Igual A Ela

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Summary

Um Homem solitário resolve, de repente mudar sua rotina, e em uma cafeteria acaba conhecendo uma moça por quem ele acaba se apaixonando. Entre um café e outro, ele descobre que ela possui um segredo que irá abalar pra sempre sua vida sem graça.

Genre
Lgbtq
Author
LexSilvas
Status
Complete
Chapters
1
Rating
n/a
Age Rating
13+

Igual a Ela

Igual a ela

Lex Silvas

17/03/2015

Todos os dias eu acordo pela manhã, tomo banho e me arrumo para ir trabalhar. Saio de casa por volta das oito e meia, e caminho por alguns minutos em direção à estação de trem, pego o trem das oito e quarenta e cinco e desço no centro, ando por uns dois minutos e pronto estou no trabalho. Meu trabalho consiste em ficar digitando relatórios em frente a um computador durante todo o dia. A uma da tarde eu saio para almoçar, geralmente um sanduiche de presunto ou qualquer outra coisa que não dê trabalho, pois não sou lá um bom cozinheiro. As seis da tarde faço todo o percurso de volta para a minha casa. Onde assisto TV enquanto como um macarrão instantâneo, pipoca ou nos finais de semana peço pizza. Às vezes adormeço no sofá e depois vou para cama. Às vezes passo horas na cama virando de um lado para o outro até dormir. E no dia seguinte começa tudo de novo.

O despertador me acorda, eu levei o maior susto, esqueci que o programei para despertar uma hora mais cedo. Comprei um livro pelo E-bay e ele chegou ontem a tarde, meu vizinho o recebeu para mim e eu quero começar a ler hoje. Como os trens costumam ficar lotados pela manhã, resolvi sair um pouco mais cedo, assim posso ir sentado durante o percurso e assim posso ler umas dez ou vinte páginas antes de chegar ao trabalho. Faço o meu ritual matinal e saio de casa. Nem bem cheguei na portaria do prédio e já estou bocejando, mais do que o habitual, meus olhos estão cheios de lágrimas. Desse jeito não vou conseguir me manter acordado o suficiente para ler o livro. Me lembro que ao lado da estação tem uma cafeteria, eu poderia passar lá, comprar um café e ir tomando enquanto leio o livro. Talvez eu até compre um daqueles donuts cheios de açúcar por cima, recheados com mais doce de leite ou creme do que eu comi na minha vida toda. Eu entro na cafeteria e há uma fila enorme que continua a se formar bem atrás de mim. De repente um pensamento me vem à cabeça e eu me lembro que detesto café, porcaria, mas eu já estou aqui mesmo. Logo chega a minha vez. Peço o primeiro café que tem no menu, pra mim tanto faz. O atendente escreve o meu pedido no copo de café descartável e o passa para outro rapaz, eu pago e recebo o meu pedido, me viro em direção à saída. Estou tão distraído que esbarro sem querer em uma moça e ela acaba derrubando o café dela em cima do meu casaco, que é de lã grossa, por isso quase nem sinto o calor. Todos ficam nos olhando.

— Vem cá, você é cego? Esbraveja ela.

— Me desculpa eu não tive a intenção.

Ela me olha de cima a baixo e de repente nossos olhares se encontram. Eu fico observando os olhos grandes e castanhos dela me olhando de volta.

— Me desculpa de verdade. Repito minhas desculpas mais umas duas vezes.

— Tudo bem. Diz ela um pouco mais calma.

— Eu posso te pagar outro café, é o mínimo que eu posso fazer. Digo tentando ser cavaleiro.

— Não dá, eu estou atrasada. Recusa ela.

— Então fica com o meu. Estendi a mão oferecendo o café que estou segurando e que por sorte não caiu uma gota se quer no chão.

— Eu não posso aceitar.

— Claro que pode. É um... Paro para ler o nome do café no canto do copo espremendo os olhos para isso. —... Expresso duplo com leite e açúcar. Ouvi dizer que é mesmo muito bom. Digo tentando convencê-la a aceitar.

— É o mesmo que eu pedi. Diz ela surpresa. — Na verdade eu só peço esse.

— Viu só!

Eu continuo com o braço estendido, mesmo que ele esteja começando a doer, eu não o baixo. Ela hesita um pouco e timidamente pega o café.

— Obrigada!

— De nada!

O celular dela toca, ela o atende, se vira e vai embora apressada, antes mesmo que eu possa falar qualquer outra coisa. Eu continuo ali parado feito uma estatua, até que as pessoas começam a me empurrar pra poder passar. Eu chego ao trabalho e só lá eu percebo que o meu casaco está com uma mancha enorme de café, isso vai dar o maior trabalho para sair. Durante todo o resto do dia fico pensando naqueles grandes olhos castanhos me olhando. Eu deveria ter perguntado o nome dela, talvez ela more perto e quem sabe eu a encontre no caminho de volta para casa e a gente possa conversar, ela vai ver que eu não sou um idiota desastrado que esbarra em mulheres derrubando seus cafés todos os dias. Meu expediente acaba e eu volto para casa e continuo pensando nisso. Principalmente antes de dormir eu não consigo parar de pensar nela. Fui dormir pensando nela e acordei pensando nela. Na manhã seguinte percebo duas coisas. Uma: Que eu não li sequer uma página do livro. E Duas: Que eu esqueci de mudar o horário do despertador e ele tocou de novo uma hora mais cedo. O que no final foi bom porque as chances de eu a ver de novo eram grandes. Estou tão ansioso que eu tenho que voltar várias vezes ao meu apartamento porque uma hora eu era a chave; na outra hora a carteira; depois simplesmente fiquei paranoico que havia deixado a torneira do banheiro aberta. Resolvo respirar fundo antes que eu tenha um ataque do coração, como a mãe de um amigo meu que morreu no carro de um ataque do coração a mais ou menos uns dez anos atrás, sorte que quem dirigia era o marido dela. Meu amigo também morreu naquele dia, não sei porque eu lembrei disso, mas enfim está na hora de ir. Vou até a cafeteria, olho ao redor e não a vejo, olho para todos na fila e não a vejo. Estou decepcionado, será que ela não é cliente regular e assim como eu só entrou uma única vez e acabou desistindo de voltar porque um babaca derrubou o café dela todo em cima dele? Saio de lá levando o meu café que só beberico e acabo jogando fora o resto porque acabou esfriando. Me sinto como se estivesse sido derrotado numa guerra. Um milhão de pensamentos me consomem durante o resto do dia, ainda bem que hoje é sexta-feira e eu tenho todo o final de semana para me recuperar.

Na segunda-feira, outra vez o relógio desperta mais cedo, preciso me lembrar de mudar essa porcaria. Fico deitado por mais uns minutos até que resolvo tentar a sorte mais uma vez. Eu já to acordado mesmo, amanhã eu ajusto o despertador e nunca mais penso nisso. Chego na cafeteria, olho em volta e nada. Até que parado na fila vejo ela passar. Eu fico em polvorosa, meu corpo todo treme. Eu nunca tinha me sentido assim antes. Quando ela se aproxima eu mal consigo dizer um simples bom dia, então tento repetir com mais firmeza. Ela passa e nem me olha, está falando no celular, provavelmente não deve ter me ouvido. Eu fico meio sem graça e sorrio pro cara atrás de mim, ele também me ignora. Bom, pelo menos eu sei que ela vem sempre aqui e que eu vou ver ela de novo. Estou tão empolgado com isso que termino o meu café em menos de cinco minutos. Mais tarde eu começo a me sentir como um idiota, mais do que minha dose diária de me sentir assim, porque é como se eu estivesse no meio da mais estúpida paixão adolescente que só podia terminar bem se isso fosse uma dessas comédias românticas tolas que são lançadas umas cinquenta por ano, e o pior de tudo é que mesmo que isso fosse um filme, nem em um bilhão de anos eu seria o protagonista, o que significa que eu jamais salvaria a mocinha de se casar com alguém que ela não ama e ganharia seu coração em troca. Com certeza ela deve ter namorado, e diferente do que esses filmes pregam, ela deve ser bem feliz, ou o mais feliz que uma pessoa normal poderia ser. Ela pode ser casada, ou sei lá. Eu não tenho a menor chance. É melhor eu desistir enquanto tenho a minha dignidade.

No dia seguinte, resolve jogar a minha dignidade no lixo, afinal de contas ela é supervalorizada mesmo, e decido que se eu a ver hoje eu vou falar com ela. Não tenho mais idade pra isso, um home de 32 anos, não deveria temer as mulheres. Eu vou fazer com que ela fale comigo.

Eu estou de novo na cafeteria, parado na fila, ela não aprece estar por perto. Começam a chegar mais pessoas e elas dão sequencia a fila atrás de mim. Eu olho para trás como quem não quer nada e surpresa, vejo ela parada exatamente quatro pessoas depois de mim. Respiro fundo pra não entrar em pânico. Não posso simplesmente chegar nela sem um bom motivo, pra minha sorte eu sei exatamente o que fazer. É a minha vez no caixa, faço o meu pedido, pago e retiro o pedido logo em seguida. Vou em direção a ela, segurando em uma das minhas mãos um café e na outra também. Estendo o braço na direção do rosto dela. Ela está mexendo na bolsa, sente o calor do café e olha surpresa.

— Expresso duplo com leite e açúcar, certo? Pergunto tentando parecer simpático.

Ela me olha desconfiada.

— Eu sou o cara que derrubou o seu café naquele dia. Digo tentando trazer familiaridade aquele momento.

— Eu me lembro de você. Diz ela.

Ela se lembra de mim, isso é um bom sinal, ou talvez não visto que ela ainda não pegou o café.

— Meus dedos estão ficando quente, será que você poderia... Alerto tentando manter o tom simpático.

— Ah claro. Diz ela pegando o café. — Onde estão os meus modos. Obrigada!

Eu vejo uma das mesas vazias e a convido para sentar.

— Só por cinco minutos. Digo tentando melhorar minha oferta. — Cinco minutos, além do mais meu trem vai atrasar por causa da chuva.

— Não está chovendo. Diz ela.

— Bom, deve estar chovendo em algum lugar, é uma linha bem grande que esse trem faz, vai saber.

Ela sorri ao me ouvir dizer isso.

— Cinco minutos! Diz ela em tom sério.

— Você tem a minha palavra.

Puxo a cadeira para ela se sentar e depois me sento de frente a ela. Consegui exatamente o que eu queria e agora eu não faço a menor ideia do que fazer. Eu preciso muito começar uma conversa, esse silêncio está ficando constrangedor.

— Você está confortável? Pergunto.

— Tão confortável quanto eu poderia me sentir numa cadeira de ferro.

— Podemos sentar em outro lugar se você quiser.

Ela acena com a cabeça dizendo que não.

— Você sempre faz isso? Pergunta ela.

— Faço o que?

— Isso!

— Derrubar o café de mulheres bonitas e depois convidar elas para tomar outro comigo. Digo rindo, ela ri também. — Não! Eu nem mesmo gosto de café.

— E aqui está você numa cafeteria. Se não é pelas garotas nem pelo café então é pelo que? Pergunta ela sendo irônica.

— Eu não sei... Um livro!

— Você está escrevendo um livro?

— Não, eu estou tentando ler um.

— Deve ser o livro mais chato do mundo pra fazer você vir num lugar como esse. Diz ela parecendo estar se divertindo as minhas custas.

— Haha!

— E cadê o livro?

Só então eu me toquei

— Eu esqueci ele em casa.

— Mentira?

— Existe mesmo um livro, eu falo a verdade, eu só o esqueci em casa.

— Eu acredito em você.

— E você? Me fala o que você faz? Pergunto mudando de assunto.

— É complicado!

— Complicado, tudo é complicado.

— Eu faço um pouco de tudo!

— Você é uma assassina, ou é traficante. Já sei você deve ser ladra de joias. Estou certo? Pergunto fingindo preocupação.

— Se eu te contar, vou ter que te matar.

Nós dois sorrimos.

— Você mora aqui perto? Pergunto.

— Sim! Responde ela depois de beber o seu café, eu faço o mesmo. — E você?

— Eu moro num prédio grande e antigo a uns dois quarteirões daqui.

— Legal. Diz ela olhando para o relógio.

Eu percebo então que o tempo está passando e eu preciso saber mais sobre ela.

— Então você mora aqui por perto, gosta de café e tem um trabalho complicado. O que mais tem pra saber de você? Pergunto.

— E por que quer saber mais sobre mim?

— Porque eu gosto de conhecer as pessoas que tomam café comigo! Respondo animado.

— Pensei que não fizesse isso com outras pessoas.

— E eu não faço, mas eu tinha que começar por algum lugar. Vamos fazer o seguinte, me pergunta o que quiser. Digo tentando deixá-la mais a vontade. — Eu juro por esse café que está em minhas mãos que eu só responderei a verdade e nada além da verdade.

— Você é maluco? Pergunta ela sorrindo.

— Não, eu sou perfeitamente normal e saudável. Eu não fumo, não bebo, nem mesmo tenho facebook. Meu médico me disse que se eu continuar assim posso viver até os 100.

Ela não se contém e começa a rir.

— Você tem namorado? Pergunto me aproveitando que o gelo foi quebrado.

Ela fica em silêncio por alguns segundos.

— Não precisa responder se não quiser. Digo.

— Eu não tenho namorado!

— Sério? Como isso é possível? Sabe eu estou perdendo minha esperanças com a humanidade, se uma mulher como você está solteira o que dirão as outras. Como você pode ter certeza disso?

— Eu saberia se tivesse um namorado. Não acha?

— Não deve ser porque você é feia, porque você não é feia.

— Obrigada, eu acho. Agradece ela depois de me dar um olhar de estranhamento.

— Pra falar a verdade você é a mulher mais bonita que eu já vi.

Ela abaixa a cabeça constrangida.

— Eu também estou solteiro se você quer saber. É uma coincidência muito estranha, você não acha? Digo tentando parecer o menos óbvio possível.

— Eu tenho que ir. Diz ela.

— Mas já, eu nem terminei o meu café.

— Mas eu já terminei o meu.

— Eu te pago outro e um donut. Por favor, eu insisto.

— Eu realmente tenho que ir. Insiste ela.

— Se foi alguma coisa que eu disse, me desculpa. Eu geralmente não sou assim.

— Não, não é isso. É que... Ela para por um momento parecendo escolher as palavras certas a dizer. — Você parece ser bem legal, mas eu não posso sair com você.

— Você é casada, é isso?

— Não! Olha vamos deixar as coisas assim, é melhor. Diz ela se levantando.

Eu me levanto também.

— Obrigada pelo café.

Eu tento colocar minha mão sob a dela que seguravam o canto da mesa, mas ela as tira antes que eu consiga tocá-la. Ela vai embora e eu não penso duas vezes e vou atrás dela. Vejo ela, já do lado de fora da cafeteria, caminhando a passos largos, mas eu consigo alcançá-la. Eu fico ao lado dela andando de costas pra rua, mas de frente pra ela.

— Me desculpa se eu fui um babaca, eu devo ter falado algo que te ofendeu.

— Não tem nada a ver com você.

— Tem sim a ver comigo.

— As vezes quando as pessoas falam que não é você, elas querem dizer isso mesmo.

— Então o quê? Eu sei que eu não sou bonito e eu tive o que uma s duas namoradas sérias a minha vida inteira e nenhuma delas quis saber de mim depois que nós terminamos. Eu nem sei por que eu estou falando nisso, mas o que eu estou tentando dizer é que eu gosto de você.

— Nem me conhece como pode gostar de mim.

— Porque é assim que costuma funcionar o “Gostar”. Você não precisa conhecer a pessoa pra gostar dela, você só gosta. Mesmo que essa pessoa seja idiota. O que não é o seu caso. Eu espero. Coloco minha mão na testa quando percebo que falei besteira demais. — Eu não quis dizer em hipótese alguma que você seja idiota. Esquece o que eu disse. Menos a parte que eu disse que eu gosto de você.

— Para! Grita ela me forçando a literalmente parar de andar. — Você é um cara legal, um tanto esquisito, eu admito, mas eu não posso ficar com você.

— Me desculpe eu... Eu... Gaguejo sem saber o que dizer. — Eu não tive a intenção de te irritar, eu passei do limite. Eu não faço isso, eu não sou assim. Digo envergonhado quase sussurrando.

— Você não entenderia.

— O que eu não entenderia?

— Tudo o que você está vendo nem é real.

— O que não é real. Eu não... Ela para sem conseguir falar e depois de um breve e mortal silencio as palavras saem. — Eu não sou mulher.

Eu fico em silencio sem entender nada.

— O que? Pergunto rindo nervoso. — isso é algum tipo de brincadeira?

Ela olha para o chão com o olhar mais triste que eu já vi em alguém.

— Eu sinto muito! Diz ela enquanto se vira e vai embora.

— Eu também.

Eu estou tão confuso agora. Se a minha cabeça fervilhava em pensamentos, agora ela parecia que ia explodir. Acabo passando mal e vomito no banheiro da empresa e por conta disto sou dispensando mais cedo. Tudo o que eu faço ao chegar em casa é me enfiar debaixo das cobertas, sem conseguir dormir e completamente incapaz de esquecer o que houve. Eu fico só encarando a parede, e assim perco a noção do tempo. A manhã chega novamente, só percebi isso porque o maldito despertador começa a tocar, eu o ignoro cobrindo meus ouvidos com o travesseiro, ele continua tocando por mais uns cinco minutos. Não estou nem um pouco afim de trabalhar, mas sinto uma vontade enorme de tomar café, no final das contas comecei a apreciar o gosto amargo dele pela manhã. Não posso voltar até aquela cafeteria, então teria que ser em outro lugar. Lembro que há uma padaria na direção oposta que vende café, era um pouco menos sofisticado, mas era melhor do que nada. Me levanto da cama, visto uma roupa qualquer e um casaco sobretudo porque está um pouco frio lá fora. Nem me preocupo em fazer a barba, não vou demorar a voltar mesmo. Saio de casa e faça um caminho alternativo pra tentar evitar de passar por qualquer lugar conhecido. Entro na padaria, não há fila, o que não me surpreende, e só há um tipo de café, preto com açúcar. Pago e pego o meu copo e quando eu me viro e a vejo sentada num canto lendo um livro.

— Porra, só pode ser brincadeira! Exclamo comigo mesmo.

Fico paralisado sem saber o que fazer, é melhor eu sair antes que ela me veja. Abaixo a cabeça e vou em direção a saída e então o atendente me chama de volta, eu esqueci o meu troco. Penso em fingir que não é comigo, mas ele poderia gritar mais alto, e ela ainda não percebeu que eu estou aqui. Quando eu me viro de volta eu vejo alguns donuts na prateleira de vidro da vitrine, igual a aqueles que eu queria comer no dia em que eu a conheci. Resolvo pedir um, já que o troco é mais do que o suficiente pra isso. Ele o coloca sob um pratinho e eu o pego e o levo até a mesa onde ela está. Coloco o prato sobre a mesa forçando ela a parar de ler e olhar, primeiro para o prato e depois para mim.

— Eu te prometi um donut. Aqui está. Digo olhando para ela.

Eu contraio os meus lábios, eles estão secos, eu quero ir embora, mas os meus pés não me obedecem. Ela desvia o olhar dela de volta para o livro, mas com um gesto simples puxa o prato para perto dela. Eu puxo uma cadeira da outra mesa e me sento de frente pra ela. Ficamos em silêncio por um tempo.

— Você sempre faz isso? Pergunto com a cabeça abaixada encarando as minhas próprias coxas. — Você sempre engana os homens se fingindo passar por mulher? Ergo os meus olhos, mas ela continua em silêncio. — Você me enganou. Digo soltando uma risada nervosa. — Eu jamais desconfiaria.

— O que você quer de mim? Pergunta ela de forma abrupta.

— Eu quero que você me diga o que eu tenho que fazer para parar de pensar em você.

— Se você não fugiu depois do que eu disse então eu não sei mais o que dizer.

— Viu só, esse é o problema. Eu não acredito no que você disse. Isso não pode ser verdade. Eu exijo que você prove.

— Você exige?

— Sim! Você não pode simplesmente jogar esse tipo de coisa nas pessoas e achar que está tudo bem.

— E o que você sugere que eu faça, hein. Que eu tire a minha roupa e fique pelada bem aqui em público? Diz ela nervosa.

— Sim, se isso pode provar. Por que não?

— Vai se fuder.

Ela puxa sua bolsa que está pendurada sob a cadeira e mexe nela nervosa, eu fico só observando, não acho que ela tenha uma arma carregada ou algo do tipo.

— Aqui! Diz ela tirando um punhado de fotos e as jogando na mesa. — Espero que isto te satisfaça.

Eu endireito as fotos e as olho uma por uma.

— Eu não entendo. Digo.

— Dê uma olhada nessa aqui. Diz ela apontando para uma foto onde há várias pessoas com roupas de praia, mas o dedo dela bate repetidamente sob o rosto de um home sem camisa.

— esse sou eu. Diz ela.

— Não pode ser você. Digo me sentindo insultado por ela achar que eu sou tão idiota assim para acreditar nisso.

Conforme eu vou passando as fotos, eu percebo que é o mesmo olhar, o mesmo maldito olhar. Aqueles olhos grandes e castanhos estão ali, e eu luto comigo mesmo para não acreditar. Quando eu percebo que estou quase sendo derrotado, bagunço as fotos e as empurro de volta pra ela.

— Isso não muda nada. Digo parecendo uma criança emburrada.

Ela apanha as fotos e as guarda de volta na bolsa.

— Um de nós deveria ir embora agora. Vai você ou eu? Pergunta ela.

— E de que adiantaria se a gente vai continuar se esbarrando na rua ou na porcaria de uma padaria. Digo com raiva.

— E o que você sugere que um de nós mude de cidade?

— Ou um de nós construa uma máquina do tempo e apague o dia em que nos conhecemos. Completo nervoso.

— Talvez exista uma terceira opção. Diz ela cobrindo a boca ao perceber que havia falado algo sem pensar.

— Não existe terceira opção. Digo indignado. — Eu não... Abaixo a voz para continuar a falar. — Eu não sou gay. Olho ao redor pra ter certeza que ninguém me ouviu.

— Então o que você está fazendo aqui?

— Eu não faço ideia.

— Quer saber de uma coisa, eu cansei disso. Eu não sei que tipo de merda você tem pisado, mas eu não tenho tempo pra isso. Diz ela se levantando de uma vez e pegando sua bolsa. — Não era pra ser, desculpa. Essa explicação está boa pra você? Põe fim as suas dúvidas? Pergunta ela em encarando.

Não consigo esconder que eu estou decepcionado e um pouco envergonhado, ela deve ter percebido isso porque de repente seu nervosismo parece ter sumido.

— Você é um cara legal, tenho certeza que vai encontrar uma mulher, uma de verdade, que vai ser sortuda em ter você. Diz ela.

Ela sorri.

De repente ela se aproxima de mim e me dá um beijo, eu fico espantado, meu coração começa a bater mais forte, mesmo assim não consigo fazer nada. Ela então vai embora. Meu peito começa a doer, percebo que esqueci de respirar, quase como se o tempo tivesse congelado por um instante. Me levanto quando retomo o controle dos meus sentidos, um pouco rápido demais pois acabo esbarrando na mesa. Vou imediatamente até a saída e a vejo, ela ainda não está tão longe. Começo a dar passos longos para alcançá-la, quando eu chego mais perto, devo estar pisando forte demais no chão, porque ela me escuta se aproximando. Ela se vira assustada.

— Olha me desculpa, eu não deveria ter feito aquilo. Diz ela se curvando um pouco para trás. — Por favor não me bata.

Eu chego perto, a puxo e a beijo, desta vez eu até fecho os olhos e a beijo com vontade. Passando o choque inicial, ela retribui, posso sentir a língua dela tocar a minha. Continuamos a nos beijar e ambos nos desequilibramos e acabamos caindo sentados no chão, mas eu não paro de beijar ela. Eu não quero parar. Continuo beijando ela mesmo quando não consigo sentir mais os meus lábios, nem quando o meu rosto começa a formigar. Só para porque fiquei completamente sem ar.

Estamos os dois sentados no chão, um do lado do outro, respirando pesadamente como se tivéssemos corrido um milhão de quilômetros. Ela me olha e sorri, eu sorrio de volta, ainda lutando pra conseguir recuperar o meu fôlego.

— E agora o quê? Pergunta ela quase sem conseguir falar.

— Eu acho que poderíamos ir atrás de um café melhor do que esse ai.

— Eu conheço um lugar perfeito. Diz ela sorrindo.

Ela se levanta, dá dois passos para trás e estende sua mão pra mim.

E aqui estou eu, sentado no asfalto frio, olhando para ela, pela primeira vez na minha vida, sem me importar com mais nada.

FIM