Chapter 1
O som não é do meu despertador. É da minha mãe batendo na porta.
“Rafa! Pelo amor de Deus, são cinco e meia!”
Merda.
Eu pulo da cama num único movimento, o coração batendo na garganta. O despertador do celular não tocou. Provavelmente acabou a bateria durante a noite, depois que eu apaguei estudando cálculo.
“Já vou, mãe! Tô descendo!”
Cinco e meia. A padaria abre às seis. A primeira fornada de pão francês, a nossa mais importante, tem que estar dourada no balcão quando o primeiro cliente entrar. E eu sou o padeiro.
Minhas roupas de ontem estão jogadas na cadeira. Jeans velhos, camiseta. Visto-as enquanto pulo num pé só, tentando calçar meu único par de tênis – um guerreiro surrado que já viu dias melhores, e dias piores, e que provavelmente só está esperando eu me formar para me aposentar.
Eu moro na casa dos fundos da padaria da minha mãe. É pequeno, é na periferia, mas é nosso. Desço os três degraus da porta dos fundos e já estou na cozinha quente da “Pães & Sonhos”.
Minha mãe, Dona Sônia, já está com o avental, o cabelo preso num coque apertado, e uma cara de quem dormiu menos do que eu.
“Bom dia, bela adormecida.” Ela diz, sem tirar os olhos da massa que ela sova.
“Desculpa, mãe. O celular...”
“Eu sei, o celular. Deixei o café pronto. Agora vá, que a massa da primeira leva já está descansando.”
Eu não preciso de café para acordar; o pânico resolve. Em cinco minutos, estou coberto de farinha, o calor do forno já me fazendo suar. Esse é o meu ritual: de segunda a sábado, das cinco e meia às onze, eu sou o padeiro. Das doze às cinco da tarde, eu estudo. E das seis e meia às dez da noite, eu sou universitário, no último ano de Administração.
É uma vida limitada, como dizem. Nunca saí do estado, não compro roupa nova há um ano e minha vida social é um deserto. Mas o plano é bom: me formar, arrumar um estágio obrigatório para entregar as horas, e finalmente conseguir um emprego de verdade. Um com ar-condicionado e cadeira de rodinha.
O cheiro de pão assado finalmente me acalma. Eu amo esse cheiro. É o cheiro de casa.
...
A correria da manhã passa. Ao meio-dia, o movimento cai. Estou no balcão, limpando uma vitrine, quando meu celular – agora carregado – vibra no bolso do avental.
Um número desconhecido. Provavelmente cobrança.
“Padaria Pães & Sonhos, bom dia?” Eu atendo, no automático.
Um silêncio. Depois, uma voz de mulher, tão clara e fria que parece que ela está falando de dentro de uma geladeira.
“Alô, eu gostaria de falar com o Sr. Rafael Guedes.”
Engulo em seco. Minha voz de “padaria” some.
“É... é ele.”
“Sr. Rafael, meu nome é Beatriz, sou do Recursos Humanos da Sensus Tech. Recebemos seu currículo para a vaga de estágio em Administração. O senhor ainda tem interesse?”
Meu coração para. Sensus Tech? Eu mandei esse currículo há um mês, num daqueles atos de desespero no meio da madrugada, me candidatando a vinte vagas de uma vez. A Sensus Tech. A empresa do prédio de vidro espelhado da Faria Lima. A empresa que... nossa. A empresa de brinquedos eróticos de luxo.
Eu olho para minha mãe, que está colocando pão de queijo na estufa.
“Sim!” Minha voz sai umas duas oitavas mais alta do que o normal. Eu tusso. “Sim, claro. Tenho total interesse.”
“Ótimo. O Sr. Stephan, nosso CEO, gostaria de conduzir as entrevistas finais pessoalmente. O senhor teria disponibilidade para amanhã, às dez da manhã?”
Amanhã? Amanhã?
“Sim! Dez da manhã. Perfeito. Estarei aí.”
“Endereço no e-mail de confirmação. Traje social. Tenha um bom dia, Sr. Guedes.”
Ela desliga antes que eu possa respirar.
Eu fico parado, segurando o telefone. O cheiro de pão e café desaparece, e tudo que consigo pensar é Sensus Tech.
“Que foi, menino? Viu um fantasma?” Minha mãe pergunta.
“Eu... eu consegui uma entrevista, mãe. Amanhã. Naquela empresa grande.”
O sorriso dela ilumina o lugar.
“Rafa, isso é maravilhoso! Meu filho! Eu sabia! Temos que comemorar!”
Ela vem me abraçar, e eu a abraço de volta, o cérebro finalmente alcançando a realidade. A alegria dela é contagiante, e eu me permito sentir aquela onda de esperança pura por uns bons trinta segundos.
Até que a realidade me dá um tapa na cara. Amanhã. Dez da manhã. Eu me solto do abraço dela. Traje social. Eu olho para baixo. Para minha camiseta manchada de farinha, meu jeans puído e meu único tênis.
“Mãe...” Eu digo, o pânico voltando com força total. “O que eu vou vestir?”
O sorriso dela vacila. Ela olha para as minhas roupas e seu rosto se enche daquela preocupação familiar que eu tanto odeio. A preocupação de quem sabe exatamente quanto custa um terno.
“A gente dá um jeito, filho. Sempre damos.” Ela diz, mas sua voz está mais baixa.
Eu balanço a cabeça, tentando organizar os pensamentos. “Dar um jeito” geralmente significa ‘ela se apertar mais ainda.’
“Não, fica tranquila. Eu vou resolver. Tenho que ir, a aula de Contabilidade Avançada começa em uma hora.”
Minha mãe assente. Dona Elvira, nossa única ajudante, chega e amarra o avental, me dando uma “boa tarde” que eu mal consigo responder. Eu corro para os fundos, tomo o banho mais rápido da minha vida – cinco minutos cronometrados –, troco a roupa da padaria pela roupa da faculdade (o mesmo jeans, outra camiseta) e pego minha mochila.
No caminho para o ponto de ônibus, o desespero bate forte. Eu não posso ir para a Faria Lima parecendo um padeiro. Eu preciso desse estágio.
Eu pego o celular e disco o número que é minha única esperança.
“Fala, Rafa! Matando aula hoje?” A voz animada de Bruno soa do outro lado.
Bruno é meu melhor amigo na faculdade. Um cara que parece ter saído de outro universo. O pai dele tem uma importadora, e o conceito de “dificuldade financeira” para ele é ter o cartão de crédito recusado na balada. Mas ele é um bom amigo.
“Cara, você é minha única salvação. Eu preciso de um favor. Um favor gigante.”
“Ih, lá vem. Desembucha. Você bateu o carro da sua mãe?”
“Eu não tenho carro, Bruno.”
“Verdade. Então fala.”
Eu respiro fundo, o barulho do ônibus parando no ponto quase abafando minha voz.
“Consegui uma entrevista de estágio. Amanhã. Dez da manhã. Na Sensus Tech.”
“Sensus Tech? Tipo, a do Stephan Haas? A dos vibradores de luxo? Caralho, Rafa! Parabéns!”
Eu entro no ônibus lotado, me espremendo perto da porta.
“É. Obrigado. Mas eles pediram traje social. E... bem...”
Bruno fica em silêncio por um segundo. Ele me conhece.
“...E você tem exatamente zero roupas sociais.”
“Exato.”
“Rafa, por que você não me disse antes? Eu tenho uns três ternos que nem uso mais.”
“A entrevista foi marcada há vinte minutos!”
“Certo, certo. Calma. Você é mais ou menos do meu tamanho, só um pouco mais magro. Você vem pra cá depois da aula. A gente dá um jeito nesse seu visual ‘sobrevivente de apocalipse’.”
Eu fecho os olhos, encostando a cabeça no vidro quente do ônibus. O alívio é tão grande que minhas pernas ficam fracas.
“Bruno. Eu nem sei como te agradecer. Eu te pago.”
“Você vai me pagar me contando tudo sobre aquela empresa. Dizem que o tal do CEO é uma espécie de deus grego que não sorri. Você tem que descobrir se é verdade.”
“Eu só preciso do estágio, Bruno.”
“Um passo de cada vez, meu amigo. Primeiro, vamos fazer você parecer um estagiário.”
Três horas de Contabilidade Avançada depois, minha cabeça latejava. Eu mal prestei atenção na aula. Minha mente alternava entre o que diabos era “Sensus Tech” e a imagem mental do meu tênis gasto pisando em um mármore importado.
Assim que o professor liberou a turma, eu praticamente corri para fora da sala, ignorando o resto do pessoal que ia para o barzinho. Peguei outro ônibus, desta vez na direção oposta da minha casa, rumo ao bairro nobre onde Bruno morava.
O porteiro do prédio dele já me conhecia.
“E aí, Rafael? Veio visitar o Bruno?” Seu Jorge sempre me olhava com um sorrisinho cúmplice.
Desde que Bruno se assumiu gay no primeiro ano da faculdade, o porteiro parecia ter decidido que éramos um casal, não importava quantas vezes Bruno revirasse os olhos e dissesse: “Ele é hétero, Seu Jorge, relaxa!“.
“Quase isso, Seu Jorge. Boa noite.”
Eu subi pelo elevador que era maior que o meu quarto. O apartamento de Bruno era no décimo quinto andar. Assim que a porta abriu, ele já estava lá, segurando um copo de algo que parecia suco, mas provavelmente não era.
“Finalmente! Pensei que você tinha sido engolido pelo busão. Entra aí.”
O apartamento dele era o de sempre: moderno, enorme, com uma TV do tamanho de uma parede e uma bagunça organizada de caixas de videogame e roupas caras jogadas no sofá.
“Minha mãe fez lasanha. Quer?”
“Eu adoraria, Bruno, mas eu tô numa pilha de nervos. A roupa...”
“Ah, relaxa. Já separei umas coisas.” Ele me puxou pelo braço, passando pela sala gigantesca até seu quarto.
O quarto de Bruno era outro universo. Um closet aberto tomava uma parede inteira. Ele apontou para três conjuntos completos de roupas deitados sobre a cama king size. Três ternos impecáveis. Um era azul-marinho, outro cinza-chumbo e um preto.
“Prova aí. São os que eu menos uso. Acho que o cinza vai ficar bom em você.”
Eu olhei para as peças. O tecido era macio só de olhar. Peguei a calça cinza e a camisa social branca.
“Vou ao banheiro provar.”
“Que banheiro, o quê! Prova aqui mesmo. Não tem nada aí que eu já não tenha visto no vestiário da faculdade.” E se jogou na cadeira gamer dele.
Eu ri, balançando a cabeça. Para Bruno, as coisas sempre foram simples assim. A naturalidade dele às vezes me pegava desprevenido.
Eu tirei meus jeans e a camiseta, sentindo a diferença absurda de temperatura e textura quando vesti a camisa social. Ela era... sedosa. A calça serviu bem na cintura, talvez um pouco larga, mas o cinto resolveria.
Quando coloquei o blazer cinza, eu me olhei no espelho de corpo inteiro do quarto dele. Eu não parecia eu. Eu parecia... caro.
Bruno ficou quieto por um segundo. Ele parou de mexer no celular e só me olhou, de cima a baixo. O assobio dele foi baixo.
“Caralho...” Ele disse, a voz um pouco mais séria que o normal. “Fecha o botão do meio. Isso.”
Ele se levantou e veio até mim. Ele não parou na minha frente; ele ficou um pouco de lado, ajeitando a lapela do blazer. Sua mão demorou ali, seus dedos roçando levemente o meu peito através da camisa. Eu senti o cheiro do perfume caro dele.
“Rafa, você limpou bem a padaria, hein?” Ele murmurou, o olhar examinando meu rosto. “Você vai fazer estrago com essa roupa. Se o CEO não te contratar, ele com certeza vai querer seu telefone.”
Eu senti meu rosto esquentar. “Para com isso, cara. É sério.”
“Eu estou falando sério.” Ele deu um passo para trás, mas sua mão deslizou pelo meu braço até meu ombro, apertando levemente. “Você parece um CEO júnior. Mas... uau. Sério.”
Eu me mexi, desconfortável com o terno e com o elogio. Era pesado, restritivo.
“Tá bom mesmo? Não tá parecendo que eu peguei emprestado?”
“Tá perfeito.” Ele desviou o olhar finalmente, voltando ao seu tom brincalhão de sempre, embora seus olhos ainda brilhassem. “Só precisa de um sapato. Tênis não rola.”
Ele se abaixou e puxou uma caixa de baixo da cama. Um par de sapatos sociais pretos, de couro, que pareciam nunca ter sido usados.
“Calça 41, né? Prova.”
Eu calcei. Serviram perfeitamente.
“Bruno... eu não sei nem o que dizer. Isso deve custar...”
“Cala a boca. É um empréstimo.” Ele sorriu, me dando um empurrãozinho leve no ombro. “Mas é sério, Rafa. Você tá com uma aparência ótima. Você é inteligente pra caramba. Vai lá amanhã e pega esse estágio. Você merece sair daquela padaria.”
Eu ajeitei a gola da camisa, olhando meu reflexo. Pela primeira vez no dia, o pânico diminuiu e deu lugar a uma faísca de... confiança.
“Eu vou pegar esse estágio.” Eu disse, mais para mim mesmo do que para ele.
“Agora sim!” Ele bateu na minha nuca, um carinho rápido. “Tira isso com cuidado. Vou colocar uma capa de terno pra você levar. E agora, sério, vem comer aquela lasanha antes que ela esfrie. Você precisa de energia para impressionar aquele cara amanhã.”
Nós nos sentamos na bancada da cozinha de mármore preto do apartamento. Bruno colocou um prato fumegante de lasanha na minha frente, e eu ataquei como se não comesse há três dias. Entre uma garfada e outra, a realidade da entrevista de amanhã começou a pesar mais que a comida.
“Bruno... falando sério agora. O que você sabe sobre esse lugar?”
Ele parou de comer e me olhou. “Como assim?”
“A Sensus Tech. Eu só mandei o currículo porque vi ‘Estágio em Administração’ e o salário era bom. Eu sei o que eles vendem, obviamente, mas... como é lá dentro? É... estranho?”
Bruno riu, uma risada nasalada. “Rafa, você realmente vive no mundo da farinha e dos livros, né?”
“Sim, Bruno. Literalmente. Me atualize.”
“Certo. Primeiro: não é ‘estranho’. Não é uma sex shop com luz neon vermelha. A Sensus Tech é tipo... a Apple do sexo.”
Eu parei, o garfo no meio do caminho. “A Apple... do sexo?”
“Exatamente. Eles não vendem ‘vibradores’. Eles vendem ‘dispositivos de bem-estar sônicos’. Eles não vendem ‘lubrificante’. É ‘sérum de hidratação íntima’. É tudo chique, minimalista, e custa os olhos da cara. É coisa de rico que quer se sentir sofisticado até na hora de transar.”
Eu engoli em seco. “Nossa. E eu vou ser estagiário de ADM. Vou... sei lá, organizar planilhas de... dildos de luxo?”
“Provavelmente. Mas o mais louco não é nem a empresa. É o dono. O tal do Stephan Haas.”
“O ‘Deus Grego que não sorri’? Você falou dele no telefone.”
“Esse mesmo. O cara é uma lenda urbana. Um mito. Um fantasma.”
“Como assim? Ele é o CEO. Ele deve aparecer em tudo quanto é lugar.”
“E aí que tá. Ele não aparece. Ele não vai em festas, não dá entrevista pessoal, só tem aquelas fotos posadas em revista de negócios, tipo a Forbes. Dizem que ele é um maníaco por controle, frio como gelo e, claro, lindo de morrer.”
Bruno pegou o celular e digitou algo, depois virou a tela para mim. Era uma foto de Stephan Haas em um evento, provavelmente tirada de longe. Mesmo com a qualidade ruim, o cara parecia... esculpido. Terno perfeito, cabelo escuro impecável, rosto que parecia saído de uma estátua romana.
“Toda a comunidade gay de São Paulo tem uma pasta de fotos dele no Pinterest.” Bruno disse, casualmente, guardando o celular. “A gente só não sabe se ele joga no nosso time. Ou em time nenhum.”
Eu senti um arrepio estranho. “Merda.”
“O que foi?”
“A mulher do RH. Ela disse que... o Sr. Stephan vai conduzir as entrevistas finais. Pessoalmente.”
Bruno, que estava levando o copo à boca, engasgou com a água. “O quê?!”
“É. Foi o que ela disse.”
“O CEO? Entrevistando um estagiário?” Bruno me olhava com os olhos arregalados. “Rafa, isso é muito, muito estranho.”
O pânico voltou. “Estranho como? Tipo, ‘vou ser sequestrado’ estranho?”
“Não! Tipo... ele é bilionário. Ele não tem tempo de entrevistar estagiário. Ou ele é um psicopata controlador...”
Bruno parou e me analisou. Um sorriso lento surgiu no rosto dele. “...Ou ele viu sua foto 3x4 no currículo e gostou do que viu.”
Eu senti meu rosto esquentar e joguei um guardanapo de papel nele. “Para com isso, cara! Eu já te disse que sou hétero.”
“E eu já te disse que ‘hétero’ é só uma palavra até o homem certo (e rico) aparecer.” Ele piscou. “E o Stephan Haas, meu amigo... ele tem o poder de converter.”
“Eu só quero o estágio, Bruno. Eu preciso das horas pra faculdade.”
“Eu sei, eu sei.” Bruno suspirou, o tom brincalhão sumindo. “Só... vai lá e arrasa. Mas sério, anota se o olho dele é azul-metálico ou azul-gelo. A galera do Twitter quer saber.”
“Você é inacreditável.”
“E você vai estar impecável.” Ele apontou para a capa do terno que estava pendurada na cadeira. “Agora termina de comer. Você tem um deus grego para impressionar amanhã.”
Eu raspei o prato. A lasanha da mãe do Bruno era quase tão boa quanto a da minha, e muito mais chique. Nós conversamos mais um pouco sobre a faculdade, sobre os professores insuportáveis e sobre como o TCC ia matar a gente antes da formatura.
Enquanto eu lavava meu prato na pia (hábito da padaria, era impossível deixar louça suja para trás, mesmo na casa de rico), olhei para o relógio na parede da cozinha. Nove e meia.
“Caramba, tô atrasado.”
“Atrasado pra quê? Pra dormir?” Bruno riu.
“Tenho que acordar às cinco, lembra? A fornada não se assa sozinha.”
Eu me sequei e peguei minha mochila, colocando a capa do terno sobre o braço com um cuidado quase cirúrgico, como se estivesse carregando um artefato raro.
“Valeu por tudo, Bruno. Mesmo. A comida, a roupa... Você salvou minha pele.”
“Relaxa, Rafa. É pra isso que servem os amigos.” Ele pegou as chaves do carro em cima do balcão.
“O que você tá fazendo?”
“Te levando pra casa, ué.”
“Bruno, não precisa. Sério. É longe pra caramba, você vai gastar gasolina. Eu pego o ônibus.”
“Nem pensar.” Ele me cortou, já me empurrando levemente em direção à porta. “Primeiro: você não vai andar por aí de noite com um terno que vale mais que o seu rim. Segundo: você não vai amassar ele todo no busão lotado. E terceiro: eu quero garantir que você vá dormir, e não ficar roendo as unhas de ansiedade a noite toda.”
Eu hesitei. Odeio dar trabalho.
“É sério, Bruno...”
“Rafael. Para de ser teimoso e aceita a carona. Eu volto em quarenta minutos. Anda.”
Eu suspirei, vencido.
“Tá bom. Mas você tá me devendo um pão doce recheado na próxima vez que for lá na padaria.”
“Fechado.”
Descemos pelo elevador silencioso e fomos até a garagem subterrânea. O cheiro de pneu e concreto era limpo, diferente do cheiro de óleo diesel do ponto de ônibus. Bruno destravou seu carro, um SUV importado que parecia mais uma nave espacial.
Eu entrei e afundei no banco de couro. Coloquei a capa do terno cuidadosamente no banco de trás.
O caminho foi rápido. Com Bruno dirigindo, sem trânsito, a viagem que levava uma hora e meia de transporte público foi feita em trinta minutos. Ele dirigia bem, com uma mão no volante e a outra controlando o som baixo.
Paramos na esquina da padaria. A rua estava escura, exceto pela luz fraca do poste e a placa “Pães & Sonhos”.
“Entregue.” Disse ele, parando o carro.
“Valeu, cara. De verdade.”
“Boa sorte amanhã. Me manda mensagem assim que sair de lá. Quero saber tudo. Cada detalhe sujo.” Ele se virou para mim no banco, o rosto iluminado suavemente pela luz verde do painel.
“Se eu sobreviver ao tal deus grego, eu mando.” Eu ri, abrindo a porta.
“Ah, você sobrevive. Ele que se cuide.” O sorriso dele era meio torto.
Eu saí e peguei a capa do terno no banco de trás, sentindo o ar frio da noite bater no meu rosto.
“Boa noite, Bruno. E dirige com cuidado.”
“Pode deixar. Arrasa lá, padeiro.”
Eu acenei e vi o SUV dele fazer a volta silenciosamente e desaparecer na avenida.
Fiquei parado na esquina por um segundo, segurando o terno emprestado. Amanhã, às dez, eu estaria em outro mundo. Entrei em casa pela porta dos fundos da padaria, o cheiro familiar de fermento e açúcar me recebendo.
Pendurei a capa do terno no único lugar seguro do meu quarto – o batente da porta – e coloquei o celular para carregar.
Dessa vez, chequei o despertador três vezes. 04:50. Amanhã será um longo dia.