Primeira Parte: Fogo encontra gasolina
03/01/26
Não pule. Foi o conselho que Russ, meu amigo me deu, com a voz meio trêmula, antes que eu resolvesse me jogar da ponte. O problema é que eu tenho quinze anos e uma vontade absurda de provar que não sou só “o moleque” da turma. Oito metros de altura não pareciam nada quando os garotos mais velhos estavam me olhando, esperando para ver se eu tinha coragem.
O vento batia no meu rosto, frio e cortante, e lá embaixo o lago parecia uma boca escura pronta para engolir qualquer idiota que ousasse desafiá-lo. Eu sabia que era uma estupidez, mas a sensação de ser observado queimava mais forte do que o medo. Então fechei os olhos, respirei fundo e saltei.
A queda foi rápida, mas longa o suficiente para eu perceber que tinha cometido a maior burrada da minha vida. O impacto contra a água gelada foi como bater contra concreto líquido. Senti uma dor aguda atravessar meu peito, o braço se dobrar num ângulo impossível, e por um instante achei que não voltaria à superfície.
Quando finalmente emergi, tossindo e engolindo água, ouvi os gritos dos meus amigos misturados entre choque e nervosismo. Russ corria pela margem, desesperado, e eu só conseguia pensar que deveria ter escutado aquele simples conselho: não pule.
Hoje, se alguém me disser que estou prestes a fazer uma grande burrada, daquelas que deixam cicatrizes no corpo e na memória, minha resposta será curta e firme: não precisa pedir duas vezes. Porque me conhecendo, se eu sobrevivi daquela vez, foi por sorte — e sorte não é algo em que se deve confiar duas vezes. Mas eu confio nela pra me salvar de novo.
Agora aqui no hospital, depois de ouvir um bilhão de coisas das minhas mães — sim, eu tenho duas, e sim, elas ficaram igualmente putas e também com pena de mim — eu escapei por pouco de levar uma surra que teria completado o serviço que a ponte começou: me quebrar o resto do corpo.
Estou deitado numa cama que parece feita de papelão acolchoado, com o braço enfaixado, costela doendo e a dignidade em coma. Janice, uma das minhas mães, foi buscar café. Selma, a outra mãe, está trabalhando, o que significa que estou sob a supervisão da versão materna do policial bom sob ordens estritas da policial má. Nada de TV, nada de celular, nada de paz. Só o tédio, o bip-bip irritante do monitor cardíaco e o cheiro de desinfetante que parece querer me limpar por dentro.
Então, como não posso me mexer, nem fugir, nem morrer (aparentemente), decidi preencher esse tempo descrevendo quem sou. Mas saibam: só estou fazendo isso porque o tédio é tão profundo que até conversar comigo mesmo virou entretenimento.
Meu nome é Cooper Owen.
Tenho 15 anos, mas às vezes pareço ter 40, principalmente quando estou sendo julgado por adultos que acham que pular de uma ponte é coisa de psicopata. Tenho o cabelo escuro e cacheado, meio rebelde, meio bonito, dependendo da luz e do humor de quem olha. Meus olhos são verdes, mas não do tipo “esmeralda encantadora”, e sim do tipo “olhos de gato que acabou de derrubar um copo só porque podia”.
Visto o que me der vontade, geralmente uma jaqueta escura, camisa com estampa meio irônica, e um ar de quem está sempre prestes a responder com sarcasmo. Se você me visse numa dessas fotos de evento, talvez pensasse: “Esse garoto parece saber de alguma coisa que ninguém mais sabe.” E estaria certo. Eu sei que a vida é uma piada mal contada, e que a plateia nem sempre ri.
Na escola, sou o tipo que senta no fundo, não por rebeldia, mas porque é o único lugar onde dá pra observar todo mundo sem ser observado. Tenho amigos, mas não muitos. Tenho ideias, mas nem sempre boas. E tenho um talento especial pra fazer burradas épicas — como pular de uma ponte pra impressionar gente que nem lembra meu nome direito. Mas tudo bem. Porque eu sobrevivi, é pelos vídeos que eu vi foi demais.
Então é isso que me sobra por querer um pouco de diversão: o tédio. Por que Deus — ou seja lá quem foi o responsável por me montar — me fez tão frágil? Aquele salto teria sido perfeito se eu não tivesse me espatifado e chorado feito uma garotinha. Agora, não posso mostrar a cara na escola pelo resto da minha vida ordinária sem ouvir piadinhas sobre “o mergulho épico do Cooper Owen”.
Duas semanas de molho, muita fisioterapia (que não foi barata, como minha mãe Janice gosta de me lembrar a cada cinco minutos), e finalmente estou de volta em casa. Assim que me instalei no meu quarto, cercado pelas minhas coisas, pensei: agora é só relaxar. (Pausa para risadas de vocês, porque se eu realmente acreditei que meus atos passariam sem consequências, eu estava redondamente enganado. Fim do parêntese. Voltem a fingir que eu não sou ridículo e ingênuo.)
Estou deitado na cama, tentando não me mexer demais, quando ouço a voz da minha mãe Selma me chamando da sala. E isso só pode significar uma coisa: hora de ser castigado.
Não adianta nada fazer cara de cachorro sem dono — essa merda não funciona mais desde que eu tinha dez anos. Então, sem muitas opções, decido descer e encarar as consequências dos meus atos como o “homem” que elas esperam que eu seja. Quem sabe, se eu parecer maduro, elas me deem uma colher de chá.
Nada de tremer, nada de chorar. Firme. Mostre-se firme. Elas vão pegar leve. (Eu repito isso pra mim mesmo como quem recita um mantra, mas por dentro sei que é mais fácil acreditar em unicórnios do que em mães pegando leve.)
Vou até a sala com passos lentos, cada costela reclamando, cada músculo lembrando que eu sou um idiota certificado.
E lá estão elas: Janice com a xícara na mão, Selma com os braços cruzados. Duas juízas prontas para o veredito.
Eu me aproximo com passos firmes, paro diante das duas, limpo a garganta e começo: — Antes que vocês falem qualquer coisa, eu só quero dizer que sinto muito. Muito, muito mesmo. E não é exagero. Eu estou profundamente arrependido dos meus atos inconsequentes e quero deixar claro que isso não pode passar sem uma lição e castigo. E digo pra vocês que a lição eu já aprendi: eu jamais, jamais vou aceitar desafios que coloquem em risco a minha vida de agora em diante…
Sou interrompido pela minha mãe Selma, que ergue a mão como se fosse uma juíza pedindo silêncio.
— Tem certeza disso? — pergunto. — Porque eu preparei todo um discurso sobre responsabilidade e consequências que eu tenho certeza que vocês vão amar.
— Sente-se, querido — diz Janice, com aquela calma que sempre me dá medo. — Precisamos conversar sobre algo importante.
— Ai, meu Deus — grito desesperado. — É câncer? Alguma de vocês duas está morrendo de câncer?
— Não — responde Selma, seca. — Não é câncer.
— Meu Senhor, só pode ser um bebê — digo. — Uma de vocês ficou grávida. Mães, como puderam fazer isso comigo?
— Senta logo, garoto — retruca Selma. — E para de falar besteira.
Eu me sento com o coração na mão. A última vez que tivemos “a conversa” foi sobre sexo, e confia em mim: aquilo foi mais constrangedor do que ver elas fazendo sexo — o que, sim, já aconteceu quando eu tinha cinco anos. Aquela imagem ainda queima nos meus olhos como uma tatuagem maldita.
— Eu e sua mãe conversamos, pois… — começa Janice.
— Ai, meu Jesus, o meu videogame não — digo, já em pânico.
— Nós já tiramos ele do seu quarto mais cedo — responde Selma.
— Eu tinha esquecido disso — digo, derrotado.
— Eu e sua mãe conversamos… — insiste Janice, com solenidade na voz.
— Um divórcio — digo, interrompendo de novo. — Por minha causa? Vocês são tão lindas juntas.
— Garoto, cala a boca — ordena Selma. — Eu e sua mãe estamos querendo dizer que estamos muito decepcionadas com o seu comportamento nos últimos meses.
— Aquilo era tudo mentira — digo. — Eu não teria como ter começado aquele incêndio na sala de aula, eu nem estava lá.
— Que incêndio? — pergunta Selma.
— Incêndio… eu disse incêndio? Eu não falei de incêndio algum. — digo gaguejando. — Por favor continuem falando sobre o meu castigo cruel, eu não vou mais interromper.
— Nós conversamos e chegamos a uma conclusão — continua Janice. — Você precisa de uma influência… digamos, paterna.
— Isso quer dizer o quê? — pergunto confuso. — Qual de vocês duas vai colocar um pinto e ser o meu pai?
— Nenhuma de nós, moleque — diz Selma, já sem paciência. — Nós estamos tentando te criar pra ser um homem responsável, mas tudo o que você faz é jogar videogames, ver pornô o dia inteiro e pular em rios sem supervisão de adultos.
— Em minha defesa, eu não vejo pornô o dia inteiro — digo. — Eu preciso ir pra escola, e lá não dá pra ver pornô no computador da escola. Eu já tentei.
— Achamos que um homem na sua vida pode ensinar o valor das coisas — diz Janice.
— Por isso decidimos te enviar pra esse acampamento — completa Selma, mostrando um panfleto brega com a foto de um homem velho sorrindo ao lado de uma criança.
— O que é isso? — pergunto, já desconfiado.
— O Instituto Paternus — responde Selma. — É um acampamento pra pais que querem melhorar suas habilidades e serem pessoas melhores pros filhos.
— Vocês vão me mandar pra um lugar cheio de potenciais predadores sexuais. Isso é sério? — digo. — Esse é o castigo mais cruel que vocês já me deram. E olha que já me deixaram uma semana sem celular.
— Não seja exagerado — diz Janice. — O lugar foi checado e todos os pais são cuidadosamente verificados antes de serem aceitos lá.
— Nossa, agora eu me sinto muito mais seguro — digo. — Tudo bem se um deles pedir pra tocar minhas partes íntimas então. Eu sei que eles foram checados com cautela quando eu estiver sendo “apalpado”.
— Você vai e ponto final — decreta Selma.
— Eu posso discordar? — pergunto.
— Você pode tentar, mas já vou logo avisando: eu não vou ceder — diz Janice.
— E se eu chorar? — insisto. — Lembra como eu era bom nisso no mercado? Sempre voltava de lá com um chocolate.
— Filho, só sobe as escadas e faça as malas — diz Selma. — Você partirá amanhã cedo.
— Me dá só um minuto antes disso — digo. — Vocês já se decidiram e não adianta eu, sei lá, só me jogar no chão com uma faca no pescoço que não vai fazer nenhuma de vocês mudar de ideia.
A minha mãe Selma segura no braço da minha mãe Janice antes dela abrir a boca, pra que ela fique quieta.
— Nós já decidimos — diz Selma. — Isso vai ser melhor pra você.
Eu levanto a mão pra mais uma pergunta.
— Sim, filho — diz a Janice.
— Eu posso surtar agora? — pergunto. — Seria demais?
— Trinta segundos e só um palavrão — concede Selma.
— Obrigado — digo.
Eu então encho os pulmões e começo a berrar: — Vocês enlouqueceram! Eu sou só uma criança! Vão me mandar pra um lugar onde eu, com certeza, vou ser amarrado e sodomizado por um maluco de cinquenta anos que gosta de garotinhos, enquanto vocês ficam em casa tomando vinho e transando em todos os cômodos! Eu vou fugir enquanto vocês dormem, não sem antes tacar fogo nessa porra de casa assim que vocês dormirem!
Minhas mães me olham sérias.
— Já terminou? — pergunta Selma.
— Já — digo, respirando pesado, pronto pra sair da sala. Mas de repente volto e encaro as duas. — Mães?
— Sim? — responde Janice. — O que foi, querido?
— Sabe onde está a minha mala de rodinhas, aquela que o zíper sempre emperra? — pergunto.
— No armário do corredor, filho — responde Janice.
— Obrigado — digo. — E por favor, não falem comigo nunca mais.
— Pode deixar — diz Selma.
Eu subo as escadas pisando duro no chão, pego a mala no armário e entro no meu quarto, não sem antes bater a porta com força e raiva.
E é isso: a consequência de merda de uma decisão que eu achei que ia me fazer popular com Timmy Tool e Zack Bratt, ambos da sétima série. Agora eu estou fodido.