me invadir. A respiração dele no meu pescoço, o cheiro, o toque, o sabor — tudo me consome por completo. Eu gemo, não de dor, mas de raiva e prazer misturados. Como se estivesse punindo a mim mesmo por ter resistido tanto a ele.

Ele me vira, me segura pelos quadris, e eu só danço conforme ele me conduz. Essa é a melodia sexual da qual eu faço parte agora. Não há mais resistência. Só entrega. Só o som dos nossos corpos se chocando, da pele contra pele, da nossa respiração ofegante. Eu mordo os lábios, fecho os olhos, e deixo que ele me leve até o limite.

E quando tudo termina, quando o silêncio volta a ocupar o espaço entre nós, eu me afasto. Nu, suado, tremendo. Me sento no chão da sala encostado na parede, e deixo a cabeça cair entre os joelhos. Ele me observa, mas não diz nada. E então, eu falo:

— Era isso que você estava esperando quando veio até aqui? — pergunto. — Me queria nu com a sua porra por todo o meu corpo escorrendo depois de ter me fodido?

— Isso com certeza — diz ele rindo e passando a mão pelo meu ombro deitado no chão a minha frente.

— Já pode ir embora se quiser — digo sério e ao mesmo tempo triste. — Finalmente conseguiu o queria.

— Você quer que eu vá?

— Você quer ir? — pergunto com uma sensação pesada no coração.

— Eu não quero ir embora.

— Você não quer ir embora ainda — digo.

— Bom, uma hora eu vou ter que ir embora — diz ele. — Eu tenho uma vida fora daqui. Eu tenho um trabalho, uma filha e responsabilidades. Mas eu posso voltar mais vezes se você quiser.

Eu olho pra frente e fico com uma sensação de algo queimando ao redor dos meus olhos quase como se eu fosse chorar.

— E ai o que me diz? — pergunta ele diante de mim. — Quer que eu volte mais vezes?

— Eu quero.

Nós dois sorrimos um pro outro nos olhando nos olhos

Eu não sei o que isso foi. Não sei se foi desejo, raiva, carência ou só uma tentativa desesperada de me sentir vivo. Mas eu sei que, por alguns minutos, eu deixei de ser o cara que sempre foge de tudo e todos. Eu me deixei sentir pela primeira vez. Eu me permiti.



Fim.